terça-feira, 10 de março de 2015

O QUE SE ESCONDE POR TRÁS DO ÓDIO AO PT

Leonardo Boff

Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do  brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.       

Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e  por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemente a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos desligitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atenda a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.       

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no BrasilI (1965) diz com palavras que parecem atuais: ”Os liberais no império, derrotados nas urmas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).       

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos.Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vida e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas abominam o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval.       

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçável cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibilitou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação”(p. 31-32).                

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável:  com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro), o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância  de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social.       

Isso é intolerável pelas classes  poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.       

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um  destino diferente ao Brasil.         

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitou seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.        

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais  tornaria arriscado este intento e talvez até inviabilizável.            

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas.       

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos município - posso testemunhá-lo - vive-se um outro modo de fazer política, com participação  popular, mostrando que um sonho tão generoso não morre assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta? Voltaremos ao tema.

Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil, teólogo e escritor.

segunda-feira, 9 de março de 2015

SUBINDO NOVAMENTE

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O Rio Acre se aproximou dos 12 metros de profundidade em Xapuri na manhã desta segunda-feira, 9. A Defesa Civil se mantém alerta para a possibilidade de um novo transbordamento. O rio atingiu a cota de inundação em Xapuri - 13,40 metros - na tarde do dia 21/02. No dia 27/02, chegou a cota máxima de 18,30 metros.

Na segunda-feira da semana passada, 2, o nível do rio estava em 12,86 metros, ainda acima da cota de alerta - 12,50m - mas abaixo da cota de inundação - 13,40m. Depois disso, baixou para 8,23 metros na última quarta-feira, 4. A partir de então voltou a subir rapidamente e chegou a 11,91 metros por volta do meio-dia de hoje.

O PANELAÇO DA BARRIGA CHEIA E DO ÓDIO

Juca Kfouri

Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.

Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.

O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.

Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.

Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.

Como eu sou.

Elite branca, termo criado pelo conservador Cláudio Lembo, que dela faz parte, não nega, mas enxerga.

Como Luís Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, que disse:

“Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres.

O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar.

Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente.

Não é preocupação ou medo. É ódio.

Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou.

Continuou defendendo os pobres contra os ricos.

O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres.

Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força.

Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita.

Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho.

E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.”

Nada diferente do que pensa o empresário também tucano Ricardo Semler, que ri quando lhe dizem que os escândalos do mensalão e da Petrobras demonstram que jamais se roubou tanto no país.

“Santa hipocrisia”, disse ele. “Já se roubou muito mais, apenas não era publicado, não ia parar nas redes sociais”.

Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.

Ou a falta de educação, ao chamar uma mulher de “vaca” em quaisquer dias do ano ou no Dia Internacional da Mulher, repetindo a cafajestagem do jogo de abertura da Copa do Mundo.

Aliás, como bem lembrou o artista plástico Fábio Tremonte: “Nem todo mundo que mora em bairro rico participou do panelaço. Muitos não sabiam onde ficava a cozinha”.

Já na zona leste, em São Paulo, não houve panelaço, nem se ouviu o pronunciamento da presidenta, porque faltava luz na região, como tem faltado água, graças aos bom serviços da Eletropaulo e da Sabesp.

Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado.

Que as vozes de Bresser Pereira e Semler prevaleçam sobre as dos Bolsonaros é o mínimo que se pode esperar de quem queira, verdadeiramente, um país mais justo e fraterno.

E sem corrupção, é claro!

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Desde 2005, é colunista da Folha de S.Paulo e do UOL.

RECONHECIMENTO DA CALAMIDADE EM XAPURI

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Foi publicada, na manhã desta segunda-feira, 9, na seção 1, página 33, do Diário Oficial da União, a portaria da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, vinculada ao Ministério da Integração Nacional, reconhecendo, por procedimento sumário, o decreto de estado de calamidade pública em Xapuri, que havia sido baixado pelo prefeito Marcinho Miranda no último dia 27 de fevereiro.

A notícia foi comemorada no município, que sofre as consequências da maior enchente da sua história. O estado de calamidade pública se efetiva quando situação anormal, decretada por motivo de desastre e em razão da magnitude dos danos, requer auxílio direto e imediato do Estado ou da União para situações de socorro, assistência às vítimas, restabelecimento de serviços essenciais e reconstrução.

Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil também reconheceu, nesta segunda-feira, a situação de emergência, por procedimento sumário, nos municípios de Capixaba, Porto Acre e Sena Madureira, que também padecem sob os efeitos das alagações.

domingo, 8 de março de 2015

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

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Pensei em uma mulher xapuriense através da qual pudesse homenagear todas as demais nesta data e escolhi dona Carmen Veloso, uma das nossas quituteiras mais tradicionais, falecida em março do ano passado.

Conhecidíssima pela sua cajuína, seus licores e biscoitos, dona Carmen fez parte de uma geração de mulheres fortes e guerreiras que muito contribuíram para a formação da sociedade local.

A doceira é dona de uma das frases mais impactantes proferidas em Xapuri nos últimos tempos. Foi em 2011, numa conversa com o jornalista Altino Machado, que dona Carmen tascou a célebre “Xapuri está uma merda”.

A discussão que se seguiu foi gigantesca e tirou dona Carmen do anonimato de sua modesta cozinha, localizada no centro antigo de Xapuri, para alçá-la à condição de celebridade da hora. Inesquecível.

Carmen Veloso, como outras e outros tantos dessa geração de heróis e heroínas, partiram sem conseguir ver, apesar dos esforços baseados no amor e na dedicação, o modelo de cidade com o qual muito sonharam.

Em nome dessa grande mulher xapuriense o blog homenageia todas as outras que fazem desse mundo e, especialmente, dessa nossa terra lugares suportáveis de se viver. Feliz Dia Internacional da Mulher.

sábado, 7 de março de 2015

ATENÇÃO COM O RIO ACRE

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A CPRM – Serviço Geológico do Brasil - mantém a atenção com o nível do Rio Acre. Depois de baixar da cota de alerta, o manancial voltou a registrar subida em Xapuri, assim como ocorreu nos municípios de Assis Brasil, Epitaciolândia e Brasiléia. De 9,14 metros registrados nessa sexta-feira, 6, o rio subiu para 10,83 metros neste sábado às 17h30.

Nessa enchente, o nível do Rio Acre em Xapuri atingiu a cota de inundação - 13,40 metros - na tarde do dia 21/02. No dia 27/02, o rio chegou a cota máxima de 18,28 metros. Na última segunda-feira, 2, o nível do rio estava em 12,86 metros, ainda acima da cota de alerta -12,50m -, mas abaixo da cota de inundação - 13,40m. Depois disso, baixou para 8,23 metros na última quarta-feira, 4, quando recomeçou a subir.

O Serviço Geológico é o responsável pelo Programa Geologia do Brasil, do Governo Federal.

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Técnicos da CPRM na sala de situação da Defesa Civil em Rio Branco/AC.

ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA EM XAPURI

Decreto municipal foi reconhecido na manhã deste sábado, 7, e portaria deverá ser publicada na próxima segunda-feira, 9, no Diário Oficial da União, pelo Ministério da Integração Nacional

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Demorou menos do que o prefeito Marcinho Miranda esperava para que o Decreto Municipal Nº 007/2015, de 27 de fevereiro de 2015, estabelecendo no município de Xapuri o “Estado de Calamidade Pública”, fosse reconhecido pelo Ministério da Integração Nacional.

O prefeito aguardava, conforme informou na manhã deste sábado, 7, em entrevista à Rádio Educadora 6 de Agosto, que o reconhecimento por parte do governo federal ocorresse, no máximo, até a próxima terça-feira, 10. Ele explicava que não procediam as informações de que o requerimento encaminhado à Defesa Civil Nacional tivesse sido recusado.

A informação do reconhecimento chegou através do coordenador da Defesa Civil Municipal, Joscíres Ângelo, que a havia recebido do Comando Geral do Corpo de Bombeiros e da Coordenação Estadual de Defesa Civil. Ângelo diz que agora o foco é o PDR – Plano Detalhado de Resposta – para a reconstrução das áreas atingidas.

“Projetos para ministérios da Integração, das Cidades e Calha Norte, em busca de recursos. Toda ajuda será muito bem-vinda. Juntos somos fortes”, disse em comentário em seu perfil no Facebook.

O município tem o prazo de 30 dias a partir da decretação da situação de emergência ou estado de calamidade pública para apresentar a documentação ao Ministério da Integração Nacional.

QUESTÃO DE TEMPO

Prefeito diz que estado de calamidade pública será reconhecido também para Xapuri

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O prefeito Marcinho Miranda informou na manhã deste sábado, 7, em entrevista à Rádio Educadora 6 de Agosto, que o fato de Xapuri não ter sido contemplado pela portaria que reconheceu o estado de calamidade pública por procedimento sumário para as cidades de Rio Branco e Brasileia, no último dia 5, não significa que o município teve o seu requerimento recusado pelo governo federal.

O gestor municipal explicou que uma nova avaliação sobre a gravidade do desastre natural que atingiu o município está sendo realizada pelas autoridades da Defesa Civil e que o reconhecimento, por parte do governo federal, de que Xapuri enfrenta as consequências de um desastre de nível II, o que enseja a decretação do estado de calamidade pública, segundo os critérios da Secretaria nacional de Proteção e Defesa Civil, deverá ocorrer até o início da próxima semana.

O decreto de “Estado de Calamidade Pública” em Xapuri foi assinado pelo prefeito ainda no dia 27 de fevereiro passado. O requerimento foi enviado ao Ministério da Integração juntamente com o Plano Detalhado de Resposta, que alcançou o valor de R$ 1.069.625,90 (um milhão, sessenta e nove mil, seiscentos e vinte e cinco reais e noventa centavos).

Marcinho Miranda afirmou que a prefeitura fez o reendosso do pedido e encaminhou ao Ministério da Integração Nacional a documentação complementar a respeito da extensão dos prejuízos causados dentro dos limites do município pela enchente histórica do Rio Acre. O prefeito diz que todas as medidas foram tomadas conforme as exigências da Defesa Civil Nacional, que enviou a Xapuri um analista técnico para orientar o município quanto aos procedimentos burocráticos a serem feitos.

“Não houve atraso de documentação e muito menos falta de orientação por parte da Defesa Civil. Também não existiu falta de interesse de nossa parte nem do governo do estado em fazermos o que é importante e necessário para o município nesse momento tão difícil em que tudo o que puder chegar às pessoas necessitadas é importante”, disse.

Informações da Coordenação Municipal de Defesa Civil dão conta de que 98% da população urbana de Xapuri foi, de alguma maneira, prejudicada pela enchente, em razão de praticamente toda a rede de serviços essenciais ter sido afetada a ponto de todos os serviços de atendimento às pessoas serem integralmente suspensos ou improvisados, como foi o caso do único do hospital da cidade, que passou a fazer atendimentos de urgência e emergência em um posto de saúde.

Mais de 30 órgãos das esferas municipal, estadual e federal foram inundados. Foram mais de 800 edificações atingidas pelo rio, dezenas delas tendo sido inteiramente destruídas ou levadas pelas águas. A quantidade de famílias que foram obrigadas a deixar suas casas somou 807, o que resultou no número de 2.425 pessoas expulsas de seus lares pelo desastre. No momento, 80 famílias ainda se encontram nos abrigos em Xapuri.

PRONTO. AGORA QUEM ESTÁ ALAGADA É A MINHA MENTE…

Marcos Afonso Pontes, via Facebook.

É óbvio que nestes últimos dias, líquidos, perambulei muito por este Facebook. Para me informar e mirar as boas fotos. Mas agora, quem está alagado sou eu. Na verdade, intoxicado. Meio desabrigado de Razão.

Escrevo como simples professor e um jornalista meio das antigas.

Com as sempre honrosas excessões (no caso atual, a comovente solidariedade), está se construindo uma "psicologia" comportamental nesse Facebook. E um "modus vivendi" de exposições mútuas, egocêntricas, com uma nudez delirante, onde ausentes quaisquer senso crítico, conhecimento básico (da língua, inclusive) e limites do ridículo.

À primeira vista, parece que a química, a física, a biologia, a medicina, não fazem mais sentido. Depois, vê-se que a história, a geografia, a sociologia, são coisas inventadas há muito e esquecidas. Por fim, a quase absoluta ignorância em política, economia e, desculpem a lembrança, filosofia.

É um movimento de negação da realidade aparentemente "consciente".

O Facebook é uma plataforma de rede social muito importante. Por ser livre. Por ser hoje universal.

Justamente por isso, há espaço para tudo.

Se se democratiza o conhecimento, a informação, as amizades, dissemina-se também aquilo que todos sabiam e sabem existir, mas nunca tão manifestado: a oceânica alienação.

O Facebook é um instrumento de poder. As inconfessáveis histerias, os vis preconceitos, as limitações de pensamento, agora encontram centenas de "parceiros". Nesse encontro de semelhantes, reforçam-se ideias atrasadas, pensamentos medievais, obscurantismos e ódios. O indivíduo, achando-se num coletivo, ganha coragem, estimula-se e - por que não? - passa a destilar mediocridades com mais vigor. Afinal, ele não está mais sozinho, tem seus pares, tudo pode, ele não está frente-a-frente, sabe que não sabe e condena, ou sabe que sabe e deturpa.

Por fim, parece que não tem mais necessidade a existência de Prêmio Nobel.

Os eruditos historiadores, os economistas de renome mundial e os enormes cientistas políticos que aqui pululam, justificam o fim do prêmio.

Quer ver?

Marcos Afonso Pontes é professor, jornalista e ex-deputado federal.

sexta-feira, 6 de março de 2015

IMAGEM DO DIA

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Quantas coisas esse rio nos diz.

PREFEITURA RECEBE DONATIVOS DO GOVERNO

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O governo do Estado iniciou nesta sexta-feira, 6, a entrega parcial dos 17 mil kits enviados pelo Ministério da Integração Nacional para os atingidos pela enchente no município de Xapuri, que enfrenta as consequências da maior enchente de sua história.

Para fazer a entrega dos donativos à prefeitura, a vice-governadora Nazaré Araújo se dirigiu à cidade acompanhada pela desembargadora Valdirene Cordeiro, representando o Tribunal de Justiça, e pelo procurador adjunto de Justiça, Carlos Maia, representando o Ministério Público.

A entrega e a assinatura do termo de recebimento das mercadorias foram feitas no estacionamento do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Acre (IFAC), que está servindo de base às principais ações da Defesa Civil na cidade desde que a enchente se agravou no município.

“Estamos vindo a Xapuri nos solidarizar com toda a população, trazendo uma mensagem de ânimo, de conforto e de apoio do nosso governador Tião Viana, e agradecer a todas as pessoas que demonstraram o seu carinho, a sua solidariedade e acima de tudo o seu voluntariado”, disse a vice-governadora Nazaré Araújo.

Acompanhado do juiz da comarca Luís Gustavo Alcalde Pinto e do promotor de justiça Bernardo Albano, o prefeito Marcinho Miranda recebeu uma remessa inicial de 204 colchões e 214 kits de fraldas infantis.

“Temos que agradecer o apoio de todas as instituições que estão prestando ajuda a Xapuri. Aqui nós estamos unidos, o governo do estado, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça lutando por uma causa só”, afirmou o prefeito.

De Xapuri, a comitiva da vice-governadora seguiu para Epitaciolândia, Brasiléia e Assis Brasil, onde também fará a entrega dos donativos e levará a mensagem de apoio do governo às famílias atingidas pela alagação naqueles municípios.

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Tribunal de Justiça e Ministério Público acompanham entrega de donativos.

PELAS BEIRADAS A CANJICA É MAIS FORTE

CLÁUDIO MOTTA PORFIRO*

Eram aqueles tempos em que a boa semeadura se fazia com muito afeto e carinho, na certeza de que os extensos períodos de colheita farta logo viriam, como vieram, na graça de Deus. Virtuosos como eles só, as melhores previsões foram feitas. Aí, o verão enrijeceu os caules, o inverno regou as plantas, a primavera fez florar tudo com muita singeleza e, já no outono seguinte, apareceram frutos tão doces e tão saudáveis que o amor recrudesceu e muitos novos ciclos vieram para aumentar a riqueza espiritual que ainda hoje muito viceja.

Hoje, dizem que os objetivos traçados pelos mais inteligentes passam logo a ser desafios a serem superados, metas a serem cumpridas, realidades que serão traduzidas na mesa farta e na felicidade tranquila dos bem aventurados. É verdade e dou fé.

- A vida é dura! Acostume-se aos varadouros escorregadios! Enfie isso na cabeça! E pronto!

Era o que dizia o patriarca a subir e a descer os barrancos íngremes, carregando nas costas a história de um povo e o desejo de ver os seus em postos tão avançados como ele jamais conseguiria vislumbrar, mesmo nos melhores sonhos das noites de verão embaladas pelo canto da coruja lá no olho da castanheira de quarenta metros de altura. Virgem dos céus!

Na alma, nas trouxas e no matulão, eles trouxeram consigo, desde o sertão seco de cada dia, o estilo nordestino de criar gente para ser gente, desde a mais tenra idade, trabalhando nos afazeres domésticos, cumprindo as tarefas escolares, aprendendo o catecismo, indo à Missa aos Domingos e pedindo aos mais velhos as bênçãos rogadas a um Deus beneficente que lhes presenteou com bastante êxito pela vida afora.

Hoje, lágrimas são vertidas porque a gratidão é tamanha que não cabe no peito e pipoca pelos olhos afora; isto, sem falar na bênção que foi conviver em meio a uma comunidade onde a maioria das pessoas fazia o bem sem olhar a quem, simplesmente.

No início de tudo, coisas interessantes já começaram a acontecer. Deus estava de sobreaviso e prestava muita atenção às ocorrências e às pessoas em uma certa casa da cidade princesa.

O menino de letras nasceu de boa cepa. A família lhe queria ensinar tudo, inclusive aquilo que não sabia, como tocar piano ou fazer versos que só bem depois passariam a ser desenhados a partir da janela da casa da rua das castanholas, com os olhos arregalados para o céu noturno ou diurno à procura do futuro escondido por trás de uma estrela qualquer. Voa, moleque, voa!

As primeiras letras foram emendadas ainda aos cinco de idade de uma forma muito especial. Em seis meses de aprendizado, já lia de carreirinha folhetos de cordel editados no nordeste do Brasil e vendidos, na livraria, pelo moço do saxofone porque chorava. Não seria diferente, posto que em casa contava com uma irmã professora a dar aulas particulares para uma turma de filhos da pequena burguesia citadina, afoitos e nada afeitos aos afazeres escolares. Lá, ao lado dela, ele se postava meio de carona, muito tranquilamente, vendo o reboliço da moçada arisca na sua pouca idade e aprendendo só de fixar os olhos nos lábios sem batom da alfabetizadora de alma límpida e bela. Uma bênção!

No ato da matrícula no grupo escolar, ele surpreendeu a todos. Havia a possibilidade de inseri-lo entre as crianças do primeiro ano atrasado. Então, a diretora mandou que ele lesse as palavras marquês de Calabar, da historieta do Gato de Botas. Ele leu todo o primeiro parágrafo quase sem tomar fôlego e, depois, ainda recitou o estribilho do Hino Acreano.

Por isto, foi matriculado no grupo das quarenta crianças que cursariam o primeiro ano adiantado... Era como se houvesse ganhado o grande prêmio de uma competição qualquer. Uau!

Com a caligrafia acanhada, a pedido da professora, ele escreveu o nome no quadro preto com giz branco. Aquela era a calçada da fama toda sua. No teste de leitura  -  primeiro dia de aula  -  a ele não foi permitido ir além do parágrafo inicial. Tinha um nível bem acima do comum.

No primeiro dia, a mestra morena bela e enérgica até as tripas conseguiu fazer o teste com apenas um terço dos alunos. No dia seguinte, ela foi muito prática. Enquanto alguns iam à mesa da professora, o menino de letras ia de carteira em carteira tomando a lição dos demais. O resultado foi que antes do fim da aula a tarefa estava concluída.

Cumprindo recomendação dos pais, estava sempre atento aos mínimos detalhes. Era tranquilo, sossegado e de poucas falas, o que logo repercutiu na escola. Alguns o taxaram de lerdo. A professora o achou concentrado. E acertou.

A maioria das crianças era bem quieta e ficava vendo ou tinha medo de dois meninos que faziam a professora morena e bela gritar a plenos pulmões.

- Não pulem em cima das cadeiras! Não conversem! Não briguem! Chamarei aqui, hoje mesmo, as suas mães...

Foi aí que o menino de letras percebeu que algumas crianças tinham certas facilidades no aprendizado da leitura e da escrita. Uma boa parte deles, no entanto, apresentava dificuldades extremas e mal gaguejavam algumas poucas palavras, notadamente os mais arteiros e, talvez por isso, taxados pela professora de rudes. Certo é que as diferenças passaram a ser percebidas e os resultados futuros foram um tanto catastróficos para aqueles cujas famílias não davam prioridade à sua educação. Uma pena.

Enquanto boa parte das outras crianças de sete anos vivia perambulando pelas ruas da pequena cidade, ele ficava em casa e os via passar ao longe em busca do jogo de petecas, algo terminantemente proibido pelos pais sertanejos ranzinzas. Tal fato, é claro, o tornou desavisado com relação ao comportamento dos demais.

A camisa branca de cambraia fina e a bermuda de casimira azul deveriam ser usadas por toda uma semana, ao término da qual o uniforme era lavado.

Numa segunda-feira, com o uniforme limpo e cheiroso, no recreio, ele ficou a apreciar a molecada no seu corre-corre natural, quando um deles, um pouco mais velho, o desafiou a alcançá-lo na carreira. Desafio aceito, os dois se foram correndo pelo campo afora.

Inexperiente com relação às astúcias e truques dos demais meninos, ele não viu que o garoto à sua frente avançou por entre capins amarrados uns aos outros. Já no primeiro obstáculo, ele tropeçou e caiu feito uma pamonha sujando a farda.

Felizmente, naquele dia, em casa, a mãe foi compreensiva e apenas lhe quis arrancar as orelhas, isto, com muito carinho, é claro, à moda dos sertanejos.

Em verdade, o moleque ossudo das canelas finas, aqui apelidado menino de letras, fez tanto que fez que conseguiu angariar a simpatia de parte considerável dacidade princesa que ainda hoje o admira aqui e ali.

Ficaram incrivelmente bem colocadas as palavras de um moço do futebol. Ele um dia disse que o moleque acanhado era ruim de bola, mas bom de escola. Bacana!

__________

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas, de 2008; e O inverno dos anjos do sol poente, romance, de 2014, à venda na Livraria Nobel do Via Verde Shopping.

AQUI O RIO (E MAIS) COMANDA A VIDA

Marcos Vinicius Neves

Alagações sempre fizeram parte da vida acreana, por vários fatores e nem sempre de forma negativa, aliás. Primeiro porque esse é o regime natural de todos os rios acreanos. Depois por que as mais antigas e principais cidades acreanas foram construídas exatamente nas margens dos rios uma vez que dependiam destes para o transporte, o comércio e a vida em geral. Tanto assim que Leandro Tocantins intitulou um de seus livros sobre o Acre como “O rio comanda a vida”.

Na verdade, o Acre ficava isolado exatamente na época da seca e só voltava a ter contato com o restante do Brasil quando os rios voltavam a encher. A cheia sempre foi, portanto, sinônimo de fartura, de baixa dos preços das mercadorias, de chegada de gente. Isso se alterou um pouco com a instalação do transporte aéreo regular a partir do fim da década de 30. Mas, não tinha efeito para o custo da vida em geral, já que quase tudo continuava chegando através dos vapores, chatas e batelões. Uma situação que só seria realmente modificada a partir de meados da década de 90 com o asfaltamento definitivo da BR-364 no trecho que liga o Acre à Rondônia. Ou seja, só muito recentemente.

De lá pra cá as coisas mudaram muito. As cidades começaram a ficar de costas pros rios e de frente pro asfalto. Que o diga o São Sebastião que fica na praça da beira do rio em Xapuri que foi virado de costas pro rio literalmente! E as pessoas em geral só voltam a lembrar como são belos e fortes os rios daqui quando estes enchem. Porque sim! O Rio Acre cheio é um espetáculo. Mesmo que as consequências de toda essa beleza sejam de tristeza pra tanta gente.

Por outro lado, é impossível não reconhecer que essa histórica alagação do Rio Acre é uma tragédia de grandes proporções para milhares e milhares de famílias acreanas que estão tendo pequenas ou grandes perdas em bens materiais e até em vidas humanas. Mas, o que se tem visto de união, boa vontade e solidariedade nos últimos dias é de uma beleza, compromisso e singularidade que não se costuma encontrar em outras partes do país.

Desde a semana passada, quando o Rio Acre começou a transbordar, toda a equipe do gabinete do senador Jorge Viana está empenhada, junto com muitos outros voluntários das secretarias municipais e estaduais e da sociedade em geral, em auxiliar aos desabrigados no Parque de Exposições. E o que tenho visto nesses dias por lá é de cortar o coração e ao mesmo tempo encher de orgulho.

É inegável que nos últimos anos o Governo do Estado e a Prefeitura de Rio Branco desenvolveram diversos procedimentos para atender aos desabrigados da alagação. No Parque de Exposições estão funcionando diversos serviços básicos como saúde, assistência social e segurança. Mas, as equipes envolvidas no trabalho, deste e de outros abrigos espalhados pela cidade, também se esforçam para atender outras necessidades, tais como: alimentação de boa qualidade, fiscalizada por nutricionistas; serviço de rádio por alto-falantes para avisos necessários, música e informações gerais; diversos locais com recreação infantil que incluem filmes, brincadeiras de roda e leitura de livros; corte de cabelo; agua mineral gelada por todo o parque para o consumo das famílias; lavanderia organizada a disposição dos desabrigados e banheiros constantemente higienizados; entre muitas outras ações ali disponibilizadas.

É claro que nada disso resolve a angustia e a dor que estão passando as milhares de pessoas desabrigadas. Mas a boa organização dos abrigos e, especialmente, a boa vontade dos voluntários, certamente, alivia bastante o sofrimento dessas famílias numa hora tão difícil.

Nestes dias tenho tido a oportunidade de conviver e trabalhar junto com pessoas da Emurb, da Semsur, do Senac, do Centro de Multimeios, e de muitos outros lugares e instituições, muitas das quais não conhecia, com um forte espírito de boa vontade e de solidariedade. O que me fez ver, mais uma vez, a beleza que existe para além dessa tragédia histórica. Me lembrei, então, de algo que o Toinho Alves me contou certa vez a respeito da vida no Acre. Ele me disse: “Rapaz! A vida na nossa floresta era e é tão difícil, tão dura, tão cheia de percalços, que seria impossível viver só. Uma pessoa que sofre um acidente ou fica doente só consegue sair da floresta e ir pra cidade se for ajudada, carregada mesmo muitas vezes, por seus vizinhos. E isso já faz parte de nossa cultura. É por isso que somos assim, tão dispostos a ajudar o outro”.

Ou seja, aqui não é só o rio que comanda a vida, mas a solidariedade também. Felizmente!

* Marcos Vinicius Neves é historiador.

XAPURI EM IMAGENS

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Recomeço, trabalho e solidariedade.

quinta-feira, 5 de março de 2015

VOLUNTARIADO

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A fábrica de preservativos Natex retoma a sua linha de produção a partir das 6 horas da manhã desta sexta-feira, 6, depois de suspender suas atividades por quase uma semana em razão da maior alagação da história das regiões do Alto e Baixo Acre. Durante o período mais grave da enchente em Xapuri, os colaboradores da indústria se dedicaram ao voluntariado.

Dos 170 funcionários da empresa, 19 foram afetados diretamente pela enchente. Do restante, diferentes equipes foram formadas para ajudar a Defesa Civil em ações como remoção de famílias, preparação e gerenciamento de abrigos, realização do cadastro social dos desabrigados e desalojados, juntamente com os setores de Assistência Social, e limpeza das casas no período pós-enchente.

“A participação da Natex neste momento de muitas perdas em Xapuri foi um envolvimento de cidadania, um movimento voluntário de total doação”, disse Dirlei Bersh, diretora-presidente da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), que administra a empresa.

Na manhã desta quinta-feira, 5, os funcionários da Natex receberam a visita de agradecimento de uma equipe formada por coordenadores das ações de Defesa Civil mobilizadas em Xapuri durante a enchente. Participaram do encontro o secretário de Estado de Segurança Pública, Emylson Farias, representando o governador Tião Viana, o promotor de justiça Bernardo Albano, o tenente César do Corpo de Bombeiros Militar do Acre e o tenente Santos, do 7º Batalhão de Engenharia e Construção (7º BEC).

“Nós temos que agradecer a todos os funcionários da Natex, em nome de sua direção, pela demonstração de humanidade e de doação pela população de Xapuri”, afirmou o secretário Emylson Farias.

A Natex produz atualmente 100 milhões de preservativos por ano e começará este a executar o projeto de duplicação dessa capacidade. Toda a produção da indústria acreana é absorvida pelo Ministério da Saúde para Programa Nacional de DST/Aids.

quarta-feira, 4 de março de 2015

É HORA DE PENSAR NO FUTURO

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Carlos Estevão Ferreira Castelo

O município de Xapuri viveu nos últimos dias de fevereiro de 2015 a maior “alagação” de sua história. Nunca antes, pelo menos que eu tenha visto nesses meus quarenta e tantos anos, as águas tinham “adentrado” a Igreja Matriz de São Sebastião. Durante o pico da cheia, e na vazante também, estive na cidade colaborando no que foi possível com familiares, vizinhos e amigos.

Nos dias que permaneci em minha cidade natal presenciei choros, raivas, fofocas, roubos, cobras, “selfies”, aranhas, lama, destruição, falta de água e luz, perdas de bens materiais e solidariedade. Muita solidariedade mesmo. Inclusive, nesse ponto eu e minha família seremos eternamente gratos a todos aqueles que nos ajudaram (fomos “duplamente atingidos” pela cheia - residência e casa comercial).

Agora que as águas baixaram é hora de pensar no futuro. Pensar no que fazer.

Concordo com o Professor Sérgio Souza que o momento é propício para reflexões, principalmente sobre as causas dos alagamentos. Entretanto, nesse rápido post, não problematizarei sobre o que pode ter provocado a “cheia histórica”. Até tenho algumas argumentações, mesmo sem ter especialização alguma na área, mas isso pode ser debatido em posterior momento. A proposta aqui é apresentar uma ideia sobre o que poderia ser feito “daqui para frente”.

Penso que é preciso ter clareza sobre a complexidade de calcularmos os totais prejuízos da população (prejuízos de todas as ordens). Entretanto, mesmo assim, precisamos estimar e prever as demandas que virão. Não sou engenheiro, mas não é tão difícil concluir que a recuperação total de bairros atingidos, das ruas, dos sistemas de drenagem, das plantações, etc. demorarão certo tempo. Eu estimo dois a três anos.

Portanto, um pacto social será necessário no processo de reconstrução de Xapuri. Essa é a proposta. Penso que políticos, empresários, trabalhadores, religiosos, etc., deverão se unir. Se não for assim, dificilmente as iniciativas que precisarão ser tomadas acontecerão.

E uma das tarefas resultado desse pacto é a elaboração de um “plano de reconstrução”. Um plano demostrando, com evidências, todas as intervenções necessárias no município. De prevenção, de contenção, de reconstrução (esgotos, transporte, saneamento, etc.). Um documento técnico, com farta documentação (fotos, depoimentos, estatísticas, etc.), a ser entregue nos Ministérios em Brasília. Que obras são importantes? Que ministério é responsável? Como as famílias que ocupam atualmente áreas de risco serão convencidas a sair? Há muito que fazer.

Esse plano será importante, também, para convencer que Xapuri precisa de um tratamento diferenciado. Não só Xapuri, mas Brasileia, Rio Branco, enfim. Brasília precisa tratar diferente quem mora nesse Estado. Por exemplo: porque não as instituições financeiras, que tanto lucram nesse país, reduzirem seus ganhos nesse momento disponibilizando dinheiro mais barato para os atingidos (empresas e trabalhadores)?

Estou disposto a colaborar, sempre.

Carlos Estevão Ferreira Castelo é xapuriense. Filho do Estevão e de dona Aurélia. Saiba um pouco mais sobre ele clicando aqui.

ANTES DE TUDO UM FORTE

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Tomo emprestado um pedaço da famosa frase de Euclides da Cunha em “Os Sertões” para exaltar a força desse povo acreano que, descendente dos nordestinos, sertanejos ou não, é antes de qualquer coisa dono de uma força e de uma bravura imensuráveis.

Pessoas como o sanfoneiro Juvenal Aquino (foto) são capazes de transformar sofrimento em esperança, tristeza em fé e o sentimento de perda em uma alegria que deixou meio sem jeito o blogueiro que a ele se dirigiu com ar circunspecto diante do cenário de tragédia produzido por uma enchente sem precedentes, da qual ele foi uma das muitas vítimas.

Juvenal nasceu no seringal Apodi, nas margens do Rio Xapuri, sendo o único xapuriense de 12 irmãos. Seus pais, Teodoro, um cearense de Sobral, e sua mãe, Rita, uma paraense de Castanhal, vieram para o Acre nos anos de 1940. Na viagem de barco até as matas de Xapuri, perderam três dos 11 filhos que traziam a reboque para esses confins da Amazônia.

Na cidade, onde chegou rapazote, se tornou sanfoneiro de prestígio e uma das pessoas mais queridas e respeitadas da comunidade. Sua casa noturna batizada Forró do Juvenal conquistou status de local de visita obrigatória. “Quem vai a Xapuri e não conhece o forró do Juvenal, perdeu a viagem”, costumava dizer o radialista Washington Aquino.

Nessa tragédia que atingiu Xapuri, Juvenal Aquino teve inundados tanto a casa de morada quanto o famoso salão de forró, de onde há mais de 30 anos tira o sustento da família. A exemplo da maior parte das pessoas atingidas pela enchente, não acreditou que o rio pudesse se enfurecer tanto, e perdeu quase tudo do pouco que tinha.

Entre os muitos pertences que foram perdidos na enchente estavam duas estimadas sanfonas de 48 baixos, que foram insensatamente levadas pelas águas. Não é necessário que ele diga para que se compreeenda que essa foi, sentimentalmente, a perda mais dura. Com a sanfona Juvenal Aquino possui um caso de amor que já foi tema de postagem neste blog.

Contudo, o encontrei na manhã da última terça-feira, 3, no lugar de sempre, com duas de suas características mais marcantes: o indefectível boné e o velho sorriso franco a lhe iluminar o semblante. Vassoura, rodo, balde e pano na mão. No peito, certamente, um coração ainda mais cheio de amor e de coragem para tocar a vida adiante, apesar dos pesares. Juvenal Aquino é antes de tudo um forte.

terça-feira, 3 de março de 2015

DIMENSÃO DA ENCHENTE

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A imagem de satélite mostra a área que foi inundada na região em Xapuri e região adjacente. Segundo os dados do geoprocessamento feito pela prefeitura, ela tem o tamanho de 14.890 hectares. A alagação atingiu 42,13% da zona urbana adjacente e 24,98% da área urbanizada.

A enchente expulsou de casa 2.425 pessoas. A maior parte delas está abrigada na casa de parentes e aderentes. O restante se encontra nos abrigos preparados pela prefeitura e pelo governo. Algumas não voltarão para as suas casas, pois elas não mais existem. Desceram o rio.

OPINIÃO

“Discordo dos que defendem que o momento não é propício para reflexões sobre as causas dos alagamentos nas cidades do Alto e Baixo Acre. Penso, inclusive, que instituições como a UFAC devem instituir linhas de financiamento para pesquisas na área. O evento, que atingiu milhares de pessoas, não pode ser compreendido como mera "tragédia natural", pois, se assim for, corre-se sério risco de que se repita no decorrer dos anos vindouros. Explicações precisam ser dadas. A primeira delas, seria analisar o índice pluviométrico dos últimos dez anos, para saber se o problema foi excesso de chuvas. Outra possibilidade é analisar o impacto dos desmatamentos, principalmente de matas ciliares, nos processos de assoreamento dos rios”. Sérgio Roberto Gomes de Souza, historiador e professor da UFAC.

DESBARRANCAMENTO AFETA MIRANTES BAR

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Um dos pontos mais frequentados de Xapuri, a casa de festas Mirantes Bar teve parte de sua estrutura levada por um desbarrancamento ocorrido por volta das 8 horas da manhã desta terça-feira, 3. O local já estava interditado pelo Corpo de Bombeiros desde quando a vazante revelou a possibilidade de desmoronamentos naquela área.

Toda a orla do Rio Acre na extensão que abrange as ruas Major Salinas, 6 de Agosto e 17 de Novembro apresenta sinais de comprometimento. Nos dias 1º e 2 de março, o efetivo do Corpo de Bombeiros Militar do Acre vistoriou 271 imóveis atingidos em Xapuri, interditando 87 deles, sendo que 69 tiveram interdição total e 18 tiveram interdição parcial. 

Encontram-se em Xapuri dois engenheiros da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas – SEOP – fazendo a avaliação dos imóveis vistoriados pelo Corpo de Bombeiros. A Coordenação de Defesa Civil aguarda o resultado desse trabalho para entrar na fase em que o retorno dos moradores às suas casas será discutido.

O desejo de fazer a limpeza dos imóveis e até planos de um retorno imediato fizeram com que muitas pessoas entrassem nas casas e estabelecimentos comerciais, apesar dos adesivos de interdição já estarem afixados aos mesmos. O desmoronamento ocorrido no Mirantes bar fez com que alguns mudassem de ideia, o que sinal de prudência.

A foto é de Haroldo Sarkis, do blog Xapuri em Destaque.

DEVASTAÇÃO

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As imagens que sucedem a vazante do Rio Acre em Xapuri são impactantes. Acima, está o que já foi a praça São Sebastião. Abaixo, o que restou do Mirantes Bar, um dos principais pontos de encontro da noite local.

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Intacta, apenas a imagem do santo padroeiro da cidade, que resistiu bravamente à força das águas e dos balseiros que a encobriram. Alguns acharam que sucumbiria, mas o santo é forte.

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IFAC SE MOBILIZA EM ENCHENTE HISTÓRICA

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Em reunião realizada na manhã, desta terça-feira, 3, no Gabinete Institucional do Instituto Federal do Acre, coordenada pela reitora Rosana Cavalcante dos Santos, com a participação de pró-reitores e diretores sistêmicos, ficou decidida que a mobilização do Instituto Federal do Acre – IFAC, a partir de agora, devido à enchente do Rio Acre, será concentrada nas ações a serem desenvolvidas no Câmpus Avançado Baixada do Sol, que hoje abriga 50 pessoas, sendo 16 crianças.

Desde o início da enchente que o IFAC se mobilizou para participar do apoio aos desabrigados, através da coleta de doações na Reitoria, Anexo da Reitoria e demais unidades. Além de ser ponto de recolhimento de doações nos câmpus, o IFAC/Câmpus Xapuri funcionou como Central para Sala de Situação no Alto Acre, coordenada pelo secretário de Estado de Segurança Pública, Emylson Farias.

Durante a enchente e neste momento, o diretor Geral do Câmpus, prof. Joel Lima, juntamente com a equipe de apoio, formada por docentes, técnicos e terceirizados, atenderam aos desabrigados e também disponibilizou a estrutura da unidade como local de funcionamento dos Correios e guarda de equipamentos do Hospital Epaminondas Jácome. A reitora acompanhou, nesta segunda-feira, 2, as ações desenvolvidas, durante visita àquele Câmpus.

Na reunião de hoje ficou definida a criação de três equipes que irão atuar em apoio à direção geral do Câmpus Avançado Baixada do Sol: Recebimento, Acompanhamento e Logística. A reitora informou a todos que em Xapuri, as equipes organizadas atenderam aos desabrigados, sendo um importante núcleo de apoio às autoridades locais.

Os pró-reitores e diretores sistêmicos organizarão e participarão das equipes que serão integradas por servidores que atuarão como voluntários. Na reunião a reitora disse que a suspensão das aulas no Câmpus Xapuri e no Câmpus Avançado Baixada do Sol permanece até o dia 6 de março (sexta-feira). Informou, ainda, que o site institucional está fora do ar, mas que as informações serão repassadas aos servidores através da página da Rede IFAC no Facebook e do e-mail institucional, até que o site volte a funcionar.

segunda-feira, 2 de março de 2015

RESPEITO É BOM, CONSIDERAÇÃO IDEM

É surpreendente como muita gente perdeu a noção de respeito e de consideração pelo semelhante. Isso acontece em vários aspectos da vida e em alguns deles poderia até certo ponto se explicar em razão do mundo competitivo e cada vez mais individualista em que vivemos. Mas não consigo entender como um comportamento normal que algumas pessoas se utilizem desse instrumento chamado rede social para ofender e achincalhar seus irmãos por conta de política partidária.

Chegam a dar nojo as postagens prontas, eivadas de ódio e preconceito, que são compartilhadas insana e continuamente, insultando e agredindo, da maneira mais sórdida e baixa, principalmente nordestinos, pelo fato de votarem como acham que devem. Do ponto de vista geral, isso não chega a causar grandes problemas, afinal de contas vivemos em um país onde racismo, xenofobia, discriminação social, apologia ao nazismo e à ditadura militar são coisas cada vez mais comuns, muitas vezes contando até mesmo com o endosso da grande mídia, de maneira velada.

A coisa ganha uma dimensão mais desagradável quando ocorre em meio a pessoas que convivem numa pequena comunidade como Xapuri, que não dificilmente estão a precisar umas das outras independentemente dos times para que torcem, se são católicos ou evangélicos, pretos ou brancos, gays ou heterossexuais. E a propósito, vivemos um desses momentos. Instante de tragédia, de união, de solidariedade e de irmandade. Mesmo nesse momento, há desalojado ao computador tachando de burro o seu vizinho por que este votou na Dilma Rousseff para a presidência ou no Tião Bocalom para o governo.

A partir de hoje, pessoas que postarem ou compartilharem esse tipo de discriminação entre os que estão na minha lista serão excluídos tanto das minhas relações virtuais quanto desse muito real mundinho de falsidades e hipocrisias em que somos obrigados (ou não) a tolerar pessoas que não merecem o mínimo de respeito não por terem votado em tucanos ou petistas, mas meramente pelo fato de serem extremamente intolerantes e preconceituosas, por se considerarem acima do bem e do mal, a despeito de notoriamente terem suas relações sociais e outras mais sempre pautadas na bajulação e no oportunismo barato.

Sou petista há 14 anos. Votei em Dilma Rousseff e Tião Viana. Trabalho para o estado do Acre e com a equipe do atual governo. E exijo que me respeitem não por conta dessa condição, mas porque sou um brasileiro que paga os escorchantes impostos a que todos estão submetidos, que enfrenta as mesmas dificuldades na hora de abastecer a motocicleta que possui como único meio de transporte, que também reluta em aceitar a constante alta de preços nas prateleiras dos supermercados, e que mesmo assim continua a trabalhar e a respeitar os seus iguais.

Que me perdoem o mau jeito aqueles que tanto prezo e que não são merecedores desse desabafo.

AULAS SUSPENSAS NO IFAC XAPURI E BAIXADA DO SOL

A Reitoria do Instituto Federal do Acre – IFAC  - divulgou nesta segunda-feira, 2, comunicado aos alunos, docentes e técnicos dos Câmpus Avançado Baixada do Sol e Xapuri, que as aulas estarão suspensas no período de 02 a 06 de março de 2015.

O motivo da suspensão das aulas é em função da enchente do Rio Acre, que alagou as instalações do Câmpus avançado Baixada do Sol neste final de semana. Em Xapuri, as instalações do Câmpus do IFAC estão sendo utilizadas como abrigo para os desabrigados e atendimento do Hospital.

A reitora do IFAC, profa. Rosana Cavalcante dos Santos, disse que este é um momento difícil e que as medidas de apoio aos alunos, docentes e diretores das unidades estão sendo adotadas. “Estamos adotando as medidas legais e de apoio aos desabrigados, em Xapuri, e na Baixada vamos atuar para que os equipamentos sejam preservados”.

A suspensão das aulas não trará prejuízo para o calendário acadêmico, disse a reitora. “Precisamos dar atenção aos desabrigados em Xapuri e também devemos nos preocupar com a segurança dos alunos e servidores do Câmpus Avançado Baixada do Sol”.

O Instituto Federal do Acre informou ainda à comunidade, servidores e alunos que o site institucional (www.ifac.edu.br) se encontra fora do ar para serviços de manutenção na rede elétrica do prédio da Reitoria, localizado na Rua José Galdino – Bosque – Rio Branco. A equipe de manutenção está trabalhando nos serviços da rede elétrica e a previsão é que deverá voltar a funcionar nesta terça-feira, 03 de março de 2015.

DEFESA CIVIL NACIONAL AVALIA PREJUÍZOS

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O analista técnico da Defesa Civil Nacional, Reinaldo Soares Estelles (de barba e crachá), esteve em Xapuri nesse domingo, 28, para fazer levantamento dos prejuízos causados pela enchente que atingiu mais de 42% da área urbana do município e verificar o nível de resposta que as Defesas Civis Estadual e Municipal estão dando para o desastre natural que fez com que mais de duas mil pessoas deixassem seus lares.

Acompanhado do secretário de Estado de Segurança Pública, Emylson Farias (ao telefone), que está coordenando as ações da Defesa Civil Estadual durante a enchente em Xapuri, e do prefeito Marcinho Miranda (primeiro da esquerda para a direita), Estelles vistoriou os estragos causados no bairro Braga Sobrinho e no centro da cidade e recebeu informações detalhadas da Coordenação de Defesa Civil a respeito da situação dos abrigos públicos disponibilizados às famílias desabrigadas pela cheia.

O técnico da Defesa Civil Nacional também se reuniu com os membros das Defesas Civis Estadual e Municipal com o objetivo de orientar sobre a elaboração do Plano Detalhado de Resposta (PDR), que possibilitará ao município o acesso a recursos federais para ações de assistência humanitária. De acordo com Estelles, a Defesa Civil Nacional age de maneira complementar às ações estaduais e municipais buscando que esses dois entes consigam dar a melhor resposta possível à situação de desastre.

“Nós viemos aqui orientar a Comdec – Coordenadoria Municipal de Defesa Civil - e fazer um trabalho junta à Defesa Civil Estadual no sentido da obtenção de recursos tanto para as ações de resposta, que é socorro, assistência e restabelecimento emergencial, quanto para ações de reconstrução da melhor forma e o mais rápido possível”, afirmou.

Para o coordenador da Defesa Civil Municipal, Joscires Ângelo, a vinda do técnico da Defesa Civil Nacional a Xapuri tem uma grande importância para o correto detalhamento das informações necessárias para que o Plano Detalhado de Resposta seja bem sucedido.

“A oportunidade de tirarmos dúvidas pessoalmente e de entregarmos em mão alguns documentos com informações importantes sobre a situação do município torna muito mais fácil e seguro o nosso trabalho”, disse.

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O Plano Detalhado de Resposta é o documento que detalha as ações que o ente beneficiário pretende executar com os recursos financeiros transferidos pelo Ministério da Integração Nacional (especificando quantidades, prazos, recursos necessários para a consecução de cada meta com seus respectivos itens ou etapas) e as necessidades de recursos materiais em atendimento às ações de assistência humanitária.

SANS–CULOTTES E SEM COLETES

heróis anônimos das alagações em Xapuri

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Sérgio Souza

Convém, inicialmente, explicar que o termo Sans-culottes era utilizado durante a Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII, para designar trabalhadores e pequenos proprietários que contestavam o poder dos aristocratas. A denominação era uma maneira de a nobreza caracterizá-los como plebeus, já que “culottes”, no período, constituía-se em uma peça do guarda roupa nobre. Era, basicamente, uma espécie de calção, com elásticos próximos aos joelhos. No lugar de utilizar a citada peça, os pobres do período usavam calças retas, feitas de algodão.

Neste pequeno texto, que terá como referência cronológica o período em que as águas do rio Acre inundaram Xapuri, nossos plebeus contemporâneos também serão caracterizados pela ausência de uma peça em seus vestuários, no caso, os coletes, vistosos coletes utilizados por alguns agentes públicos. Por esse motivo, serão denominados como “sem coletes”.

Antes, no entanto, penso ser importante ressaltar a maneira como o movimento das águas causou surpresas e espantos em Xapuri. Sempre acreditei que telefonemas, por si, são capazes de gerar certa incredulidade. Afinal, o fato de amar incondicionalmente minha mãe, parecia-me não ser suficiente para reproduzir a informação que a casa das minhas Tias Déa e Euri, em Xapuri, iriam ser tomadas pelas águas do rio Acre. Foi preciso ver pra crer.

Mochila preparada, carona devidamente organizada, parti para Xapuri na companhia de minha prima Fátima Figueiredo. Duas horas depois chegávamos à cidade, ou o que restava dela. Sem muitas delongas, fomos de imediato à Rua Floriano Peixoto, espécie de cais improvisado para as pequenas embarcações que traziam mudanças de pessoas atingidas por essa tragédia produzida, fundamentalmente, pela ganância humana e a efetiva falta de políticas públicas, capazes de proteger as florestas, principalmente as localizadas as margens dos rios.

Um fato, no entanto, saltou-me aos olhos de imediato. No trajeto que fazia, junto com amigos e parentes, em direção a casa alagada de minha tia Euri, percebi que os que estavam em meio às águas, demonstrando solidariedade, ajudando com a retirada de móveis e utensílios domésticos, não estavam vinculados a nenhum órgão governamental, faziam de forma espontânea, sem se importar se seus rostos iriam se estampados nas primeiras páginas dos jornais. Tampouco precisavam forçar um semblante contrito, pelo contrário, conversavam e, em alguns casos, aliviavam o peso do trabalho e o frio, ocasionado pela presença prolongada nas águas gélidas, com generosos goles de aguardente.

Por outro lado, observei a existência de outro grupo. Seus membros usavam vistosos coletes, mas, poucos deles demonstravam disposição para entrar nas águas e ajudar quem perdia o pouco que tinha. Estes pareciam exercer funções gerenciais. Não foi difícil identificá-los, tratava-se de agentes públicos, vinculados ao Governo do Estado e a Prefeitura Municipal. Não demorou para que passassem a ser chamados de “o pessoal de colete”. O termo foi se tornando pejorativo, quase que sinônimo de malemolência. Notava-se, no entanto, a preocupação de alguns do grupo em registrar tudo que se passava, principalmente se alguma autoridade aproximava-se dos locais alagados. Câmera na mão a procura do melhor ângulo, sorriso disfarçado, aperto de mão em algum transeunte e pronto, “olha o passarinho”!

Também impossível passar despercebido os caminhões do Exército Brasileiro que, segundo as “línguas de plantão”, rodavam mais que contribuíam. Interessante frisar que para ter acesso a estes veículos e ao decorrente apoio dos militares, precisava solicitar ao capitão, devidamente posicionado no front improvisado, no interior do prédio da Prefeitura. Ressalte-se que não era assim tão fácil conseguir a benevolência do dito. Também não me perguntem se era necessário solicitar o socorro urgente em três vias, e a autorização vir em forma de um “carimbaço”.

Para completar a sanha dos “fariseus”, como se não bastasse mais nada, eis que uma enorme comitiva de reluzentes caminhonetes adentram a caótica cidade. De pisca alerta ligado, os carros chamavam atenção por onde passavam, cheguei a pensar, inclusive, que esta era intenção dos que estavam em seu interior, depois, no entanto, imaginei que a miséria humana não chegaria a tanto, ou chegaria? Pois bem, depois a referida comitiva dirigiu-se ao Colégio Divina Providência, sem que a maioria das pessoas entendesse o que estava acontecendo. Só depois se soube que o ministro da Integração Nacional, acompanhado de um restrito círculo de “autoridades”, viera verificar a situação, e assim o fizera em não mais que cinco minutos. Deixara a promessa de construir casas para os que perderam tudo na alagação, dizem que duzentas no total. Novidade nenhuma, afinal, este é um momento fértil para exageros.

Depois da rápida estadia, espécie de “visita de médico”, para utilizar um termo corriqueiro em Xapuri, saíram da cidade, também enfileirados, da mesma forma chamativa com que entraram. Foram cantar em outra freguesia. Ficaram, no entanto, os sem coletes. Permaneceram dentro da água, ajudando, contribuindo, minimizando a dor. Fazendo tudo sem algazarra, sem tocar os sinos a cada boa ação praticada.

Sérgio Roberto Gomes de Souza é filho da professora Nadir e do João Mucuim. É também historiador e professor da Universidade Federal do Acre.

REFLITAMOS!

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Bertolt Brecht.

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O Rio Acre baixou em Xapuri depois de impor à cidade a maior enchente de sua história. Essa alagação quebrou o conceito equivocado de que o rio apenas chegava até certo ponto. Que o risco de arribar de casa com o colchão na cabeça e de passar dias em abrigos públicos ou de favor em casas de parentes era exclusividade daqueles que vivem pendurados no barranco do rio.

A natureza mostrou e continuará mostrando que ninguém está impune aos desmandos ambientais que desde sempre têm tido a nossa conivência. Protestamos contra a corrupção, pedimos o impeachment de presidentes, mas muito pouco reagimos com relação à forma como o sistema trata o meio ambiente e, principalmente, quanto à própria maneira com que nós mesmos cuidamos do planeta em que vivemos.

domingo, 1 de março de 2015

MÃOS À OBRA

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Para os xapurienses, o domingo está sendo de muito esforço na limpeza das residências e das casas comerciais. Apesar de o Corpo de Bombeiros ter interditado vários imóveis, cujas estruturas foram visivelmente afetadas pela cheia, muitos moradores e comerciantes não atenderam às recomendações da Defesa Civil e iniciaram o trabalho de retirada da lama e do lixo que se acumulou no interior dos prédios.

CENÁRIO DE DESTRUIÇÃO

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A vazante do Rio Acre em Xapuri revelou, na manhã deste domingo, 1º, um cenário de destruição no centro comercial da cidade. Com a descida das águas, restou muita lama, entulhos e imóveis seriamente danificados pela força da correnteza de uma enchente que atingiu o nível recorde de 18,28 centímetros, o que resultou no maior desastre natural da história do município.

UTILIDADE PÚBLICA

Alheias ao risco de doenças, crianças brincam nas contaminadas águas que inundavam a praça São Gabriel, na tarde deste sábado, 28

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O Rio Acre já está voltando à sua calha. Nas ruas da área central da cidade restam lama e muito lixo. A Defesa alerta a população para os cuidados com as águas da enchente, pois favorecem o surgimento de leptospirose.

A doença é causada por uma bactéria presente na urina de ratos que, com as chuvas, se mistura às águas de valetas, lagoas e cavas. Essa bactéria penetra no corpo humano através de pequenos ferimentos na pele.

Para evitar casos da doença, a população deve tomar alguns cuidados em caso de contato com água contaminada. Clique aqui para se informar mais a respeito da doença e de como se prevenir contra ela.