terça-feira, 9 de agosto de 2011

A democracia agradece

Eduardo de Souza

Big Raimari. Cá com meus botões, lendo as contendas, debates, opiniões sobre Xapuri, de ontem, hoje e sempre, divulgadas no seu Blog, resolvi entrar também no “caldeirão”, tipo meio “entrar de gaiato no navio”, com sua permissão, obviamente.

Muito salutar essa Ágora Xapuriense acontecendo dentro das regras democráticas, as vezes com temperaturas um tanto acima da média, mas nos conformes da etiqueta, da ética, como todo bom debate. Como você bem descreveu, XAPURI VALE UMA BOA BRIGA, e como vale!!

Pegando carona na literatura, eu ousaria até parafrasear Cervantes, tornando Xapuri nossa Dulcinéia (personagem do livro Dom Quixote de La Mancha), musa inspiradora do cavaleiro andante, que na descrição do escritor espanhol, afirma:

 “...por sua qualidade hão de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão as suas damas...” 

Vamos ser todos Dom Quixotes da vida, a defender nossa Dulcinéia. O ditado popular diz que panela que muitos mexem ou sai insossa ou salgada, no caso vamos burlar essa máxima e tentar acertar esse tempero na medida certa, a causa é mais que justa.

Repetindo o que comentei outro dia, com o xapuriense Éden Mota, num e-mail, não me venham ingênuos de plantão dizer que quem mora fora de Xapuri, não tem “direito” de opinar. Minha ligação com Xapuri é INTRANSFERÍVEL, além do fato de ter residido na city por mais de 12 anos, de ter tido ótimas e excelentes passagens enquanto morei na cidade, experiências profissionais e pessoais inesquecíveis, foi onde minha filha Izadora nasceu. Tenho um apreço especial por Xapuri.

Das comparações, analogias e/ou sugestões feitas por xapurienses me chamou atenção a do Carlos Estevão. Num de seus esclarecimentos ele escreve como gostaria de ter visto o prefeito “chateando” secretários de estado (no bom sentido e dentro do respeito), alguns deles xapurienses, indo mais a Brasília com bons projetos, cavando recursos nos ministérios, alguns a fundo perdido, cobrando mais os parlamentares, cutucando, provocando mais órgãos como Suframa, CEF, BNDES, enfim, mais atividade na área. Achei relevante essa tomada do economista xapuriense. Um caso a refletir, na minha modesta opinião.

Não quero aqui minimizar o que já foi feito e está sendo feito de bom na cidade, dentro das possibilidades, como disse o Haroldo Sarkis, longe disso, mas acho que Xapuri pode mais, tem cacife para reivindicar muito mais do que já foi feito, e ainda é tempo, sempre existe tempo quando o bem comum é o objetivo principal.

Particularmente, gostaria de ver mais gente nesse “caldeirão” do bem, opinando, sugerindo, dentro das suas respectivas óticas. Que tal outros nativos da terra dando “pitacos”, como bem o fez o Sérgio Roberto?

Que tal mais “Dom Quixotes” e, porque não, “Dulcinéias” também, aqui nessa Ágora Xapuriense que o Raimari edificou no seu Blog? Tenho até propostas de nomes, alguns com apelidos, todos conhecidos xapurienses que espero não se aborreçam por serem citados por mim. O fato de nomear alguns que lembro no momento, não os obriga a proferir suas ideias ou entrar nesse “caldeirão”. Minha intenção é apenas estimular mais debate, mais ideias, esquecendo filiações partidárias que possam existir ou antagonismos que não levam a nada, objetivando tão somente o bem comum da nossa “Dulcinéia”.

Nos “Dom Quixotes”, eu citaria, por exemplo, o Badaró, o Bila, o Fefa, o Paulinho, o Broca, os Sarkis como o Andrias, Tadeu, Afonso. No lado das meninas, que tal adentrando na Ágora a Dorotéia, a Vaniscléia, Vanúbia, a Rannife, a reserva moral e cultural na pessoa da prof.ª Euri Figueiredo. Talvez isso seja uma ideia maluca minha, e claro, existem muitos, muitos outros nomes de homens e mulheres de bem na cidade, mas como disse, são apenas sugestões para mais gente nesse debate, nessa “briga”.

O Raimari tem toda razão, XAPURI VALE UMA BOA BRIGA! Habilite-se quem quiser nesse “caldeirão”. A democracia agradece.

Eduardo de Souza é cirurgião dentista, potiguar, radicado em Rio Branco depois de ter vivido 12 anos em Xapuri, onde foi professor de língua inglesa, gerou sua única filha, Izadora, e bebeu muita água do Rio Xapuri na companhia do saudoso Chico Silva.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carlos Chagas em Xapuri

Carlos Chagas (indicado pela seta), Pacheco Leão e João Pedroso, junto com a tripulação da embarcação usada na expedição. Foto: Acervo da Casa de Osvaldo Cruz.

No artigo “Alguns breves ‘pitacos’ sobre Xapuri”, o autor, Sérgio Roberto Gomes de Souza, cita a passagem da expedição de Carlos Chagas por aqui, no ano de 1913. Lembrei-me, então, que já havia postado alguma coisa sobre o assunto.

Recorri ao arquivo do blog e encontrei um post sobre o “Relatório sobre as Condições Médico-Sanitárias do Vale do Amazonas” apresentado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, em setembro de 1913, ao então ministro da Agricultura, Indústria e Comércio do Brasil – Dr. Pedro de Toledo.

O documento mostrava o resultado da expedição do igualmente famoso sanitarista Carlos Chagas à Amazônia, cujo objetivo foi estudar as condições de vida a nível médico-sanitário das populações e, em particular, dos seringueiros que habitavam o vale do rio Amazonas.

A intenção do governo brasileiro era estabelecer as bases da profilaxia a ser aplicada na região, com vista à resolução simultânea dos problemas médicos e sociais e dos problemas econômicos que deles advinham. Os problemas de saúde dos seringueiros afetavam largamente a produção da borracha, que se encontrava em desenvolvimento àquela época.

Entre outubro de 1912 e março de 1913, a comissão constituída por Carlos Chagas (indicado pela seta, na foto que ilustra o post), Pacheco Leão e João Pedroso percorreu os rios Solimões, Juruá, Purus, Negro, Branco e Acre, que representavam alguns dos principais centros de extração de borracha, passando por diversos seringais e povoados ribeirinhos, entre eles Xapuri.

Ao passar por Xapuri, a expedição de Carlos Chagas encontrou um povoado à margem direita do rio Acre que possuía a segunda maior concentração populacional do Departamento – 1.500 a 2.000 almas - e talvez o primeiro centro comercial. As casas, apesar de feitas de tábuas, eram agradáveis e as construções mais confortáveis que as de Rio Branco.

O relatório diz que Xapuri era bastante rica em produção de borracha, com um movimento comercial de grande intensidade, mostrando como exemplo que nos dias de permanência da Comissão na cidade se achavam no porto 10 grandes vapores (gaiolas) e diversas lanchas, que abasteciam com mantimentos as grandes casas aviadoras.

Não existia em Xapuri abastecimento de água, servindo-se a população da água do rio e da colheita em fontes naturais e cacimbas. Havia, no entanto, assistência médica regular, exercida por 2 médicos ainda moços, com duas farmácias bem montadas, onde se encontravam os medicamentos habituais.

Os casos de doenças eram muitos, com letalidade elevada, principalmente pela malária. E vejam só: a Comissão não observou o abuso do álcool, nem casos mórbidos que representassem consequências de alcoolismo intenso, situação bem diferente da que ocorre nos dias atuais.

Desobediência civil e cidadania

João Baptista Herkenhoff
 
A desobediência civil é um dos mais eficazes instrumentos de defesa da cidadania.
Em face do tirano ou de atos tirânicos, a resposta da sociedade civil deve ser a desobediência coletiva. Gandhi deu um grande exemplo de exercício da desobediência civil. A Índia, fraca e indefesa, pela desobediência civil dobrou o orgulho do Império Britânico.

Depois, nos Estados Unidos, Luther King, com os instrumentos da desobediência civil enfrentou o racismo odioso e derrubou as leis de segregação racial.

A desobediência civil é sempre apropriada quando a luta individual é impotente para vencer a injustiça e o arbítrio.  Cabe, não só quando se defendem princípios como os que alimentaram a ação de Gandhi e de Luther King. Ali, onde se despreze a cidadania, onde se violem os direitos humanos, onde o Estado se pretenda onipotente, ali tem pertinência a desobediência civil.

A desobediência civil exige organização. Diante de um determinado caso concreto de abuso, será preciso que entidades civis e líderes sociais conclamem o povo para coletivamente desobedecer.

Para que esta reflexão não fique pairando no ar, vamos exemplificar com a hipótese de multas de trânsito lavradas atabalhoadamente, fato que ocorre de norte a sul do país.
O cidadão é notificado de que avançou um sinal, ou estacionou em local proibido, ou cometeu outra transgressão depois de transcorrido um mês do fato supostamente ilegal.
Como pode alguém se lembrar de fatos dessa natureza, já transcorrido tão longo tempo?
As pessoas lutam pela vida, enfrentam filas, sofrem danos nos seus veículos por omissão dos poderes públicos (buracos nas ruas e estradas). As pessoas não têm como única preocupação na vida as relações com Departamentos de Trânsito.

E que dizer dos motoristas profissionais, trabalhadores que prestam um serviço público da maior relevância, ganhando o pão com o suor do rosto, diante desse quadro? São os maiores prejudicados, surrupiados na sua modesta renda por força de sucessivas multas que não podem ser verificadas.

A notificação tinha de ser feita 24 ou 48 horas após a transgressão. Só assim seria possível ao cidadão constatar se realmente cometeu a infração, ou se a multa foi abusiva.
Muitos dos controles são hoje eletrônicos. E quem garante que os controles eletrônicos são perfeitos?

As multas, como têm sido sobejamente aplicadas, ferem o “direito de defesa” e agridem o “princípio do contraditório”, fundamentos do regime constitucional. Traem a lisura, a confiança e a honestidade que devem vigorar nas relações do Poder Público com o cidadão. Configuram uma situação que justificada e aconselha a desobediência civil.

João Baptista Herkenhoff, 75 anos, magistrado (aposentado) e professor (em atividade) na Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES). Autor, dentre outros livros, de Mulheres no banco dos réus (Forense, 2008), Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória (GZ Editora, 2009) e Filosofia do Direito (GZ Editora, 2010). Membro da Academia Espírito-Santense de Letras e da União Brasileira de Escritores.

O preservativo é nosso

O que leva o governo federal a gastar R$ 18 milhões por ano numa fábrica de camisinhas?

Natex_Xapuri

Keila Cândido, da Revista Época

O complexo de edifícios verde-claros da Natex, com 4.600 metros quadrados, fica a 6 quilômetros de Xapuri, no Acre. Dentro, as paredes são brancas, assim como os uniformes, as toucas e as máscaras dos funcionários. Ali o Brasil defende sua soberania na produção de contraceptivos masculinos do tipo barreira, conhecidos popularmente como camisinhas. A empresa foi criada com investimento conjunto do governo federal e o do Acre, em 2006. Sua implantação custou R$ 31 milhões. É administrada pela Fundação de Tecnologia do Acre, entidade sem fins lucrativos ligada ao governo estadual. Emprega 160 funcionários públicos, alguns deles nomeados. O Ministério da Saúde compra toda a produção da fábrica, o que garante seus custos de manutenção, de R$ 18 milhões por ano. A empreitada vai crescer. Em fevereiro, o governador Tião Viana anunciou que o Acre e o governo federal vão investir R$ 36 milhões, até 2014, para dobrar a produção. O investimento, no entanto, levanta dúvidas. Por que o Brasil precisa de uma estatal da camisinha? Qual seria o interesse estratégico para manter esse negócio sob a tutela do Estado?

O grande motivo seria a garantia de abastecimento. O Ministério da Saúde distribui 1,2 bilhão de camisinhas por ano em campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST), como a aids. Cerca de 80% dos preservativos distribuídos pelos serviços de saúde dos Estados são fornecidos pelo governo federal. “O mercado não atende à quantidade de que o governo precisa, e a Natex garante parte”, afirma Ellen Zita Ayer, assessora técnica do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do ministério.

Mas esse argumento tem duas falhas. Primeiro, a produção da Natex atende a apenas 8% da demanda do governo. E, segundo, a necessidade brasileira pode ser facilmente atendida pelo mercado mundial, que tem capacidade para produzir 9 bilhões de camisinhas por ano. Comprar do exterior é financeiramente mais vantajoso. O governo importa 92% de suas camisinhas da Índia e da Tailândia, ao preço unitário de R$ 0,07. As camisinhas Natex custam mais que o dobro: R$ 0,18.

Se a garantia de abastecimento não explica a existência da fábrica estatal, ela pode ter uma justificativa ecológica e social. É uma forma de aumentar a renda dos seringueiros, que vivem do extrativismo em reservas florestais do Acre. Sem esse negócio, eles dependeriam da venda da castanha. A venda do látex incentiva a manutenção da floresta em pé. A Natex compra anualmente 500.000 litros de látex, coletado por 700 famílias de seringueiros da Reserva Ecológica Chico Mendes. “Para desenvolver uma política pública com base na economia florestal, o governo do Acre fez a parceria com o governo federal e criou a Natex”, afirma o gerente-geral da fábrica, Dirlei Bersch. “Assim, foi possível industrializar o interior do Acre e criar mais oportunidades para quem mora lá.”

No entanto, há outras formas de o governo garantir o sustento das famílias de seringueiros sem precisar se envolver em algo que não é sua especialidade. O economista Mario Monzoni, diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, diz que o governo não deveria atuar diretamente nesse tipo de atividade econômica. Para incentivar a produção das comunidades extrativistas, sugere outras estratégias mais eficazes. “O governo poderia estimular a ida de empresas para essa região dando isenção de alguns impostos.” Uma alternativa seria privatizar a administração da fábrica, obrigando o concessionário a comprar dos seringueiros locais.

domingo, 7 de agosto de 2011

A vila

José Cláudio Mota Porfiro

Amanheciam sempre dias cinzentos, sombrios, tristes de fato. Ao sol não era permitida a entrada. Vida miserável que se iluminava por lamparinas à querosene, fumegantes, doentias. Homens e mulheres trajavam roupas rotas, quase andrajosas. Os aposentos eram abafados, fétidos, sem janelas. As esperanças de todos se limitavam à possibilidade ou à impossibilidade de, mais tarde, ou no outro dia, quem sabe, terem algum alimento para saciar-lhes a fome implacável. Os mais velhos, aqui e acolá, morriam de inanição, de fraqueza, sim. As crianças não iam às escolas, embora elas existissem quase na biqueira da vivenda prestes a cair. As mulheres traziam olhares sem brilho, perdidos num ontem que também não fora tão farto, ou num amanhã que, certamente, não seria dos mais ditosos. Os homens iam e vinham. Do mercado ou da rua do comércio, quase nunca traziam um quilo de feijão sequer. Todos haviam saído da pobreza dos velhos seringais que, por aqueles dias, já começavam a ser transformados em pastagens. A insanidade dos endinheirados via que a pata do boi marcava, a ferro quente, o coração e a alma de pessoas sem passado e sem futuro.

Então, do lado da minha casa ficava a Vila Natal. Nós éramos pobres; eles, miseráveis. Comíamos carne de boi ou de caça, e feijão e arroz e verduras retiradas da nossa horta do fundo do quintal. Eles praticamente não comiam, mas vegetavam e procriavam como as centenas de ratos e urubus alimentados pelos excrementos da Vila.

Chegaram a sobreviver, ali, às vezes, mais ou menos cinquenta pessoas, incluindo as crianças. Na realidade, tratava-se de um imenso casarão de zinco e madeira, dividido ao meio por um corredor cujos dois lados repartiam-se em quinze aposentos, a maioria de uma porta apenas. No pequeno quintal, havia dois sanitários sem porta e sem descarga ou fossa, um para os homens, outro para as mulheres. As necessidades fisiológicas eram ali supridas, mas o banho parco era tomado nos próprios aposentos de assoalho de madeira por debaixo dos quais passava um esgoto infestado de ratazanas e baratas. Nas paredes internas, havia brechas entupidas de papel para que uma família não visse a miséria ou a promiscuidade da outra. O telhado era cheio de buracos e, um dia, aí pelos treze anos, fui chamado por uma moça da vida para tapar uma goteira que quase chovia sobre os lençóis úmidos da sua cama às vezes até bem frequentada. Era uma da tarde e grande parte dos sobreviventes pegava a sesta. Lá de cima, então, por intermédio de um dos orifícios do zinco, eu a vi despida, sobre a cama...

Com raríssimas exceções, aquele era o último refúgio depois do inferno dos seringais. Eles não tinham mais forças para o trabalho na seringa. Também não tinham qualquer aptidão para os afazeres da cidade. Uma parte fazia pequenos mandados para os bacanas de então. Outra, limpava os quintais ou carregava água para os banheiros e cozinhas dos mais abastados. Alguns pagavam um mísero aluguel. Outros, viviam de favor a sua desventura.

Uma alma compadecida, de vez em quando, doava miúdos de boi e alguma carne. Uma ou outra vez, eu o vi distribuir entre os miseráveis um garrote inteiro. Era Elias Fadul, um misto de pequeno fazendeiro e magarefe, carrancudo e mal humorado como a maioria da gente síria.

Papai e mamãe logo se fizeram padrinhos de alguns meninos. Lembro de quando um senhor de meia idade, recentemente tornado compadre dos meus pais, foi acometido de hidropisia, ou barriga d’água. O homem passou noites e noites gemendo de dor. Quando numa manhã levaram-no ao médico, já era tarde. À noitinha, apareceu o padre italiano e lhe fez a extrema-unção. “O homem tava só esperando”, disseram alguns. É que, em dois minutos, e não mais que isso, o cumpadi Chico já tinha atravessado pro lado de lá. Palmieri, o religioso d’Itália, fez uma careta de asco e se foi pensando ter cumprido o dever. Neste tipo de reunião de pobres, onde não havia bastante comida para encher a imensa barriga do glutão, ele não permanecia, como lá em casa, de onde, nos aniversários, saía com os bolsos da batina cheinhos de quitutes.

Aí, todos se reuniram ao redor do corpo agora prostrado sobre uma velha mesa. Mamãe cedeu um lençol branco, já usado, para cobrir o cadáver. Mais tarde, um besouro mangangá dos grandões, sem que ninguém o percebesse, entrou por debaixo do lençol e foi alojar-se nos dedos dos pés do defunto. Daí começou a se mexer e a debandada dos vivos foi geral. Todos pensaram que o homem queria voltar de onde não queria ter ido. Manhãzinha, papai e mais três estivadores enrolaram o homem no lençol, colocaram-no em uma velha rede cearense e rumaram para o campo santo localizado a uns dois quilômetros da Vila, acompanhados da esposa chorosa e dos filhos menores. Lá, jogaram o fardo num buraco, cobriram com muito barro e nenhuma cruz. Só dias depois é que o arranjo cristão foi colocado sobre a sepultura, sem nenhuma inscrição.

Um dia, já à tardinha, no meio da poeira de agosto, chegaram uns quatro ou cinco burros vindos lá das bandas do Riacho de Areia, Rio Caramano. Traziam um senhor de uns oitenta ou mais anos, um rapaz mais velho e um outro que não sabia se tinha dezessete anos. Alojaram-se num dos cubículos sem janelas. O velhinho tinha barba comprida, branca, não enxergava e portava um cajado comprido à moda mais antiga. As roupas dos três, pouquíssimas, sempre da cor cáqui. A comida rala era feita pelo cego (!) em um fogareiro que enchia todo o quarto de fumaça. As panelas eram antigas latas de banha ou de goiabada. Não havia pratos ou colheres. (Até há pouco tempo, no seringal, as pessoas comiam com as mãos.) O seu Duca, sergipano, ia cedinho pedir esmolas no mercado. O menino mais velho trabalhava nas colônias dos arredores de Xapuri e só aparecia aos sábados. O mais novo, Sebastião, era doido, mas vivia capinando as ruas da cidade em troca de uns dinheiros quaisquer com os quais comprava alguma comida, perfume Desejo e botas sete léguas. Deste, lembro-me que levou uma furada de prego em cima do pé. Ele, então, com um canivete afiado, furou um buraco na parte superior da botina, de forma a deixar livre o ferimento. Uns vinte dias depois, já com a ferida sarada, foi que o Bastião descalçou a bota já muito fedida.

Num domingo depois da missa das nove, espalhou-se uma notícia triste. O mais velho havia amanhecido morto. Papai depois me disse que ele morrera de tiriça preta, hoje conhecida como hepatite do tipo C.
Certa vez, o velhinho se acercou da nossa calçada, onde conversávamos à noitinha. Ele me disse:

- Menino Gibiri? É o Zé Claudi, né?

- Sou, sim senhor.

- Você vai ser muito feliz. Tudo o que você quiser Deus vai lhe dar.

Depois, recitou, de cor, o longo Romance da Princesa da Pedra Fina, de cordel... Esta é a minha última lembrança dele.

Sebastião, hoje, apesar da saúde mental fragilizada, é vigia de uma escola e encarregado de tocar os sinos da matriz de São Sebastião nos horários de praxe, sempre sem nenhum atraso.

Morava por lá um moço, muito tranquilo e caladão. Um dia, depois de muito esforço, conseguiu comprar uma canoa pequena e passou a sobreviver da pescaria de espinhel. Numa noite, ele foi para o rio Acre corrigir os anzóis, mas teve um desfalecimento e tombou para fora do barco. Sofria de uma doença chamada epilepsia. Só dois dias depois é que o meu tio José Maciel achou o corpo, já completamente putrefeito, enganchado em alguns balseiros. Saíram-lhe peixinhos das entranhas através da boca do defunto. E fomos então enterrá-lo. A barriga estava inchada de tanta água. Aí, um torrão maior de barro foi jogado por alguém e o ventre do cadáver estourou e aspergiu uma água fétida distribuída entre todos que estavam à beira da cova, inclusive eu.

No passado dama da noite, Donana, de uns setenta anos, morava na Vila, de graça, acometida de Alzheimer, à época popularmente chamada caduquice. Como na poesia, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Por isto, estava morrendo à míngua num quarto que só tinha um velho catre, umas latas de flandres onde fazia alguma comida num fogareiro, e um quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Um dia, ela amanheceu morta em meio a um monte de fezes.

Um outro personagem desta minha história real e macabra é Maruíla, cuja esposa o abandonou assim que soube que ele tinha um câncer no estômago, fruto de uma alimentação de péssima qualidade e do uso frequente do álcool e cigarros tipo porronca. Numa rede, em um dos pouquíssimos aposentos que tinham janela, permaneceu o indigente com a barriga muito inchada por meses a fio, gemendo de tanta dor. Mamãe ou vovó lhe traziam uma sopa ingerida com muita dificuldade. Ao final, estava pesando apenas uns vinte quilos. Morreu abandonado no fundo de uma rede e teve enterro idêntico aos demais miseráveis da Vila.

Maria Galvão era mãe de uma garota de oito e de um garoto de uns seis anos e tinha um amante que era gerente de seringal e a visitava talvez mensalmente. Um certo dia, eu a vi ser agarrada, aos gritos e palavrões sem tamanho, sob os olhares dos vizinhos, por três homens grandões, e ela se soltava sem maiores esforços... A moça tinha um encosto. Um espírito mal houvera se apoderado do corpo dela.
Os velhos cearenses lá de Xapuri diziam que atrás dos mais pobres anda um bicho da boca grande e dentes podres, a fome... As histórias desses infelizes ainda hoje fazem parte dos meus sonhos mais tristes.

José Cláudio Mota Porfiro é xapuriense, escritor, e escreve no blog Impressões Gerais.

sábado, 6 de agosto de 2011

6 de Agosto, uma data esquecida

Placido1

O herói Plácido de Castro no ano de 1907  em foto de Percy Fawcett.

Era madrugada de 6 de agosto de 1902 quando o gaúcho José Plácido de Castro tomava de assalto, junto com um punhado de seringueiros, a Mariscal Sucre do intendente Juan Dios Barrientos, dando início a um dos mais importantes capítulos da história do Acre e do Brasil, a Revolução Acreana, que tornou brasileiro este pedaço de chão.

O evento de tomada da Intendência Boliviana, que oprimia e sufocava com a cobrança de altos impostos a população brasileira que aqui lutava pela sobrevivência, tornou, desde então, Xapuri o “Berço da Revolução”, epíteto ao qual foi juntado, mais tarde, “A princesa do Acre”, dizem alguns em referência à beleza que possuía a rua do comércio pujante que a cidade já teve para quem chegava de navio pelo Rio Acre. Isso bem antes que a margem do rio fosse ocupada com autorização oficial por barracos e casebres tal como se encontra até os dias atuais. Mais recentemente veio outra alcunha: “Xapuri, a cidade mundial da ecologia”.

A verdade é que, a despeito de tantos apodos inconsistentes, 109 anos passados da célebre frase de Plácido de Castro: “Não é festa, é revolução”, a cidade onde se iniciou a Revolução Acreana se encontra a anos-luz de alcançar na realidade prática o mesmo nível de importância que lhe atribui a história e a luta daqueles que, desde antes de o Acre se tornar brasileiro, deram suor e sangue por este rincão. Xapuri, como há muito tempo acontece, empreende uma luta inglória para alcançar o lugar de destaque que sugere sua fama montada, em muitos casos, em mitos e factoides.

E como já foi dito inúmeras vezes que uma cidade sem memória é uma cidade sem futuro, talvez o desapego com a valorização de datas em ocorreram eventos tão significativos como a Revolução Acreana e a falta de atenção aos exemplos deixados por aqueles que deram a vida para que a cidade não perecesse, sejam alguns dos muitos fatores a explicar o fato de, no presente, nos encontrarmos patinando tanto em busca do avanço social que a própria “história de glórias” impõe como obrigatório.

Neste dia 6 de agosto de 2011, na cidade de Xapuri, a Mariscal sucre de 1902, nenhuma atividade alusiva ao início do movimento armado que contribuiu de maneira decisiva para que a diplomacia brasileira viabilizasse a transformação oficial do Acre em território nacional. Contato a prefeitura e confirmo que não há eventos programados para o dia de hoje. E, acreditem, não estou atribuindo especificamente a atual administração do município o esquecimento de acontecimento tão importante para nossa história. Isso tem sido tão comum nas últimas décadas, que um prefeito maluco cometeu, um dia desses, o sacrilégio de arrancar o busto de Plácido de Castro do terreno doado pelo município à família do caudilho gaúcho para em seu lugar construir uma tosca quadra de areia.

Da parte do governo do Acre, para não deixar a data passar em branco, será lançado, como parte integrante das comemorações do início da Revolução Acreana, o Programa de Conservação e Recuperação da Bacia do Rio Acre. O governo cria também a Lei que institui o dia 7 de agosto como o “Dia do Rio Acre” com a seguinte justificativa:

“(...) O Rio Acre foi o cenário e palco da histórica batalha contra os bolivianos, episódio sangrento que se encerrou em 6 de agosto de 1903, sobre suas  águas, Plácido de Castro e seu exército planejou e auferiu a guerra.

A notícia da vitória de Plácido de Castro levou a população a surgir sobre as águas do Rio Acre, as memoráveis comemorações da vitória do povo acreano. Daquele episódio até os dias atuais. A data do dia 7 de agosto permanece viva na lembrança da população acreana como o dia em que o povo recolheu, ainda com sangue, a grossa corrente que vitimou centenas de vidas. 

É nesta data que o Rio Acre, nasceu para o povo, como símbolo de posse do território acreano, e da magistral vitória do exército de uma geração que sonhou junto com o Rio Acre viver livre e festejar o dia do banho na água doce, um banho despido de armas (...).”

Muito pouco se for considerado que a Revolução Acreana foi na verdade uma guerra onde muitas vidas brasileiras foram perdidas em nome de um sentimento que enche o peito de cada acreano: o orgulho de ser brasileiro. Orgulho que também inunda o peito do deputado estadual Moisés Diniz e que, brilhantemente, em seu blog Ecos Socialistas faz deste dia 6 de Agosto uma data menos esquecida.

Xapuri vale uma boa briga

De tão acalorado, o debate sobre o universo xapuriense ganha novos contendores ao mesmo tempo em que ameaça perder outros. O desejo do blog é de que apenas cresça o número de vozes a utilizar este espaço como canal de discussão sobre as questões relacionadas a Xapuri, a “terra que um dia foi princesa e que hoje está mais para gata borralheira”, seguindo a tendência das críticas que têm costumeiramente recaído sobre os ombros da atual e de outras administrações.

Sobre as baixas, primeiro foi o escrivão da Polícia Federal Eden Mota, xapuriense que largou seu blog depois que os vereadores resolveram processá-lo pelas críticas ferrenhas que despejou contra a “casa do povo” e seus representantes. Alegou questões pessoais para guardar a pena, mas penso, aqui com meus botões, que a reação desproporcional dos edis contribuiu para que o ex-blogueiro resolvesse trocar a escrita do seu blog pela leitura de apostilas preparatórias para concursos públicos.

Agora quem ameaça abandonar o debate é o xapuriense Carlos Estevão, que apesar de viver fora de Xapuri há muito tempo, tem sido assíduo tanto nas visitas à sua terra de nascimento quanto nas discussões sobre as mais diversas questões levantadas aqui neste blog sobre o cotidiano da cidade.

Abespinhado com recente manifestação do assessor de Divulgação Social da prefeitura, Haroldo Sarkis, relacionada às críticas que têm sido direcionadas à administração “Todos por Xapuri”, Carlos afirmou que, doravante, se absterá de tecer comentários sobre a administração xapuriense atual, o que será, em minha opinião e com todo o meu respeito, uma decisão boba, com trejeito de birra de menino buchudo, pelas razões que exponho a seguir.

Num artigo brilhante, no qual viajou do poeta Castro Alves ao cineasta Glauber Rocha, Carlos Estevão se contrapôs às afirmações do assessor do prefeito, que havia tachado de “grosseiras”, “vulgares”, “irônicas” e “preconceituosas” as opiniões que os críticos estariam tentando “empurrar goela abaixo” da população contra a atual administração de Xapuri. Sentindo-se incluído na reprimenda do assessor, Carlos soltou o verbo e brindou o blog e seus leitores, sem dúvida nenhuma, com uma opinião franca, equilibrada e esclarecedora sobre a sua maneira de pensar e avaliar a atual realidade de Xapuri.

Vejam que o pronunciamento escrito do assessor Haroldo, independentemente de ser justo ou não, resultou na elevação à estratosfera do nível do debate até então proposto por aqueles que opinam pública ou anonimamente neste espaço. Sarkis rebateu as críticas feitas ao governo para o qual trabalha, e fez isso expondo números, enumerando ações e realizações da administração municipal. A despeito de ter empregado adjetivos deselegantes às opiniões desse ou daquele xapuriense, fez aquilo que há muito tempo não se via por parte de um assessor do prefeito Bira Vasconcelos: responder às críticas, prestar informações, apresentar dados, enfim, mostrar a cara para o povão que é mais representado por blogueiros inconvenientes e comentaristas ranzinzas e exigentes que mesmo por aqueles que detêm diploma do TRE.

Em contrapartida, o artigo de Carlos Estevão, longe de retribuir os predicados que considerou inadequados e nada polidos, admitiu que a atual administração de Xapuri tem méritos, acertos, arrumou a casa e desenvolve várias ações importantes. Ao mesmo tempo, afirmou que o que ocorre hoje no município é pouco para quem goza do suposto privilégio de contar com governos do mesmo partido nas esferas estadual e federal. E concluiu convidando os administradores de Xapuri ao sempre saudável exercício da autocrítica, oferecendo vários pontos passíveis de serem usados como “matéria-prima” para tal avaliação, ou seja, oferecendo sugestões onde foram colocadas as críticas que tantas vezes aborrecem e melindram.

Em tudo o que li e reli não vi razão nem motivo para que ninguém tire a camisa e abandone o campo de jogo. Isso, com todo o respeito que repito ter ao bom xapuriense, parece coisa de quem não sabe brincar, como dizíamos nos bons tempos, quando, numa das infalíveis peladas que todos nós invariavelmente jogamos, o dono da bola se aborrecia com uma entrada mais dura do adversário, colocava a pelota debaixo do braço e punha fim à brincadeira.

Do fantástico texto com que o xapuriense Sérgio Roberto, filho do saudoso João Mucuim e de Dona Nadir, brindou este blog, tomo emprestadas duas frases que se complementam e dão o exato tom daquilo que talvez mais precisamos apreender quanto à maneira de lidar com diferentes opiniões e expressões do pensamento. “Quando as vozes ecoam (…), entendamos que elas podem destoar de concepções sacras. As vozes são bem superiores às ‘verdades absolutas’ de alguns e tem uma enorme capacidade de ‘desconstruir’ e reinventar”. 

Mais do que nunca é disso que Xapuri precisa. De compreender e não apenas ouvir as vozes que ecoam nos quatro cantos da cidade. Do debate, da discussão, dos contrapontos e até mesmo das altercações que geram mais discussão e mais debate que contribuem para estabelecer uma opinião mais elevada e mais abalizada sobre a realidade na qual Xapuri está mergulhada desde sempre. E para isso não podemos prescindir do talento de pessoas como o Carlos Estevão, da chatice do Eden, do maravilhoso “pitaco” que o Sérgio Roberto tascou logo abaixo e de outros tantos que se arriscam a expor pensamentos e a vender ideias assinando o nome embaixo. Os processos na justiça e as réplicas raivosas são apenas parte do processo.

No íntimo, acredito que o bom xapuriense Carlos Estevão Ferreira Castelo não abandona a contenda. Xapuri vale uma boa briga e pelo que conheço do filho do Estevão e de Dona Aurélia, ele dá uma boiada para não sair de uma. 

Xapuri lidera o Acreano da “Segundona”

Ao vencer a equipe do Andirá pelo placar de 2x1, a equipe da Amax se tornou líder do Campeonato Acreano da 2ª Divisão. A partida foi realizada na noite dessa sexta-feira (5), no estádio Álvaro Felício Abrahão, em Xapuri. Os gols foram marcados por Elenílson e Adivan, para a Amax, e Laio, para o Morcegão da capital acreana. Mais informações no Blog da Amax – Associação dos Militares e Amigos de Xapuri.

Rosa de Hiroshima

Ney Matogrosso

Composição: Vinícius de Moraes / Gerson Conrad

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Alguns breves “pitacos” sobre Xapuri

Sérgio Roberto Gomes de Souza

Tenho acompanhado com atenção artigos escritos e divulgados no Blog Xapuri Agora, sobre a situação do município. Posso estar enganado, mas, penso que tudo começou quando A Dona Carmem Veloso disparou: “Xapuri está uma merda”. Todos ficaram atônitos. A expressão teve um forte conteúdo simbólico e pareceu representar, pelo menos a princípio, uma multiplicidade de sentimentos que moradores, visitantes e naturais que residem em outras localidades têm com relação à cidade.

Fato importante foi que a construção da frase foi feita por uma senhora que tem uma relação profunda com o município, conviveu com suas múltiplas faces. A Dona Carmem, ao expor sua opinião, mostrou algo importante: o povo é sábio, muito sábio.

A questão foi como a frase da Dona Carmem passou a ser utilizada como referência, seja para os que fizeram críticas à administração do município, ou os que defenderam com certo “vigor” o prefeito. Nos textos, no entanto, sempre estava lá, impávida, irretocável, a frase da Dona Carmem, como que a nos cutucar e chamar constantemente atenção: “Xapuri está uma merda”. O problema então passou a ser o tempo do verbo. Afinal, Xapuri “está”, “é” ou “foi” uma merda?

Percebemos que alternativas nada alvissareiras serviram como referencial para os debates. Logo de início se lançou mão do velho jargão: “Xapuri, cidade do já teve”. A partir daí, são enumerados diferentes cenários do passado para justificar a assertiva: Tínhamos os melhores bailes; os melhores carnavais; o melhor futebol; o melhor isso e o melhor aquilo. A constituição social da cidade foi dividida de forma mecanicista e meramente cronológica: o passado de glórias em oposição a um presente assombroso, sem muitas perspectivas. Quando pensei que o mais utilizado jargão sobre a cidade não seria utilizado, lá ele me aparece: “Xapuri, a princesa que virou plebeia”. Pronto, a oposição entre passado, presente e futuro estava simbolicamente representada.

O problema é que a história nos remete a cenários bem mais complexos e no meu caso específico, como historiador, tenho dúvidas quanto a esse passado exaltado como glorioso.

Através do decreto Nº 9 de 28 de setembro de 1904, assinado pelo prefeito do Departamento do Alto Acre, Raphael da Cunha Mattos, o Departamento do Alto Acre foi dividido em dois municípios, um com sede na Villa Rio Branco e outro na cidade de Xapury. Foi através desse ato que foram estabelecidos os limites territoriais e criadas as Intendências Municipais, compostas por um Intendente e quatro Vogais cada[1]. No período, a cidade de Xapury tinha aproximadamente 40 casas e cerca de 800 habitantes.

Acauã Ribeiro, que foi prefeito do Departamento do Alto Acre ainda pensou em transformar Xapuri em Capital. Nada mal tornar-se sede de um Departamento com cerca de 40 mil habitantes. De acordo com o prefeito[2]:

O estabelecimento da capital preocupou bastante minha atenção, porquanto desde logo fui recebendo informações das condições de salubridade desse local (refere-se a Villa Rio Branco), ao passo que preconizavam a cidade de Xapury como mais salubre (...) tanto mais por ser o mais movimentoso centro do Departamento.[3]

Mas Acauã se arrependeria:

_________________________

[1] Informações retiradas do Relatório da Prefeitura do Alto Acre, apresentado ao Ministro do Interior e Justiça J.J Seabra pelo Prefeito do Departamento do Alto Acre Jose marques Acauã Ribeiro, referente ao exercício de 25 de maio a 3 de dezembro de 1905.p. 3

[2] Sobre o tema, o prefeito do Departamento do Alto Acre não cita as fontes de onde retirou a informação sobre a população do Departamento

[3] Idem. P. 7

E certo que a cidade de Xapury tem a maior movimentação, o seu município é de maior extensão e possue excelentes e mais ricos seringaes, dahi seu prospero commercio e sua grande população. Mas faltam outros requisitos necessários para uma capital, sendo notável a grande distancia que está dos demais pontos do departamento.[4]

A “grandeza” de Xapuri tinha uma forte relação com a quantidade de borracha produzida nos seringais e no fortalecimento de comerciantes que atuavam fornecendo mercadorias para os seringais, aviando os seringais, para usar uma categoria histórica. Isso não representava, necessariamente, uma boa qualidade de vida para a população, principalmente para os mais pobres. Vejamos o que diz o Relatório de Acauã Ribeiro sobre a educação no município:

A Instrução pública e ministrada em duas salas de aulas mixtas do primeiro gráo, funcionando uma nesta Villa sob a direção da normalista Nicolina Fontoura e outra na cidade de Xapury sob a direção da professora D. Candida do Nascimento (...) não obstante o numero de crianças de ambos os sexos ser grande e a ignorância ser quase geral entre crianças e adultos.[5]

Quando o assunto é saúde, o espaço era caracterizado como “insaluberrimo” e nada “higyenico”, para utilizar expressões do prefeito, com a população sendo acometida constantemente pelo beribéri e o impaludismo. Em suas viagens ao Acre, em 1910, Osvaldo Cruz ressaltou que o impaludismo atingia cerca de 80% a 90% da população rural. Xapuri estava incluso nessa estatística.

O cenário é semelhante quando se tratava de alimentação. Segundo o prefeito:

________________________

[4] Idem Ibdem. P. 3

[5] Idem Ibdem. P. 12

É um facto reconhecido por todos que é simplesmente péssimo o systema de alimentação, onde o pão e a carne verde raríssimas vezes figurava.[6]

A base alimentar era constituída de enlatados, carne seca e farinha. Claro que, para os seringalistas ou grandes comerciantes, algumas regalias, mas nada também tão diferente. Talvez um pouco de bacalhau.

Se não bastasse, a partir basicamente de 1904, o Governo Federal inicia um intenso processo de desterro para o Acre. Da prisão denominada “Ilha das Cobras”, no Rio de Janeiro, foram enviados participantes da Revolta da Vacina[7], juntamente com “vadios”, “bêbados” e outras personagens que não se enquadravam nos preceitos modernizadores que se desenrolava na capital da República no início do século XX[8]

Xapuri não ficou de fora. Entre os desterrados que vieram parar no Acre, estava Lycurgo Álvaro de Carvalho, conhecido como “Preto Lycurgo”. Lycurgo foi desterrado para Xapuri, não apenas ele, mas, muitos outros. O fato de merecer destaque, é que foi autor de um assassinato, o de José Cassemiro. O fato gerou um Processo Judicial e propiciou visibilidade para Lycurgo e o debate sobre os desterros.

Em 1910, cogitava-se que Xapuri receberia nova leva de desterrados. Esta possibilidade fez o jornal xapuriense Correio do Acre protestar em editorial:

Consta virem com destino a esta localidade, no vapor Cabral, mais de 400 homens degregados do Rio de Janeiro, vadios, vagabundos e larápios que o governo enxovalha derramando no Território a lia da população da Capital Federal. É verdade que alguns destes homens transladados do meio propício em que polulam nas grandes aglomerações urbanas se modificam e se regeneram, mas a maioria deles mantém seus hábitos ignóbeis, e ferozes instinctos. (...) Vamos ter infecção em nosso meio, quiça mais perigosa do que a varíola.[9]

__________________________

[6] Idem Ibdem. P. 19

[7] Revolta ocorrida em 1904 na cidade do Rio de Janeiro contra a vacinação obrigatória.

[8] Sobre o tema ver: Silva, Francisco Bento da. “Acre, a pátria dos proscritos”: prisões e desterros para as regiões do Acre em 1904 e 1910. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná. 2010

[9] Correio do Acre. Vagabundos. 12/02/1911. N. 23. P. 01. In: Silva, Francisco Bento da. Op cit. p. 250.

Dessa forma, percebemos que a constituição da cidade, não ocorre em uma perspectiva de crescimento linear e progressivo e que o conceito de “riqueza” da época é bastante limitado e vinculada a empresa gumífera, ficando dela a mercê.

É perceptível também, que a população não foi constituída apenas de “bravos e desbravadores” nordestinos, sírio-libaneses e portugueses. Era bem mais heterogênea. Circulavam no espaço os mais diferentes “tipos”.

Em 1913, Xapuri recebeu a visita da expedição científica organizada pelo Instituto Osvaldo Cruz e liderada pelo médico e sanitarista Carlos Chagas. Em seus relatórios, uma constatação: “encontramos a vida municipal desleixada, tendo tudo por fazer.”[10] Xapuri demonstrava que a gradativa perda da hegemonia da borracha amazônica no mercado mundial, agora ameaçada pelos seringais de cultivo asiáticos a atingia mortalmente.

Mesmo com o segundo surto da borracha ocorrendo entre 1942-1950, impulsionado pela necessidade de borracha dos aliados na Segunda Guerra Mundial, a economia acreana não conseguiu mostrar efetivos sinais de recuperação.

Mas o que motivou o diálogo com a história? Talvez uma desesperada tentativa de demonstrar que não podemos meramente opor o tempo, de o reduzirmos a dois polos: presente e passado. Os tempos se perpassam, o passado está constantemente passeando no presente e quando lançamos mão de nossas memórias, fazemos corriqueiramente influenciados pelas nossas vivências.

Dessa forma poderíamos dizer que a “Cidade do já teve”, já teve/tem também desterrados, desleixo, analfabetismo, alimentação escassa e ruim, endemias e epidemias.

Poderíamos até avançar um pouco mais no tempo e dizermos que também já teve a luz acendendo às 17 horas e apagando às 21 horas, festas e carnavais no Bilhar restrito a “aristocracia” local, seringueiros açoitados ou assassinados por terem saldo no barracão e assim por diante.

____________________________

[10] Costa, Ana Lúcia. Madeira que cupim não rói: Xapuri em arquitetura – 1913/1945, Rio Branco, gráfica Dois Irmãos, 2010. P. 79

Mas a cidade sobreviveu, justamente por lançar mão de uma grande riqueza que possui: sua gente. Quando falo “sua gente”, termo bastante genérico, não me refiro apenas as famílias tradicionais, mas falo de todos. Do mais isolado seringueiro ao mais rico homem de negócios. Cada qual, a sua maneira, soube resistir, seja lutando contra a falta de crédito, a exploração ou a expulsão de suas terras. As vezes, lutando por acesso a serviços básicos que o poder público deve oferecer, melhores condições de vida... a “gente” de Xapuri é assim. As vezes, quando se imagina que está tudo na pasmaceira, ela responde de forma inusitada, elege pessoas improváveis, ironiza a “desgraça” e resiste, muitas vezes, de forma surda.

Outras vezes se mobiliza, reúne gente, faz empate, morre lutando. São muitos nossos “heróis” muitos Josés, Marias, Pedros, Chicos, Antonios, Clementes, Silvas etc. São heróis por suas persistência em não deixar a cidade perecer.

Por isso estranhei quando as falas da Dona Carmem foram refutadas de forma intensa por alguns. Afinal, ela faz parte desse Panteão de heróis, ela resiste para a cidade não perecer. Na sua rotina, com suas guloseimas, mantém parte de nossas tradições pulsante, seus sabores são repletos de história. Ao falar, a Dona Carmem demonstra que a “gente” de Xapuri quer participar, quer ser protagonista quer fazer valer a principal riqueza da cidade.

Quando as vozes ecoam, no entanto, entendamos que elas podem destoar de concepções sacras. As vozes são bem superiores às “verdades absolutas” de alguns e tem uma enorme capacidade de “desconstruir” e reinventar. Parece-me que a administração de Xapuri precisa aprender a escutar e não apenas ouvir. Precisa entender que não é infalível e que a sabedoria da “gente” é importante para que ações sejam revisitadas e revisadas.

Da mesma forma achei estranho o apego ao passado, sua representação como “glorioso”. Desconfio desse título de princesa dado a Xapuri, talvez tenha motivos para isso. Penso que as “glórias” estejam vinculadas a perspectiva do mito fundador da cidade, alimentá-lo, sem um olhar crítico, termina por sacralizar uma memória oficial onde, no geral, os saberes e fazeres dos sujeitos sociais são excluídos.

Sérgio Roberto Gomes de Souza é xapuriense e professor da UFAC.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mau costume

De duas coisas, uma: blogueiro no Acre não vale nada mesmo ou os sites noticiosos de Rio Branco, definitivamente, desconhecem o que seja o bom hábito de oferecer o crédito das informações que publicam ao verdadeiro autor.

Explico, com exemplos, o que já fiz outras tantas vezes: os jornais online Gazeta.net e O Rio Branco.net reproduzem conteúdo deste modesto blog via jornal O Alto Acre.com e, como de costume, ou seja, como de mau costume, não mencionam o autor e muito menos citam a fonte original.

Clicando nos links acima, o leitor confere as informações e fotos feitas por este blogueiro sobre recente homicídio ocorrido em Xapuri e observa que apesar de o Alto Acre citar o autor e a fonte, os demais ignoram isso e dão o crédito ao Alexandre Lima.

É possível observar também que, a pedido meu, o Alto Acre passou a linkar o blog quando daqui reproduz informações, apesar de ainda colocar uma assinatura minha lá em cima do texto, o que pode fazer crer que eu trabalhe para o jornal, o que não é verdade.

Esclareço que gosto de ver as informações que publico aqui sendo reproduzidas por outros veículos, mas me agrada mais ainda ver oferecido o devido crédito ao blog e ao blogueiro, atitude que deveria ser princípio de todo jornalista.

Crime insolúvel no seringal Albrácia

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri solicita da Polícia informações sobre o andamento de investigações sobre assassinato de trabalhador rural

P6090274_thumb[1]

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Dercy Teles, encaminhou ofício do delegado de polícia de Xapuri, Ricardo Castelo Casas, solicitando informações sobre o andamento das investigações sobre a morte do produtor rural Benedito Januário de Aguiar, 74, que desapareceu da colocação Esperança, seringal Albrácia, no final do mês de maio, e foi encontrado no dia 17 de junho, enterrado em um buraco de tatu, a cerca de 400 metros da casa de morada (foto).

A dirigente da organização rural afirma no documento que a falta de informações sobre o caso, ocorrido há dois meses, está causando preocupação à comunidade rural do município, principalmente aos moradores da área em que ocorreu o episódio.  “Já se passaram dois meses do crime sem que nenhuma resposta tenha sido dada, e a sociedade precisa saber como andam os trabalhos para resolver o caso”, afirmou.

Relembre o caso.

Ricardo Castelo Casas, o delegado, afirma que a Polícia Civil está mantendo o empenho na busca de pistas que levem aos responsáveis pelo misterioso crime, cuja execução ele acredita que tenha sido muito bem planejada. Ele informa também que mais de dez pessoas foram ouvidas nos últimos dois meses, mas até o momento não surgiu qualquer indício que possa levar aos assassinos.

Ofício pa..

Clique na imagem acima para ler o teor do documento encaminhado pela direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri ao delegado Ricardo casas.

“A praça é do povo, como o céu é do condor”

Carlos Estevão Ferreira Castelo

O cinemanovista Glauber Rocha, comentando sobre sua espetacular obra “Terra em Transe”, certa vez escreveu que seu filme, lançado em 1967, tratava do que existe de grotesco, horroroso e pobre na América Latina. Afirmou, em livro, que a obra não apresentava personagens positivos, não era um filme de heróis perfeitos, que continha conflito, miséria, e a podridão do subdesenvolvimento. Neste filme, Glauber é bastante duro com a intelectualidade de esquerda, extremamente duro. Inclusive, essa parece ser uma das maiores mensagens que se pode apreender vendo “Terra em Transe”. Glauber Rocha foi duro com os intelectuais que transitavam e se aliavam com o empresariado, crítico com a intelectualidade que mantinha relações complicadas com políticos, etc. Relações essas que, na maioria das vezes implicavam (sempre implicarão), em claros prejuízos para a população.

Para muitos, Glauber era de esquerda e, mesmo assim, criticou duramente a esquerda em “Terra em Transe”. A película, mesmo trazendo em seu bojo a necessidade de mudanças sociais, de transformação da sociedade, na verdade é um convite à autocrítica. Então, influenciado pelo filme de Glauber Rocha, que revi recentemente, faço, nesse texto, um convite a Administração “Todos por Xapuri”: Companheiros, não seria o momento de fazer uma autocrítica?

Como o leitor pode perceber, iniciei o texto antecipando o seu final, como no filme de Glauber, onde o personagem principal morre nas primeiras cenas. Mas vamos aos fatos, e motivos, de um novo artigo sobre Xapuri, “a velha princesa que virou plebeia”.

Recentemente, motivado por um depoimento lido em um post do Blog do Altino, prestado por D. Carmem Veloso, postei um pequeno comentário. Achei que sua frase sintetizava, de forma espetacular, o imaginário de muitos xapurienses (de que “Xapuri estava uma merda”), mesmo não concordando com a frase. Comentário esse repercutido pelo competente jornalista xapuriense Raimari Cardoso, em seu Blog. Meu Deus. A partir de então a “coisa começou a feder”. Não “a merda”, mas as reflexões que apontei.

Xapurienses se manifestaram, alguns publicamente, outros não. Até ai tudo bem, esse era mesmo o objetivo. Minha caixa de mensagens lotou de e-mails não muito polidos. Então, atendendo solicitação de familiares resolvi que não mais escreveria sobre Xapuri, ou melhor, sobre nada que tivesse relação com a administração atual da cidade. Para não provocar ruídos desnecessários. Administração essa, diga-se de passagem, que me tornei apoiador de primeira hora.

Entretanto, quebro a promessa feita, com esse texto. Faço isso, motivado pelo artigo do Assessor de Divulgação Social da Prefeitura de Xapuri, Sr. Haroldo Sarkis. Em seu artigo, o assessor aponta que alguns (me senti incluído), “... a pretexto de defender a terra onde nasceram...” apresentaram “...opiniões grosseiras e irônicas”... utilizando “...expressões que, além de vulgares, são negativas e preconceituosas...” Claramente, o texto de Haroldo Sarkis é uma “resposta” a meus comentários e de outros. No meu caso, isso fica muito claro quando o autor utiliza a expressão “já teve”, exatamente um dos tópicos que apontei no post/comentário sobre D. Carmem.

Mas até ai tudo bem. Nada contra o assessor destacar “o lado” da Prefeitura. Afinal, ele está sendo pago para isso. Entretanto, as palavras “não foram bem colocadas”. Na medida em que eu e outros tantos xapurienses fomos tachados de grosseiros, irônicos, vulgares e preconceituosos. Por isso, é necessário um contraponto. Afinal, se a ditadura ainda sobrevive através de vários aspectos, resta a todos nós combatê-la.

Dessa forma, inicio historiando minha “relação” com a administração xapuriense do tempo presente, bem como os motivos que tive para escrever os comentários “polêmicos”. Em seguida, destaco alguns pontos dos argumentos de Haroldo, para, no final, como Glauber faz em “Terra em Transe”, retornar ao inicio, já antecipado. Ou seja, convidando “Todos por Xapuri” a uma reflexão critica. Para isso, utilizo algumas expectativas que tinha da administração, e que não vi realizadas.

Como Haroldo é sabedor, fui apoiador de primeira hora da Administração atual. Votei em Ubiracy Vasconcelos e, sendo assim, ajudei a colocá-lo na Prefeitura. Fiz isso por acreditar que era o melhor nome, naquele momento histórico, para Xapuri. Após a eleição, cheguei a colaborar diretamente com a administração, mesmo que rapidamente. A participação se deu a título de colaboração, em um Planejamento Estratégico realizado pelo Prefeito 100 dias após ter assumido o cargo. Fui além, me manifestei publicamente em 15 de maio de 2009, no post publicado no “Xapuri Agora” com o título “Sobre Xapuri”. No texto, dialoguei com comentários que “rolavam” na cidade relacionados com a “fraca equipe técnica montada pelo Prefeito”. Cheguei a afirmar: “...o que vi em Xapuri é um pessoal com grande capacidade de trabalho, muita humildade e vontade de querer aprender, e isso, para mim, é muito mais importante do que especialistas”.

Ainda em 2009, influenciado pelo bom xapuriense Rubinho, comecei a participar de alguns encontros com um grupo denominado “Filhos e Amigos de Xapuri”. Com o objetivo de planejar como poderíamos (os membros do grupo) colaborar com a gestão “Todos por Xapuri”, de forma voluntária, é claro. Entretanto, a ideia não andou. Para alguns, por falta de iniciativa do próprio Prefeito que viu no grupo “pretensões políticas”. Já para outros, a “coisa não andou” por problemas do próprio grupo (de agenda, de disponibilidade, etc.). Então, “esqueci” Xapuri e passei a me dedicar a outras metas. Como se fosse possível esquecer a velha princesa.

Em 2010, no final do ano, a UFAC me convoca para orientar os alunos de Economia de Xapuri. Estavam concluindo suas monografias e necessitavam de Professor orientador. Prontamente atendi ao pedido, mesmo sem condições objetivas. Aceitei somente porque eram alunos de minha terra. Vi ali uma maneira de contribuir com a cidade. Foi então que os temas dos trabalhos, as idas frequentes até a cidade para conversar com os alunos, a mania de perguntador e observador que costumo ter, etc., começaram a disparar elementos internos.

Imediatamente voltei a pensar no futuro da velha princesa, pensar sobre seus problemas, possíveis soluções, etc. Confesso que, até então, somente acompanhava, de longe, o que acontecia. Não de muito longe, acompanhava da Capital da “florestania”, Rio Branco. O meio principal era os blogs. Esse fato (de não está vivendo em Xapuri), para alguns, significa que eu não teria crédito para criticar a administração. Eu aceito o argumento, mas não concordo.

Já em 2011, em uma das visitas aos alunos, aproveitei para realizar entrevistas informais com populares para tentar “sentir melhor o clima”. Também para coletar informações preliminares para meu projeto de tese de doutoramento, que trata dos “Modos de vida de seringueiros de Xapuri em anos de florestania”. Ou seja, precisava “acertar as contas” sobre o que ouvia de minha terra, aqui na Capital. Tinha curiosidade de verificar, “de forma mais científica”, o que lia nos blogs, principalmente nas redações de Eden Mota. Então, como bom pesquisador, deixei os sujeitos sociais falarem. E eles falaram.

Foi com base nos depoimentos que coletei que escrevi os comentários citados no inicio (aqueles do post sobre D. Carmem). Na verdade, somente falei o que ouvi de xapurienses, sem criticar muito os depoimentos, confesso. Apenas reproduzi o consenso das falas. Para os estatísticos de plantão, informo que entrevistei 30 pessoas. Mas os adultos detestam ouvir coisas que não os agradam, principalmente adultos políticos com mandatos.

Como já assinalado, havia decidido não meter mais “minha mão naquela cumbuca”, mas, aos 45 do segundo, aparece o texto de Haroldo. O autor “entra rachando”, mostrando “as travas da chuteira”. Penso que foi infeliz. Poderia, simplesmente, mostrar as realizações da Prefeitura, como bem fez, mas decidiu “ser mais realista do que o rei”. Devo anotar que, no primeiro texto publicado pelo autor, feito em seu próprio blog, o “Xapuri em Destaque”, é possível verificar modificações no título e no conteúdo. Comparativamente ao texto do “Xapuri Agora”.

Bem, sobre o “já teve”, diria para Haroldo que foi o “sentimento” mais presente nos depoimentos colhidos em Xapuri. Portanto, foi a população que demonstrou, e não eu. Os depoentes apresentaram uma espécie de saudosismo, uma nostalgia de tempos passados, de coisas que hoje não existe mais. É bem possível que os depoimentos, por terem sido feitos por adultos com mais de 30 anos, tenham influenciado nesse consenso. Penso que os mais velhos, na maioria das vezes, costumam falar que bom mesmo era “nos seus tempos”. Principalmente quando o tempo presente não está “lá grandes coisas”.

Comigo é assim também. Futebol bom era o de 82, de Zico e cia, o do “meu tempo”, tempos verdes onde jogava pelada no campinho do Colégio Divina Providência sonhando ser o Renato Sá, do Botafogo. “Futebol mesmo tinha Xapuri na época de Ivonaldo, e seu Brasília...”. Com certeza, para Haroldo, o bom é o “seu tempo”. Isso é legitimo e natural. Entretanto, mesmo Haroldo não concordando com o sentimento do “já teve”, penso que se trata de uma valiosa pista, dada por populares, que poderia ser considerada como objeto de reflexão da administração atual. Mas é só o que eu penso. Quem disse que estou certo.

Outro ponto que gostaria de destacar foi uma afirmação sobre drogas e prostituição em Xapuri, de crianças. Nessa questão especifica, devo informar que se trata de afirmação. Afirmação que sustento onde for necessário. Dessa forma, não tem relação com os depoimentos que colhi. Eu presenciei. Ao “vivo e a cores”.

Os depoentes falaram do “já teve” com bastante intensidade, falaram ainda sobre a economia comercial – para muitos falida devido a ZOFRA Boliviana, e, também, sobre certa falta de iniciativa do Prefeito. Mas nada informaram sobre drogas e prostituição. Ia esquecendo, falaram também sobre os empregos gerados pelas “fábricas” (de piso e camisinhas). Nesse caso especifico (dos empregos), ponderei nos comentários que preferiria esperar pelos dados das monografias dos alunos de Economia. Portanto, penso que em momento algum fui preconceituoso, irônico, ou coisa parecida. Mesmo assim aceito, e respeito, a opinião do Assessor, mesmo sem concordar. Pergunto: o que vi na “balada xapuriense”, onde crianças se drogavam com drogas legais e ilegais, também não mereceria reflexão de “Todos por Xapuri”?

Acho que conheço a maioria das realizações da Prefeitura, as mesmas que lista o autor em seu texto. Como disse, desde o final de 2010 venho acompanhado, “mais de perto”, o que acontece em Xapuri. Isso devido minhas atividades como orientador dos alunos de Economia, como já apontei. Entretanto, afirmo: é muito pouco, companheiro. Muito pouco para uma administração do mesmo partido político do Governo Federal e do Estadual.

O sentimento que muitas vezes tenho, principalmente quando estou em Xapuri, é que “a cidade” está perdendo o “bonde da história”, que um cavalo selado está passando na porta e não estão conseguindo montá-lo. Mas posso está completamente errado. Sinceramente, torço para que Haroldo esteja certo. Não no palavreado que utilizou comigo e outros, mas na certeza do caminho.

Em outros pontos de seu texto, Haroldo fala de administrações anteriores. Concordo que “dizimaram” a cidade. Parar mim é bastante claro que os problemas maiores de Xapuri são explicados pelas desastrosas administrações anteriores. Foram péssimos, realmente. Mas o Candidato que virou Prefeito sabia disso. Sabia o que encontraria. Então, se topou o desafio...

Imagino as dificuldades que teve para “deixar a casa em ordem”. Pelo pouco que vi no planejamento estratégico, a coisa estava “mesmo complicada”. Mas acho que tiveram tempo suficiente. Tanto tiveram, que penso ser o maior mérito de “Bira” o fato de ter conseguido “arrumar a casa”.

Mas não posso deixar de falar que mais iniciativa faltou, e falta. Mais proatividade. Por exemplo: “Todos por Xapuri” deveria exigir, vou repetir, exigir do Governo do Estado tratamento diferenciado para a cidade. Talvez isso esteja no imaginário da população, daí a necessidade de uma reflexão crítica. Em certo momento escrevi no blog do Altino comentando um post: “os xapurienses deveriam cobrar royalties todas as vezes que o Governo do Estado utilizar, nas justificativas dos projetos de financiamentos, o nome da cidade de Xapuri, dos seringueiros de Xapuri, de Chico Mendes”. Penso que a “florestania” deve muito a cidade de Xapuri, principalmente ao povo xapuriense. Não deveriam retribuir com um pouco mais de intensidade?

Como eu vibraria se tivesse visto o Prefeito de Xapuri dentro das Secretarias Estaduais chateando os Secretários (alguns da Gestão Binho, eram/são xapurienses, da gema. O que eles fizeram por Xapuri? Não deveriam ser mais cobrados?). Como seria bom ter visto o Prefeito “batendo na mesa do Governador” (como respeito é claro), e exigindo dias melhores para os conterrâneos de Chico Mendes (como demorou para fecharem o buraco na rua em frente da casa de Chico).

Ter presenciado com mais intensidade o Prefeito viajando para Brasília, com bons projetos em baixo do braço, buscando investimentos em Ministérios e outras Organizações. Nesses locais é onde possivelmente se encontra dinheiro para realizar “as coisas”, inclusive dinheiro a “fundo perdido”. E a cobrança sistemática a Deputados e Senadores, foi realizada?

Tem dias que fico a pensar sobre quantas vezes representantes da administração xapuriense foram até a sede da SUFRAMA, buscando viabilizar investimentos? Quantas vezes conversaram com o Banco da Amazônia e CEF? Eles (Bancos) gostam de financiar, também a fundo perdido, projetos culturais e de pesquisas. Mas só quanto provocados.

Quantas vezes técnicos da Prefeitura de Xapuri participaram do Plano Plurianual do SEBRAE? organização que tem tanto dinheiro que muitas vezes nem sabe onde gastar. Quantos projetos de Xapuri estão em carteira do BNDES? Organização que chegou a colocar um escritório dentro da SEPLAN/AC para atender o setor público acreano. Quantos convênios foram feitos com a EMBRAPA? Ou mesmo com a UFAC? Em todas as organizações citadas, era, e é possível, ainda, encontrar xapurienses que, com certeza, estariam dispostos a colaborar. Mas repito, somente quando provocados. Sem querer comparar Xapuri “perante outros municípios acreanos" (mas já comparando), a Prefeita de Brasiléia teve ação diferenciada.

Bem, são alguns pontos que poderiam servir como matéria-prima para a autocrítica sugerida.

Penso que a administração xapuriense optou pelo caminho do “gerencialismo capenga”, quando, na minha visão, poderia adotar uma gestão mais social. Cheguei a sugerir isso, em artigo. Na época exagerei, propondo “uma gestão societal radical”. Inclusive, a palavra radical gerou criticas. Criticas boas, do bom Dr. Eduardo, vizinho aqui na capital e velho concorrente nas partidas de ping-pong de Xapuri de meus verdes anos. Penso que diferentemente da falácia do gerencialismo, que transforma cidadão em cliente, uma gestão verdadeiramente participativa, com envolvimento total da população, poderia ter sido uma alternativa interessante e inovadora. Mas, de novo, posso está totalmente equivocado.

Acho que ainda “é tempo”. Não sou negativista como insinua Haroldo. Por isso sugiro uma reflexão critica sobre o que está acontecendo. Reflexão sobre o porquê de tantos comentários que desagradam; sobre o que está por trás da reportagem que a TV Gazeta fez recentemente, etc. Reflexão feita, poderia contribuir para melhores resultados, em um próximo mandato da administração “Todos por Xapuri”. Digo mais resultados, pois penso que a administração atual possui muitos méritos. E o principal é ter colocado as “coisas em ordem”. De minha parte, estarei sempre disposto.

Finalizo dizendo que estou parando por aqui com comentários sobre a administração xapuriense atual. Simplesmente por ter mais o que fazer na vida. Entretanto, volto a afirmar: diante dos nomes que se apresentam até então, não tenho a mínima dúvida que votaria, de novo, em “Bira” para Prefeito.

Um abraço a todos.

Carlos Estevão Ferreira Castelo é xapuriense.

Bira Vasconcelos no “Papo Xapuriense”

“Xapuri tem 106 anos e todos os problemas crônicos da cidade estão sendo creditados à minha administração”.

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O prefeito de Xapuri é o entrevistado do mês de agosto do quadro “Papo Xapuriense”, criado pelo blogueiro Maxsuel Maia em sua página. Entre vários temas, Bira Vasconcelos fala sobre as críticas que sua administração tem recebido de blogs e setores da imprensa.

Seguem alguns trechos de respostas do prefeito sobre o assunto:

“Eu recebo com muita maturidade, acho que as críticas fazem parte do jogo democrático. Inclusive, já realizei uma reunião com os blogueiros da cidade para explicar a situação em que o município se encontra. Mas, algumas críticas são injustas. A verdade é que ainda colhemos os frutos da administração passada, que foi desastrosa. Além disso, Xapuri tem 106 anos e todos os problemas crônicos da cidade são creditados na minha administração, que tem apenas dois anos e meio”.

“Eu digo com toda serenidade que estou sempre aberto ao debate, exerço um cargo público e por isso sempre estou na berlinda, mas o que eu queria é que as pessoas também noticiassem as coisas boas que acontecem em Xapuri, o debate tem que existir, as críticas também, mas os críticos também precisam enxergar que muita coisa boa está sendo feita em Xapuri”.

“Ninguém noticia que nesses dois anos e meio nós geramos mais de 450 empregos, ninguém diz que hoje nós temos o maior polo industrial do interior do estado, ninguém fala que, ao invés do jovem está de noite na praça, ele está estudando no IFAC ou trabalhando na fábrica de camisinha, que funciona 24 horas por dia, ou no estádio de futebol que foi iluminado por nós, ninguém publica que fizemos um concurso público no qual contratamos médicos, dentistas, psicólogo, pedagogos, enfim, respeito as críticas, só queria que as coisas boas também fossem citadas”.

Vale a pena ler a entrevista completa no blog Maxsuel Xapuri.

IFAC Caipira

“Ocê num podi perdê”.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dercy deixa o PV e vai para o PSOL

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Dercy Teles de Carvalho Cunha, confirmou a sua ida para o PSOL – Partido Socialismo e Liberdade.

A filiação da sindicalista à nova sigla ocorrerá no dia 26 de agosto, em Rio Branco, em ato que terá a presença do senador Randolfe Rodrigues, do Amapá, e do presidente nacional do PSOL, Afrânio Boppré.

Na mesma data o partido realizará curso de formação política aos seus cerca de 700 filiados no Acre com o objetivo de apresentar as propostas, ideologias e metas da sigla.

A dirigente do emblemático Sindicato de Xapuri deixa o PV em razão de divergências com as lideranças do partido. “Já encaminhei meu pedido de desfiliação e tudo estará pronto para o evento do próximo dia 26'”, afirmou.

Aos 56 anos de idade, Dercy é um marco histórico no sindicalismo brasileiro, ela foi a primeira mulher a presidir um sindicato de trabalhadores rurais no Brasil, no início da década de 1980. Grande conhecedora da causa dos trabalhadores e dona de pontos de vista francos e diretos sobre a política brasileira para o homem do campo, Dercy já fez afirmações polêmicas que ganharam repercussão na imprensa.

Em 2009, Dercy afirmou que o extrativismo fomentado pelo governo do Acre seria uma atividade falida, explicando a razão de muitos seringueiros criarem gado na Reserva Extrativista Chico Mendes. "Hoje, viver do extrativismo é estar condenado à miséria absoluta".

Em 2010, disse que Marina Silva havia abandonado os seringueiros (leia aqui), depois de uma visita da então candidata à presidência da república ao Acre. “Ela não nos visitou e nem fomos convidados para essa visita que ela fez ao Acre. Não tem outro adjetivo para isso que não seja abandono", afirmou.

Já em 2011, em entrevista aos jornais O Globo e O Estadão, Dercy responsabilizou o governo federal pelo recrudescimento da violência no campo e pelas mortes ocorridas nos estados do Pará e Rondônia pelo fato de não ter feito avançar a reforma agrária no País.

“O principal responsável é o governo, que não define a questão agrária, não resolve. A reforma agrária não avançou, e as mortes estão intimamente ligadas ao problema fundiário”.

Assim é a Dercy.

Soldados da Borracha

José Augusto Fontes

Nenhum grito, nenhuma voz, nem toda expressão poderia revelar essa história, que está além do prazer de escrever, que está fora do alcance das palavras, fora do alcance do dizer e do emudecer, fora da cogitação de apenas entender ou de indiretamente sentir. E custa muito aceitar. Além de trinta dinheiros, adiante de trezentas desilusões, muito mais que três mil sentimentos multiplicados, o valor de trinta e tantas mil vidas, na origem da nossa origem. Nem o calar, nem todo silêncio ou a indignação que cai tarde e longe, nada agora pode bem expressar. E sendo impossível apenas calar, resta inventar palavras. Do que foi visto nos olhos das pessoas, do que se ouviu na boca das noites, catar lembranças e deixar escorrer o látex da emoção.

O Brasil acatou a vontade dos EUA e despachou uns sessenta mil nordestinos para a Amazônia. Era preciso ‘fazer’ borracha para outra de tantas guerras. Alienígenas instalaram uma base militar em Natal. E o mundo conheceu o forró. “For all ”, eram as festas dos estrangeiros no Nordeste brasileiro. Mas o produto da guerra foi ficando com eles. A guerra precisava de borracha. Recebendo dólares e missões, Getúlio inventou o Eldorado na Amazônia. Direcionou o sacrifício para os cearenses e para outros poucos nordestinos, preferindo os mais claros, seria uma nova povoação branca. Por aqui, no Brasil inexpressivo, batalhas diárias contra o desconhecido e o inesperado fizeram tombar homens que não entendiam pelo que lutavam, morriam sem saber o quanto poderiam valer.

O Brasil desenvolvido e supremo povoou a Amazônia que para ele ainda nem era subdesenvolvida. Reproduziu vários brancos, esqueceu-se e mandou outros tantos para o além, mas cumpriu a ordem, apontada como um canhão para o progresso. Só não cumpriu as promessas feitas a seus homens, ocupado em contar os dólares, que depois viriam a torná-lo devedor eterno. Esqueceu-se dos homens e das vidas. Perdeu-se nos varadouros que poderiam levar à dignidade. Esqueceu-se até de ter vergonha. E os dólares foram ficando por lá, sensíveis como o concreto das asas de Brasília. Agora, quem diria, nem se dessem em folhas de árvores amazônicas, os dólares brasileiros dariam para pagar a conta ou a pronta-entrega.

A Amazônia pariu a borracha. Esses homens a embalaram, fizeram-na crescer e cruzar fronteiras, fizeram-na parir infinidades. A própria definição foi ultrapassada. Eles, que queriam tão pouco, não imaginariam que depois nada poderia pagar o produto de seus esforços, de tantas vidas, de uma história tão bela. Nosso reconhecimento é também muito pouco, mas deve ser sempre repetido. O valor dos homens que para cá vieram, a dignidade e a coragem, a verdade simples em seus olhos, a certeza de suas palavras, a grandeza de seus feitos, as conversas nas calçadas, casos embalados pelas redes e pela imaginação, batelão cruzando as águas brilhantes, canoa emendando as margens, nada paga isso. Uma bela história que não está à venda.

Quase não há como dizer que é preciso não esquecer. Às vezes, calar e ouvir um som que vem das árvores, enquanto um sentimento escorre pelos igarapés e um vento refresca sensações. Seu Lauro Fontes narrava as matas, os homens, rios e animais. O seringal Porta Alegre, do Seu Chico Cunha, ainda hoje está lá, à beira do Purus. Dona Clair sempre fala dos peixes, das criações, das recordações. O Chico Antônio seguiu muito cedo, para adiante das estradas de seringa, suas histórias de regatão e morador de seringais estão confiadas ao filho, que as vai repassando aos netos. O látex pintou a paisagem de muitas vidas, de nossas vidas. Meus avós, minha mãe e meu pai são dos seringais. Eu e tantos outros somos fruto.

Entre ser soldado na guerra ou soldado na Amazônia, os homens do Nordeste embarcaram na necessidade e na ilusão, no rumo de cá. Nasceu a história séria, cresceu a paixão constante, além do que num momento pode ser dito. Soldado da borracha é valor e respeito, acima de bandeiras e de guerras. Deixados à margem, quando queriam tão pouco, eles venceram febres e saudades, enfurnaram sofrimentos, deram vida ao isolamento. Bichos soltos e ilusões domadas. Do sertão, da caatinga, para a floresta cheia de árvores e emoldurada de águas. Muito regatão em cada porto-solidão, sem notícias dos canhões ou da família, enquanto a conta da borracha nunca fechava. Isso abriu horizontes, fez crescerem vidas.

A verdade corajosa de homens humildes venceu a mentira oficial e criou nosso herói. A aldeia ainda é um grande seringal, a gente ainda é simples, mas não está à venda. A coragem que embalou nosso berço não conheceu delivery. O Chaga Velho, seringueiro e bravo que honrou esta aldeia, era muito respeitador, mas não temia cabra valente nem onça dissimulada, só temia o São Francisco dele. Encarava dor e cansaço, como tantos outros que com ele vieram e fizeram nossa história. Os que a vigiam, soldados do sonho, seringueiros ou frutos, têm a feliz certeza de crescer devagar, à sombra de árvores frondosas, fincadas em profundas raízes. Têm bons exemplos a seguir. E uma bela história para contar.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito acreano.

Fonte: Blog do Altino.

Estupro intelectual de crianças brasileiras

Deixe carregar e assista.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Casa de Chico Mendes é reaberta ao público

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Motivo de polêmicas e manchetes negativas nas últimas semanas, os Espaços de Memória Chico Mendes estão novamente abertos ao público desde o último final de semana, segundo informa o blog História Multimídia de Xapuri.

A reabertura dos espaços se deu com a vinda a Xapuri do chefe do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Elias Mansour, Liberalino Souza, que se reuniu com a equipe de funcionários coordenada pela gestora Caticilene Rodrigues.

Os espaços estão funcionando normalmente de segunda-feira a sábado, no horário de 8 às 18 horas, com exceção do Café Regional, que procura por interessados em movimentar a lanchonete através de termo cooperativo.

Desvendado o “crime da canoa”

“Senti pena dele, mas estava precisando do dinheiro”, afirmou o homem que matou colega de bebedeira para lhe roubar a mísera quantia de vinte e dois reais.

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Está praticamente elucidado o crime que começou a ser investigado pela Polícia Civil de Xapuri a partir de uma canoa contendo grande quantidade de sangue encontrada por um pescador descendo o Rio Acre na manhã da última sexta-feira (29).

A sequência de fatos que apontavam para a ocorrência de um homicídio se deu com o aparecimento do corpo de Sebastião Ferreira de Assis, 40, nas águas do mesmo rio, resgatado pela polícia por volta das 15 horas do dia seguinte, sábado (30).

A descoberta do corpo apresentando marcas de perfuração no pescoço e uma enorme rachadura no crânio foi imediatamente relacionada pela polícia ao barco ensanguentado que havia sido resgatado no dia anterior.

As investigações feitas pela Polícia Civil levaram a Renato Rodrigues da Silva, 21, o mutante, que detido na manhã desta terça-feira (2) por uma equipe composta por policiais civis e militares confessou ter matado a vítima para se apossar de R$ 22,00 (vinte e dois reais) que a mesma levava no bolso.

A versão do acusado

De acordo com o acusado, horas antes do crime, ele e a vítima bebiam juntos em um bar no centro da cidade quando se envolveram em uma confusão na qual atentaram contra a vida de um idoso. Depois disso, tomaram o rumo a praia do Mirantes Bar, onde roubaram uma canoa e seguiram rio abaixo.

Durante a descida pelo rio, Renato afirmou que decidiu matar Sebastião pelo simples objetivo de roubar o dinheiro que o mesmo carregava no bolso da bermuda. “Bati na cabeça dele com um pedaço de madeira e depois cortei o seu pescoço com um gargalo de garrafa. Em seguida, joguei o corpo no rio”, confessou friamente.

O acusado confessou ainda que Sebastião nada fez a ele para merecer morrer daquela maneira e que, inclusive, a vítima chegou a implorar para que Renato não o matasse. Indagado pelo delegado Ricardo Casas se não havia sentido pena da vítima, respondeu: “Senti pena dele, mas estava precisando do dinheiro”.

Para a polícia o caso está praticamente resolvido, restando apenas confirmar se Renato agiu sozinho ou se havia a presença de uma terceira pessoa na cena do crime. O delegado Ricardo Casas, titular da delegacia de Xapuri, deve solicitar ainda hoje a prisão preventiva do acusado.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Xapuri está no caminho certo

Haroldo Sarkis

As opiniões grosseiras e irônicas que muitos, alguns a pretexto de defender a terra onde nasceram, querem nos empurrar de goela abaixo, de que “Xapuri está uma merda” ou de que somos a “cidade do já teve”, entre outras expressões que, além de vulgares, são negativas e preconceituosas, desconsideram, por má fé ou ignorância, quiçá ambas as opções, todo um esforço que tem sido feito pelo prefeito Bira Vasconcelos e sua equipe, desde que assumiu este mandato, para reorganizar a vida de um município arruinado, em vários aspectos, por administrações anteriores.

Xapuri tem hoje, a despeito da crise que é evidente não apenas para os xapurienses, algumas situações que há muitas décadas não eram vivenciadas por sua humilde, mas sempre batalhadora e esperançosa população. Começando pela Saúde, os quatro postos que estavam completamente abandonados no começo da administração, sem profissionais nem medicamentos, contam atualmente, todos eles, com médicos dotados de registro no Conselho Regional de Medicina, como exige a lei, além de três odontólogos, igualmente credenciados, atendendo diariamente.

A população de Xapuri tem hoje à sua disposição o tão sonhado exame de ultrassonografia sendo realizado todas as semanas no Centro de Saúde Félix Bestene Neto. Antes disso, as grávidas do município tinham que se deslocar para Brasiléia ou Cobija, na Bolívia, para realizar esses exames possuindo ou não condições financeiras para isso. Essa conquista foi resultado dos esforços de uma prefeitura que jamais perdeu o foco no bom atendimento ao cidadão e que tem o pensamento de que esse objetivo deve estar sempre à frente de outras demandas menos prioritárias.

Ainda no campo da Saúde, o município criou e está mantendo com recursos próprios uma estrutura para o transporte de pessoas que necessitam de atendimento fora de Xapuri com a contratação de um carro tipo Van que transporta diariamente, de segunda a sábado, entre Xapuri e Rio Branco, 15 pessoas em um veículo confortável, com ar condicionado, sem nenhum custo para o paciente, num serviço que o prefeito apelidou de TFD Municipal, em alusão ao programa de Tratamento Fora do Domicílio mantido pelo governo estadual. Não se pode esquecer também que toda última semana de cada mês do ano especialistas das áreas de cardiologia, geriatria, pediatria, ginecologia e até oftalmologista fazem atendimento em Xapuri, o que torna evidente que o município apresenta melhorias nunca vistas no setor.

Na educação, professores foram contratados, escolas foram construídas e restauradas, o transporte escolar reforçado e as ações da atual administração nessa área já resultaram na melhora dos índices do IDEB, avaliação na qual Xapuri aparecia como último colocado do Acre para hoje ser o décimo segundo, posição que resgata o orgulho do município e reforça a necessidade de se continuar investindo no setor. Parcerias com outras instituições, como é o caso do IFAC, estão proporcionando novas oportunidades, com cursos técnicos e superiores, para os jovens do municípios que ficavam ociosos quando terminavam o ensino médio e tinham que ir buscar fora de Xapuri a complementação dos seus estudos.

Outro ponto importante que merece ser destacado é a valorização dos servidores municipais que pelo terceiro ano consecutivo estão tendo seus salários reajustados dentro uma política aberta de negociação com os sindicatos que representam as categorias da Administração e da Educação na qual tem sido garantido, ao mesmo tempo, o equilíbrio financeiro do município e o direito de reajuste do servidor que na administração anterior passou quase 4 anos sem ter qualquer tipo de aumento em seus salários.

Na agricultura, pode-se destacar algumas ações que tem melhorado substancialmente a vida do produtor, como a garantia de escoamento da produção, que hoje contempla 14 linhas, trazendo diariamente 3.000 kg de produtos do campo para cidade; a mecanização de áreas degradadas com quatro tratores em parceria com as comunidades; o programa Compra Antecipada em parceria com o governo do Estado e o trabalho de plantio de mudas em nascentes dos igarapés do município.

Na Infraestrutura, tem sido desenvolvidas ações que pouco a pouco vão melhorando a qualidade de vida da população, como a construção de 28 casas populares no conjunto Constantino Melo Sarkis com rede de esgoto, água encanada e ruas asfaltadas. Foram concluídas obras importantes em parceria com o governo do Acre que, como o novo Lar dos Vicentinos que hoje está oferecendo uma melhor condição de vida para as pessoas idosas que ali residem; a reconstrução da Ponte da Bolívia que, apesar de ter sido concluída com bastante atraso, devolveu a auto-estima da população do bairro da Bolívia que fazia vários anos não tinha possuía um acesso digno ao centro da cidade.

Na área do esporte, a prefeitura iluminou o estádio Álvaro Felício Abrahão, um sonho dos desportistas locais, está realizando os campeonatos municipais da primeira e da segunda divisões, além de estar apoiando a primeira equipe xapuriense a disputar uma competição profissional no Acre, como é o caso da Amax, que vem fazendo boa campanha no Campeonato Acreano da 2ª Divisão. Outras ações, como o início da construção de quatro quadras de esportes, nos bairros Hermínio de Melo, Bolívia e Laranjal, além da reforma da quadra de esportes do bairro do Pantanal, evidenciam a preocupação do prefeito Bira de valorizar a prática de esportes nas comunidades e de criar alternativas de lazer para a juventude.

O Programa de Recuperação de Ramais já melhorou neste ano mais de 250 quilômetros de estradas vicinais de um total previsto de 300 quilômetros. O programa Ruas do Povo, do governo do Estado, que pavimentará 8 quilômetros de ruas neste ano e mais 5 quilômetros em 2012, mudará a cara da cidade, transformará a paisagem dos bairros mais distantes do centro, valorizará as propriedades e elevará a auto-estima também dessas populações, que nunca tiveram o prazer de morar em uma rua calçada de tijolos. 

Os exemplos acima podem parecer pouco ou nada, dependendo do ponto de vista ou da natureza das intenções do observador, mas representam, para as pessoas de boa fé e que possuem o espírito de esperança numa cidade melhor, resultado do trabalho que vem sendo realizado dentro das condições que um município como Xapuri possui no atual momento da história, e esclarecem que a cidade, e o próprio município como um todo, não estão abandonados, jogados às traças, como alguns críticos querem, a qualquer preço, fazer crer. Tentativas de tirar a alegria e a esperança do povo xapuriense, desmerecendo-nos perante outros municípios acreanos, não podem servir como amostra de amor e preocupação com a terra natal.

Usando as palavras do próprio prefeito, sabemos que nossa cidade não se encontra na situação em que gostaríamos de vê-la, mas, mais do que nunca, temos a consciência de que Xapuri está no caminho certo, com ações firmes e condizentes com a atual realidade econômica do município, bem melhor e tão diferente do que quando a administração Todos por Xapuri começou, em janeiro de 2009.

Haroldo Sarkis é assessor de Divulgação Social da Prefeitura de Xapuri.

“Estou indignado”

Eden Mota

Li, nos blogs de Xapuri e Rio Branco, alguns comentários com críticas a atual situação de Xapuri. A maioria dos xapurienses, certamente, não concorda com as críticas feitas nos diversos meios de comunicação. Os que criticam, um dia entenderão a missão difícil que é administrar um município.
 
Mas, senhores administradores, não deem importância às críticas. Elas são feitas por uma gente estranha, que confunde utopia com projeto. Gente que imaginou que os critérios poderiam ser melhor discutidos. Os blogueiros e jornalistas não podem, realmente, opinar sobre um assunto que não interessa a eles, tampouco têm conhecimento. 
 
Mais ainda: comentar que Xapuri passa por uma séria crise é pura maldade dessa gente. Está na cara que Xapuri vem em um elevado crescimento econômico e social. Está na cara de todos, basta visitar. Só não vê quem não quer. Como podem criticar algo tão injustamente? Mas os críticos são mesmos terríveis. Ninguém entende como eles podem defender tal absurdo.
 
Sei que os administradores de Xapuri não precisam de conselhos, mas vou cometer a ousadia. Mantenham suas ideias - a realidade é que precisa ser modificada. Um dia os críticos entenderão que a administração atual tinha razão, a tal da realidade é que teimava em dizer o contrário - fato anteceder norma é mero detalhe.

Concluindo. Não fiquem aborrecidos comigo. Certamente vão querer me intrigar com os administradores de Xapuri. Não vão conseguir. Acreditem, vibro com o trabalho dos senhores frente à nossa “Capital Mundial da Ecologia”, como costumo dizer. Sei que corro um risco enorme de ser mal interpretado, espero que não pensem em me processar como fizeram os vereadores de Xapuri. Se isso acontecer, vou me socorrer dos direitos humanos, mas sem usar a Declaração Universal da ONU. Prefiro os Estatutos do poeta Thiago de Mello, que no artigo quinto, diz:
 
“Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura das palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo, porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa”.
 
Fico por aqui, um abraço afetuoso de um admirador da administração municipal.
 
Éden Mota, cidadão brasileiro, xapuriense de coração, flamenguista, com os direitos políticos em dia.

Seresta dos Pais

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Mulher de Gêmeos

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que quer
Mas tirante isso
É boa mulher.

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que diz
Mas tirante isso
Faz o homem feliz.

A mulher de Gêmeos
Não sabe o que faz
Mas por isso mesmo
É boa demais…

Vinícius de Moraes (1913-1980) gostava de astrologia e de mulher.