terça-feira, 7 de julho de 2020

Resposta rápida

A prefeitura de Xapuri agiu rápido e impediu que um sério dano causado à vegetação da área localizada no encontro dos rios Acre e Xapuri tenha continuidade. De acordo com a assessoria da prefeitura, a Secretaria de Meio Ambiente e Turismo foi ao local e notificou o "morador", com quem foi negociado um prazo de 10 dias para que ele retire o casebre ali construído. Ele também terá que reflorestar a área que desmatou. 

O fato ganhou repercussão nas redes sociais depois que uma imagem da ação foi compartilhada por um internauta, causando protestos e pedidos de providências à prefeitura contra a intervenção. A assessoria da prefeitura informou ainda que o ocupante respondeu de maneira positiva à abordagem da Sematur e que a solução para o problema foi encontrada por meio de acordo amigável.

A vegetação das margens dos rios Acre e Xapuri na região em que o segundo desemboca vem se recuperando nos últimos 20 anos, depois de sofrer total remoção por conta das pastagens que ali predominavam. 

Com o fim da utilização dessas áreas, uma mata secundária começou a se formar. No entanto, uma invasão que vem ocorrendo há cerca de dois anos está trazendo de volta a ameaça.

O local escolhido pelo invasor notificado pela prefeitura é um dos mais privilegiados na vista que se tem da praça de São Sebastião para a foz do rio Xapuri. É um dos lugares mais bonitos da cidade e está localizado em frente à histórica Praia do Zaire, onde se localizou um dos principais pontos de embarque e desembarque de navios nos tempos das casas aviadoras. 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Tião cai, Moisés sobe

Gladson exonera Tião Fonseca do Depasa e nomeia Moisés Diniz na Educação

Leonildo Rosas, no Portal do Rosas.

Afogado pela incompetência e uma alagação de denúncias, o engenheiro Tião Fonseca foi exonerado do cargo de diretor-presidente do Depasa.

Fonseca mergulhou em festival de denúncias desde o primeiro dias à frente do órgão, inclusive com suposto favorecimento de empresas ligadas à sua família.

A exoneração de Fonseca está no Diário Oficial de hoje.

No mesmo Diário Oficial que exonerou o engenheiro, o governador Gladson Cameli nomeou o ex-comunista Moisés Diniz para o cargo de secretário adjunto da Secretaria de Estado de Educação e Esporte.

Moisés Diniz foi líder do ex-governador Tião Viana, no primeiro mandato, e diretor-presidente do Depasa, no segundo mandato.

Ainda no governo Tião Viana, Moisés foi secretário adjunto de Educação e Esporte, sem apresentar resultados. Nas suas mãos foi colocado o programa Quero Ler, mas, como teve fraco desempenho, foi substituído pelo professor Evaldo Viana.

Acostumado a ter cargos na estrutura do poder, Diniz esqueceu os ensinamentos de Karl Marx e decidiu se filiar ao PP, que é o herdeiro da Arena, o partido da ditadura militar, cujo maior expoente é o ex-governador de São Paulo Salim Maluf.

Invasão ameaça margens de rios em Xapuri

Depois de algumas décadas se recuperando do desmatamento causado pela atividade pecuária, a mata ciliar localizada na região onde se encontram os rios Acre e Xapuri volta a ser ameaçada.

A imagem de uma pequena área de desmatamento da vegetação ciliar e a construção de um casebre no lado oposto à cidade, em frente à tradicional Praia do Zaire, gerou protestos de internautas e apelos de providência à prefeitura contra a intervenção. 

A instalação da casa naquele local tem a ver com uma invasão que ocorre há alguns anos naquela região, em uma propriedade rural pertencente a herdeiros e conhecida como Ilha Bela. Uma situação que realmente preocupa pelo evidente prejuízo causado à beleza do lugar e por se tratar de um caso de clara agressão ao meio ambiente.

Leia mais em matéria do site ac24horas.

A alegria segundo Francisco

João Baptista Herkenhoff

O maior anseio das pessoas, individualmente, e dos povos, coletivamente, é encontrar, nesta vida transitória, a felicidade e a alegria.

No mundo capitalista, onde tudo se transforma em mercadoria, pretende-se fazer da felicidade um objeto de consumo e, por consequência, submetido a operações de compra e venda.

Na contramão do pensamento circulante, marcado pelos desvalores, o Papa Francisco começa sua encíclica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho) denunciando a falsa alegria:

“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho.”

 Em oposição à enganosa proposta de felicidade fundada no egocentrismo, Francisco aponta uma outra rota para conduzir nossas vidas:

“Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro.”

As exortações do Papa não devem merecer ausculta apenas dos crentes e dos cristãos, e muito menos receber a restrita atenção dos católicos.

O texto é ecumênico, aberto aos múltiplos pensares contemporâneos. Não pretende, de modo algum, converter quem quer que seja ao redil confessional de Roma.

Numa época em que se faz da mulher um objeto, de forma explícita ou sub-reptícia, Bergoglio exalta a dignidade do feminino e não utiliza meias palavras para profligar o machismo e a violência doméstica.

Segundo prognostico, durante a permanência de Francisco no Vaticano a mulher será admitida ao sacerdócio católico, com lamentável atraso, pois em outras igrejas evangélicas já temos mulheres exercendo, em plenitude, o pastoreio e ocupando as sedes episcopais.

Em recente Missa do Galo, disse o Papa que o mundo precisa de ternura.

Papas anteriores doutrinaram que o mundo precisa de Justiça, Solidariedade, melhor distribuição dos bens, convivência harmônica entre as nações.

Nunca tinha ouvido um Papa dizer que o mundo precisa de ternura.

O que é essa ternura que o Papa argentino deseja que habite o coração da Humanidade?

Essa ternura não resume todos os valores, todas as metas, todos os sonhos?

Parece que, naquele momento, São Francisco de Assis habitou o espírito do seu homônimo: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.”

A ternura não tem rótulo de um credo religioso, nem está enclausurada nos domínios da Fé.

Foi resumida, não por um filósofo, na academia, mas por um cantor argentino, num cabaré:

“Tenemos que abrirnos, no hay otro remédio.” (Carlos Gardel).

João Baptista Herkenhoff é juiz de Direito aposentado (ES) e escritor.

Pobreza e covid-19

As pessoas  mais pobres do país são as mais afetadas pelos impactos da Covid-19, segundo o Fundo de População da ONU no Brasil (UNFPA Brasil).

Em regiões com elevadas desigualdades, como é o caso da América Latina, no médio e longo prazo os impactos podem explicitar e aumentar as iniquidades já existentes, seja na renda, no acesso a serviços ou na concretização de direitos básicos. Nesta última quarta-feira (01/07), aconteceu a décima edição da série de webinários, População e Desenvolvimento em Debate, promovido pelo Fundo de População da ONU no Brasil (UNFPA) e Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP). Foram convidados para o debate virtual, especialistas para discutir sobre  Impactos sociais e econômicos da Covid-19. Foi concluído que as populações mais pobres são as mais afetadas pela crise.

O sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da USP, Rogério Barbosa, acredita que a pandemia e a má recuperação do mercado de trabalho desde 2015, especialmente para as camadas mais pobres da população, no médio e longo prazos agravam ainda mais as desigualdades no Brasil. Pontua também que, a leitura dos indicadores sociais foi alterada pela pandemia da Covid-19. “Quando vemos a pobreza caindo [durante a pandemia da Covid-19], significa que a pobreza monetária está caindo e não necessariamente as condições de vida da população estão melhorando. Quando este programa [Auxílio Emergencial] for desligado, certamente esse índices irão subir, pelo menos para 28% da população”, explica Rogério Barbosa.

Paulo Saad, diretor do Centro Latinoamericano y Caribeño de Demografía (CEPAL/CELADE), por sua vez, traz o contexto de toda a América Latina e Caribe. De acordo com Saad, a população que vive em situação de pobreza ou extrema pobreza na região vem crescendo nos últimos anos e existe uma desaceleração do processo de redução da desigualdade na região O diretor da CEPAL explica que “as comunidades pobres não só estão muito mais expostas ao contágio, mas quando pegam o vírus, possuem muito menos recursos para a devida atenção ao tratamento. Além disso, os pacotes de apoio estatal geralmente encontram muito mais dificuldade para alcançar estas comunidades, incrementando a dificuldade dos moradores em manter o confinamento”.

Além disso, aponta que 80% da população vive em cidades, sendo que 17% se concentram principalmente em seis megacidades (com mais de 10 milhões de pessoas). “As cidades na América Latina e Caribe são caracterizadas pela segregação e pela urbanização informal, onde há superlotação e acesso limitado a água e saneamento básico, que amplificam o risco de propagação nessa áreas mais pobres”, conclui o Saad.

“A pandemia escancarou as enormes desigualdades sociais no Brasil pela primeira vez”, refletiu, Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho Administrativo do Magazine Luiza. Dado o cenário, Luiza acredita que existe a necessidade da realização de novas reflexões e atitudes, tanto da pessoa física quanto das empresas, para amenizar os impactos nas populações mais vulneráveis diante desta nova realidade. A convidada também compartilhou as ações que têm promovido, como a criação do projeto Parceiro Magalu para aqueles que estão desempregados, a ampliação de campanhas de violência contra a mulher, e, junto com o Estudo do Desenvolvimento do Varejo, tem tido contato com os secretários do Ministério da Economia para o auxílio na criação das medidas.

Além disso, Trajano relata que percebeu que o que chamou de cultura da doação também cresceu com a grande exposição das desigualdades sociais que a pandemia da Covid-19 trouxe, e pontua que empresas estão agindo para auxiliar as populações mais vulneráveis.

Os e as palestrantes convidados para o debate foram: Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza; Rogério Barbosa, sociólogo, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da USP; e Paulo Saad, diretor do Centro Latinoamericano y Caribeño de Demografía (CEPAL/CELADE). A mediação do webinário foi realizada por Astrid Bant, representante do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil.


Assista esse debate na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=H1e0yzjVNOY

A cada semana, a série “População e Desenvolvimento em Debate” promovida por UNFPA e ABEP realiza discussões entre academia, governo e sociedade civil sobre temas emergentes na Agenda de População e Desenvolvimento. Na próxima quarta-feira 08/07 o tema será:  Saúde Reprodutiva, Direitos e a Covid-19. Acompanhe no perfil do UNFPA no Youtube: youtube.com/unfpabrasil.

domingo, 5 de julho de 2020

"Túnel da Felicidade"

É como o prefeito do município mais famoso do Acre está chamando essa bela arborização das margens da rodovia estadual AC-485, conhecida como a Estrada da Borracha. Ubiracy Vasconcelos diz que quem passa pelo "Túnel da Felicidade" encontra uma cidade tranquila, de vida agradável.

A plantação de seringueiras em toda a extensão da via de 12 quilômetros que dá acesso a Xapuri não se desenvolveu uniformemente, mas logo na entrada para a cidade, após sair da BR 317, passando pelo Entroncamento, o visitante se depara com uma paisagem muito bonita e agradável.

O local se tornou, nos últimos tempos, uma atração da cidade. Comumente, quem passa por ali se depara com pessoas - casais e até famílias inteiras - fazendo fotos para a posteridade, aproveitando a beleza do lugar. As imagens fazem sucessos na internet, postadas nas diferentes redes sociais. Eu mesmo já parei lá para fazer algumas que não ficaram muito boas, pois até para a natureza existem certos limites.

As seringueiras foram plantadas ao longo da estrada quando a rodovia era asfaltada, entre os anos de 1999 e 2000, no governo Jorge Viana, depois de uma história de décadas em que a população local teve que enfrentar a lama e os atoleiros para chegar à BR. Em algumas épocas do ano, se levava mais tempo para chegar ao Entroncamento do que o que se gasta até Rio Branco nos dias de hoje. Quando a 317 foi asfaltada no governo Orleir Cameli, o "Ramal do Entroncamento" foi deixado no esquecimento.

O propósito, no entanto, não é o de enaltecer as gestões petistas das quais fiz parte, mas o de reavivar algumas verdades que a paixão político-partidária costuma embaçar. Os governos do PT tiveram mais acertos do que erros, especialmente no duplo mandato de Jorge Viana e no único de seu sucessor, Binho Marques. A torcida de todos, creio, é a de que o atual governo também tenha menos falhas e mais corretidão para que ações que melhorem a vida dos acreanos possam seguir acontecendo.

Em tempo: a foto que ilustra o post é de Mirray Rodrigues. 

O “Pau do Jorge” resiste

O velho e polêmico desenho de uma castanheira, emblema do slogan “Acre: Governo da Floresta”, durante o primeiro mandato do ex-governador Jorge Viana (1999-2002), ainda resiste no monumento onde está a placa inaugural da mais importante obra de Viana em Xapuri: o asfaltamento da rodovia estadual (AC-485), batizada de Estrada da Borracha.

“O Pau do Jorge”, como ficou popularmente conhecido o símbolo, levou à impugnação da candidatura do petista à reeleição, em 2002, em uma ação do Movimento Democrático Acreano (MDA), do então candidato de oposição, o peemedebista Flaviano Melo, por causa do uso da imagem da castanheira e do slogan na campanha eleitoral daquele ano. Entretanto, dias depois, o TSE revogou a impugnação do TRE e o petista foi reeleito para mais um mandato.

Admira o fato de o antigo símbolo ainda estar ali, passados mais de 18 meses da atual gestão estadual, cujo início foi marcado por uma raivosa e esdrúxula caça às bruxas intitulada “despetização” por meio da qual petistas e simpatizantes do governo findo e qualquer tipo de alegoria que se remetesse ao Partido dos Trabalhadores foram alvo de investidas persecutórias de membros do atual governo.

Depois de algum tempo do fim do domínio petista, analisando a atual situação em que o estado se encontra, sem que o atual mandato tenha apresentado nenhuma grande novidade com relação ao último, fica evidente que as mudanças que são pensadas e propostas nas campanhas eleitorais não se concretizam por meio de ações político-passionais. Demonização de pessoas e a mera destruição de símbolos não leva governo nenhum a lugar algum.

sábado, 4 de julho de 2020

Meros pitacos

Depois de realizada uma reunião na casa do deputado Antônio Pedro (Dem), no último dia 26 de junho, com direito a almoço e uma temerária aglomeração de mais de 20 pessoas, da qual participou o governador Gladson Cameli e o seu vice Major Rocha, o grupo de oposição em Xapuri, que reúne o MDB, o DEM, o PSD, agora, o PP, deu um verdadeiro nó cego na curiosidade de quem se propõe a acompanhar o desenrolar da política paroquiana.

A pauta do encontro não foi outra senão o impasse que há entre os partidos que apoiaram Cameli a se eleger governador nas eleições passadas para definirem quem vai encabeçar uma pretendida chapa única para enfrentar o atual prefeito Ubiracy Vasconcelos, do PT, pré-candidato à reeleição. Segundo fonte do blog presente ao encontro, os pretensos candidatos à cadeira de prefeito de Xapuri entraram mudos e saíram calados da reunião.

Cuidadoso, o chefe do executivo estadual não opinou na questão local, resumindo-se a orientar que os representantes das agremiações partidárias se unissem e resolvessem a indefinição. Com relação às eleições municipais, Gladson tem feito poucas sinalizações sobre apoio a candidaturas, mas abriu uma crise em seu próprio partido ao fazer um anúncio público de apoio à atual prefeita de Rio Branco, Socorro Neri, do PSB.

Em Brasiléia, jornais locais divulgaram recentemente a aproximação entre o PP municipal e a atual prefeita Fernanda Hassem. E o próprio Gladson Cameli não esconde a simpatia pela gestora petista que, por sua vez, não nega a reciprocidade. Em Xapuri, recentemente, o governador trocou afagos com o também petista Bira Vasconcelos, dizendo que "no combate à pandemia não há cores partidárias, mas salvar vidas”.

A falta de um posicionamento mais incisivo de Gladson no campo político tem sido motivo de um clima de "dormindo com o inimigo" entre os partidos de oposição em Xapuri que, em um caso específico, já causou até uma desistência. Apontado pelo governador no início do mandato como o seu candidato a prefeito em Xapuri, o empresário Aílson Mendonça, filho do deputado Antônio Pedro, largou a sua pré-candidatura sob o argumento de cuidar de suas empresas.

A não surpreendente renúncia do filho, que aparentava ter o significado de facilitação do processo interno, deu lugar ao imediato anúncio do nome da madrasta, Carla Mendonça, deixando a situação igualmente complicada. A coisa está parecendo uma prova de resistência do Big Brother Brasil e não se sabe quem será o próximo a pedir o chapéu. O meu palpite é o de que a aliança não vai dar rock, mesmo conhecedor de que em política tudo é possível.

As razões que tenho para pensar que a “sacramentação” da união tem consideráveis chances de não se concretizar não são nenhuma novidade e já falei sobre elas em outros escritos. Em primeiro lugar está o já conhecido egocentrismo do grupo do Democratas no município. Acham-se os melhores e ponto, mesmo já tendo tido sinais claros da rejeição que lhes ronda. E depois vem a convicção do realmente bom pré-candidato do MDB, o advogado Carlos Venícius, de que seu nome é insuperável na oposição local.

Em análise minha, Carla Mendonça só decolaria caso fosse empurrada goela abaixo pelo staff governamental. Apesar de ser um nome contra o qual nada possa se dizer de negativo, não passa de uma estratégia desesperada do marido, após a desistência de Aílson, para não perder o poder de barganha, o que é natural a quem detém um mandato. Reforço que essa é apenas uma opinião, que pode ser confirmada posteriormente ou não.

Outro palpite é o de que Gessi Capelão (PSD) corre por fora, apesar de ele não estar menos convicto da sua força, principalmente na zona rural, onde se mantém permanentemente presente. Sob a batuta de Sérgio Petecão, aceita o que lhe oferecerem para abrir mão de sua candidatura e tomar outro caminho, como voltar a se eleger como o vereador mais votado, caso a proposta lhe seja vantajosa.

Enfim, são apenas meros pitacos.

O desastre aéreo que comoveu Xapuri na década de 1950

Segunda-feira, 30 de abril de 1951, uma data que ficou marcada na história da família Melo Sarkis que, na verdade, ainda nem existia quando o avião Beechcraft-Bonanza PP HTI “Tarauacá”, do Serviço Aéreo do Governo do Acre, caiu ao chegar a Xapuri após sobrevoar a cidade e bater em uma castanheira, se precipitando nas imediações da pista de pouso, por volta das 17h30.

No acidente, morreram José Raimundo de Melo e Miguel Gomes Bezerra, além do piloto, o tenente Manoel de Souza Fortes. José de Melo é o pai da matriarca da família Melo Sarkis, Velissa Guaraciaba de Melo Sarkis, que se casaria com Elias Cher Sarkis, três anos após a tragédia que enlutou as cidades de Xapuri e Rio Branco, onde as vítimas do infortúnio eram personagens muito conhecidas das sociedades locais. 

Com 21 anos de idade à época do acidente, Velissa já namorava com Elias Sarkis, ao lado de quem gerou Andrias, Constantino, Jorge Elias (falecido com uma semana de vida), Afonso, Tadeu, Nader e Rachide, a caçula, depois de se casarem no ano de 1954. Os filhos cresceram ouvindo histórias a respeito do acidente que comoveu profundamente a sociedade da época, que ainda lembra de momentos como a missa de corpo presente na igreja de São Sebastião ainda em construção. 

O bancário aposentado Andrias, o filho mais velho, ainda guarda uma peça do avião, recolhida por Elias Sarkis, que quando soube da notícia do acidente correu para o local acompanhado do amigo Afonso Zaire, ainda conseguindo ver a aeronave em chamas. É um cabo de aço que ligava uma das asas, não atingida pelo fogo, à fuselagem da aeronave. Uma triste lembrança da tragédia que completará 70 anos em 2021.

“Esse cabo de aço foi guardado por meu pai durante 54 anos até a sua morte, em fevereiro de 2005. O apego com a peça, que ele usava como um instrumento de defesa pessoal quando se deslocava do trabalho para casa – Elias Sarkis foi trabalhador histórico da antiga usina de energia de Xapuri – lhe rendeu o apelido de “Cabinho de Aço, que chegou a ser transferido para mim”, conta Andrias. 

Andrias conta também que seus pais relatavam que ao sair da aula no fim da tarde do dia fatídico se encontraram para namorar, como era de costume, quando, ao passearem, dona Velissa disse ao futuro marido que acabara de ter uma visão de José de Melo vestido de branco. O namorado respondeu, tranquilizando-a, que seu pai estava em Rio Branco, o que significava que aquele pressentimento era irreal. Momentos depois receberam a notícia do acidente. 

O radialista e professor Nader Sarkis, outro neto de José Raimundo de Melo, conta, com base em relatos da família, que o seu avô estava retornando de Rio Branco onde acabara de ser nomeado para o cargo de Delegado Geral de Xapuri. Ele retornaria da maneira que foi, de batelão, mas quando estava prestes a embarcar foi avisado de que um avião sairia para a sua cidade. Como a viagem de subida pelo rio durava cerca de quatro dias, ele teria optado pelo voo fatal. 

“Pela história que ouço desde criança, o avião caiu após o piloto fazer um voo rasante sobre a cidade, como maneira de avisar a moça com quem namorava de sua chegada, como era habitual fazer. Ela morava na rua Sadala Koury, em frente de onde hoje é a pousada Chapurys. Depois dessa rasante, segundo o que se conta, ele não teria conseguido retomar a altitude para fazer o pouso, batendo nessa árvore e caindo”. 

Além de dona Velissa, falecida no dia 25 de agosto de 2016, o nordestino José Raimundo e a esposa Maria de Nazaré de Melo tiveram outros três filhos, Utilde Cardoso, Raimundo Francisco e Getúlio José de Melo. Dos filhos, nasceram 22 netos, dos quais um deles, José Raimundo Hadad Melo, que vive em Belém (PA), se tornou piloto de avião. 

Um dos irmãos, Raimundo Francisco de Melo, falecido no dia 29 de julho de 2009, foi pioneiro no serviço de radiodifusão e radiotelegrafia em Xapuri. Ele foi o criador da “Raimelo”, emissora de caráter comunitário que animava as noites da cidade após as missas de domingo, na década de 1960. No dia do acidente, Melo, como era conhecido, estava em Brasiléia, a trabalho, e não chegou a tempo para ver o sepultamento do pai.

A imagem ao lado é de uma versão moderna de um Beechcraft-Bonanza, aeronave monomotor executiva com capacidade para transportar com razoável conforto um piloto e cinco passageiros em viagens domésticas. 

Fabricada nos Estados Unidos a partir de 1947, é uma das mais conhecidas aeronaves civis da história da aviação e um dos mais respeitados projetos de monomotores a pistão para uso executivo, com manutenção simples e fácil de pilotar.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O imbecil coletivo e a velha política dando as cartas

Depois de um árduo esforço de muita gente, entre as quais pessoas a quem eu muito estimo, com o fim de me persuadir de que por trás de tanta coisa que se passou de estranha na vida brasileira nos últimos anos estaria o brotar de um novo momento, me convenço de que estava certo em resistir.

No entanto, não carrego comigo nenhum tipo de orgulho. No fundo do coração, meu desejo era, apesar do ceticismo, o de estar errado. De ter que dar o braço a torcer, entregar os pontos. Mas não foi assim, infelizmente, para mim, que nunca acreditei, e nem para aqueles que confiaram piamente no improvável.

Este, certamente, é o ano mais conturbado de que tenho lembrança na minha experiência de mundo. Uma pandemia que torna inseguro o presente e incerto o futuro, agravada pela loucura igualmente epidêmica que assola o país de norte a sul à medida em que mais e mais cadáveres são sepultados sem qualquer cerimônia.

Em Brasília, o centrão dando as cartas no governo do país já é informação mais do suficiente para entendermos que o fundo do poço não está longe. O comando do país foi tomado de uma mediocridade bem ao estilo O Imbecil Coletivo II: a longa marcha da vaca para o brejo, de autoria do ex-guru do Bozoloide, o filósofo Olavo de Carvalho.

No Acre, a recente rasteira aplicada pela direção nacional do PSL no então pré-candidato do partido à prefeitura de Rio Branco, o pecuarista Fernando Zamora, mostra que a correnteza do fisiologismo é muito difícil de ser vencida. Como ele mesmo disse, a velha política ganhou mais uma batalha, e assim seguiremos.

Aqui, na terra da Revolução Acreana e de Chico Mendes, a política da conveniência, seja nos discursos, seja nas ações práticas, segue dando as cartas tal qual o centrão na capital do poder, e o que também não é nenhuma novidade, com o aval, disfarçado de omissão, da atual estrutura de governo.

Sendo mais claro, refiro-me à interferência política na administração pública, perseguição a servidores que não se alinham com ações que não são relacionadas a políticas de governo, mas de cunho estritamente pessoal e eleitoreiro, demissão orientada de servidores temporários que “não somam politicamente”, entre outras vigarices que se tornaram contumazes.

Resta saber até onde esse caminho nos levará. Se temos algo de realmente novo a vislumbrar, sem nos prendermos a velhas amarras de um passado não tão distante; se há, mesmo, uma estrada nova a ser seguida; ou se não existe nada pronto e a construção tenha que ser erguida desde o primeiro tijolo.

Que sigamos, se assim tiver que ser, mas desde que a argamassa de um novo Brasil, de um novo Acre, seja feita de alguns princípios e valores que há muito tempo foram esquecidos. O que não creio é que a grande maioria dos que estão aboletados na atual estrutura de poder possa servir de pedreiros.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Eleições e pandemia

Em Xapuri, a pandemia do novo coronavírus não tem sido obstáculo para que os pré-candidatos da oposição ponham o pé na estrada em busca do personagem mais importante e requisitado do período que antecede às eleições: o eleitor.

Nesta quarta-feira, 1º, Carlos Venícius (MDB) e Carla Mendonça (PP), apareceram em campo em publicações feitas nas respectivas páginas no Facebook.

O emedebista esteve no bairro Sibéria, com passagem pela balsa, onde aparece conversando com passageiros.

“Pré-campanha com responsabilidade”, postou em uma das fotos publicadas.

A recém-lançada candidata progressista visitou a “Cidade de Deus”, como é popularmente conhecido o conjunto Armando Nogueira, um dos lugares mais pobres e socialmente vulneráveis da cidade.

“Olhando de perto as necessidades do nosso povo”, diz ela em um trecho de sua postagem.

Já o pré-candidato do PSD, Gessi Nascimento, não tem aparecido muito na rede social, ultimamente. Na última conversa que mantive contato com ele, afirmou que está “direto na zona rural, mas visitando os bairros também”.

Com as três pré-candidaturas medindo forças, não se sabe ainda como a oposição irá às eleições desse ano – apesar de um suposto entendimento pela aliança, não há indicativo, até o momento, de que alguém pretenda ceder tão facilmente.

De seu gabinete, o prefeito e pré-candidato à reeleição Ubiracy Vasconcelos (PT) apenas tem dado notícias a respeito do combate à pandemia, um fardo que tem sido pesado.

“Não é hora de baixar a guarda”, disse ele numa transmissão pela internet na noite desta quarta-feira.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Quase 32

A Rádio Educadora de Xapuri é uma das coisas mais importantes da minha vida. Ali, cheguei no dia 1º de julho de 1988, aos 16 anos, e me orgulhava de jamais haver saído, até de lá ser excluído pelo atual governo estadual, no dia 27 de janeiro deste ano, o que me impede de neste dia 1º julho completar 32 anos de história na emissora. 

Posso dizer que minha história profissional e também de vida se confundem com a história da “Rádio 6 de Agosto”, nome que homenageia a data em que se iniciou a Revolução Acreana.

Na velha “6 de Agosto” encontrei pessoas que influenciaram de modo decisivo a minha formação moral e ética, me ensinando valores que tento aplicar tanto na vida profissional quanto pessoal até os dias presentes. Lá encontrei personalidades que fazem parte da história da emissora, como Nader Sarkis, Messias Cavalcante e Walter Nicácio, este último um dos grandes patrimônios da emissora, os dois últimos já falecidos.

É verdade que quando cheguei à emissora ela já havia passado pelo seu “período de ouro”, quando grandes nomes por aqui passaram e fizeram grande sucesso, saindo, posteriormente, para trabalhar em outros lugares. Dois exemplos são os radialistas Ailton Farias, que trabalhou nas rádios Caiari e Eldorado, além de outras, em Porto Velho, Rondônia, e Raimundo Nonato da Cruz, que aqui era o R. N. Cruz e que depois, em Rio Branco, no Rádio e na TV, se tornou o Nonato Cruz, na Rádio Difusora Acreana.

Minha relação com o rádio se iniciou, no entanto, bem antes que começasse a trabalhar na pequena emissora como sonoplasta. O radialista Ailton Farias, meu cunhado, me levava, ainda garoto, para o estúdio, durante os programas, e para as transmissões de futebol no velho estádio Góes e Castro. Nosso futebol, a propósito, dava gosto de ver naquela época. Foi ali que comecei a pegar gosto pelo esporte e pelo rádio, através das narrações esportivas do próprio Aílton Farias e também de Andrias Sarkis, outro narrador fantástico.

Na Rádio 6 Agosto, tive quatro grandes incentivadores: Sebastião Rodrigues, hoje comerciante, no período em que trabalhei como sonoplasta. Sem ele, acho que não teria aprendido a mexer com aqueles botões de uma obsoleta mesa de som e velhas vitrolas. Pouco tempo depois fui incentivado pelo diretor da emissora, Messias Cavalcante, a fazer um teste de locução. Foi o momento mais difícil desses 32 anos. O saudoso Messias foi um grande companheiro de profissão e amigo. Como locutor fez sucesso em Xapuri com o inesquecível programa “Correio Musical”. 


Outro grande amigo, Nader Sarkis, comigo em uma das fotos que ilustram essa postagem, foi meu espelho no rádio e uma espécie de ídolo ao alcance das mãos. Foi um dos melhores locutores de rádio que já pude ouvir, dono de uma belíssima voz e de uma maneira muito especial de fazer comunicação radiofônica. 

A quarta pessoa com quem tive uma ligação muito forte nesta trajetória na Rádio 6 de Agosto foi Walter Nicácio Pereira, uma figura extraordinária que deixou sua marca impressa na história da emissora. Walter tinha uma personalidade marcante e uma grande identificação com o ouvinte da zona rural. Costumo dizer que ele não era locutor e sim animador de rádio. Fazia sucesso em qualquer evento em que houvesse um microfone ligado. Como já disse, é um dos grandes patrimônios da emissora e baluarte da sociedade xapuriense.

Recordo-me também, com imenso carinho, do primeiro locutor com quem trabalhei, na função de sonoplasta, o grande Francisco Silva de Oliveira, ou simplesmente Chico Silva, uma das figuras mais fantásticas com quem tive o prazer de conviver. Chico lia muito pouco, mas tinha grande facilidade de comunicação e parecia conhecer cada um dos moradores dos seringais do município de Xapuri. “Cruz de maçaranduba” e “Se não ajuda, não atrapalha”, são dois bordões inesquecíveis do grande Chico Silva.

Não poderia deixar de citar aqui e registrar o meu agradecimento a outros nomes não menos importantes como: Francisco Monteiro Franco, João Barbosa de Farias, Francisco Pereira, Ormindo Salim, Ricardo Melo, Uziel Alves, Ilário Rodrigues, Aldemir Rodrigues, Luiz Soares, Valdimar Barbosa, Raimundinho Castelo, Joncirlei Barbosa, Joseni Oliveira, Odahil Cardoso Monte, Ana Paula Braga, Leônidas Badaró e vários outros.

Encerro dizendo que o grande propósito deste texto é o de registrar essa data importante para mim, destacando os grandes amigos, colegas e companheiros que fizeram - e os que ainda fazem - parte desta minha humilde trajetória nesta gloriosa emissora de rádio. Impossível lembrar de todos, por isso peço desculpas a quem não está aqui sendo citado.


Um grande abraço a todos.

Narcisismo Político

O jornalista Jânio de Freitas disse certa vez, em uma entrevista ao famoso programa Roda Viva, da TV Cultura, que quando um sujeito decide se candidatar a alguma coisa ele já está acreditando ser merecedor do reconhecimento pelas qualidades que em geral não tem, mas que supõe possuir, numa clara demonstração do narcisismo político que toma conta daqueles que se apresentam ao povo não como instrumento para a equação de problemas, mas como a própria solução.

Essa autoafirmação à qual se refere o renomado jornalista impregna, de maneira injustificável, um punhado de gente que sem uma base mínima de avaliação sobre sua preparação para exercer um cargo eletivo se atira a promover o seu nome pelas redes sociais ou imprensa paga como se os seus atributos fossem um conhecimento tácito, que pudessem prescindir de comprovação por meio de argumentos competentes. Essa é a razão de tantos maus candidatos que se tornam, fatalmente, péssimos mandatários.

Não fosse a paixão político-partidária, que ofusca a visão de grande parte do eleitorado, um grau mínimo de exigência poderia ser estabelecido para a aceitação de um nome como um promissor representante do povo. Não me refiro a diplomas ou títulos acadêmicos, mas a indicativos de aptidão para desenvolver funções tão fundamentais para a vida de todos. Fosse assim não teríamos tão sinistros ocupantes de cargos eletivos a quem somos obrigados a tolerar por longos quatro anos.

Para pensar.

terça-feira, 30 de junho de 2020

O asfaltamento da Variante: promessa ou realidade?

A rodovia estadual também conhecida como Estrada do Café, uma das duas ligações que a cidade de Xapuri possui com a BR-317 - a outra é a asfaltada Estrada da Borracha -, mais uma vez entra na pauta política do estado.

A assessoria do senador Marcio Bittar (MDB) informou, no começo desta semana, que o representante acreano pediu recentemente à ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, celeridade na liberação de R$ 23 milhões destinados à reconstrução e asfaltamento da importante via de acesso.

Em dezembro do ano passado, Bittar anunciou a aprovação dos recursos no Orçamento Geral da União (OGU) para este ano junto como o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado e do Congresso Nacional, que acabara de visitar o Acre. De lá para cá, pouco se falou sobre o assunto e, mais ainda com a chegada da pandemia, nada aconteceu de concreto a respeito do começo das obras. 

O asfaltamento da estrada é um sonho antigo da população de Xapuri, especialmente dos que vivem e produzem ao longo de seu curso. Tendo passado por diversas obras de recuperação ao longo dos últimos anos, em nenhuma ocasião os serviços tiveram qualidade suficiente para que a rodovia voltasse a ter tráfego normal como ocorria há cerca de 20 anos. Em determinados momentos, ela foi a via de acesso a Xapuri mais usada por quem tinha como destino a cidade.

Com cerca de 18 quilômetros, a estrada corta um dos mais antigos projetos de assentamento do INCRA, o loteamento Aquidaban, um pedaço de terra de mais de 7.500 hectares, que pertencia ao Estado. A região foi repassada ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária, em 23 de outubro de 1974, pelo então governador Francisco Wanderley Dantas, através do decreto nº 554 de 23/10/74.

A estrada dá acesso a diversas comunidades rurais do município, entre elas o Polo Agroflorestal da Variante, um projeto que destinou um pedaço de terra para famílias que viviam na periferia da cidade, numa tentativa de inverter o êxodo rural. É por ela que os produtores de duas comunidades importantes escoam seus produtos até a cidade: Morro Branco e Ribeiracre. 

Além disso, a Variante também é usada como corredor para os extrativista da Resex Chico Mendes que saem dos seringais Albrácia e Palmari. A única alternativa existente para essas populações chegarem até Xapuri é a navegação pelo rio Acre, solução hoje adotada apenas em casos de extrema necessidade, em razão da distância e dificuldade oferecidas pela viagem de barco.

A rodovia começou a perder atenção do governo estadual depois do asfaltamento da antiga estrada do Entroncamento, rebatizada de Estrada da Borracha e inaugurada pelo governo Jorge Viana. Com esse advento, a velha Variante deixou de ser usada como entrada e saída de Xapuri, perdendo até mesmo o status de estrada para se tornar mero ramal. 

Há quem esteja dizendo que a nova informação da assessoria do senador relacionada à liberação dos recursos para a obra seja eleitoreira, o que eu não acredito, com base na informação de dezembro, de Bittar e Alcolumbre, de que a verba já estaria aprovada no OGU desse ano. Assim como a também muito sonhada Ponte da Sibéria, o asfaltamento da Estrada da Variante são aspirações do povo de Xapuri que não merecem menos que o empenho e a dedicação dos nossos representantes.

Discordo da opinião de que a concretização de uma grande obra signifique imperiosamente que o eleitor tenha que votar nesse ou naquele político, ou em quem ele mandar. A boa gestão dos recursos públicos em benefício das necessidades essenciais da população é mera obrigação dos representantes políticos em geral, o que não impede que a eles seja atribuído o devido crédito. Mas para-se por aí. 

O voto é um instrumento sagrado e muito mais representativo do que um simples agradecimento ou pagamento de favor. Não é objeto de troca, mas de afirmação da cidadania e da maturidade de quem sabe escolher o que é melhor para si e para os seus. Como entusiasta do desenvolvimento e de tempos cada vez melhores para quem vive em Xapuri, nego-me ao ceticismo de que a iniciativa do senador seja apenas uma promessa.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Dia de Combate à Homofobia: conduta, crime e pena

Leonardo Pantaleão

O último domingo foi marcado por diversas manifestações para debater a representatividade LGBTQI+ e conscientizar sobre a necessidade de combater a discriminação e enaltecer a luta por direitos dos homossexuais.

Sob o aspecto legal, desde o ano passado, ministros do STF consideraram que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais devem ser enquadrados no crime de racismo, previstos na Lei 7.716/1989.

A partir dessa decisão, o Brasil se tornou o 43º país a criminalizar a homofobia, segundo o relatório "Homofobia Patrocinada pelo Estado", elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais. A corte lista condutas homofóbicas e transfóbicas.

Em 5 de maio de 2011, o STF também foi responsável por reconhecer a união estável entre casais do mesmo sexo. Dois anos depois, o Conselho Nacional de Justiça pôs em vigor resolução que obriga cartórios em todo o País a realizar casamentos de casais do mesmo sexo.

De acordo com o especialista em Direito e Processo Penal, Leonardo Pantaleão, a lei prevê que a prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerada crime, com pena de um a três anos, podendo ser agravada:

"Se houver divulgação ampla de ato homofóbico em meios de comunicação, como publicação em rede social, a pena será de dois a cinco anos, além de multa", destaca o criminalista.

"Claro que já notamos um avanço na luta por Direitos, e essas manifestações são necessárias. Recentemente a comunidade LGBTQI+ teve o seu direito de doar sangue sendo reconhecido pelo STF", frisou o jurista que destaca que falta a criação de uma Lei Federal própria e maior rigor das autoridades para manter as conquistas e diminuir o preconceito.

O advogado aconselha, quando ocorrer um caso de agressão motivada por preconceito, que a vítima procure uma delegacia especializada sobre o tema. Ele ressalta que as delegacias devem estar preparadas para registrar um BO como racismo em caso de LGBTfobia.

Leonardo Pantaleão é advogado, professor e escritor, com Mestrado em Direito das Relações Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), Doutorado na Universidad Del Museo Social Argentino, em Buenos Aires e Pós-graduado em Direito Penal Econômico Internacional pelo Instituto de Direito Penal Econômico e Europeu (IDPEE) da Universidade de Coimbra, em Portugal, professor da Universidade Paulista. Autor de obras jurídicas, palestrante com ênfase em Direito Penal e Direito Processual.

domingo, 28 de junho de 2020

O princípio da impessoalidade sob os pés do interesse político

O requerimento encaminhado à Câmara Municipal de Xapuri, na semana passada, pelo policial federal aposentado e agora advogado Eden Barros Mota, solicitando informações sobre os critérios usados pela instituição para a contratação dos servidores não efetivos que constam no quadro de pessoal, suscita uma reflexão sobre uma realidade que se arrasta sob o sono da população e das autoridades incumbidas de proteger o que está escrito na Constituição Federal.


Não é segredo para ninguém que em todas as esferas administrativas não são escassos os meios pelos quais o princípio da impessoalidade, consolidado no caput do artigo 37 da Carta Magna, é pisoteado sem nenhum tipo de escrúpulo. As manifestações mais comuns se mostram por meio da apropriação indevida de ações de governo em benefício político individual e a criação de cargos comissionados que objetivam o favorecimento pessoal em detrimento da coletividade.

Contextualizando, recorro a alguns exemplos bem visíveis em Xapuri, quando ações de cunho puramente administrativo, como a recuperação de um aparelho de raio-x do hospital ou a realização de uma edição do programa Saúde Itinerante, são atribuídas à atuação de determinados políticos, por meio de propaganda disseminada nas redes sociais, além de atos presenciais sob o barulho de fogos e rojões, ao desconhecimento ou omissão do governo.

Outro ponto que merece atenção do povo e dos fiscais da lei é quanto às artimanhas para o beneficiamento de pessoas escolhidas a dedo para ocupar cargos ou funções de cunho temporário, de maneira direta ou pelo serviço terceirizado nas esferas administrativas. Seja por meio das empresas terceirizadas ou pelas chamadas CECs, esses empregos estão nas mãos de políticos amigos do poder que os distribuem a seu bel prazer.

Não estou aqui assegurando que a distribuição das CECs esteja em desacordo com a legislação vigente, mas que vai de encontro ao princípio da impessoalidade, isso eu afirmo plenamente. As CECs são tidas como cargos de confiança, mas não as são de maneira absoluta. As pessoas que as detêm, especialmente as de menor valor salarial, em uma escala que vai de 1 a 7, em grande parte executam serviços comuns, que nada têm a ver com função de chefia, direção ou coordenação, como deveria ocorrer.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou sua jurisprudência dominante no sentido de que a criação de cargos em comissão somente se justifica para o exercício de funções de direção, chefia e assessoramento, ou seja, cargos que são de livre nomeação e exoneração, sendo imprescindível a existência de um vínculo de confiança entre a autoridade nomeante e o servidor nomeado, mas não se prestando ao desempenho de atividades burocráticas, técnicas ou operacionais.

Isso significa que centenas de cargos que poderiam ser objeto de concorrência pública, seja por meio de concurso efetivo ou processo simplificado, se mantêm sendo loteados aos partidos apoiadores que deles se utilizam como maneira de angariar dividendos eleitorais e manter os tradicionais currais, que nunca deixaram de existir. E vejamos que o atual governo reduziu, segundo afirma, esses cargos da casa dos 2,5 mil para apenas 900.

Em Xapuri, o olho grande por essas posições na folha governamental promove uma verdadeira caça às bruxas de modo a se remover dos postos aqueles que não contribuem politicamente com o projeto político vigente por outros que sejam compromissados com o voto de cabresto. Em plena pandemia, servidores temporários têm sido demitidos sem justificativas plausíveis e alguns até mesmo sem aviso prévio.

O caso da Câmara de Xapuri, requisitada a explicar como nomeia ou contrata os servidores que não são efetivos – dizendo se existe lei que cria os cargos comissionados e se há processo público para a admissão desses funcionários, deve ser estendido também ao município e ao estado, caso as informações não constem nos obrigatórios portais de transparência.

As vagas disponíveis no serviço público por meio
 da criação de cargos comissionados que não estejam contemplados na citada jurisprudência do STF podem ser objeto de contestação judicial. O acesso a esses cargos e funções deveria ser aberto à concorrência seja por qual processo for, desde que legal. Qualquer ato que não siga esse objetivo ficar sujeito a invalidação por desvio de finalidade. A administração não pode atuar com vistas a beneficiar ou prejudicar pessoas. 

O advogado e engenheiro civil José de Andrade Mota Neto, afirma no artigo O princípio da impessoalidade e sua efetividade na Administração Pública Brasileira que “como resquício de uma cultura herdada do Absolutismo, em que a pessoa do Estado se confundia com a pessoa do Monarca, e passando por outras situações, onde se destaca a naturalidade e normalidade como se encara e se pratica o nepotismo, vê-se que a impessoalidade é um princípio que carece de maior efetividade”.

Leia mais sobre o assunto clicando aqui.

sábado, 27 de junho de 2020

"Sem cores partidárias"

Antes de embarcar para Rio Branco, depois de cumprir agenda no Alto Acre, nesta sexta-feira, 26, o governador Gladson Cameli e o prefeito Bira Vasconcelos trocaram elogios e agradecimentos no aeroporto de Xapuri. 

Da conversa, saiu uma boa notícia. O governo enviará um respirador ao município, na próxima semana, e a prefeitura cederá profissionais para operar o equipamento, uma vez que o hospital Epaminondas Jácome não dispõe de equipe para isso, segundo informou o prefeito em um vídeo divulgado na página da prefeitura na Facebook.

"Eu quero agradecer a todo o apoio da tua equipe porque nós estamos juntos nessa luta contra o covid, porque temos que ter essa união, não somente no covid, mas em toda a participação do município junto com o estado para que possamos fazer melhorias nos ramais, entre outras", disse Cameli.

O prefeito de Xapuri agradeceu ao governador pela visita, o parabenizando pela coragem no enfrentamento à pandemia. Gladson respondeu que ambos estão de parabéns, pois, para ele, "não existe cor de partido, mas salvar vidas e cuidar das pessoas". 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Sem afagos e sem medo do coronavírus

De passagem por Xapuri nesta sexta-feira, 26, o governador Gladson Cameli (PP), que no campo político já declarou apoio à prefeita de Rio Branco Socorro Neri, do PSB, e flerta com a petista Fernanda Hassem, de Brasiléia, não meteu a colher na novela da oposição no município.

Em almoço na casa do deputado Antônio Pedro (Dem), marcado pela aglomeração em plena pandemia, Cameli conversou com os três pré-candidatos dos partidos que o apoiaram na última eleição estadual e os mandou se resolverem sobre a definição da chapa única que já é praticamente certa, mas cuja composição não se resolve. 


Apesar de a mais nova pré-candidata, Carla Mendonça, ser de seu partido, o mandatário maior do estado não deixou transparecer preferência, mesmo que o local escolhido para o almoço tenha sido a casa da esposa do deputado, e que isso, para alguns, possa significar alguma mensagem. De certo mesmo apenas que o impasse ainda se arrastará e que para sua solução alguém terá que abrir mão. 

Cartão Postal


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Para quem vai sobrar a vara do batista?

A desistência do empresário Aílson Mendonça de disputar a eleição deste ano e o imediato anúncio da pré-candidatura da esposa do deputado Antônio Pedro, Carla Veloso, pelo Progressistas, não causaram grande repercussão e muito menos alteração na conjuntura política local.

O cenário continua o mesmo. O atual prefeito Ubiracy Vasconcelos é candidato certo à reeleição e a oposição segue com a novela sobre uma definição que todos sabem que terminará por vir: a união para enfrentar o adversário comum. Ocorre que essa decisão não tem sido fácil de ser articulada e deverá sair a fórceps.

Pelo o que se pôde observar nas últimas horas nas poucas manifestações feitas nas redes sociais, não há, ainda, sinal de um consenso à vista. Um correligionário do grupo DEM/PP afirmou em postagem que teria havido uma “reunião de bastidores” na qual todos os demais pré-candidatos teriam cedido ao nome de Carla.

Ato contínuo, o MDB reagiu por meio do seu pré-candidato, o advogado Carlos Venícios. “A informação não é verídica e não deve ser levada a sério”. Ele ainda disse que a possibilidade de uma futura aliança entre os partidos de oposição em Xapuri dependerá de diálogo “racional e sereno” dos partidos que a compõem.

Gessi Capelão, do PSD, também desmentiu a história. Ele diz que continua mais pré-candidato do que nunca, com todo o aval do senador Sérgio Petecão, que lhe garantiu que a decisão de oficializar ou não o seu nome cabe somente a ele próprio. “Não abro mão, até porque temos elementos que comprovam que nosso nome é viável desde o início”.

Se não causou mudanças no primeiro momento, a inclusão da pré-candidatura da madrasta no lugar do enteado no pleito eleitoral poderá ter efeitos futuros na definição do real cenário que teremos para a eleição. Um dos pontos a serem observados é o fato dela pertencer ao partido do governador Gladson Cameli.

Como não creio que esse detalhe não seja suficiente para cacifá-la a peitar o pré-candidato do MDB, que tem se consolidado como um nome de visível potencial para enfrentar o até então favorito Bira Vasconcelos, imagino que a estratégia possa ser a de uma futura composição com o emedebista, disputando o cargo de vice.

Como a conta não fecha, com três pré-candidatos para as duas vagas de prefeito e vice, resta saber a quem caberá a tarefa de ficar cheirando a vara do batista, fazendo uso de uma antiga expressão que tem, mais ou menos, o significado de ser deixado a ver navios. O certo é de que nesse jogo vale a regra do “pescoço pra baixo é canela”.

O candidato mujangué

Eleições chegando, hora de se atentar e precaver contra os mais variados tipos de candidatos que, não tarda, começarão a bater em sua porta. Isso ainda não está acontecendo como de costume por conta da pandemia do novo coronavírus, mas logo que a coisa amenizar, tenha certeza, eles aparecerão. Então, cuidado com o candidato mujangué.

Iguaria amazônica muito conhecida dos acreanos, o mujangué é preparado à base de ovos crus, farinha, açúcar e limão. Confesso que nunca fui apreciador. Se não tiver boa preparação, cheira mal e se converte em um verdadeiro angu de caroço. Apesar de muita gente gostar, pode ser nocivo à saúde. O ovo cru é o melhor habitat da salmonela, bactéria que causa graves infecções intestinais.

O mujangué pode, realmente, ser comparado a alguns políticos da nossa realidade. Estes, quando mal preparados, e geralmente o são, se tornam autênticas gororobas ambulantes. As atitudes não cheiram bem e a reputação fede ainda mais. Quando mal escolhidos no menu das eleições, oferecem risco à saúde do erário, pois são vetores de uma doença crônica chamada corrupção.

Dizem sobre o mujangué que quanto mais se bate, mais ele cresce. No caso do mau político, quanto mais se bate, mais ele incha, assim como tudo o que é podre. Muito cuidado com o candidato mujangué. Ele pode lhe causar uma terrível indigestão. Mais ainda se os ovos da cesta estiverem podres. Neste caso, para sua segurança, é prudente jogá-los todos na lata do lixo.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Trairagens e fake news em tempos de pandemia

Na lagoa mal cuidada da politicagem xapuriense, quem mais se ocupa da produção dos dejetos são os lambaris, espécie miúda sob a ordenança das traíras, que lhes atribui a responsabilidade pelo serviço sujo a ser feito.

E a principal atribuição dessa ralé ignorante e subserviente aparenta ser a produção de mentiras e contrafações que, na modernidade, são chamadas de fake news. O objetivo desse trabalho rasteiro não se resume apenas à promoção político-eleitoreira, mas também a perseguir e a prejudicar os adversários.

Xapuri, nos últimos 18 meses, tem sido palco de uma verdadeira cruzada contra aqueles que são considerados inimigos de um grupelho que se arvora a dono da cidade. Isso meramente em razão do apoio à ascensão do atual governo e pela retribuição que consistiu em entregar nas mãos da citada panelinha os principais postos da governança estadual.

Do fundo das grotas, de maneira ardilosa e camuflada, emanam as licenças para o desfile de perseguições, desde a remoção injustificada de servidores efetivos de seus postos de trabalho a demissões, algumas sumárias, daqueles que pertencem a empresas terceirizadas ou que foram admitidos via processo seletivo simplificado.

A ordem é passar a régua em todos aqueles que não somam politicamente para o grupo vigente. Exemplos podem ser pontados em vários setores da administração pública estadual, com destaque para o Depasa, onde funcionários denunciam assédio moral e péssimas condições de trabalho, segundo endossa o Sindicato dos Urbanitários do Acre.

A base de todo o trabalho asqueroso tem sido a mentira, no formato das famigeradas fake news. Na ótica deturpada dessa gente pequena, uma pessoa que se submete a um transplante de coração ou a uma cirurgia plástica se torna nova criatura. Foi assim, recentemente, a título de exemplo, com um aparelho de raio-x reformado que, à revelia da Secretaria Estadual de Saúde, se tornou um equipamento novo, recém adquirido pelo governo.

Em meio à pandemia que o Brasil e o Acre vivem, enquanto o governador do estado declarou guerra ao novo coronavírus e, visivelmente, colocou de lado a política partidária para se dedicar a salvar vidas, seus apoiadores em Xapuri se ocupam de perseguir e discriminar pessoas que possuem história de dedicação à cidade, com folha corrida de integridade e respeito à vida em comunidade.

É certo que a pandemia passará, deixando sequelas irrecuperáveis, mas também grandes aprendizados. As mazelas da perseguição e da mentira, essas não passarão, mas o seu exagero poderá ser contido caso ocorra uma reação, pelos meios constitucionais, para que a justiça e a legalidade preponderem. Assim como se o próprio governo, cujo chefe maior não demonstra ser pessoa beligerante, abra os olhos e enxergue os absurdos que está permitindo acontecer. 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Infodemia: a pandemia de desinformação

Rodrigo Silva

Todos os dias em nossos smartphones, computadores e TVs, temos uma verdadeira chuva de informações, e nem sempre é possível conferir a veracidade delas. Se acharmos que ela faz sentido para nós e pode ajudar o próximo, tratamos de encaminhar imediatamente para nossas redes de contato e, assim, a informação se dissemina (em uma velocidade absurda), seja ela verdadeira ou não. Realmente, não pensamos nas consequências disso, afinal, é só uma mensagem sobre um assunto polêmico ou que vai alimentar ainda mais uma discussão interessante, não é mesmo? Não é bem assim.

O termo “infodemia” significa epidemia de informações falsas. As pesquisadoras Emma Spiro e Kate Starbird, da Universidade de Washington (Seattle/EUA), estão investigando como a desinformação está se espalhando durante a pandemia da Covid-19 e como os conhecimentos científicos influenciam as percepções públicas.

O coronavírus, por exemplo, já foi tratado como arma biológica produzida em laboratório, já foi uma conspiração dos mais ricos do planeta para alterar os valores de compra e venda de ações, já veio do morcego, do pangolim, já foi culpa dos chineses, dos italianos, já foi letal e agora não é mais — até atribuíram ao Papa Francisco a culpa pela disseminação desse vírus quando ele deu um tapa na mão de uma asiática. Brincadeiras à parte, tudo isso aconteceu em apenas dois meses, e isso nos revela um vírus não apenas como o causador de uma doença, mas como uma verdadeira arma de guerra de informações.

Essas incertezas nos trazem ainda mais angústia e ansiedade. No caso do coronavírus, as situações apresentadas no início da pandemia, por exemplo, levaram a desencontros de atitudes e ações entre os diferentes líderes mundiais. Até agora, não sabemos exatamente qual o grau de perigo em abandonar a quarentena para reacender a economia. Estamos entre a cruz e a espada.

Então, como podemos minimizar essa situação?

Primeiramente, refletir criticamente sobre a informação e, sempre que possível, checar a sua veracidade. Você também pode avaliar qual o grau de contribuição que aquela informação terá na vida das pessoas que você pretende compartilhar, ou seja, será que elas já sabem aquilo? É algo novo e que realmente trará algum benefício? Por fim, ter bom senso! Afinal, o que mais precisamos nesse momento são união e solidariedade.

Rodrigo Silva é biólogo, doutor em Ciências e coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Gestão Ambiental do Centro Universitário Internacional Uninter.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O delírio coletivo de quem nega a covid-19

Leonardo Torres

Já há algum tempo, não somente o Brasil mas o mundo tem presenciado um levante negacionista, ou seja, um movimento que tende a negar alguns fatos da realidade, refutando-os com teorias mirabolantes. O exemplo mais conhecido e propagado ultimamente é o de quem acredita que o planeta Terra é plano. Existem outros, como a negação do vírus da AIDS, do aquecimento global e agora, como já era esperado, do próprio coronavírus.

O grande problema deste movimento é a sua cegueira. A maioria dos negacionistas afincos sofrem de um delírio coletivo, isto é, uma convicção errônea para a Ciência e para quem não é negacionista, mas aparentemente super verdadeira para quem defende o movimento. Não existe prova científica ou dialética que os faça mudar de ideia, pois esta convicção não depende de fatos e dados, mas de crença, e não há nada mais forte para o ser humano do que crer em algo. Não à toa, temos milhares de provas históricas de indivíduos que morrem por suas ideologias e deuses.

Não é difícil encontrar hoje alguém comentando sobre o coronavírus: "eu não sei, você conhece alguém que esteja com o coronavírus? Parece que é coisa da mídia". Isso é uma típica frase delirante. É verdade que se deve ficar atento às fake news; no entanto, esta dúvida extrapola o limiar da realidade, fazendo o indivíduo não aceitar os fatos do mundo, seja por estar vinculado a uma ideologia política, seja por ele se identificar com líderes políticos que também deliram ou até mesmo como um mecanismo de fuga da realidade, porque tem medo das adversidades do mundo.

É incrível e até mesmo absurdo como a humanidade avançou em tão pouco tempo no que tange à Ciência e tecnologia, porém regrediu ao primitivismo das crenças que promovem um delírio em ideologias ocas e pensamentos negacionistas. Faltou, talvez, levar mais da Ciência e tecnologia para a população e não guardá-la nas patentes secretas que visam lucros econômicos.

Resta saber o quanto esses delírios coletivos cresceram e isso, infelizmente, ficará muito claro após a pandemia do coronavírus. Afinal, a pessoa que nega uma situação mundial como essa não está cega somente para a sua morte como possibilidade, mas também cega para a morte de quem ela contagiar, caso contraia o vírus.

Leonardo Torres é professor e palestrante, doutorando em Comunicação e pós-graduando em Psicologia Junguiana

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Pandemia e educação

Rodrigo Augusto Prando

A pandemia que ora nos coloca em isolamento social trouxe impactos consideráveis em nossas vidas. A educação é uma dessas áreas que merece atenção de toda a sociedade. Provavelmente, o leitor já recebeu no celular áudios e frases de pais e mães desesperados querendo devolver seus filhos à escola, suplicando pelos professores e, até, propondo aumentos robustos de salários. O humor, aqui, tem sua serventia à reflexão sociológica. Como se costuma dizer: só valorizamos algo quando perdemos, ainda que temporariamente. Em casa, somos (minha esposa e eu) dois professores, ambos, contudo, lecionamos em universidades. A formação pedagógica, no meu caso, direciona-se ao ensino de Ciência Sociais para jovens e adultos.

O processo de ensino e aprendizagem com crianças não é o mesmo com adolescentes ou universitários. Sistematicamente, ao realizar as tarefas com meu filho tenho perdido a paciência e, depois, sinto-me culpado, já que sou um professor. Meu filho, nada inocente, há tempos sabe como me tirar do sério e, nisso, já tem pós-doutorado. Sei que a situação não é exclusividade aqui em casa.

O envolvimento emocional, às vezes, acaba por soterrar todo o planejamento oriundo da racionalidade pedagógica. Um aspecto que chama a atenção é que no ranking da Varkey Foundation, de 2018, acerca do status do professor, o Brasil é o país que ocupa a última colocação, entre todos os pesquisados, em valorização dos professores.

A sociedade brasileira, como um todo, desvaloriza o trabalho realizado nas escolas por professores, coordenação pedagógica, diretoria e os funcionários. Os que podem, no momento, trabalhar em home office têm tido a experiência de conjugar trabalho, aulas e lições de filhos e afazeres domésticos. Felizmente, no campo educacional podemos usar os recursos disponíveis na internet e em plataformas de ensino online. Contudo, não nos esqueçamos: são ferramentas e quem as opera, depois de muito planejamento, são os professores. A educação efetiva traz à tona a importância não apenas da transmissão de conteúdo, mas da função socializadora da escola.

O ensino não se esgota nas quatro horas, em média, passadas numa sala de aula. A aula depende de planejamento dos objetivos a serem atingidos, os meios necessários para melhor explicar conceitos abstratos em exemplos concretos e conseguir o envolvimento dos alunos nessa jornada. O trabalho do professor não se limita à dimensão quantitativa: horas-aula, número de alunos e de provas para corrigir.

A educação tem uma especial dimensão qualitativa, que abarca o universo individual, emocional, social, cultural e ritmos distintos de aprendizado de cada um. Professores estudaram - e muito - para preparar boas aulas e nunca deixam de estudar, pois manter-se atualizado é primordial numa profissão que nós vamos envelhecendo e nosso "público" sempre terá a mesma idade.

Muitos de nós, professores, somos formados num mundo analógico e lidamos com crianças e jovens numa cultura digital, cujo tempo presente e a ansiedade por fazer muitas coisas ao mesmo tempo sem a devida atenção e concentração nos desafia diariamente. Manter uma turma atenta na universidade com jovens na posse de seus celulares é uma verdadeira epopeia pedagógica. Só quem lá está, sabe. Nos primeiros anos da escola não deve ser diferente, ainda que sem o celular.

Que possamos, em breve, retomar nossas vidas normalmente. E que a educação, a escola e os professores recebam a atenção que merecem. Que o professor tenha o respeito que lhe é devido, um salário que lhe seja digno da responsabilidade de seu ofício. Tomara.

Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp de Araraquara.