segunda-feira, 15 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
Inaugurada a Ponte da União, no Juruá
A população de Cruzeiro do Sul fez festa para receber uma obra aguardada há 43 anos. Na noite deste domingo (14), foi inaugurada a Ponte da União, a maior do Acre e a única no Brasil com estrutura preparada para abalos sísmicos, segundo informou o diretor do Deracre, Marcos Alexandre, na abertura da solenidade em que o governador do Acre condecorou pela segunda vez em dois dias um ministro do governo Dilma com a maior comenda do estado: a Ordem do Mérito da Estrela do Acre em grau de Grã Cruz.
Pelo tamanho da multidão que compareceu à inauguração que realizada em grande estilo, inclusive com um grande espetáculo pirotécnico, a construção da Ponte da União mexeu com os sentimentos do povo de Cruzeiro do Sul, o que não aconteceu com o prefeito da “capital do Juruá”, Wágner Sales, do PMDB, que a exemplo do que ocorreu na entrega do Hospital da Mulher e da Criança do Juruá, no dia anterior, também não se fez presente no lançamento da ligação física entre a cidade e a BR-364.
Leia o que diz a cobertura da estatal Agência de Notícias do Acre sobre o evento.
Hospital da Mulher e da Criança
O governador Tião Viana inaugurou na noite desse sábado (13), aqui em Cruzeiro do Sul, onde estou desde sexta-feira acompanhando o prefeito Bira Vasconcelos na IV Caravana de Prefeitos ao Vale do Juruá, o Hospital da Mulher e da Criança Irmã Maria Inete.
Reconstruída no antigo prédio do Hospital Regional do Juruá, que passou por reforma e reestruturação, a unidade passou por um amplo processo de modernização que consumiu cerca de R$ 9 milhões em obras e aquisição de equipamentos, numa parceria com o governo do Estado, governo federal e BNDES,
Dotado de uma infraestrutura formada por 84 leitos, 10 UTI’s neonatal, duas UTI’s maternas, quatro salas cirúrgicas, uma sala de curetagem e um banco de leite, o hospital materno-infantil conta tem capacidade para realizar cerca de mil atendimentos mensais, entre partos naturais, cesáreos, atendimentos ambulatoriais e de urgência e emergência.
Além das moradoras de Cruzeiro do Sul, também deverão ser atendidas na nova unidade mulheres dos municípios acreanos de Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, além dos amazonenses Guajará e Ipixuna.
Na solenidade, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi condecorado pelo governador Tião Viana com a Ordem do Mérito da Estrela do Acre em grau de Grã Cruz, a maior comenda do estado.
Logo mais, às 20h30, será a vez da maior ponte do Acre ser entregue população de Cruzeiro do Sul. Com mais de 500 metros de comprimento e quatro faixas de rolamento, a ponte sobre o Rio Juruá é uma obra do Ministério dos Transportes e do Governo do Estado do Acre que nela investiram R$ 122 milhões, incluindo as obras dos acessos que somam 12,4 km de estrada asfaltada no trecho chamado “Variante”, que liga Cruzeiro do Sul à BR-364.
sábado, 13 de agosto de 2011
Assembleia da AMAC no Juruá
Associação dos municípios do Acre manifesta preocupação com queimadas no Acre
Um dos principais temas discutidos na 14ª Assembleia da Associação dos Municípios do Acre (AMAC), realizada na manhã deste sábado (13), no auditório do hotel Swamy, em Cruzeiro do Sul, foi o crescimento das queimadas em todo o estado.
Em quantidade de focos de calor percebidos pelos satélites, a situação em 2011 já está sendo considerada a pior desde os incêndios florestais do ano de 2005 que causaram destruição no Acre. O prefeito de Rio Branco e presidente da AMAC, Raimundo Angelim, convocou todos os municípios acreanos a se empenharem no combate ao problema.
“Nada é mais urgente que cada município elaborar o seu plano de contingência”, disse Angelim na abertura dos trabalhos.
Durante o evento, o Secretário de Estado de Meio Ambiente, Edgard de Deus, fez uma explanação sobre a situação de momento em todos os municípios acreanos e apresentou o Plano Integrado de Prevenção Controle e Combate às Queimadas no Acre, no que foi seguido pela prefeitura de Rio Branco.
O prefeito Bira Vasconcelos, na foto ao lado do prefeito de Epitaciolândia, José Ronaldo, afirmou que Xapuri já concluiu o seu plano de contingência contra queimadas e que o município que mais sofreu com o desastre de 2005 aprendeu com a dor.
“Xapuri teve extensas áreas da Reserva Extrativista Chico Mendes destruídas pelo fogo naquele ano, e isso fez com que as pessoas se investissem de um compromisso e de uma preocupação com essa questão que não existiam antes dos incêndios de 2005. Agimos para que o problema não se repetisse, mas acredito que o sofrimento das pessoas que, em alguns casos, perderam tudo o que tinham, foi uma espécie de aprendizado”, disse.
Outra pauta da assembleia foi a universalização da educação, onde os secretários de Educação do Acre e de Rio Branco, Daniel Zen e Márcio Batista, expuseram as novas exigências do Ministério da Educação.
A assembleia da AMAC também teve a participação do senador Jorge Viana, que expressou preocupação com a possibilidade de a crise que atinge os Estados Unidos afetar os municípios acreanos por meio do corte de verbas destinadas ao estado.
“Os prefeitos devem se preparar para um corte no orçamento da União para 2012 que não será menor que os R$ 50 bilhões que a presidente Dilma cortou este ano”, alertou.
Jorge Viana lembrou que uma alternativa positiva para os estados e municípios brasileiros será a resolução positiva do impasse relativo à divisão dos lucros do pré sal, cuja votação do veto presidencial ao projeto que visa a partilha dos royalties deve ocorrer em setembro.
Em dezembro de 2010, Lula vetou o artigo que determinava a divisão dos royalties do petróleo entre todos os estados e municípios brasileiros. Outro artigo vetado destinava metade do dinheiro do Fundo Social do pré-sal a programas de educação.
O modelo aprovado pelos parlamentares e vetado pelo presidente previa a partilha dos royalties conforme os percentuais do Fundo de Participação dos Estados e dos Municípios. Caberia à União compensar os estados produtores pelas perdas com a divisão.
O prefeito de Cruzeiro do Sul, Wágner Sales, vice-presidente da AMAC, afirmou que o ex-presidente Lula “se acocou” para Rio de Janeiro e Espírito Santo ao vetar o artigo que determinava a divisão dos royalties do petróleo entre todos os estados e municípios brasileiros.
Na “Terra dos Náuas”
Estou em Cruzeiro do Sul, acompanhando o prefeito Bira Vasconcelos na IV Caravana de Prefeitos ao Vale do Juruá. Foram quase 12 horas de uma cansativa, mas prazerosa viagem pela BR-364, com paradas nos municípios de Manoel Urbano, Feijó e Tarauacá, conforme as quatro últimas postagens abaixo, em ordem cronológica inversa
O prefeito de Xapuri participa, neste final de semana, da Reunião Ordinária da Associação dos Municípios do Acre (Amac) e das inaugurações da Ponte da União, sobre o Rio Juruá, e do Hospital da Mulher e da Criança do Juruá, com a presença do governador Tião Viana e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Na chegada à “Terra dos Náuas”, o registro da beleza da Catedral de Nossa Senhora da Glória, cujo Novenário tem ponto alto na próxima segunda-feira, dia 15. Nas postagens vindouras, informações e imagens sobre a inédita viagem do blogueiro à bela região do Juruá, assim como sobre os eventos dos quais o prefeito Bira Vasconcelos participará aqui em Cruzeiro do Sul.
Um excelente sábado a todos.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Tarauacá
Em Tarauacá, última parada antes de chegar a Cruzeiro do sul, os participantes da IV Caravana de Prefeitos ao Vale do Juruá foram recebidos para o almoço, que foi servido na Loja Maçônica da cidade. A igreja São José é cartão postal da terra do abacaxi gigante.
Acima, a ponte sobre o rio que leva o nome do município.
Feijó
Feijó é uma cidade bastante arrumada, no sentido de organização e limpeza do espaço público. Por volta do meio-dia, quando passei pela terra do prefeito Dindim, o povo se preparava para o show do cantor Reginaldo Rossi, atração do dia no Festival do Açaí.
Acima, visão do rio Envira, que banha o município.
Caravana dos Prefeitos
Dirigentes municipais tomam café da manhã em Manoel Urbano e Bira Vasconcelos se encontra com o prefeito Chico Mendes
A primeira parada da IV Caravana dos Prefeitos ao Vale do Juruá ocorreu no município de Manoel Urbano, onde o prefeito Chico Mendes e seu indefectível boné recepcionou os colegas com um café da manhã servido na sede da prefeitura.
Tal qual o prefeito Chico Mendes, Manoel Urbano é uma cidadezinha mui simpática.
Rumo ao Juruá
Peguei a estrada no momento em que o sol nascia, no começo desta sexta-feira (12). Meu destino é Cruzeiro do Sul, onde acompanharei a participação do prefeito Bira Vasconcelos na IV Caravana dos Prefeitos ao Vale do Juruá.
Outra caravana, do governador Tião Viana, também está na estrada com o mesmo destino. Tião inaugurará, neste final de semana, a Ponte da União, levantada sobre o rio Juruá, e a Maternidade de Cruzeiro do Sul.
O dia promete ser intenso.
“Xapuri com todos”: mobilização como profilaxia
Sérgio Roberto Gomes de Souza
Muito interessante os textos que, gradativamente, constroem um debate sobre o município de Xapuri. Chamo atenção, no entanto, para um fato: as escritas publicadas, bem como seus autores, não podem desenvolver com o espaço e os sujeitos sociais que o habitam/constituem, uma relação instrumental de sujeito x objeto.
Essa perspectiva é bastante tentadora, na medida em que encarnamos o ideário de portadores de um saber cognitivo, legitimado em instituições acadêmicas - universidades, por exemplo - que deveria (sic) sobrepor-se as relações empíricas de uma multiplicidade de saberes e fazeres que se constituem em uma intensa relação com o espaço de vivência.
Em outras palavras, não seremos os que apontarão soluções, penso que a maior contribuição e fomentar um processo de debates que se amplie, envolva a comunidade e crie espaços corriqueiros de comunicação, mobilização e articulação.
Não podemos, como diria José Murilo de Carvalho, “bestializar o povo”,[1] tendência muito presente na sociedade brasileira e que se expressa de forma muito intensa no primeiro período da República.
A obra de Murilo de Carvalho trata exatamente de como o novo regime foi proclamado. De acordo com Aristides Lobo:
O povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido protagonista dos acontecimentos assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar.[2]
Aristides Lobo era um entusiasta do regime republicano, no entanto, não hesitou em demonstrar seu “pecado original”. Uma questão nos inquieta: quais os motivos para que o “povo” não tivesse se tornado um importante protagonista desse processo? Para dialogarmos um pouco com esse problema, vejamos a frase de Louis Couty, francês residente a muitos anos no Brasil, quando tratou sobre a participação da população do país nas ações/decisões sócio-políticas: “O Brasil não tem povo.[3]”
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[1] José Murilo de Carvalho e autor da obra Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi. Cia das Letras. 1987
[2] Carvalho, Jose Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo, Cia das Letras, 1987, p. 09.
[3] Idem. P. 10
Essa afirmativa de Couty não causa tanta estranheza. Alguns anos antes, para ser mais preciso no dia 19 de abril de 1869, Joseph Arthur de Gobineau[4] enviara correspondência à sua esposa Caroline de Gobineau, onde apontava a miscigenação como o principal problema do Brasil. Segundo ele:
Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações do casamento entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que as matizes da carnação são inúmeras, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto. [5]
Gobineau chegou a afirmar que tinha fortes indícios que apontavam para um gradual, mas efetivo processo de desaparecimento da população brasileira. Partindo do pressuposto que a população do país havia reduzido em cerca de um milhão de habitantes no prazo de 30 anos, argumentava:
É interessante conhecer esse fato totalmente inexplicável. A grande maioria da população brasileira é mestiça e resulta de mesclagens contraídas entre índios, negros e um pequeno grupo de portugueses. Todos os países da América, seja no norte ou no sul, hoje nos mostram, incontestavelmente, que os mulatos de distintos matizes não se reproduzem além de um número limitado de gerações. A esterilidade nem sempre existe nos casamentos; mas os produtos da raça chegam a ser tão malsãos e inviáveis que desaparecem antes de darem à luz, ou então deixam rebentos que não sobrevivem.[6]
Aplicando uma equação matemática bastante simples, Gobineau parte do princípio de que, se houve uma redução populacional de um milhão de pessoas no período de trinta anos, a perspectiva era de que ocorresse o total desaparecimento da população mestiça em um período de 270 anos, no entanto, isso poderia ocorrer em maior intensidade, cerca de duzentos anos, “dada à degenerescência brasileira como resultado do prosseguimento indefinido das misturas completas de mestiços.” [7]
Para Gobineau, a solução para o desparecimento dos nacionais passaria por evitar o processo de miscigenação racial recorrente no país e a aproximação com os europeus, que deveriam chegar aqui em número cada vez maior, propiciando uma supremacia branca. Segundo o Conde:
Mas se em vez de se reproduzir entre si, a população brasileira estivesse em condições de subdividir mais ainda os elementos daninhos de sua atual constituição étnica, fortalecendo-se através de alianças de maior valor com as raças europeias, o movimento de destruição observado em suas fileiras se encerraria, dando lugar a uma ação contrária. A raça se restabeleceria, a saúde pública melhoraria, a índole moral se retemperaria e as mais felizes mudanças se introduziriam na situação social desse admirável país.[8]
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[4] Durante o período em que chefiou a delegação diplomática da França no Brasil, entre os anos de 1869 e 1870, Joseph Arthur de Gobineau, o Conde de Gobineau, fez várias considerações sobre os brasileiros e suas origens étnicas.
[5] Carta a Caroline de Gobineau. In Raeders, Georges. O Conde de Gobineau no Brasil: com documentos inéditos; tradução de Rosa Freire, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 90
[6] O Conde de Gobineau no Brasil: com documentos inéditos; tradução de Rosa Freire, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 241
[7] Idem, p. 241.
[8] Idem Ibdem. P. 242
Estas concepções influenciariam vários intelectuais brasileiros no início do século XX. Nomes como Euclides da Cunha, Oliveira Viana, Nina Rodrigues, Roquete Pinto e Monteiro Lobato foram, em menor ou maior intensidade, partidários destas idéias. No período, “a ‘eugenia’ foi uma teoria que serviu para as elites dirigentes – às quais pertenciam a maioria dos intelectuais da época – explicarem seu modo de conduzir o país, pois, para eles, os brasileiros não haviam promovido o desenvolvimento harmônico da nação porque o clima e a mistura de raças inferiores geravam uma população preguiçosa, ociosa, indisciplinada e pouco inteligente.”[9]
Nessa perspectiva, “Teríamos sido condenados, pelo nosso estoque racial e pelo clima tropical da pátria, à eterna inferioridade e improdutividade.” [10]
O desenvolvimento da microbiologia e as ações sanitaristas lideradas por médicos como Osvaldo Cruz e Carlos Chagas no Rio de Janeiro a partir de 1903, com o intuito de extirpar da Capital Federal a peste bubônica, varíola e febre amarela mudaria este cenário.
Os médicos-higienistas teriam um papel fundamental na reformulação das concepções que estabeleciam o determinismo racial como causa da grande maioria dos problemas existentes no Brasil. “os conhecimentos dos médicos-higienistas sobre a saúde dos brasileiros e sobre as condições sanitárias em grande parte do território nacional, revelados ao público em meados de 1910, absolviam-nos enquanto povo e encontravam um novo réu. O brasileiro era indolente, preguiçoso e improdutivo, porque estava doente.”[11]
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[9] Thielen, Vilela Eduardo. Et. Al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Osvaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro. Fiocruz/Casa de Osvaldo Cruz, 1991. P 5.
[10] Lima, Nísia Trindade & Gilberto Hochman. Condenados pela Raça, absolvidos pela medicina: O Brasil Redescoberto pelo Movimento Sanitarista da Primeira República. In: Maio, Marco Cor (org.). Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro, editora Fiocruz/CCBB, 1996. p. 23
[11] Idem p. 23.
Um importante personagem que representa esse novo discurso é o “Jeca Tatu”, de Monteiro Lobato. Homem sem coragem para o trabalho que só adquiriu disposição a partir do momento em que a medicina e seus saberes intervêm em sua vida e o fazem adquirir novos hábitos higiênicos.
Uma passagem do Relatório de Governo enviado por José Thomas da Cunha Vasconcelos [12] ao Ministro de Interior e Justiça João Luís Alves no ano de 1925 chama atenção. Ao tratar sobre os problemas financeiros que enfrentava para o desenvolvimento de ações sanitaristas e higienistas no Território do Acre, ressaltava a importância de reverter o quadro de endemias e epidemias na região como principal condição para ter braços disponíveis para o trabalho. Nessa perspectiva, a raça poderia ser “regenerada” através da medicina e da introdução de “novos hábitos higiênicos”. Utilizando como referencia a célebre frase do médico e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro Miguel Pereira, pronunciada em outubro de 1916, ressaltava que este “brado patriótico” deveria servir como referencia para a ação dos governantes brasileiros:
É preciso que a frase do grande professor Miguel Couto – o Brasil é um vasto hospital – fique apenas como um brado patriótico lançado aos governos do pais para que cuidem da regeneração da raça, que definha e morre atormentada pela tuberculose, paludismo, anchylostomiase e pela leishmaniose.[13]
No mesmo relatório, Cunha Vasconcelos traçou um perfil biológico do habitante do Acre, segundo ele:
Um typo desnervado, desfibrado, desmesuradamente amarello e obeso, estragado pela perda da coragem, pela incapacidade morbida de uma vontade sem energia, pela absoluta carencia de ideias, reduzido a um feixe de ossos mortos, verdadeiro espectro do corpo que viveu, hoje inutil para as luctas fecundas das produções remuneradoras e uberes, no fundo preguiçoso das redes, que lhe balançam a agonia torturada dos orgãos apodrecidos e enervados pelas infecções morbidas. [14]
Cunha Vasconcelos reproduz no Acre o discurso do movimento sanitarista, quando ressalta a necessidade do poder público centrar suas medidas administrativas para a solução do problema, combatendo as “endemias regionais” que tornavam o habitante do Acre “indolente,” sem ânimo para o trabalho:
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[12] Governador do Território do Acre entre os anos de 1923 e 1926. Devido a seu comportamento autoritário e violento, era conhecido na Região pela alcunha de “Surucucu”, a maior e mais peçonhenta serpente da América do Sul.
[13] Relatório de Governo de José Thomas Cunha Vasconcelos, Rio Branco – AC, 1925. P. LXXXIV
[14] Relatório de Governo de José Thomas Cunha Vasconcelos, Rio Branco – AC, 1925. Pp.
LXXIV e LXXXV.
A política administrativa do Acre deve ter por base o combate sem trégua ás endemias regionais para a salvação do braço, que planta a semente, que fecunda a terra, que nos da sua inexaurível riqueza.[15]
Paradoxalmente, no mesmo relatório, Cunha Vasconcelos ressalta que, apesar da limitação de recursos e o “quadro tétrico” que explicitava, no perfil que traça do habitante do Acre, “medidas” estavam sendo desenvolvidas para o surgimento no Território de um novo “typo”, resultante das intervenções sanitaristas e higienistas desenvolvidas em seu governo, com o apoio do Governo Federal. O novo “typo” que estava em processo de constituição, nada lembra o “amarelo, obeso e preguiçoso” e aproximava-se do biótipo europeu. Sem meias palavras e com uma profunda ausência de modéstia, Vasconcelos afirma:
Preocupados na preparação de um ambiente cada vez mais propicio ao desenvolvimento da qualidade das raças humanas, os governos não se têm poupado esforços no sentido de apresentar um typo cujas características étnicas e physicas, se aproximem quanto possível de um ideal de perfeição. Ahi estão a Suécia, Alemanha e Dinamarca e tantos outros povos que marcham á vanguarda do progresso n´um esforço constante e continuado, procurando relacionar e melhorar o tipo de seus nacionais, para que eles formem um corpo homogêneo capaz de dar a Patria a atividade intelectual e physicas que ela precisa. [16]
A intelectualidade brasileira tentou explicar sua descrença no “povo” e na sua capacidade de participar efetivamente dos processos de construção e decisão dos rumos de seu país, estado ou município pela perspectiva “cientificista”. A princípio pela inferioridade racial resultante da miscigenação e posteriormente pela exposição às endemias, epidemias e um clima causticante.
Foi nesse cenário que o “povo”, seus saberes e fazeres, foram sendo excluídos. Não se enxergava legitimidade em suas ações, jeito de falar, vestir, andar etc. criou-se a concepção de que o “povo” deveria ser “educado”, obviamente aos moldes europeus, cabendo esse papel à intelectualidade republicana.
Para se ter garantias, foi desenvolvido um intenso processo de normatização dos costumes - através de Códigos de Posturas das cidade, por exemplo - e criado diversos sistemas disciplinares. Veja o que diz o Código de Posturas da cidade de Rio Branco de 1928:
Ficam prohibidos, sob pena de multa de 20$000 a 50$000 proferir ou escrever em locais públicos, palavras obscenas ou traçar figuras immoraes pelas paredes, passeios, portas, muros, vehiculos, etc. chegar as portas ou jannellas ou andar pelas ruas ou logares públicos em trajes indecentes, ou em estado de nudez, fazer rifa; vender ou distribuir manuscritos impressos ofensivos a moral publica; urinar e defecar em logares públicos.[17]
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[15] Relatório de Governo de Hugo Ribeiro Carneiro, Rio Branco – AC, junho de 1929, p. 52
[16] Relatório de Governo de José Thomas Cunha Vasconcelos, Rio Branco – AC, 1925, p. 93.
[17] Código de Posturas da cidade de Rio Branco, Acre, 23 de julho de 1928.
Não se via motivos, então, para a inserção desses sujeitos sociais em processos participativos. Temos que fazer o inverso, fazer a história a “contrapelo”, como diria Walter Benjamin. Nessa perspectiva, a participação do “povo” de Xapuri passa a se constituir em algo fundamental para a realização de uma “visita” aos problemas do município e na construção de sugestões.
Pessoalmente, essa é minha única sugestão. Não sei o que fazer para revigorar o comércio, fortalecer a estrutura urbana do município ou resolver seus problemas estruturais. Aí entra a questão final desse texto: a mobilização do “povo” de Xapuri sempre foi e continua sendo a principal alternativa para resolver os problemas que se apresentam. É necessário, no entanto, que esse protagonismo não seja artificial, não pode ser constituído em meros encontros formais, mas com o revigoramento dos movimentos sociais, com liberdade para seus atores e também uma participação efetiva daqueles que não estão inseridos em movimentos organizados. Qual o formato? Não sei. Como fazer? Não sei, quem sabe se iniciarmos as conversas não acharemos um jeito.
Sérgio Roberto é xapuriense e professor da UFAC.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
“Amigo é coisa para se guardar…”
Carlos Estevão Ferreira Castelo
Falou Nader Sarkis, um dos muitos amigos de meus anos verdes em Xapuri. Tenho que aproveitar sua manifestação. Não para “pitacar” sobre seus argumentos, mas para prestar uma pequena homenagem e solicitar desculpas a esse valoroso xapuriense (com emoção e razão). Aproveito também para relembrar tempos passados, sem perder de vista o alerta de Sérgio Roberto, ou seja, de que “...não podemos meramente opor o tempo, de o reduzirmos a dois polos: presente e passado. Os tempos se perpassam, o passado está constantemente passeando no presente e quando lançamos mão de nossas memórias, fazemos corriqueiramente influenciados pelas nossas vivências”.
Sou amigo de Nader desde criança. Apesar do mesmo, “naquela época boa”, morar na “Coronel” e pertencer a “turma” de cima (a lá “da praça”). Eu morava na Floriano Peixoto e pertencia a turma do “coqueiral”. Na minha turma tinha Manú, Chicoral, Dalcides, Bila, Zé Neguin, Márcio do Mucuin, Mimizão, Roberta, Fernanda, Maura, Delaide, Vandoca, etc. Turma essa que, muitas vezes, costumava se misturar com a galera da “Major”. O celeiro dos “bons de bola”, como Julinho, Zé Henrique, Pipiuna, Rildo da Bia e outros. Na turma da “Major”, vez por outra, pintava o Pinicoral, Bazuca, e tantos outros. As turmas se encontravam em “bandeirinhas”, “barras” e “barreliuns” nas noites xapurienses. Bem pertinho do “poste da D. Euri”.
Mas comecei a me relacionar com Nader com mais frequência quando fui morar, temporariamente, nos fundos do escritório da antiga Eletroacre. Que ficava atrás da praça, ali pertinho da ponte da Bolívia. Deixei temporariamente minha turma e passei a conviver com o pessoal das imediações da “Coronel”. Lembro-me que depois da janta, costumávamos conversar muito nos bancos daquela praça. Na escola, eu e Nader já convivíamos, mesmo eu sendo um ano mais “adiantado” que ele. Por algum motivo, que não me recordo, em algum momento passamos a estudar na mesma sala. Inclusive terminamos a 8ª série juntos. Também estudamos o primeiro ano do segundo grau na mesma classe (com Bolão, Gewan, Paulo da Teleacre, Rosinha, Luzia Argolo,etc).
Uma das primeiras lembranças que tenho de Nader, foi, em um ano de meu Deus onde o Professor Joacir Matos liderou a passeata do dia das crianças, elegantemente vestido de “lobo mau”. Em Xapuri, essa passeata era organizada tradicionalmente pelos professores do “Divina Providência”. Fui para a caminhada fantasiado de Gilberto (o sobrinho do Pateta). Após a passeata, na hora da merenda que distribuíam no “Divina”, pouco antes da “boateca”, recordo-me do Nader, do Roti e Gewan, rindo de mim que, totalmente desengonçado, fazia uma foto com minha irmã e irmão para a posteridade. Estavam os três amigos em um banco do “Divina” observando a presepada. Nader, com um flauta de brinquedo vermelha na mão, acho que já ensaiava seus primeiros passos na música. Isso ficou na memória, não sei bem o porquê, mas ficou.
Outra boa recordação é de um circo, nos fundos da casa de Nader. Em Xapuri sem TV, fazíamos coisas inimagináveis para meu filho Pedro, que hoje tem 8 anos. Inclusive, quando conto o que aprontávamos a Pedro, ele acha que estou inventando. Duvida que aprendi a nadar com 7 anos, no açude do “Cachoeira”. Que subia em árvores frutíferas para “pegar” talas grossas, de coqueiro do “coqueiral”, talas selecionadas, para fazer as “pepetas” que tanto adorava. Quanto conto a Pedro que no carnaval saia “mascarado”, ele não consegue visualizar tal cena. O fato é que durante os preparativos para a estreia do circo convivi com Nader e seu irmão Tadeu – o famoso “esporão de galo” - de forma muito constante. Acho que cheguei até almoçar, uma vez, em sua casa. No dia da estreia do circo o Toinho, de Seu Sólon, caiu e quebrou o braço. O circo acabou na hora. Lembranças....
Não esqueço também as peladas que jogava com Nader (e outros amigos) nos campinhos improvisados de Xapuri, entre os bancos da praça São Gabriel. Nader, como eu, já era botafoguense e possui muita habilidade com a “pelota”. Entre uma pelada e outra, uma boateca e outra, uma aula no “Divina” e outra, íamos construindo e formatando nosso caráter. Tempo, tempo, tempo, tempo...(pensado nos acordes de Caetano).
Nader torna-se locutor da rádio “Difusora 6 de agosto”. E eu, já em Rio Branco, perco contato com Xapuri e com meu amigo de infância. Somente voltamos a nos “encontrar” no "Impacto 3", grupo musical que fundamos no ano em que voltei a morar em Xapuri. Encontrava-me cansado de tanto estudar Economia. Por isso, havia resolvido trancar o curso e voltar para uma temporada em Xapuri. Era 1986.
Esse grupo, penso eu, entrou para a História da Música no Município, por ter utilizado, pela primeira vez, um teclado com ritmos eletrônicos. Antes, a música em Xapuri era “tocada” (muito bem por sinal) por “conjuntos” compostos por vários instrumentos. Utilizavam bateria, baixo, guitarra, etc. Com o “Impacto”, inovamos. Nunca vou esquecer a “festa de debutantes” onde tocamos oficialmente pela primeira vez juntos. Era 1987. Com apenas um pequeno teclado “Casio”, não profissional, e com o auxilio luxuoso de um violão, velho, colocamos a “galera para dançar”.
Oitenta mesas vendidas. “Ponto Chic” lotado, todo lotado. Eu, com uma insegurança monstra, fruto do inicio na música decorando cifras. Naquela noite a “sociedade xapuriense” aplaudia de pé o Sr. Darly Alves, o mesmo que viria, tempos depois, mandar assassinar Chico Mendes. A filha de Darly debutava. Lembra dessa amigo?
Outra vez, no “Flauzino”, fazíamos junto uma boate/baile. Daí chega o primo Bila, com a assertividade que lhe é peculiar, e começa a criticar nosso grupo. Minha insegurança “foi para o espaço” e não conseguia mais executar acorde nenhum. Nader interveio, não aceitou aquilo. Deu um “puxão de orelha em Bila”. Obrigado amigo, não imaginas quanto seu ato, simples, contribuiu para minha formação. Naquela noite, ao chegar em casa, pensei: “nunca mais deixarei ninguém me colocar para baixo”. Nunca vou esquecer. São pequenas coisas que ficam para sempre.
Coisas como a visita feita por Nader, Gewam e Bolão, após eu retorna de Rio Branco com a perna quebrada, devido a um acidente automobilístico. Estávamos na 4ª série. Acho que foram os únicos que me visitaram em minha casa. Para “dar uma força”. Outra vez, obrigado.
O “Impacto 3” acabou, se transformou em um outro grupo que viria a ganhar fama em Xapuri e redondeza, o “H-UELEN”. Entretanto, antes do “Impacto” desaparecer, quando ainda ensaiávamos na casa de Nader, ali “na 24”, descobrir que além de botafoguense e o gosto pela música, tínhamos outra coisa em comum: uma certa dificuldade para “iniciar a prole”. Mas Nader conseguiu, eu também. Nader abriu seu coração para Haroldo, eu para Kadú. Depois Deus presenteou Nader com Elias, em seguida veio mais um. Eu, da mesma forma, ganhei Júlia, depois Pedro. Parecido, né amigo?
Devo dizer que sofri bastante quando Nader teve problemas de saúde. Que graças a Deus conseguiu superar. Lembro-me perfeitamente quando sua irmã, na frente da casa do Zé Bacu, falou-me que Nader estava em São Paulo. “Esta superando os problemas”, disse ela. Como fiquei feliz. Da minha forma, do meu modo. E não é que tempos depois também sou surpreendido com problemas de saúde. Ligo para o celular de Nader, apreensivo, e, como sempre, sua voz amiga me conforta e me deixa esperançoso. Naquela noite dormi mais tranquilo. Mais uma vez, obrigado, amigo.
Bem, poderia continuar mais dez, vinte, trinta páginas, rememorando coisas que vivi, em Xapuri, com o velho amigo e irmão Nader Sarkis, mas penso que não interessaria aos leitores. Finalizando então pedindo desculpas para Nader se, de alguma forma, o deixei triste com o texto resposta ao Haroldo. Devo confessar (Nader pode acreditar ou não), que nem lembrei sua ligação paterna com Haroldo quando escrevia o texto, somente depois.... Penso, também, que não exagerei, não fui grosseiro ou desrespeitei o filho de meu amigo. Mesmo assim, peço desculpas, por tudo o que já vivenciamos e ainda vamos vivenciar. Não pelo conteúdo do texto, mas pelo fato de ter provocado, mesmo que por mínimos momentos, tristeza no “coração valente” de Nader.
Quanto a proposta de fazer “...um bom debate presencial, para afinarmos as ideias, fazer uma ampla discussão sem interferências partidárias acerca do melhor para Xapuri...”, diria a Nader que acho muita bem vinda. Com certeza participaria, se convidado. Fiquei muito animado, até proporia fazer esse encontro de e para xapurienses por ocasião das defesas públicas das monografias dos alunos de Economia. São temas interessantíssimos, que poderiam servir como referência para as discussões. As defesas ocorrerão no final de agosto e inicio de setembro. Depois, amigo Nader, quem sabe não poderíamos tocar juntos novamente na colação de grau do pessoal. O que achas?
Carlos Estevão Ferreira Castelo é xapuriense.
Razão e emoção no campo das ideias
Nader Sarkis
Temos percebido que o insistente “debate” sobre Xapuri a partir da repercussão de uma frase proferida pela D. Carmem Veloso ao blog do Altino Machado, de que “Xapuri está uma merda”, uma senhora de 90 anos que merece todo o respeito por sua história de trabalho que muito contribuiu para construção dessa cidade, foi tão marcante que ainda é o centro das atenções dos leitores da rede, sobretudo nos blogs hospedados em Xapuri.
Não concordo plenamente com a frase de Dona Carmen, pois falo como cidadão que enxerga algumas ações positivas desenvolvidas atualmente em nossa cidade, mas admiro sua franqueza, pois como num passe de mágica ela conseguiu mexer com os brios dos xapurienses, com certeza sem imaginar que o pós-frase levasse a esse eclético debate.
Tomara que com isso tenhamos dado os primeiros passos pra realmente discutirmos o que é melhor para Xapuri, no campo educacional, na saúde, na economia, na cultura etc., agora de forma sincera, franca, leal, transparente, com responsabilidade e conhecendo realmente o que aqui e em suas adjacências acontece em sua total dinamicidade, que possamos ter sim direito de sugerir, além disso, de ter o dever moral de buscar a melhoria da cidade que afirmamos gostar.
As opiniões reveladas através dos textos e os comentários sobre Xapuri não podem encerrar-se simplesmente porque houve interpretações dúbias, porque alguém achou que a tal da carapuça sentou. É certo que na razão ou na emoção, alguns belos textos foram aparecendo na tentativa de endossar, contrariar ou interpretar a famosa frase da D. Carmem Veloso. Definitivamente, o que não pode acontecer agora são esses brios se apagarem daqui a uns dias, ou seja, é interessante que haja um bom debate presencial para afinarmos as ideias, fazer uma ampla discussão sem interferências partidárias acerca do melhor para Xapuri, essa é a hora.
Percebeu-se unanimemente que Xapuri poderia está melhor e que a cidade tem sofrido ao longo de décadas, e que na opinião de alguns, os governos do PT nas três esferas teriam que resolver parte dos problemas locais. Falou-se sempre disso, embora eu reconheça, pelo menos, até que me provem o contrário, que nunca cobramos de fato dias melhores pra terrinha. Por enquanto, a maneira mais cômoda de cobrarmos, ou melhor, punirmos tem sido nas urnas, foi o que sempre aconteceu, mas não significa que sempre se fará assim ou que em todos os lugares seja assim.
Pode parecer paradoxal, mas no nordeste, apesar do carisma e da expressiva votação do então Presidente Lula, sabe- se que ele não conseguiu resolver de uma vez por todas, por exemplo, os problemas do seu estado natal, Pernambuco, no período em que passou no comando da nação. Lá, o analfabetismo ainda impera, sem contar com a situação precária da saúde, fome, desemprego etc. Mesmo assim é bastante provável que tenha ótimos índices nas urnas, caso pleiteie novamente o cargo majoritário do país.
Voltando a ênfase Xapuri, acatei vários argumentos, mas discordei do meu parceiro e amigo Prof. Carlos Estevão, alguns dias atrás quando ele faz uma analogia a partir de informações colhidas de seus alunos acerca do comércio local atribuindo-o falência. Nessa senda, este subscritor relatou alguns dados da realidade diária e além daqueles, semana passada, quando precisei fazer uma minúscula reforma em minha casa, pesquisando preço pelas três grandes casas de material de construção da cidade, (brevemente haverá a quarta) tive que esperar pra ser atendido em todas elas, haja vista uma grande quantidade de consumidores comprando do prego ao acabamento. Se sairmos pela cidade constataremos inúmeras construções e, diga-se de passagem, com elevado padrão de qualidade.
Pode haver algum segmento do comércio falido, mas em linhas gerais, pelo que percebemos no cotidiano, o comércio local não vive seu boom, mas ainda respira ar de boa receita, apesar do fluxo de dinheiro todo fim de mês lá pras bandas da Cobija.
Em outra citação falei do respeito que tenho pela Fundação Chico Mendes, por toda sua trajetória, pelo seu nome que certamente já atraiu vários recursos para o estado. É justamente aqui que está o principal reclame dos amantes de Xapuri ao entenderem que devido essa relação nosso município haveria de receber um volume maior de investimentos dos governos estadual e federal, os royalties já sugeridos pelo Prof. Carlos Estevão, que infelizmente ainda não tivemos, digamos, essa prerrogativa. Contudo não concordei que o fechamento temporário da Casa Chico Mendes se constituísse no fator exclusivo ou o termômetro pra dizer que Xapuri está bem ou não, como ocorreu num post do mês passado do jornalista Adailson Oliveira tentando justificar a tal frase de D. Carmem Veloso.
Finalizando, sustento a ideia de que estamos começando a construir uma base sólida para um futuro debate que venha apontar alternativas pra cidade ou que contribua de maneira mais consistente com a administração atual ou outras que virão. Um plano sem cor partidária que possa permear diferentes atividades com sustentabilidade e que possa fazer valer o verdadeiro peso do nome Xapuri. Utopia? A resposta está em cada um de nós.
Nader Sarkis é professor.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Discutindo a cidade
Maxsuel Maia
A internet é mesmo uma ferramenta sensacional. Ela une, aproxima as pessoas, acelera as informações e o processo histórico, levanta debates, promove artistas, divulga trabalhos, nela, um mundo cada vez mais virtual acontece e se reinventa a cada dia.
Muitos seriam incapazes de pensar num mundo sem MSN, Orkut, sem os seguidores do Twitter, os amigos do Facebook ou sem falar dos mais variados temas em seus blogs. E é justamente para falar sobre os blogs que faço essa postagem. Falar deles e de como eles têm contribuído para o fortalecimento da democracia em nosso município.
Logo quando iniciei com minhas postagens, há aproximadamente um ano e meio, publiquei um texto intitulado “Juventude em Coma”, no qual falava de minhas preocupações sobre a total inércia da juventude xapuriense frente aos problemas da cidade. A postagem era dedicada à falta de atitude dos jovens, mas a verdade é que, àquela altura, grande parte da população enfrentava os problemas vividos em Xapuri com total apatia.
As pessoas simplesmente preferiam ignorar o estado das coisas, muitas se negavam a discutir, a debater a cidade, sequer queriam ouvir falar em política, e quando digo política, não é a partidária, quando falo em política, falo de ideias, de discutir os possíveis rumos para “colocar Xapuri nos trilhos do desenvolvimento”, como eu mesmo cantava no jingle de campanha do prefeito Bira. Hoje, vejo o cenário se alterando favoravelmente e digo sem medo de errar: se tem um espaço onde a cidade está sendo discutida, esse espaço é a internet, mais precisamente nos blogs xapurienses.
As discussões têm se acalorado nos últimos meses e, ao contrário do que alguns possam imaginar, isso é excelente para a cidade. Como é bom ver valorosos xapurienses, independentemente de morar em Xapuri ou não, fazendo suas críticas, dando suas opiniões, apontando possíveis soluções, reconhecendo os acertos da atual gestão. Isso enriquece o jogo democrático e só poderá render bons frutos, afinal, estamos todos em busca de um bem comum, o bem da nossa querida Xapuri.
Sei que quando surgem críticas alguns brios são ofendidos, assim como as réplicas e tréplicas ferem alguns orgulhos, mas acho que nesse momento, em que a cidade e seus rumos voltaram a ser ponto de destaque nos debates, o melhor é não deixar que os egos tomem de conta, pois nossa causa é bem maior. Finalizo parabenizando aos blogueiros xapurienses por reaquecerem as discussões sobre nossa cidade.
Maxsuel Maia é blogueiro xapuriense. Maxsuel Xapuri é o blog dele.
Viva o Ufanismo
João Baptista Herkenhoff
Os mais velhos hão de se lembrar de um livro que nos fazia ter orgulho da condição de brasileiro: “Por que me ufano do meu país”.
Afonso Celso, o autor, começava por realçar nossa grandeza territorial, este Brasil imenso que nós falávamos que ia do Oiapoque ao Chuí.
Depois Afonso Celso exaltava a beleza do Brasil: o Rio Amazonas, a Cachoeira de Paulo Afonso, a Baía da Guanabara, a Floresta Tropical na sua pujança inigualável. Mesmo quem não tinha visitado esses lugares ficava com os olhos marejados de encantamento com a descrição que o escritor fazia de nossas plagas. Então Afonso Celso começava a falar de nossas riquezas naturais, do subsolo ainda inexplorado, do Brasil como celeiro do mundo. Ele não se esquecia de timbrar na amenidade e variedade do nosso clima. Quase de joelhos agradecia a Deus o fato de estar nosso país livre de vulcões, terremotos e outras catástrofes. E vinha depois o elogio da miscigenação, raças que se fundiram – índios, negros e portugueses – cada uma com suas virtudes, gerando o mestiço brasileiro. Refutando a versão de que degredados povoaram o Brasil, disse Afonso Celso que vieram para este solo heróis expulsos de outras terras pelos sonhos de liberdade. Também exaltou o nosso Afonso, como característica nacional, o procedimento cavalheiroso para com outros povos. Não se esqueceu de reverenciar os fastos de nossa História – os Bandeirantes, Palmares, a Independência, a missão civilizatória dos jesuítas, o grande monarca que foi Dom Pedro II.
Com tanta injeção de civismo, outro não podia ser o resultado: éramos todos patriotas, cantávamos com a alma o Hino Nacional, estávamos dispostos a qualquer sacrifício que a Pátria nos pedisse, preferiríamos morrer antes de algum dia nos tornarmos corruptos.
Depois Afonso Celso foi ridicularizado. Criou-se, a partir do título do seu livro, a palavra ufanismo com o sentido pejorativo que Aurélio e Houaiss registram: vanglória desmedida, patriotismo excessivo.
Será que Afonso Celso exagerou? Será que a dose de intensa brasilidade, que seu livro infundiu, trouxe prejuízo ao país?
Não partilho da visão negativa que se oponha a Afonso Celso. Abundância de brasilidade não causa dano. Ausência de brasilidade, isto sim é uma lástima.
Houvesse brasilidade sincera, não teríamos falcatruas, compra e venda de votos, traição aos interesses nacionais.
Resgatemos o ufanismo de Afonso Celso: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza.” (Jorge Ben Jor).
João Baptista Herkenhoff é professor da Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo. Autor de Filosofia do Direito (GZ Editora, 2010).Desfaçatez
Não é de admirar que Ilzamar Mendes tenha ido a imprensa negar (leia aqui) que a razão de haver fechado os Espaços de Memória do líder sindical tivesse algo a ver com a relação da família de Chico e o governo do Estado. Na nota, que é pura desfaçatez, ela “desfaz” afirmações de “setores da imprensa” que, pelo tom da viúva, seriam mentirosas.
Sexta-feira, 05 de agosto de 2011, Ano XLIV - nº 10.608.
ESTADO DO ACRE
DECRETO Nº 2.363 DE 4 DE AGOSTO DE 2011
O GOVERNADOR DO ESTADO DO ACRE, no uso das atribuições que
lhe confere o art. 78, inciso VI, da Constituição Estadual,
RESOLVE:
Art. 1º Nomear ELENIRA GADELHA BEZERRA, para exercer cargo
em comissão, referência CEC-5, na Secretaria de Estado de Turismo
e Lazer – SETUL.
Art. 2º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, com
efeitos a contar de 1º de agosto de 2011.
Rio Branco-Acre, 4 de agosto de 2011, 123° da República, 109º do Tratado
de Petrópolis e 50º do Estado do Acre.
Tião Viana
Governador do Estado do Acre
______________________________________________________________
Acima, a clara razão pela qual a viúva coloca panos quentes na crise que se estabeleceu entre o governo, na gestão de Binho Marques, e a família de Chico Mendes depois que o Ministério Público denunciou Ilzamar e Elenira por desvio de recursos oriundos de convênios com o governo do Estado que, por essa razão, não renovou o apoio financeiro à Fundação Chico Mendes.
Não estou fazendo contestação à nomeação de Elenira, muito menos colocando em dúvida a sua capacidade para exercer tal cargo, mas, da parte da família, dizer descaradamente que os Espaços de Memória foram fechados para reforma fica feio. No passado, todo o entorno da Casa Chico Mendes, com exceção do prédio da Fundação, foi revitalizado e inaugurado por Binho Marques no dia 15 de dezembro, data em que, se fosse vivo, o sindicalista teria completado 66 anos.
Menos, Ilzamar, menos.
Na estrada de tijolos amarelos
Amanda Maia
Até chegar àquele moinho,
Processador de pensamentos,
Lá no reino do nunca,
Onde o amor toca o tempo.
Onde as palavras são danças,
Onde o pequeno ser é guerreiro,
Onde os medos não entram.
Lá a Coragem é rainha,
Coroada pelo rei Coração,
Lá a morte não passa de um barco,
Lá, o que é solidão?
Lá não importa o que sei,
Ou o que fui, ou o que serei,
Lá o juiz é o perdão.
Lá o que sinto é o que farei,
Sem olhar pra trás, sem nem respirar,
Direi que amo você, direi, direi e direi,
E tudo será seu sorriso, tudo será seu olhar,
E então, meus sonhos realizarei,
E então, já poderei acordar".
Amanda Maia é diretora teatral na Bahia.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
“Evite Queimadas”
Instituto de Meio Ambiente do Acre realiza campanha educativa na Resex Chico Mendes. Alternativas ao uso do fogo serão apresentadas às comunidades rurais.
Da Assessoria do Imac.
Em parceria com a prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) desenvolve a campanha “Evite Queimadas” na zona rural de Xapuri, inclusive na Reserva Extrativista Chico Mendes. A programação, que começa nesta quarta feira, 10, e prossegue até sexta-feira, 12, inclui palestras e conversas entre os representantes dos órgãos e das associações rurais. O objetivo, segundo o chefe da Divisão de Difusão e Educação Ambiental do Imac, João Aníbal, é firmar parcerias com as associações e cooperativas, para evitar as queimadas.
“Divulgaremos a proibição dos ministérios públicos quanto às queimadas e às alternativas ao uso do fogo, como a mucuna e a mecanização. Falaremos ainda sobre o Licenciamento Ambiental das Propriedades”, relata João Aníbal.
As equipes da prefeitura de Xapuri e do Imac vão percorrer várias comunidades, começando pelo projeto de Assentamento Tupá, em seguida na Ribeiracre, Associação dos Moradores da Margem do Rio Acre até chegar ao Seringal Rio Branco, já dentro da Resex Chico Mendes. Cerca de 170 famílias vivem nas três localidades, e segundo o coordenador da Defesa Civil de Xapuri, Danilo Souza, em todas elas serão criadas brigadas contra incêndios.
“É importante essa parceria com o Imac, que nos dá o suporte técnico na questão da educação ambiental. O Corpo de Bombeiros orienta quanto à atuação das brigadas que serão treinadas para apagar focos de queimadas”, relata.
João Aníbal conta que o programa de Licenciamento Ambiental do governo do Estado será bastante valorizado durante as visitas. Por meio do programa, os produtores podem regularizar suas propriedades do ponto de vista ambiental, tendo acesso ao crédito e à assistência técnica diferenciada. “Por meio do programa, os técnicos avaliam qual a solução tecnológica para a recuperação das áreas, qual a potencialidade da área e que tipo de atividade econômica é mais viável para cada propriedade”, conta ele.
O diretor técnico do Instituto de Meio Ambiente do Acre, Paulo Roberto Viana, diz que cada vez mais o Imac quer desmistificar a ideia de órgão apenas repressivo, para se tornar parceiro das comunidades rurais. “O Imac é responsável pelo Licenciamento Ambiental das Propriedades, um programa que beneficia a todos e garante a produção nas propriedades rurais sem impactos ambientais. O Imac também está fazendo o licenciamento para a piscicultura, que promete ser um grande negócio no Estado. Nessas conversas ouvimos sugestões e encontramos parceiros dispostos a evitar danos ao meio ambiente como o fogo, que traz também problemas graves de saúde para a população das zonas rural e urbana”, conclui o diretor.
Subvenção do Látex
Seringueiros passam a receber valor três vezes maior ao que era pago anteriormente
Da Assessoria Seaprof
Foi publicado na ultima quinta-feira, 4, no Diário Oficial do Estado, o decreto nº 2.354, que estabelece o valor nominal da subvenção econômica para o látex, no valor de R$ 4,20. O aumento corresponde a três vezes a subvenção anteriormente estipulada pelo Estado.
Os extrativistas vendem o látex por quilo, pelo teor de borracha seca. Anteriormente o Estado pagava R$ 1,40 de subvenção e o Governo Federal subsidiava R$ 2,10, para se chegar ao preço mínimo de R$ 3,50 pelo quilo do látex. Com o novo teto estipulado pelo Estado, os seringueiros irão ter um incremento de 16% em cada quilo de látex comercializado.
Sob responsabilidade da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof), mais de 347 famílias estão inseridas no programa, movimentando um montante de R$ 246 mil por ano, produzindo 176 toneladas de látex transformado em borracha seca. “Com essa medida, o Governo do Estado pretende resgatar uma dívida histórica com os seringueiros do Acre, que tanto contribuíram para a construção do estado que conhecemos”, afirma Lourival Marques, Secretário da Seaprof.
A Presidenta Dilma Rousseff, também reconheceu a importância dos seringueiros da Amazônia. A Lei nº 12.477, de 15 de julho de 2011, considera os seringueiros Soldados da Borracha como heróis da pátria.
“O Governo do Estado, estará contemplando o subsídio federal e estadual. O impacto econômico será expressivo, o que dirá das consequências sociais e ambientais, oriundos desse processo de valorização e regaste da importância dos seringueiros, que há décadas nos ensinam como tirar o sustento da floresta, sem que haja a degradação dos recursos naturais”, ressalta Clóvis Alves, Diretor Técnico da Seaprof.
Para acessar os benefícios, basta que cada seringueiro esteja associado a alguma cooperativa ou associação que o represente. Na venda da produção as entidades repassam aos seringueiros o subsídio disponibilizado pelo Estado.
O incentivo econômico que o Estado proporciona aos seringueiros não encontra precedentes em nenhum outro estado. “O Estado tem buscado valorizar os seringueiros, quando propõe a fabricação de preservativos com matéria prima oriunda dos seringais nativos, quando elabora um programa de florestas plantadas, que disponibiliza mudas de seringueiras e quando no acordo de empréstimo junto ao Banco Mundial, insere a cadeia produtiva da borracha, com recursos de mais de R$ 1 milhão. Tudo isso faz parte de políticas públicas voltadas aos seringueiros de nosso Estado”, conclui Lourival Marques.
A democracia agradece
Eduardo de Souza
Big Raimari. Cá com meus botões, lendo as contendas, debates, opiniões sobre Xapuri, de ontem, hoje e sempre, divulgadas no seu Blog, resolvi entrar também no “caldeirão”, tipo meio “entrar de gaiato no navio”, com sua permissão, obviamente.
Muito salutar essa Ágora Xapuriense acontecendo dentro das regras democráticas, as vezes com temperaturas um tanto acima da média, mas nos conformes da etiqueta, da ética, como todo bom debate. Como você bem descreveu, XAPURI VALE UMA BOA BRIGA, e como vale!!
Pegando carona na literatura, eu ousaria até parafrasear Cervantes, tornando Xapuri nossa Dulcinéia (personagem do livro Dom Quixote de La Mancha), musa inspiradora do cavaleiro andante, que na descrição do escritor espanhol, afirma:
“...por sua qualidade hão de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão as suas damas...”Vamos ser todos Dom Quixotes da vida, a defender nossa Dulcinéia. O ditado popular diz que panela que muitos mexem ou sai insossa ou salgada, no caso vamos burlar essa máxima e tentar acertar esse tempero na medida certa, a causa é mais que justa.
Repetindo o que comentei outro dia, com o xapuriense Éden Mota, num e-mail, não me venham ingênuos de plantão dizer que quem mora fora de Xapuri, não tem “direito” de opinar. Minha ligação com Xapuri é INTRANSFERÍVEL, além do fato de ter residido na city por mais de 12 anos, de ter tido ótimas e excelentes passagens enquanto morei na cidade, experiências profissionais e pessoais inesquecíveis, foi onde minha filha Izadora nasceu. Tenho um apreço especial por Xapuri.
Das comparações, analogias e/ou sugestões feitas por xapurienses me chamou atenção a do Carlos Estevão. Num de seus esclarecimentos ele escreve como gostaria de ter visto o prefeito “chateando” secretários de estado (no bom sentido e dentro do respeito), alguns deles xapurienses, indo mais a Brasília com bons projetos, cavando recursos nos ministérios, alguns a fundo perdido, cobrando mais os parlamentares, cutucando, provocando mais órgãos como Suframa, CEF, BNDES, enfim, mais atividade na área. Achei relevante essa tomada do economista xapuriense. Um caso a refletir, na minha modesta opinião.
Não quero aqui minimizar o que já foi feito e está sendo feito de bom na cidade, dentro das possibilidades, como disse o Haroldo Sarkis, longe disso, mas acho que Xapuri pode mais, tem cacife para reivindicar muito mais do que já foi feito, e ainda é tempo, sempre existe tempo quando o bem comum é o objetivo principal.
Particularmente, gostaria de ver mais gente nesse “caldeirão” do bem, opinando, sugerindo, dentro das suas respectivas óticas. Que tal outros nativos da terra dando “pitacos”, como bem o fez o Sérgio Roberto?
Que tal mais “Dom Quixotes” e, porque não, “Dulcinéias” também, aqui nessa Ágora Xapuriense que o Raimari edificou no seu Blog? Tenho até propostas de nomes, alguns com apelidos, todos conhecidos xapurienses que espero não se aborreçam por serem citados por mim. O fato de nomear alguns que lembro no momento, não os obriga a proferir suas ideias ou entrar nesse “caldeirão”. Minha intenção é apenas estimular mais debate, mais ideias, esquecendo filiações partidárias que possam existir ou antagonismos que não levam a nada, objetivando tão somente o bem comum da nossa “Dulcinéia”.
Nos “Dom Quixotes”, eu citaria, por exemplo, o Badaró, o Bila, o Fefa, o Paulinho, o Broca, os Sarkis como o Andrias, Tadeu, Afonso. No lado das meninas, que tal adentrando na Ágora a Dorotéia, a Vaniscléia, Vanúbia, a Rannife, a reserva moral e cultural na pessoa da prof.ª Euri Figueiredo. Talvez isso seja uma ideia maluca minha, e claro, existem muitos, muitos outros nomes de homens e mulheres de bem na cidade, mas como disse, são apenas sugestões para mais gente nesse debate, nessa “briga”.
O Raimari tem toda razão, XAPURI VALE UMA BOA BRIGA! Habilite-se quem quiser nesse “caldeirão”. A democracia agradece.
Eduardo de Souza é cirurgião dentista, potiguar, radicado em Rio Branco depois de ter vivido 12 anos em Xapuri, onde foi professor de língua inglesa, gerou sua única filha, Izadora, e bebeu muita água do Rio Xapuri na companhia do saudoso Chico Silva.segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Carlos Chagas em Xapuri

Carlos Chagas (indicado pela seta), Pacheco Leão e João Pedroso, junto com a tripulação da embarcação usada na expedição. Foto: Acervo da Casa de Osvaldo Cruz.
No artigo “Alguns breves ‘pitacos’ sobre Xapuri”, o autor, Sérgio Roberto Gomes de Souza, cita a passagem da expedição de Carlos Chagas por aqui, no ano de 1913. Lembrei-me, então, que já havia postado alguma coisa sobre o assunto.
Recorri ao arquivo do blog e encontrei um post sobre o “Relatório sobre as Condições Médico-Sanitárias do Vale do Amazonas” apresentado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, em setembro de 1913, ao então ministro da Agricultura, Indústria e Comércio do Brasil – Dr. Pedro de Toledo.
O documento mostrava o resultado da expedição do igualmente famoso sanitarista Carlos Chagas à Amazônia, cujo objetivo foi estudar as condições de vida a nível médico-sanitário das populações e, em particular, dos seringueiros que habitavam o vale do rio Amazonas.
A intenção do governo brasileiro era estabelecer as bases da profilaxia a ser aplicada na região, com vista à resolução simultânea dos problemas médicos e sociais e dos problemas econômicos que deles advinham. Os problemas de saúde dos seringueiros afetavam largamente a produção da borracha, que se encontrava em desenvolvimento àquela época.
Entre outubro de 1912 e março de 1913, a comissão constituída por Carlos Chagas (indicado pela seta, na foto que ilustra o post), Pacheco Leão e João Pedroso percorreu os rios Solimões, Juruá, Purus, Negro, Branco e Acre, que representavam alguns dos principais centros de extração de borracha, passando por diversos seringais e povoados ribeirinhos, entre eles Xapuri.
Ao passar por Xapuri, a expedição de Carlos Chagas encontrou um povoado à margem direita do rio Acre que possuía a segunda maior concentração populacional do Departamento – 1.500 a 2.000 almas - e talvez o primeiro centro comercial. As casas, apesar de feitas de tábuas, eram agradáveis e as construções mais confortáveis que as de Rio Branco.
O relatório diz que Xapuri era bastante rica em produção de borracha, com um movimento comercial de grande intensidade, mostrando como exemplo que nos dias de permanência da Comissão na cidade se achavam no porto 10 grandes vapores (gaiolas) e diversas lanchas, que abasteciam com mantimentos as grandes casas aviadoras.
Não existia em Xapuri abastecimento de água, servindo-se a população da água do rio e da colheita em fontes naturais e cacimbas. Havia, no entanto, assistência médica regular, exercida por 2 médicos ainda moços, com duas farmácias bem montadas, onde se encontravam os medicamentos habituais.
Os casos de doenças eram muitos, com letalidade elevada, principalmente pela malária. E vejam só: a Comissão não observou o abuso do álcool, nem casos mórbidos que representassem consequências de alcoolismo intenso, situação bem diferente da que ocorre nos dias atuais.
Desobediência civil e cidadania
João Baptista Herkenhoff
A desobediência civil é um dos mais eficazes instrumentos de defesa da cidadania.
Em face do tirano ou de atos tirânicos, a resposta da sociedade civil deve ser a desobediência coletiva. Gandhi deu um grande exemplo de exercício da desobediência civil. A Índia, fraca e indefesa, pela desobediência civil dobrou o orgulho do Império Britânico.
Depois, nos Estados Unidos, Luther King, com os instrumentos da desobediência civil enfrentou o racismo odioso e derrubou as leis de segregação racial.
A desobediência civil é sempre apropriada quando a luta individual é impotente para vencer a injustiça e o arbítrio. Cabe, não só quando se defendem princípios como os que alimentaram a ação de Gandhi e de Luther King. Ali, onde se despreze a cidadania, onde se violem os direitos humanos, onde o Estado se pretenda onipotente, ali tem pertinência a desobediência civil.
A desobediência civil exige organização. Diante de um determinado caso concreto de abuso, será preciso que entidades civis e líderes sociais conclamem o povo para coletivamente desobedecer.
Para que esta reflexão não fique pairando no ar, vamos exemplificar com a hipótese de multas de trânsito lavradas atabalhoadamente, fato que ocorre de norte a sul do país.
O cidadão é notificado de que avançou um sinal, ou estacionou em local proibido, ou cometeu outra transgressão depois de transcorrido um mês do fato supostamente ilegal.
Como pode alguém se lembrar de fatos dessa natureza, já transcorrido tão longo tempo?
As pessoas lutam pela vida, enfrentam filas, sofrem danos nos seus veículos por omissão dos poderes públicos (buracos nas ruas e estradas). As pessoas não têm como única preocupação na vida as relações com Departamentos de Trânsito.
E que dizer dos motoristas profissionais, trabalhadores que prestam um serviço público da maior relevância, ganhando o pão com o suor do rosto, diante desse quadro? São os maiores prejudicados, surrupiados na sua modesta renda por força de sucessivas multas que não podem ser verificadas.
A notificação tinha de ser feita 24 ou 48 horas após a transgressão. Só assim seria possível ao cidadão constatar se realmente cometeu a infração, ou se a multa foi abusiva.
Muitos dos controles são hoje eletrônicos. E quem garante que os controles eletrônicos são perfeitos?
As multas, como têm sido sobejamente aplicadas, ferem o “direito de defesa” e agridem o “princípio do contraditório”, fundamentos do regime constitucional. Traem a lisura, a confiança e a honestidade que devem vigorar nas relações do Poder Público com o cidadão. Configuram uma situação que justificada e aconselha a desobediência civil.
João Baptista Herkenhoff, 75 anos, magistrado (aposentado) e professor (em atividade) na Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES). Autor, dentre outros livros, de Mulheres no banco dos réus (Forense, 2008), Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória (GZ Editora, 2009) e Filosofia do Direito (GZ Editora, 2010). Membro da Academia Espírito-Santense de Letras e da União Brasileira de Escritores.
O preservativo é nosso
O que leva o governo federal a gastar R$ 18 milhões por ano numa fábrica de camisinhas?
Keila Cândido, da Revista Época
O complexo de edifícios verde-claros da Natex, com 4.600 metros quadrados, fica a 6 quilômetros de Xapuri, no Acre. Dentro, as paredes são brancas, assim como os uniformes, as toucas e as máscaras dos funcionários. Ali o Brasil defende sua soberania na produção de contraceptivos masculinos do tipo barreira, conhecidos popularmente como camisinhas. A empresa foi criada com investimento conjunto do governo federal e o do Acre, em 2006. Sua implantação custou R$ 31 milhões. É administrada pela Fundação de Tecnologia do Acre, entidade sem fins lucrativos ligada ao governo estadual. Emprega 160 funcionários públicos, alguns deles nomeados. O Ministério da Saúde compra toda a produção da fábrica, o que garante seus custos de manutenção, de R$ 18 milhões por ano. A empreitada vai crescer. Em fevereiro, o governador Tião Viana anunciou que o Acre e o governo federal vão investir R$ 36 milhões, até 2014, para dobrar a produção. O investimento, no entanto, levanta dúvidas. Por que o Brasil precisa de uma estatal da camisinha? Qual seria o interesse estratégico para manter esse negócio sob a tutela do Estado?
O grande motivo seria a garantia de abastecimento. O Ministério da Saúde distribui 1,2 bilhão de camisinhas por ano em campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST), como a aids. Cerca de 80% dos preservativos distribuídos pelos serviços de saúde dos Estados são fornecidos pelo governo federal. “O mercado não atende à quantidade de que o governo precisa, e a Natex garante parte”, afirma Ellen Zita Ayer, assessora técnica do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do ministério.
Mas esse argumento tem duas falhas. Primeiro, a produção da Natex atende a apenas 8% da demanda do governo. E, segundo, a necessidade brasileira pode ser facilmente atendida pelo mercado mundial, que tem capacidade para produzir 9 bilhões de camisinhas por ano. Comprar do exterior é financeiramente mais vantajoso. O governo importa 92% de suas camisinhas da Índia e da Tailândia, ao preço unitário de R$ 0,07. As camisinhas Natex custam mais que o dobro: R$ 0,18.
Se a garantia de abastecimento não explica a existência da fábrica estatal, ela pode ter uma justificativa ecológica e social. É uma forma de aumentar a renda dos seringueiros, que vivem do extrativismo em reservas florestais do Acre. Sem esse negócio, eles dependeriam da venda da castanha. A venda do látex incentiva a manutenção da floresta em pé. A Natex compra anualmente 500.000 litros de látex, coletado por 700 famílias de seringueiros da Reserva Ecológica Chico Mendes. “Para desenvolver uma política pública com base na economia florestal, o governo do Acre fez a parceria com o governo federal e criou a Natex”, afirma o gerente-geral da fábrica, Dirlei Bersch. “Assim, foi possível industrializar o interior do Acre e criar mais oportunidades para quem mora lá.”
No entanto, há outras formas de o governo garantir o sustento das famílias de seringueiros sem precisar se envolver em algo que não é sua especialidade. O economista Mario Monzoni, diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, diz que o governo não deveria atuar diretamente nesse tipo de atividade econômica. Para incentivar a produção das comunidades extrativistas, sugere outras estratégias mais eficazes. “O governo poderia estimular a ida de empresas para essa região dando isenção de alguns impostos.” Uma alternativa seria privatizar a administração da fábrica, obrigando o concessionário a comprar dos seringueiros locais.
domingo, 7 de agosto de 2011
A vila
José Cláudio Mota Porfiro
Amanheciam sempre dias cinzentos, sombrios, tristes de fato. Ao sol não era permitida a entrada. Vida miserável que se iluminava por lamparinas à querosene, fumegantes, doentias. Homens e mulheres trajavam roupas rotas, quase andrajosas. Os aposentos eram abafados, fétidos, sem janelas. As esperanças de todos se limitavam à possibilidade ou à impossibilidade de, mais tarde, ou no outro dia, quem sabe, terem algum alimento para saciar-lhes a fome implacável. Os mais velhos, aqui e acolá, morriam de inanição, de fraqueza, sim. As crianças não iam às escolas, embora elas existissem quase na biqueira da vivenda prestes a cair. As mulheres traziam olhares sem brilho, perdidos num ontem que também não fora tão farto, ou num amanhã que, certamente, não seria dos mais ditosos. Os homens iam e vinham. Do mercado ou da rua do comércio, quase nunca traziam um quilo de feijão sequer. Todos haviam saído da pobreza dos velhos seringais que, por aqueles dias, já começavam a ser transformados em pastagens. A insanidade dos endinheirados via que a pata do boi marcava, a ferro quente, o coração e a alma de pessoas sem passado e sem futuro.
Então, do lado da minha casa ficava a Vila Natal. Nós éramos pobres; eles, miseráveis. Comíamos carne de boi ou de caça, e feijão e arroz e verduras retiradas da nossa horta do fundo do quintal. Eles praticamente não comiam, mas vegetavam e procriavam como as centenas de ratos e urubus alimentados pelos excrementos da Vila.
Chegaram a sobreviver, ali, às vezes, mais ou menos cinquenta pessoas, incluindo as crianças. Na realidade, tratava-se de um imenso casarão de zinco e madeira, dividido ao meio por um corredor cujos dois lados repartiam-se em quinze aposentos, a maioria de uma porta apenas. No pequeno quintal, havia dois sanitários sem porta e sem descarga ou fossa, um para os homens, outro para as mulheres. As necessidades fisiológicas eram ali supridas, mas o banho parco era tomado nos próprios aposentos de assoalho de madeira por debaixo dos quais passava um esgoto infestado de ratazanas e baratas. Nas paredes internas, havia brechas entupidas de papel para que uma família não visse a miséria ou a promiscuidade da outra. O telhado era cheio de buracos e, um dia, aí pelos treze anos, fui chamado por uma moça da vida para tapar uma goteira que quase chovia sobre os lençóis úmidos da sua cama às vezes até bem frequentada. Era uma da tarde e grande parte dos sobreviventes pegava a sesta. Lá de cima, então, por intermédio de um dos orifícios do zinco, eu a vi despida, sobre a cama...
Com raríssimas exceções, aquele era o último refúgio depois do inferno dos seringais. Eles não tinham mais forças para o trabalho na seringa. Também não tinham qualquer aptidão para os afazeres da cidade. Uma parte fazia pequenos mandados para os bacanas de então. Outra, limpava os quintais ou carregava água para os banheiros e cozinhas dos mais abastados. Alguns pagavam um mísero aluguel. Outros, viviam de favor a sua desventura.
Uma alma compadecida, de vez em quando, doava miúdos de boi e alguma carne. Uma ou outra vez, eu o vi distribuir entre os miseráveis um garrote inteiro. Era Elias Fadul, um misto de pequeno fazendeiro e magarefe, carrancudo e mal humorado como a maioria da gente síria.
Papai e mamãe logo se fizeram padrinhos de alguns meninos. Lembro de quando um senhor de meia idade, recentemente tornado compadre dos meus pais, foi acometido de hidropisia, ou barriga d’água. O homem passou noites e noites gemendo de dor. Quando numa manhã levaram-no ao médico, já era tarde. À noitinha, apareceu o padre italiano e lhe fez a extrema-unção. “O homem tava só esperando”, disseram alguns. É que, em dois minutos, e não mais que isso, o cumpadi Chico já tinha atravessado pro lado de lá. Palmieri, o religioso d’Itália, fez uma careta de asco e se foi pensando ter cumprido o dever. Neste tipo de reunião de pobres, onde não havia bastante comida para encher a imensa barriga do glutão, ele não permanecia, como lá em casa, de onde, nos aniversários, saía com os bolsos da batina cheinhos de quitutes.
Aí, todos se reuniram ao redor do corpo agora prostrado sobre uma velha mesa. Mamãe cedeu um lençol branco, já usado, para cobrir o cadáver. Mais tarde, um besouro mangangá dos grandões, sem que ninguém o percebesse, entrou por debaixo do lençol e foi alojar-se nos dedos dos pés do defunto. Daí começou a se mexer e a debandada dos vivos foi geral. Todos pensaram que o homem queria voltar de onde não queria ter ido. Manhãzinha, papai e mais três estivadores enrolaram o homem no lençol, colocaram-no em uma velha rede cearense e rumaram para o campo santo localizado a uns dois quilômetros da Vila, acompanhados da esposa chorosa e dos filhos menores. Lá, jogaram o fardo num buraco, cobriram com muito barro e nenhuma cruz. Só dias depois é que o arranjo cristão foi colocado sobre a sepultura, sem nenhuma inscrição.
Um dia, já à tardinha, no meio da poeira de agosto, chegaram uns quatro ou cinco burros vindos lá das bandas do Riacho de Areia, Rio Caramano. Traziam um senhor de uns oitenta ou mais anos, um rapaz mais velho e um outro que não sabia se tinha dezessete anos. Alojaram-se num dos cubículos sem janelas. O velhinho tinha barba comprida, branca, não enxergava e portava um cajado comprido à moda mais antiga. As roupas dos três, pouquíssimas, sempre da cor cáqui. A comida rala era feita pelo cego (!) em um fogareiro que enchia todo o quarto de fumaça. As panelas eram antigas latas de banha ou de goiabada. Não havia pratos ou colheres. (Até há pouco tempo, no seringal, as pessoas comiam com as mãos.) O seu Duca, sergipano, ia cedinho pedir esmolas no mercado. O menino mais velho trabalhava nas colônias dos arredores de Xapuri e só aparecia aos sábados. O mais novo, Sebastião, era doido, mas vivia capinando as ruas da cidade em troca de uns dinheiros quaisquer com os quais comprava alguma comida, perfume Desejo e botas sete léguas. Deste, lembro-me que levou uma furada de prego em cima do pé. Ele, então, com um canivete afiado, furou um buraco na parte superior da botina, de forma a deixar livre o ferimento. Uns vinte dias depois, já com a ferida sarada, foi que o Bastião descalçou a bota já muito fedida.
Num domingo depois da missa das nove, espalhou-se uma notícia triste. O mais velho havia amanhecido morto. Papai depois me disse que ele morrera de tiriça preta, hoje conhecida como hepatite do tipo C.
Certa vez, o velhinho se acercou da nossa calçada, onde conversávamos à noitinha. Ele me disse:
- Menino Gibiri? É o Zé Claudi, né?
- Sou, sim senhor.
- Você vai ser muito feliz. Tudo o que você quiser Deus vai lhe dar.
Depois, recitou, de cor, o longo Romance da Princesa da Pedra Fina, de cordel... Esta é a minha última lembrança dele.
Sebastião, hoje, apesar da saúde mental fragilizada, é vigia de uma escola e encarregado de tocar os sinos da matriz de São Sebastião nos horários de praxe, sempre sem nenhum atraso.
Morava por lá um moço, muito tranquilo e caladão. Um dia, depois de muito esforço, conseguiu comprar uma canoa pequena e passou a sobreviver da pescaria de espinhel. Numa noite, ele foi para o rio Acre corrigir os anzóis, mas teve um desfalecimento e tombou para fora do barco. Sofria de uma doença chamada epilepsia. Só dois dias depois é que o meu tio José Maciel achou o corpo, já completamente putrefeito, enganchado em alguns balseiros. Saíram-lhe peixinhos das entranhas através da boca do defunto. E fomos então enterrá-lo. A barriga estava inchada de tanta água. Aí, um torrão maior de barro foi jogado por alguém e o ventre do cadáver estourou e aspergiu uma água fétida distribuída entre todos que estavam à beira da cova, inclusive eu.
No passado dama da noite, Donana, de uns setenta anos, morava na Vila, de graça, acometida de Alzheimer, à época popularmente chamada caduquice. Como na poesia, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Por isto, estava morrendo à míngua num quarto que só tinha um velho catre, umas latas de flandres onde fazia alguma comida num fogareiro, e um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um dia, ela amanheceu morta em meio a um monte de fezes.
Um outro personagem desta minha história real e macabra é Maruíla, cuja esposa o abandonou assim que soube que ele tinha um câncer no estômago, fruto de uma alimentação de péssima qualidade e do uso frequente do álcool e cigarros tipo porronca. Numa rede, em um dos pouquíssimos aposentos que tinham janela, permaneceu o indigente com a barriga muito inchada por meses a fio, gemendo de tanta dor. Mamãe ou vovó lhe traziam uma sopa ingerida com muita dificuldade. Ao final, estava pesando apenas uns vinte quilos. Morreu abandonado no fundo de uma rede e teve enterro idêntico aos demais miseráveis da Vila.
Maria Galvão era mãe de uma garota de oito e de um garoto de uns seis anos e tinha um amante que era gerente de seringal e a visitava talvez mensalmente. Um certo dia, eu a vi ser agarrada, aos gritos e palavrões sem tamanho, sob os olhares dos vizinhos, por três homens grandões, e ela se soltava sem maiores esforços... A moça tinha um encosto. Um espírito mal houvera se apoderado do corpo dela.
Os velhos cearenses lá de Xapuri diziam que atrás dos mais pobres anda um bicho da boca grande e dentes podres, a fome... As histórias desses infelizes ainda hoje fazem parte dos meus sonhos mais tristes.
José Cláudio Mota Porfiro é xapuriense, escritor, e escreve no blog Impressões Gerais.
sábado, 6 de agosto de 2011
6 de Agosto, uma data esquecida
O herói Plácido de Castro no ano de 1907 em foto de Percy Fawcett.
Era madrugada de 6 de agosto de 1902 quando o gaúcho José Plácido de Castro tomava de assalto, junto com um punhado de seringueiros, a Mariscal Sucre do intendente Juan Dios Barrientos, dando início a um dos mais importantes capítulos da história do Acre e do Brasil, a Revolução Acreana, que tornou brasileiro este pedaço de chão.
O evento de tomada da Intendência Boliviana, que oprimia e sufocava com a cobrança de altos impostos a população brasileira que aqui lutava pela sobrevivência, tornou, desde então, Xapuri o “Berço da Revolução”, epíteto ao qual foi juntado, mais tarde, “A princesa do Acre”, dizem alguns em referência à beleza que possuía a rua do comércio pujante que a cidade já teve para quem chegava de navio pelo Rio Acre. Isso bem antes que a margem do rio fosse ocupada com autorização oficial por barracos e casebres tal como se encontra até os dias atuais. Mais recentemente veio outra alcunha: “Xapuri, a cidade mundial da ecologia”.
A verdade é que, a despeito de tantos apodos inconsistentes, 109 anos passados da célebre frase de Plácido de Castro: “Não é festa, é revolução”, a cidade onde se iniciou a Revolução Acreana se encontra a anos-luz de alcançar na realidade prática o mesmo nível de importância que lhe atribui a história e a luta daqueles que, desde antes de o Acre se tornar brasileiro, deram suor e sangue por este rincão. Xapuri, como há muito tempo acontece, empreende uma luta inglória para alcançar o lugar de destaque que sugere sua fama montada, em muitos casos, em mitos e factoides.
E como já foi dito inúmeras vezes que uma cidade sem memória é uma cidade sem futuro, talvez o desapego com a valorização de datas em ocorreram eventos tão significativos como a Revolução Acreana e a falta de atenção aos exemplos deixados por aqueles que deram a vida para que a cidade não perecesse, sejam alguns dos muitos fatores a explicar o fato de, no presente, nos encontrarmos patinando tanto em busca do avanço social que a própria “história de glórias” impõe como obrigatório.
Neste dia 6 de agosto de 2011, na cidade de Xapuri, a Mariscal sucre de 1902, nenhuma atividade alusiva ao início do movimento armado que contribuiu de maneira decisiva para que a diplomacia brasileira viabilizasse a transformação oficial do Acre em território nacional. Contato a prefeitura e confirmo que não há eventos programados para o dia de hoje. E, acreditem, não estou atribuindo especificamente a atual administração do município o esquecimento de acontecimento tão importante para nossa história. Isso tem sido tão comum nas últimas décadas, que um prefeito maluco cometeu, um dia desses, o sacrilégio de arrancar o busto de Plácido de Castro do terreno doado pelo município à família do caudilho gaúcho para em seu lugar construir uma tosca quadra de areia.
Da parte do governo do Acre, para não deixar a data passar em branco, será lançado, como parte integrante das comemorações do início da Revolução Acreana, o Programa de Conservação e Recuperação da Bacia do Rio Acre. O governo cria também a Lei que institui o dia 7 de agosto como o “Dia do Rio Acre” com a seguinte justificativa:
“(...) O Rio Acre foi o cenário e palco da histórica batalha contra os bolivianos, episódio sangrento que se encerrou em 6 de agosto de 1903, sobre suas águas, Plácido de Castro e seu exército planejou e auferiu a guerra.
A notícia da vitória de Plácido de Castro levou a população a surgir sobre as águas do Rio Acre, as memoráveis comemorações da vitória do povo acreano. Daquele episódio até os dias atuais. A data do dia 7 de agosto permanece viva na lembrança da população acreana como o dia em que o povo recolheu, ainda com sangue, a grossa corrente que vitimou centenas de vidas.
É nesta data que o Rio Acre, nasceu para o povo, como símbolo de posse do território acreano, e da magistral vitória do exército de uma geração que sonhou junto com o Rio Acre viver livre e festejar o dia do banho na água doce, um banho despido de armas (...).”
Muito pouco se for considerado que a Revolução Acreana foi na verdade uma guerra onde muitas vidas brasileiras foram perdidas em nome de um sentimento que enche o peito de cada acreano: o orgulho de ser brasileiro. Orgulho que também inunda o peito do deputado estadual Moisés Diniz e que, brilhantemente, em seu blog Ecos Socialistas faz deste dia 6 de Agosto uma data menos esquecida.
Xapuri vale uma boa briga
De tão acalorado, o debate sobre o universo xapuriense ganha novos contendores ao mesmo tempo em que ameaça perder outros. O desejo do blog é de que apenas cresça o número de vozes a utilizar este espaço como canal de discussão sobre as questões relacionadas a Xapuri, a “terra que um dia foi princesa e que hoje está mais para gata borralheira”, seguindo a tendência das críticas que têm costumeiramente recaído sobre os ombros da atual e de outras administrações.
Sobre as baixas, primeiro foi o escrivão da Polícia Federal Eden Mota, xapuriense que largou seu blog depois que os vereadores resolveram processá-lo pelas críticas ferrenhas que despejou contra a “casa do povo” e seus representantes. Alegou questões pessoais para guardar a pena, mas penso, aqui com meus botões, que a reação desproporcional dos edis contribuiu para que o ex-blogueiro resolvesse trocar a escrita do seu blog pela leitura de apostilas preparatórias para concursos públicos.
Agora quem ameaça abandonar o debate é o xapuriense Carlos Estevão, que apesar de viver fora de Xapuri há muito tempo, tem sido assíduo tanto nas visitas à sua terra de nascimento quanto nas discussões sobre as mais diversas questões levantadas aqui neste blog sobre o cotidiano da cidade.
Abespinhado com recente manifestação do assessor de Divulgação Social da prefeitura, Haroldo Sarkis, relacionada às críticas que têm sido direcionadas à administração “Todos por Xapuri”, Carlos afirmou que, doravante, se absterá de tecer comentários sobre a administração xapuriense atual, o que será, em minha opinião e com todo o meu respeito, uma decisão boba, com trejeito de birra de menino buchudo, pelas razões que exponho a seguir.
Num artigo brilhante, no qual viajou do poeta Castro Alves ao cineasta Glauber Rocha, Carlos Estevão se contrapôs às afirmações do assessor do prefeito, que havia tachado de “grosseiras”, “vulgares”, “irônicas” e “preconceituosas” as opiniões que os críticos estariam tentando “empurrar goela abaixo” da população contra a atual administração de Xapuri. Sentindo-se incluído na reprimenda do assessor, Carlos soltou o verbo e brindou o blog e seus leitores, sem dúvida nenhuma, com uma opinião franca, equilibrada e esclarecedora sobre a sua maneira de pensar e avaliar a atual realidade de Xapuri.
Vejam que o pronunciamento escrito do assessor Haroldo, independentemente de ser justo ou não, resultou na elevação à estratosfera do nível do debate até então proposto por aqueles que opinam pública ou anonimamente neste espaço. Sarkis rebateu as críticas feitas ao governo para o qual trabalha, e fez isso expondo números, enumerando ações e realizações da administração municipal. A despeito de ter empregado adjetivos deselegantes às opiniões desse ou daquele xapuriense, fez aquilo que há muito tempo não se via por parte de um assessor do prefeito Bira Vasconcelos: responder às críticas, prestar informações, apresentar dados, enfim, mostrar a cara para o povão que é mais representado por blogueiros inconvenientes e comentaristas ranzinzas e exigentes que mesmo por aqueles que detêm diploma do TRE.
Em contrapartida, o artigo de Carlos Estevão, longe de retribuir os predicados que considerou inadequados e nada polidos, admitiu que a atual administração de Xapuri tem méritos, acertos, arrumou a casa e desenvolve várias ações importantes. Ao mesmo tempo, afirmou que o que ocorre hoje no município é pouco para quem goza do suposto privilégio de contar com governos do mesmo partido nas esferas estadual e federal. E concluiu convidando os administradores de Xapuri ao sempre saudável exercício da autocrítica, oferecendo vários pontos passíveis de serem usados como “matéria-prima” para tal avaliação, ou seja, oferecendo sugestões onde foram colocadas as críticas que tantas vezes aborrecem e melindram.
Em tudo o que li e reli não vi razão nem motivo para que ninguém tire a camisa e abandone o campo de jogo. Isso, com todo o respeito que repito ter ao bom xapuriense, parece coisa de quem não sabe brincar, como dizíamos nos bons tempos, quando, numa das infalíveis peladas que todos nós invariavelmente jogamos, o dono da bola se aborrecia com uma entrada mais dura do adversário, colocava a pelota debaixo do braço e punha fim à brincadeira.
Do fantástico texto com que o xapuriense Sérgio Roberto, filho do saudoso João Mucuim e de Dona Nadir, brindou este blog, tomo emprestadas duas frases que se complementam e dão o exato tom daquilo que talvez mais precisamos apreender quanto à maneira de lidar com diferentes opiniões e expressões do pensamento. “Quando as vozes ecoam (…), entendamos que elas podem destoar de concepções sacras. As vozes são bem superiores às ‘verdades absolutas’ de alguns e tem uma enorme capacidade de ‘desconstruir’ e reinventar”.
Mais do que nunca é disso que Xapuri precisa. De compreender e não apenas ouvir as vozes que ecoam nos quatro cantos da cidade. Do debate, da discussão, dos contrapontos e até mesmo das altercações que geram mais discussão e mais debate que contribuem para estabelecer uma opinião mais elevada e mais abalizada sobre a realidade na qual Xapuri está mergulhada desde sempre. E para isso não podemos prescindir do talento de pessoas como o Carlos Estevão, da chatice do Eden, do maravilhoso “pitaco” que o Sérgio Roberto tascou logo abaixo e de outros tantos que se arriscam a expor pensamentos e a vender ideias assinando o nome embaixo. Os processos na justiça e as réplicas raivosas são apenas parte do processo.
No íntimo, acredito que o bom xapuriense Carlos Estevão Ferreira Castelo não abandona a contenda. Xapuri vale uma boa briga e pelo que conheço do filho do Estevão e de Dona Aurélia, ele dá uma boiada para não sair de uma.
