
A frase que dá título a essa postagem é de José Alves Mendes, o Zuza, 54, irmão mais novo do líder sindical que ao ser assassinado em 1988, em Xapuri, deixou um legado que é disputado por muitos, mas verdadeiramente defendido por poucos daqueles que, de uma forma ou de outra, e com objetivos variados, lançaram mão da sua história de luta em defesa da floresta e dos seus habitantes tradicionais.
Acompanhado da esposa Deusamar, Zuza me procurou na manhã desta quarta-feira para falar a respeito dos comentários negativos ao nome e à imagem de Chico Mendes publicados na internet em virtude da repercussão causada pela notícia da ação de improbidade movida pelo Ministério Público contra a filha de Chico, Elenira, e Ilzamar, viúva do seringueiro.
Zuza orgulha-se de ter acompanhado os passos do irmão famoso desde o início da sua luta em defesa da causa pela qual morreu. Vice-presidente vitalício da Fundação Centro de Memórias Chico Mendes, criada logo após o assassinato do seringueiro, ele diz que nunca teve espaço para exercer de fato a função na entidade que ajudou a fundar.
O irmão de Chico Mendes conta que logo percebeu que os objetivos da fundação criada para preservar a memória do herói estavam sendo desvirtuados. Ao solicitar de Ilzamar, presidente da Fundação, informações sobre as contas da entidade, Zuza recebeu da cunhada a resposta de que ela - Ilzamar - não tinha nenhuma satisfação a lhe dar.
Zuza Mendes afirma que o grande prejudicado com a repercussão sobre as denúncias de irregularidades no Instituto Chico Mendes, instituição criada por Elenira em 2006, é o próprio seringueiro, que jamais teve o seu nome envolvido em corrupção e que nunca se beneficiou do reconhecimento que alcançou mundialmente para melhorar de vida.
- O Chico morreu pobre como sempre foi. Não deixou esse exemplo para ninguém e não merece ter seu nome envolvido nesses desmandos. Ele foi um homem que trabalhou e que deu a sua vida por uma causa que não pertencia somente a ele, mas a todos nós. Eu e todos os irmãos do Chico - Margarida, Celita, Lino e Francisco de Assis - não aceitamos que ele tenha sua imagem denegrida pelos atos alheios.
Zuza revela que em certa oportunidade Chico Mendes foi procurado por um fazendeiro que lhe ofereceu dinheiro para que ele abandonasse os empates. Ele lembra que Chico reagiu com tranquilidade ao episódio, deixando claro que dinheiro nenhum o faria abandonar a sua luta em defesa da floresta, mesmo que tivesse que dar sua vida em razão disso.

"O Instituto Chico Mendes é uma farsa"
Deusamar Bezerra Gadelha Mendes, 48, casou com Zuza em 1981, dois anos antes que Chico Mendes se casasse com sua irmã mais nova, Ilzamar. Ela conheceu Chico ainda criança, quando o seringueiro trabalhou na colocação de seu pai, no seringal Santa Fé, onde ele alfabetizou toda a família.
A forte amizade e admiração nascidas na infância fizeram com que Deusamar se tornasse uma espécie de guardiã da memória do cunhado na Fundação Centro de Memórias Chico Mendes, onde trabalhou por 11 anos, antes de sair, em janeiro passado, para se tornar a responsável pelas denúncias de irregularidades feitas ao Ministério Público em Xapuri.
Ela forneceu ao promotor Mariano Jeorge de Souza Melo farta documentação que evidencia desvios de finalidade de convênios firmados com o governo do estado, lançamento de funcionários fictícios em folha de pagamento, falsificação de recibos e apropriação indevida de dinheiro destinado ao desenvolvimento das ações do Instituto.
Deusamar afirma que não possui problemas familiares com a irmã Ilzamar e que não levou as denúncias ao MP com o intuito de prejudicá-la. Ela diz também que tentou, sem sucesso, abrir os olhos da irmã e também de Elenira para os problemas que estavam ocorrendo fazia muito tempo no Instituto.
Para ela, o grande responsável pelos desmandos no ICM é o marido de Elenira, Davi Cunha, que contava com o apoio de outras pessoas que trabalham no Instituto. Segundo Deusamar, outras pessoas que trabalham no Instituto Chico Mendes também são conhecedoras das práticas irregulares que eram realizadas.
- Davi é manipulador e fez a cabeça de Elenira e Ilzamar.
Deusamar confirma também que a criação do Instituto Chico Mendes foi uma estratégia para que Elenira pudesse assumir o comando da estrutura da Fundação Centro de Memórias, mas dispusesse de uma organização com situação regularizada, uma vez que a Fundação estava praticamente inviabilizada em virtude do acúmulo de dívidas fiscais e trabalhistas.
- O Instituto Chico Mendes é uma farsa, diz Deusamar.
Em 2006, quando foi criado o Instituto Chico Mendes, todos os funcionários da Fundação foram transferidos para o ICM, que passou a ocupar o mesmo prédio e, segundo Deusamar, muita coisa começou a mudar. Designada para compor o Conselho Fiscal da entidade, suas observações sobre supostas irregularidades passaram a ser mal vistas por Elenira e Davi Cunha.
A relação entre Deusamar e Elenira começou a ficar ruim quando, em maio de 2007, a mulher de Zuza impediu a entrada do ex-prefeito Wanderley Viana no Centro de Memórias durante uma visita da então vice-prefeita de Sena Madureira, Wânia Pinheiro, a Xapuri. Elenira repreendeu a tia e fez um pedido formal de desculpas ao prefeito.
Zuza Mendes e Deusamar não sabem qual será o desfecho do caso que envolve o Instituto Chico Mendes. Mas sonham em ver resgatada a Fundação Centro de Memórias, a legítima organização de preservação dos ideais e da história do seringueiro mais famoso do Brasil. Como vice-presidente nato da instituição, Zuza promete lutar por esse objetivo.
- Uma das primeiras coisas é reaver o prédio da Fundação, que hoje é ocupado pelo Instituto, afirma ele.
Há alguns dias, falei com Davi Cunha, que não quis se pronunciar sobre o assunto.
- Nisso, quanto mais se mexe, mais fede, disse ele.
Ao jornalista Altino Machado, Elenira Mendes e Davi Cunha disseram que preferiam não se manifestar sobre as acusações feitas pelo MP. Elenira se limitou a dizer que estava muito assustada e que avaliava se divulgaria um comunicado à imprensa.
- Eu e Elenira não escondemos nada durante nossos depoimentos ao promotor. Muita coisa da denúncia dele é verdade, mas infelizmente está em jogo uma briga familiar - disse Davi Cunha.
Elenira informou também que deveria me enviar uma carta com alguns esclarecimentos. Continuo aguardando, assim como fico aguardando contato de qualquer das partes envolvidas. O e-mail está disponível no blog e o espaço à inteira disposição de todos.