Os cemitérios sempre despertaram em mim um sentimento contraditório. Ao mesmo tempo em que me causavam temor, também alimentavam uma curiosidade difícil de explicar. Isso começou ainda na infância, quando, menino do seringal, cresci ouvindo os tantos causos sobrenaturais que povoavam o imaginário dos moradores da floresta. Histórias de almas penadas e visagens, como costumávamos chamar as aparições fantasmagóricas, que atravessavam as conversas dos adultos e, sem pedir licença, instalavam-se no subconsciente das crianças. No meu caso, por muito tempo, foram motivo de medo.
Filho de seringueiro, estava acostumado, ao lado de meu pai,
a passar ao largo de pequenos cemitérios espalhados pela mata. Eram lugares
quase sempre isolados, silenciosos, marcados por cruzes simples, algumas já
tomadas pelo mato e pelo tempo. Eu procurava não olhar muito, talvez por receio
de encontrar alguma daquelas figuras das histórias que tanto me assustavam.
Mas, mesmo com medo, não conseguia deixar de pensar nas pessoas que estavam
enterradas ali. Quem teriam sido? Como viveram? Que histórias carregavam? O que
fizeram, sonharam ou deixaram de realizar enquanto estiveram neste mundo?
Imaginava que, como todos nós, também tivessem enfrentado
dificuldades, conhecido tristezas e sofrido suas próprias desilusões. Mas
certamente também haviam experimentado momentos de alegria, amado alguém,
celebrado conquistas e encontrado motivos para sorrir. Afinal, por trás de cada
cruz havia uma existência inteira, com suas contradições, seus afetos e suas
pequenas ou grandes histórias, quase sempre desconhecidas de quem passava por
aqueles caminhos.
O tempo passou, deixei o seringal e fui morar na cidade. O
medo da infância perdeu força, mas a curiosidade permaneceu. Ainda hoje, quando
visito um cemitério, especialmente em um dia como este, quando tantas pessoas
se dirigem a esses lugares para homenagear seus mortos, meus pensamentos
costumam ir além das flores, das preces, das velas acesas, das fotografias e
dos nomes e datas gravados nas lápides.
Fico imaginando o que aquelas pessoas pensariam se pudessem
observar o mundo que deixaram. O que diriam sobre a maneira como vivemos, sobre
nossas escolhas, nossas preocupações e a forma como nos relacionamos uns com os
outros? Como avaliariam uma sociedade que avançou tanto em conhecimento,
tecnologia e possibilidades, mas que ainda parece ter tanta dificuldade para
conviver com as diferenças, cultivar a solidariedade e compreender o valor da
própria existência?
É possível que muitos daqueles que hoje repousam sob a terra
tenham vivido em condições muito mais difíceis do que as nossas. Conheceram
privações, enfrentaram doenças sem os recursos de que dispomos atualmente,
trabalharam duro para garantir o sustento da família e atravessaram tempos em
que muitas das facilidades de hoje sequer poderiam ser imaginadas. Ainda assim,
viveram, amaram, construíram suas histórias e encontraram, cada qual à sua
maneira, razões para seguir adiante.
Talvez, se pudessem nos deixar alguma mensagem, não falariam
de grandes feitos ou de conquistas extraordinárias. De repente, nos lembrassem
da importância de aproveitar melhor o tempo, de não transformar pequenas
divergências em grandes inimizades, de não adiar indefinidamente os gestos de
carinho e de não permitir que a vaidade, a ambição e a intolerância ocupem o
espaço que deveria ser reservado às coisas realmente importantes.
Quem sabe nos dissessem que a vida passa depressa demais
para ser consumida em disputas sem sentido. Que não vale a pena acumular
ressentimentos, alimentar ódios ou desperdiçar oportunidades de fazer o bem.
Que muitas das preocupações que hoje nos tiram o sono perderão completamente a
importância quando já não estivermos aqui. E que, no fim das contas, o que
deixamos de mais significativo não está necessariamente nos bens que
acumulamos, nos cargos que ocupamos ou no reconhecimento que conquistamos, mas
nas lembranças e nos sentimentos que permanecem na vida daqueles que
compartilharam nossa caminhada.
Não sei se existe alguma mensagem que venha do outro lado,
nem se aqueles que partiram podem, de alguma maneira, acompanhar o que acontece
entre os vivos. Mas gosto de pensar que o silêncio dos cemitérios pode nos
ensinar alguma coisa. Talvez seja justamente diante da finitude que conseguimos
enxergar com mais clareza o quanto a vida merece ser valorizada.
Neste Dia de Finados, enquanto tantas pessoas visitam os
túmulos de familiares e amigos, levando flores, orações e saudades, continuo
com aquela antiga curiosidade que me acompanhava nos caminhos do seringal. Só
que agora já não procuro imaginar aparições entre as cruzes. Procuro
compreender as histórias que ali terminaram e, principalmente, o que elas ainda
podem nos ensinar.
Talvez os mortos não tenham mais nada a nos dizer. Mas
imagino que se pudessem falar por um instante, nos pediriam simplesmente para
viver melhor. Para sermos menos duros, mais generosos e menos preocupados com
aquilo que, diante da brevidade da existência, pouco ou nada significa. Afinal,
enquanto ainda podemos caminhar, abraçar, pedir perdão, dizer que amamos e
recomeçar, temos algo que aqueles que repousam nos cemitérios já não possuem: a
oportunidade de fazer diferente.
E, possivelmente, a mensagem mais importante que podemos encontrar entre o silêncio dos túmulos e as inquietações que assombram os vivos seja a de que lembrar dos que partiram é também uma maneira de não esquecer o que ainda podemos fazer enquanto estamos aqui.
