domingo, 17 de março de 2013

A expedição

“Fazer cinema é mostrar o lado bom da vida”

(Laurêncio Lopes – cineasta acreano)

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Laurêncio Lopes na Praça Plácido de Castro com amigos, década de 1970.

Hélio Costa Jr.

Você sabia que já tivemos acreanos de cinema? Pois no início dos anos de 1970 um grupo de jovens produziu cinema na cidade de Rio Branco. Pode parecer banal saber disso hoje em dia quando o Acre encontra-se totalmente integrado ao resto do país, seja por terra, pelos rios ou pelo ar. Atualmente temos Internet, emissoras de rádio e televisão que transmitem informações em tempo real, durante as 24 horas do dia. Contudo, nem sempre foi assim.

Na década de 1970 o Acre era um Estado isolado. A única Rodovia que ligava os acreanos ao resto do país passava metade do ano intrafegável, por conta dos rigores do clima amazônico. Apesar da distância do centro-sul, em Rio Branco havia um rico movimento cultural. Teatro, Festivais de Música, notícias e radionovelas pelas ondas das Rádios Novo Andirá e Difusora Acreana, além de cinemas: cine Acre, cine Rio Branco e cine Teatro Recreio.

É neste cenário efervescente que no dia 16 de março de 1973, no salão paroquial da antiga Igreja de São Sebastião, os jovens João Batista Marques de Assunção (Teixerinha do Acre), Antônio Dourado de Souza, Antônio Evangelista de Araújo (Tonivan), Adalberto Queiroz de Melo, Raimundo Ferreira de Souza e Ozenira Cabral de Brito criaram o Grupo ECAJA FILMES (Estúdio Cinematográfico Amador de Jovens Acreanos).

Entre estes pioneiros do cinema, destaco Laurêncio Lopes da Silva, que passou parte de sua juventude no Pará, na cidade de Alenquer e outra parte em Manaus, retornando à Sena Madureira em meados da década de 1970, sempre morando com seus pais. Os motivos destas peregrinações eram as dificuldades financeiras e, no caso da mudança em definitivo para Rio Branco, a causa foi a grande cheia do Rio Iaco em 1971. Uma ironia: em um Estado marcado pelo povoamento de nordestinos fugindo da seca, Laurêncio Lopes e sua família fogem das águas, chegando a Rio Branco, com apenas treze anos idade.

Em Rio Branco, sem emprego, Laurêncio resolve engraxar sapatos. Ficava na Praça e sempre que podia, via os cartazes do cine Rio Branco. Mesmo com alguma dificuldades de leitura anotava os nomes dos atores dos filmes exibidos nos cartazes, dos artistas, “como a gente costumava falar na época”, diz Laurêncio Lopes, que ainda ressalta: “eu virei um fanático do cinema, e sempre empolgado comentava com meus colegas: um dia eu vou ser ator! Um dia eu vou ser artista! Um dia eu vou me ver na tela! Os coleguinhas riam dessa pretensão, afinal, eu era apenas engraxate”.

Certo dia, passando em frente ao Palácio Rio Branco – sede do Governo do Estado, isso já no ano de 1974, onde estava sendo exibido em praça pública, o filme Rosinha, a rainha do sertão, Laurêncio puxa sua caixa de engraxar sapatos, senta-se e começa a assistir atentamente a projeção. Ao terminar, direcionou seu olhar inicialmente para a tela e logo após para uns jovens que estavam ao lado ficando, conforme relatou, intrigado: “Eu achava muito parecido com os rapazes que estavam no filme, olhava pro Tonivam, olhava pro Teixeirinha, olhava pro Adalberto, mas não os conhecia na época. Fiquei olhando – rapaz, esses caras parecem com esses homens que está (sic) no filme(Lopes, 2000). Resolve então falar com aqueles rapazes e percebe que eram realmente os “homens da tela”. Além disso, também descobre que o filme que acabara de assistir tinha sido produzido no Acre. Sua reação foi imediata: “eu estou realizado, eu vou fazer filme”! Começou a partir daquele momento a participar das reuniões do Grupo Ecaja que ocorriam aos sábados no Colégio Acreano, na esperança de ser escolhido para atuar em um das produções do Grupo, o que ocorreria em meados de 1977, com a aprovação do roteiro do filme Gatinhas e gatões, que não chegou a ser concluído. Contudo, o debute de Laurêncio no cinema acontecera.

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Cena do Filme Gatinhas e gatões, 1977

Laurêncio produziu vários filmes, mas, entre as suas obras, uma merece destaque: “A expedição”, que difere dos demais devido as suas características originais, a começar pelo tempo de sua produção, que é digno de nota: apenas quinze dias entre roteiro, ensaios, gravação e edição. Tudo teria começado com o pedido de um amigo que desejava dar para sua filha, que fazia aniversário, um presente diferente: um filme. Laurêncio, que se encontrava deitado em sua rede ao ouvir a curiosa proposta do amigo não titubeou e imediatamente se dispôs a montar o roteiro. O argumento se baseava na história de uma expedição que visava caçar um monstro que vivia na mata apavorando e devorando as pessoas. O roteiro ficou pronto em três dias e logo começaram os ensaios que duraram apenas uma semana.

O principal desafio do filme seria fazer a maquiagem do ator que iria interpretar o monstro e na falta de material apropriado para fazer este make-up[1], Laurêncio, que já tinha uma boa experiência na arte do improviso aprendido no Ecaja Filmes, não se intimidou diante do novo desafio: “Nós fomos nos (sic) salões de beleza de Rio Branco na época. O personagem, nós nem sabíamos o que era. Vamos criar tipo, um Mapinguari, um macaco, um negócio que come todo o pessoal. Mais ou menos assim. Um Mapinguari. Só que nunca vi um Mapinguari em minha vida. [...] Vou fazer um Mapinguari, um negócio diferente aqui. Um bicho que ta lá no mato, escondido e vai atacar as pessoas. Então eu fiz um homem, cabeludo, os cabelos da cabeça longo, todo peludo. Eu encomendei alguns sacos de cabelos de salão. Todo salão que cortava cabelo eu pedia para guardar e guardamos vários sacos de cabelo”. (LOPES, 2000)

Conseguir o material de maquiagem para o ator que interpretaria o monstro parecia ser uma solução engenhosa e razoavelmente simples de ser executada. Após peregrinar pela cidade, recolhendo os cabelos cortados nos salões, Laurêncio percebe o surgimento de outro problema: como fazer e o que usar para fixar os cabelos no corpo do ator que interpretaria o monstro? Nunca é demais lembrar que a tônica das produções cinematográficas acreanas aproximavam-se do preceito glauberiano: “Câmera na mão, baixo custo de produção, para mostrar o verdadeiro gesto do homem” (ROCHA, 1963, 104), apesar de não ser o Cinema Novo a fonte de inspiração desses jovens cineastas. Novamente o improviso e a engenhosidade na solução desse novo desafio: usaram cola branca para fixar os cabelos conseguidos nos salões no corpo do ator. Após os cabelos serem devidamente colados no corpo do ator que interpretaria o monstro, surgiu a questão do transporte, já que as cenas deveriam ser necessariamente gravadas em uma região de mata, para expressar um maior realismo. A saída encontrada foi a de transportar o ator no fusca de um dos amigos que sempre colaboravam nestas horas, contudo, outra questão inesperada atrapalha os planos, como relembra Laurêncio Lopes (2000): Mas como o dono do fusca não queria que entrasse o rapaz no fusca, pois ia infestar o fusca de cabelo, nós fizemos a maquiagem do cara lá fora e colocamos na frente do carro, do fusca, ele com os pés no para-choque e saiu aquele monstro no meio da estrada. O fusca indo e aquele monstro feio na frente”.

O resultado imediato desta solução encontrada pelo cineasta foi a algazarra e a festa que a criançada fazia por onde o carro passasse: “E as crianças que estavam na beira da estrada, aos gritos, com medo”. (LOPES, 2000). Mas os problemas não findaram por aí. A solução da cola, que a princípio parecia prefeita, começava também a demonstrar que aquela não era a saída ideal: “E quando chegamos lá, nas primeiras cenas, a cola não deu certo, porque estava caído alguns cabelos, mas a gente ‘tava’ vendo. Pegamos outro monte de cabelos, pegamos uma cola mais rigorosa e tocamos no cara. Entupimos o cara de cabelo” (LOPES, 2000).

A falta de recursos, aliada ao pouco conhecimento da arte de maquiagem para cinema e a opção por usar fardos de cabelos recolhidos dos salões da cidade, sem o devido tratamento, trouxe uma consequência imprevista para o ator que interpretava o monstro: “O cara criou uma curuba[2]. O cara não conseguia tirar o cabelo. Foi muito feio. Deu curuba no cara todo. Essa cola fez mal pro cara. Também eu não conseguia tirar do corpo do cara” (LOPES, 2000).

Mesmo quando não aparecia no plano, o monstro, a pedido do diretor, deveria ficar rondando o acampamento onde estavam os mocinhos do enredo. Essa instrução ocasiona outro incidente, como nos relata Laurêncio Lopes: “Pois bem, as pessoas lá pensando que o monstro era de verdade mesmo, correndo no meio do mato, chegou um cidadão querendo atirar no macaco [no ator], pensando que era um monstro, só que o cara já estava dentro do mato. E nós gritamos: ei, ei, ei! É um homem, é um homem, é uma filmagem”! (LOPES, 2000)

Desfeita a confusão, Laurêncio retoma as filmagens e para dar ênfase ao suspense, o monstro não aparece nas cenas iniciais do filme, mas deveria deixar claro para o espectador que ele estava rondando o acampamento e poderia surgir a qualquer momento e, no intento de conseguir esse efeito, o diretor determina que, mesmo fora de cena, o monstro deveria continuar gritando e rugindo. Porém, relembra Laurêncio Lopes o ator que interpretava o monstro se empolgou mais que o necessário ao gritar e rugir, o resultado foi desastroso: “Então, o cara talvez sem experiência, o cara gritava direto: ahhh! ahhh! O cara nos gritos, ele perdeu a voz. Ele passou um mês sem voz, não falava nada”! (LOPES, 2000)

Além de ficar afônico durante um mês e com o corpo coberto de feridas devido a alergia da cola e dos cabelos em seu corpo, o ator que interpretou o monstro teve febre alta como consequência de uma tremenda insolação.

Mesmo com todos esses contratempos o filme foi concluído e apresentado na filmoteca. Segundo o próprio Laurêncio Lopes, “foi uma grande audiência” no Festival Regional de vídeo e na televisão, onde também foram exibidos os filmes Marcas e Rosinha, a rainha do sertão.

Referenciais

1. [Entrevista] LOPES, Laurêncio. Servidor Público, ainda atua no cinema. Produziu vários trabalhos em VHS e atualmente utiliza os formatos digitais. É mais conhecido pelo seu pseudônimo Lapys. A entrevista foi cedida na filmoteca acreana ao autor. Rio Branco -Acre, 14 de janeiro de 2000.


[1] Palavra inglesa utilizada no cinema para designar maquiagem de cena. Geralmente feita por profissionais habilitados nesta área.

[2] Segundo o Dicionário Michaelis (1998, 628) Curuba seria o mesmo que Sarna, ou ainda o Bicho da sarna, ou ainda coceira, irritação da pele produzida pelo aparecimento de calombos grossos, especialmente nas virilhas

Hélio Costa Jr. é professor do curso de História da Ufac.

2 comentários:

Canal da Neuza Holander disse...

Lembro de uma radionovela que era transmitida por uma rádio do Rio Branco (não me lembro o nome) em 1974, que contava a vida de Luis, que teve a família assassinada a mando de um fazendeiro, que sequestrou sua irmã e a criou como filha. Luis volta para vingar seus pais e se apaixona pela filha do fazendeiro sem saber que era sua irmã. O final é trágico e Luis escolhe morrer e se joga num criadouro de cobras. Como é o nome dessa radionovelas e dos personagens principais? Eu tenho muita saudades! Desde já obrigada. Abraços.

Canal da Neuza Holander disse...

Lembro de uma radionovela que era transmitida por uma rádio do Rio Branco (não me lembro o nome) em 1974, que contava a vida de Luis, que teve a família assassinada a mando de um fazendeiro, que sequestrou sua irmã e a criou como filha. Luis volta para vingar seus pais e se apaixona pela filha do fazendeiro sem saber que era sua irmã. O final é trágico e Luis escolhe morrer e se joga num criadouro de cobras. Como é o nome dessa radionovelas e dos personagens principais? Eu tenho muita saudades! Desde já obrigada. Abraços.