sábado, 16 de julho de 2011

Crônica xapuriense

Aprendizes da vida áspera

Dificuldade1

José Cláudio Mota Porfiro

Descendo de Xapuri, pelo Rio Acre, passo na Boa Vista. Vou ao Novo Catete e, daí, ao Malheiro. Chego, enfim, à Albrácia, para ficar por uns vinte dias. Durante este período, através dos varadouros internos, visito Palmari, o velho seringal de propriedade dos Veloso, uma família de cearenses que por aqui chegou aí por 1916.

Já por três ou quatro anos, no mês de julho, tenho feito sempre a mesma viagem; de batelão até a Albrácia e, depois, na carreira, com medo da onça, por mais de uma hora de relógio grande, até o aceiro do campo do meu velho e bom tio Perneta  - Raimundo Nonato, de batismo  -  natural de Senador Pompeu, Ceará.

Este é o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1969. Conto já com doze invernos rigorosos de idade. Verão brabo. Poeira quente. Descalço. Na costa, a mucuta com uma muda de roupa e uma sandália de sola. Mata sombria. Está já pardejando. Tenho medos. Sou bem magro e, por isto, corro a fôlego pleno, por entre seringueiras, imbaúbas, samaúmas, jitós, manitês, carrapateiras, dentre outras árvores da mata densa. Um cancão levanta voo a partir de uma moita de capim santo. É uma ave do tamanho de um pato grande. O barulho das asas robustas provocam em mim um susto enorme. Um salto e um arrepio me percorrem a espinha dorsal gélida.

Enfim, estou chegando à colocação Socotó e já são mais de cinco e meia da tarde. Diviso umas goiabeiras, em primeiro plano e, lá adiante, uns algodoeiros aos pés dos quais está a minha avó Maria das Dores Mota apanhando alguns chumaços de algodão com os quais tece o futuro dos netos e pavios para as porongas e lamparinas de casa. Há quatro meses não a vejo e lágrimas me vêm aos olhos ao abraçá-la... Estava com muita saudade da velha matrona, mãe da minha mãe.

Alfabetizado aos cinco de idade, quando entrei no Grupo Escolar Plácido de Castro, aos sete, já sabia ler de carreirinha e ajudava a bondosa Enedina Sant’Ana de Menezes a tomar a lição do Sebastião Rodrigues Mota, do Célio do Carmo, da Gracinha Maciel, dentre outros um tanto sapecas. Hoje, de férias, venho ao seringal para ler folhetos de literatura de cordel, especialmente, para o meu tio cearense que gosta da forma e do sotaque nordestinos que imprimo à leitura. Maria José, minha prima de onze anos, quer porque quer aprender a ler para ler os cordéis e aprender ao pé da letra as músicas do “Teixeirinha te prepara para outro desafio, sou a Méri Terezinha que da fronteira surgiu, sou a rainha da trova, te cuida gaúcho frio...”

Chego na Morada Nova  -  novo nome do Socotó  -  e, assim que posso, depois dos abraços, vou direto ao igarapé tirar a inhaca na água muito fria do verão amazônico. Subo logo e, já enxuto, está na hora da bóia. Há bifes frescos tirados direto de um caititu recém abatido na boca da Central, a estrada de seringa que fica entre outras duas, a Variante e a Invernada. O porco do mato é frito em banha de porco de casa com algum molho ralo. A mistura é baião-de-dois de feijão de corda, e farinha seca. Dos deuses! Depois da janta, titia Nalgídia lava os pratos e, em seguida, todos já estão sentados no assoalho debulhando feijão, talvez a principal fonte de energia dos seringueiros. Eu não meto a mão na massa porque já começo a ler O encontro de Lampião com Dioguinho no inferno, um “romanço” escrito por Manuel Antônio de Almeida, o maior dentre todos os poetas do cordel nordestino. Leio duas vezes e as gargalhadas ecoam no campo e na floresta àquela hora banhados por uma lua cheia de fazer sonhar. Vou para a rede. Ao longe, uma coruja canta lancinante e melancolicamente. É tarde. São oito da noite. Amanhã re-estrearei nos exercícios de vida áspera. Viro-me e me reviro. O cansaço pega e o sono se abala sobre a imatura alma.

Já são quatro da manhã. Da rede, vejo partir o Tio Perneta para mais um dia na faina braba do seringal. Poronga na cabeça. Espingarda calibre vinte cruzada às costas, à moda do cangaço. Cartuchos no bolso da calça. Quatro baldes numa mão e a faca de seringa na outra... E ainda vai assobiando uma moda qualquer de Januário, pai de Luiz Gonzaga... É feliz! E eu penso cá com os meus botões: lá vai mais um herói nordestino que veio para a batalha da borracha, na Amazônia, em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial para garantir a vitória dos americanos hoje esquecidos e mal agradecidos com relação ao papel tão bem desempenhado pelos nossos sertanejos desterrados nestes confins de meu Deus.

Agora, já são cinco e eu já estou de pé pronto para aprender mais um bocado da vida dura do antigo Socotó. Há quatro vacas, dois bois capados, um touro pé-duro, dois garrotes e três bezerros, uma égua, um potro e um cavalo. Há porcos, patos, galinhas, carneiros. Há um pequeno engenho onde fabricamos mel, rapadura, alfinim, açúcar gramixó e afins. Há uma casa de farinha. O aprendizado é, agora, nas tetas da Malhada de onde consigo tirar ainda três litros de leite, praticamente, só para o meu consumo, uma vez que os demais são chegados a leite de castanha.

O quebra-jejum é macaxeira com ovos de galinha, um pouco de feijão e um caneco de jacuba ou de coalhada. Estou fornido. É já hora de ir para o roçado ajudar a tia que está às voltas com uma apanha de feijão de arranca e a limpeza eterna de uma roça imensa, na base da enxada.

E eu vou aprendendo mais e mais, e aí fico até as onze aguentando o sol ardente no lombo. Estes poucos dias são deveras felizes. Estou compartilhando as agruras destes bravos que só vão a Xapuri em janeiro, se a borracha der dinheiro... E se São Sebastião ajudar... E há de ajudar!

Oh, Deus meu, quantas saudades daquele tempo e daquele lugar!

Um comentário:

Observador disse...

Raimari, bela crônica essa do nosso amigo Claudio, me senti lá... na floresta, onde tudo é tão simples, tão puro, mas onde também nos sentimos pequenos.