sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A procissão

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José Cláudio Mota Porfiro

Às duas da tarde, depois de um sol forte desde manhãzinha, um tempão azulado quase escuro começa a se formar lá pras bandas do alto Rio Xapuri. Em pouco tempo, chove a cântaros. Copiosamente.

Abundantemente. Chuva densa pesada, vinda do céu não por milagre, mas quase por obrigação, uma vez que, se não há inverno ranzinza, duro, avassalador, não há Amazônia, e o pulmão do mundo ficará sem o ar puro, e com selo de qualidade, que a humanidade sorve enquanto presente de Deus. Uma dádiva um tanto exagerada, principalmente, para este gajo desastrado e imponderável que não faz outra coisa que não se admirar da grandiosidade de tudo o que diz respeito ao Acre... Eu.

Agora, já chego a me sentir quase um Euclides da Cunha, aqui, em missão religiosa. De lápis de carpinteiro à mão, e mais um cadernão confeccionado com agulha e linha por mim mesmo, tomo as anotações possíveis, desde o desembarque. Sou um repórter a serviço de Deus.

Como é tradição, segundo os mais antigos, às quatro e pouco, o céu se veste de um azul claro borrado por tênues nuvens branquinhas que mais parecem chumaços de algodão esvoaçante, como que tocado a mágico pincel. Uma joia da natureza. É um brinde à multidão que se acotovela no pátio da matriz.

Há um cheiro de borracha no ar. As pessoas vindas dos seringais o trazem enrustido na pele. Elas cheiram a látex amadurecido pelo sol. Não fedem, exatamente, como dizem os mais aquinhoados da terra. Dentre os seringueiros, o perfume Desejo é bastante usado, mas enjoativo deveras; quase embebeda. Os mais abastados - portugueses e turcos - usam Água de Colônia ou Patichuli. Eles, sim, podem até feder, por não serem muito chegados a banho, mas têm dinheiro com o que adquirem até produtos da perfumaria francesa.

Alguns seringueiros dentre os mais novos, e poucos dentre os mais velhos, não dormiram de ontem para hoje e ainda a carraspana do dia anterior lhes deteriora as mentes. Estão, diria, entorpecidos. Outros estão bêbados mesmo. Durante o percurso, vejo uns quatro ou cinco dormindo em via pública acostados a qualquer umbral do destino. Isto, porque a felicidade da festa mundana foi mais forte que a devoção do festejo religioso. Coitados! Estão inebriados por uma folga de dois ou três dias da faina bruta dos seringais que, logo em seguida, será retomada por um ou mais anos a fio, isto, porque nenhum sabe se no próximo ano terá condições de voltar para ver os conterrâneos cearenses - na sua superior maioria - e a cidade que cresce do dia para a noite, apesar das notícias relativas aos preços da borracha não serem lá tão alvissareiras.

Há um sem número de pelas de borracha aí pela casa dos oitenta quilos. Há bois, garrotes, vacas, porcos, carneiros, patos, galinhas... Todos irão a leilão daqui a pouco, após as homenagens religiosas. Não apenas a construção da igreja precisa da renda, mas o sonho de um colégio internato para as órfãs dos seringueiros mortos também precisa tornar-se realidade pela operosidade das Irmãs Servas de Maria Reparadoras, as formiguinhas astutas e prendadas sem as quais o Padre Felipe Galeranni não faria a metade do que faz.

Segundo muitos dos xapurienses, as freiras católicas se assemelham aos plantadores de trigo que, além da semeadura, já se preparam para a elaboração do pão que alimenta o corpo e nutre a alma.

Agora, os sinos redobram e o foguetório ameaça os tímpanos. Muitos choram de emoção, inclusive eu. A imagem do Santo é erguida nos ombros de alguns notáveis da cidade, dentre os quais o Eurico Fonseca, um português sem mais nenhum sotaque.

A Banda Municipal Santa Cecília executa, ainda parada, um dobrado bastante solene, como requer a ocasião. Aliás, tudo e todos aqui têm a sua imponência, cada um ao seu modo, do mais rico dos patrões ao mais humilde dos seringueiros.

E segue o imenso cortejo ladeira acima, pela Rua Benjamin Constant, rumo à Praça do Bosque, entoando um cântico que não me é do conhecimento:

Salve, salve, São Sebastião
De Xapuri orai ao Santo Protetor
Recebei as nossas orações
Cheios de esperança, cantemos com fervor (...)
Abençoa as nossas famílias.
Recebe aqui da nossa Igreja
Todo o nosso amor e gratidão
Grande mártir, ó meu São Sebastião. (...)

E, do alto de uma ladeirinha, olho para o povo da mata lá atrás. Todos circunspectos. Eles, com os seus chapéus à mão. Elas, com os filhos a tiracolo. Não há um que não tenha cara de necessitado de tudo, inclusive das bênçãos dos céus que, no inverno, descem impiedosamente em forma de chuva, muita chuva. Sim, as mulheres carregam as crianças de banda, escanchadas nas ancas às vezes tão magras.

Os miúdos - no dizer dos de Portugal - seguem em fileiras, como se andassem nos caminhos da mata. É o costume. Muitos são os que levam ex-votos nas cabeças chatas (jerimuns) em forma de pernas ou braços que foram quebrados, casas que pegaram fogo, lamparinas, porongas, retratos, canoas, machados e até tijolos da construção. Crianças e adultos estão trajados de anjos. Outros usam as vestes do Padroeiro quando executado em Roma. Há velas, muitas velas e, depois do hino, o foguetório recrudesce.

Um veio do Crato, outro de Barbalha, outro de Missão Velha, outro do Quixadá, outro do Quixeramobim, outro de Russas, outro de Juazeiro... Vieram arrastar dinheiro com o gancho e agora amargam arrependimento enorme. Todos estão ainda em busca de sonhos completamente sem bases mais reais, apenas ilusões, devaneios que, no mais das vezes, se tornam pesadelos... E eu, que quase acabo de chegar do Baturité, vim em busca de aventura, aos vinte e três anos de idade e com os olhos marejados pela dor que é não poder fazer nada por essa gente minha que daria a vida para voltar ao Ceará querido. Meu Deus!

Grata surpresa! Uma família grande formada por Raimundo e Conceição, José Calixto e Francisca, Maria das Dores e Arcelino Pereira, primos, sobrinhos e casais, incluindo umas mocinhas e uns rapazolas, todos também vieram do Baturité. Uns estão por aqui desde antes da guerra de 1914, outros, chegaram há pouco, a convite dos primeiros. Eles vivem na cidade e trabalham como carpinteiros construindo as tantas casas que se erguem a cada dia, ou como pedreiros, mas possuem colônias próximas de onde tiram algum sustento. Enfim, são pobres, mas são felizes.

- Sou grato a Deus por lhes ter conhecido em ocasião tão especial. - É o que lhes digo em tom de despedida, até porque nunca mais os vi.

- Nós também estamos muito agradecidos e lhes desejamos muitas felicidades. - É o que responde um deles.

E a voz do padre se faz poderosa, tonitruante. Ele pede a São Sebastião que proteja aqueles trabalhadores do fundo dos seringais, na mais completa adversidade, na luta contra o bicho do mato e muitas vezes contra o bicho homem.

Há terços e rosários de ouro, até. Há os de prata, também. Há os de vidro e os de madrepérola. Mas há os pobrezinhos, de continhas tiradas do mato, ali mesmo, e enfiados em linha zero... E segue o espetáculo da fé mais pura desses deserdados e desdentados que sofrem a tristeza que é serem desertores dentro da própria Pátria.

À frente do cortejo segue a imagem de São Sebastião. Em seguida, vem o padre acompanhado por um séquito de sacristãos, inclusive um, muito comunicativo, que diz se chamar Fadoul, filho de Sarah Fadoul, vinda da Síria. (Como pode? Será que esqueceram rapidamente o fanatismo islâmico que os empurrou para o outro lado do mundo? Não. Não é bem assim. Dizem que lá os Fadoul eram cristãos e, por isso, foram perseguidos e fugiram para não morrer.)

Em seguida, vêm as freiras e as internas, umas trinta, todas vestidas em vestidos azuis claros que vão ao meio das canelas. Umas, já bem graúdas, chegam perto da beleza. Outras, nem tanto. Elas residem com as freiras que lhes dão educação e bons modos. A Irmã Petronilla Trinca é a Madre Superiora a quem todas devem respeito, principalmente, pela gravidade do semblante sempre austero, à moda das melhores etnias europeias.

Em seguida, vêm as congregações religiosas. Os Praxedes homens pertencem à congregação dos Irmãos Marianos. As mulheres fazem parte das Filhas de Maria. Estes portam largas fitas azuis claras ao pescoço. Aos marianos se alinham Jorge e Carmem Gatasse, Hermes e Elisa Brasileiro, João de Arruda e esposa, Simão Antônio e Fayd, Alfredo Zaire e Juanita. Os Maias, dentre os quais a mãe, Mariquinha, e os filhos Solón, Jorge e Lourdes, são da Congregação de Nossa Senhora das Dores, de fita roxo-lilás. Alinham-se aos roxos Maria Meira, Maria das Dores Mota, Linda, esposa de Eurico, Maria Menezes e Seu Menezes, João Esteves, Benevenuto, dentre outros mais. Pertencem à Congregação do Sagrado Coração de Jesus, de fita vermelha, Maria e João Figueiredo, Antônio e Adelina Mortes, Manoel Isaías de Matos e Dona Nazaré, Seu Sabino e esposa, e outros mais.

Sebastião, guerreiro esforçado
Eleito por Deus general
De novas briosas falanges
Às ordens do Rei imortal...

Realmente, bonitas de ver são as janelas muito bem ornadas de algumas casas. São como pequenos oratórios onde se sobressai a imagem do Padroeiro em meio a rosas brancas e fitas vermelhas. A primeira é a da casa de Chico Camelo. A segunda é a casa de Aziz Hadad. Em seguida, vem, já na outra rua, a janela da família de Pedro Marreta. Depois, vêm as de Albertina Galo, de Edmar Koury, de Elisa Eluan, de Abrahão Felício, de Alfredo Zaire, de José Rodrigues e a de Antônio Mortes.

Rezamos o terço. Cantamos hinos católicos. Acreditamos piamente que o ano de 1940 será muito melhor que o anterior.

Senhor Jesus, rogai por nós. Livrai-nos do fogo do inferno. Levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem...

Enfim, concluímos o périplo através das ruas da pequena cidade. É esta a hora do sermão do Padre Felipe. A história do Santo nos leva às lágrimas. Quanta fé. Quanta honra. Quanta glória. Um santo!

O grande leilão se estendeu até um pouco depois das dez da noite... Enfim, as barracas já não dispõem das iguarias de há pouco. Estão encerrados o bingo, o jogo de mira e a pescaria. As pessoas se dispersam levando as prendas obtidas nas competições e apostas. A grande maioria é composta de gente da cidade.

É manhãzinha. No largo em frente ao Mercado Municipal, os marreteiros que por ali expunham os seus produtos trazidos de Belém e Manaus já desarmam as tendas. Ali, bem ao lado, em frente ao Palanque - desembarque para os que chegam - uma pequena multidão já se aglomera. É hora de voltar para a vidinha pacata, antes tão sem graça e cheia de sofrimentos e solidões, mas, agora, com as esperanças renovadas pela grande fé no que pode o Padroeiro fazer por todos e por cada um.

Assim é a vida dessa gente miúda. Prenhe de eternas esperanças e sonhos que se tornam realidade viva para tão raros. Poucos, pouquíssimos, têm direito à grande ventura que é um dia rever o longínquo Ceará.

As lágrimas incontidas não fogem aos meus olhos. Esses heróis desconhecidos merecem o algo mais que só a fé em Deus pode, talvez, lhes garantir. E garantirá.

José Cláudio Mota Porfiro é escritor.

Um comentário:

Raiele disse...

Uma ode a fé e a tradição da minha terra querida.. Conheço o escritor apenas por nome e assim como a sua Raimari, administrador deste espaço do qual me tornei assecla, admiro a forma de escrita envolvente, rebuscada e totalmente compreensível por todos... Parabéns.....