quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A opulência dos espíritos

*CLÁUDIO MOTTA

As almas ali habitantes eram de uma riqueza nunca dantes vista. A pobreza de coração lá não tinha guarida. Ali não havia espíritos mesquinhos, porque todos estavam prontos a se ajudarem, a se complementarem. Na hora necessária, no momento do infausto, nos golpes aplicados pela vida, todos estavam reunidos para resolver o problema ou para chorar a dor do irmão que sofria.

Falo-vos da Xapuri do meu tempo de criança e adolescente, uma época em que os meus pais foram alvos de favores que iam da assistência ao pé do leito de minha mãe que se contorcia com as dores do parto, às aulas particulares, de cortesia, com que fui brindado por aqueles corações infinitamente benignos. Por Deus!

Com relação à vida de menino pobre por mim vivida, em verdade vos digo que foi, às vezes, um tanto azeda, mas, na maioria das ocasiões, foi mesmo bem divertida, apesar das limitações e da falta de oportunidade para ir à matinê do vetusto Cine Rialto.

As minhas primeiras lembranças vêm dos anos sessenta, época em que aprendi a ler, aos cinco anos, contando com o talento da Regina, irmã de criação, hoje viajante de outros mundos, que me ensinou as primeiras letras e que ainda é o meu ponto inicial de referência na arte da busca da letra e da rima doce da poesia perfeita. Benza-nos o Onipotente!

Em casa, havia uma mesa grande, onde Regina, a irmã, dava aulas particulares para os filhos da elite média baixa lá dos meus cafundós. Foi lá que tomei contato pela primeira vez com José Edmilson Gomes Figueiredo, o Bacana, José Raimundo Barroso Bestene, o Marrau, e Cláudio da Costa Ferreira, o Cadite, expoentes da escolinha. Havia ainda o João Amorim Caminha, o Pançudo, e mais dois garotos um tanto arredios, atônitos, filhos do Seu Dino, o do Café, dentre outros menos cotados. Vi alguns pais  -  que não são necessariamente destes garotos  -  levarem varas de bambu para que os filhos fossem alcançados à distância pelo açoite da professora que nunca ficava enfezada e nem batia em ninguém. Mas ameaçava. Enfim, era aquela a raiz mestra do método brabo do carrancismo baseado na pancada, a fórmula básica a partir da qual grandes homens foram criados lá em Xapuri.

Observador que nem coruja, bem ao lado da professora Regina, eu me postava atento aos mínimos detalhes do que devia e do que não devia aprender. Em suma, aquela primeira escola foi a grande escola da minha vida, uma vez que os alunos todos tinham idade maior que a minha, uns mais, outros muito mais.

Eis, então, a base a partir de onde alcei os primeiros voos. Mas tudo ocorreu da melhor forma possível porque a pequena cidade era formada basicamente por parentes, amigos, compadres, camaradas. Lá, até havia um homem cujo nome era Parente Amigo. Verdade!

E o vai e vem ainda é grande na memória mais anterior. Há personagens dos mais variados matizes possíveis. Uns marcantes. Outros bem pior que isso.

Todo menino observador tem um ou dois ídolos moleques maiores que fazem as proezas mais incríveis que poucos conseguem. Tinha um molecão meio doido e um outro, primo dele, mais maluco ainda. A barra era uma brincadeira que consistia em um grupo correr atrás do outro até tocá-lo. Perdia o grupo que menos conseguisse alcançar os integrantes do outro. Esses dois carregavam codinomes bastante sugestivos. Um era o Índio-ruço. O outro era o Dapuí. Quanta vadiagem! Que apelidos fantásticos! As mães deles não foram tão criativas quando lhes pespegaram os nomes verdadeiros de Jorge e Antônio, como o santo da Capadócia, na Turquia, e o outro de Pádua, na Itália. Aliás, no Xapuri da minha época, todos ou quase todos tinham os apelidos mais alusivos que já vi na vida. Já pensou o tanto de poesia que cabe no nome de um moço chamado Caboclo da Morena? Espetacular! Magistral!

Certa noite, então, aí pelas oito, da janela da casa da minha tia Lourdes, na Rua Batista de Moraes, só assistia o movimento dos meninos, posto que a minha avó cearense furibunda jamais permitiria que eu participasse de uma contenda tão doida.

O ápice da doidice era quando os dois primos atravessavam o Rio Acre, à noite, a nado, claro, um atrás do outro, com a finalidade exclusiva de não perder o jogo... E iam e voltavam, como se nada tivesse acontecido, apesar de molhados até as almas pouco santas e nada virtuosas. Jamais.

Nunca fui dado a apanhar sol, de forma alguma, a não ser quando, aos quinze e dezesseis anos, fui obrigado pela vida a trabalhar calçando as ruas da nossa pequena e famosa Xapuri. Apesar do subterfúgio que era me esconder das moças, minhas amigas do colégio, que transitavam pela cidade e poderiam me reconhecer com a camisa amarrada à cabeça, foi também um tempo de bastante aprendizado ao lado de figuras como o Aurélio da Maria de Belém, o Antônio Maria, o Fernando Rasteireiro, o Célio Tigurão, o João Uchôa, o Edgar Mão de Pilão e o Estêvão da Dona Amélia. Joias raras da coroa da cidade princesa.

Pois, então. Em menino, via o sol brandir meio dia em ponto e uns moleques de famílias abastadas misturados a uns outros um tanto desfavorecidos, mais ou menos da minha idade, ficavam a empinar  papagaio no meio da rua ou nos espaços urbanos entre o grupo escolar e a igreja. Era mesmo assim, minha senhora. Lá havia as famosas guerras de pipas no céu, tal e qual é descrito na poesia do Chico Buarque. E, como em qualquer área da experiência humana na terra, aí também se destacavam talentos natos na arte de ficar de cara para o sol tentando cortar a linha das pipas um do outro. De novo, eu cá da janela do meu observatório, agora instalado na Rua Vinte e Quatro de Janeiro, ficava a analisar os truques e manhas e trejeitos dos craques cujas almas voavam nos céus através dos seus sonhos de moleques de futuro. Lembro um melhor que o outro, como o já citado Cadite, o Mirim, o Luís Carlos Simão, o Bainha, o Tufizinho, dentre muitos.

Boas lembranças estas, meus amigos! Que Deus lhes abençoe onde quer que estejam.

Eu aprendia tudo, na teoria, uma vez que, na prática, nunca consegui levantar um papagaio, jamais joguei peteca bolinha de gude, não derrubei sequer uma manga porque não acertava pedradas, apesar das dezenas de mangueiras e apesar de estes frutos amadurecerem em profusão na época no início do inverno. Estrategista de dar gosto à minha mãe, não fui craque de futebol porque a escola deveria ser levada a sério porque a escola forma para a vida e a vida deve também ser levada muito a sério. Era esta uma das máximas e a filosofia dela, da Dona Nenen do Seu Gibiri.

- É preciso caprichar em tudo, meu rapaz! - Eram as palavras de mamãe desde muito cedo da minha vida, até por último, quando o dia dela se fez noite escura, depois de oitenta e quatro voltas ao redor do sol de Deus.

Já aos doze, quase um adulto, pela manhã, ia ganhar alguns trocados, mas também estava em busca de uma profissão. Trabalhei ou fui aprendiz do moveleiro mais exímio de Xapuri, o Elias Monteiro Luz, codinome Breque. Aprendi, principalmente, a manusear ferramentas de marceneiro que hoje não mais existem, como o graminho, a galopa, o sargento, a torquês, a serra de volta e o arco de pua. Ajudei o bom homem a fazer os caixões nos quais enterramos homens e mulheres de muita eminência da minha cidade. Muitos foram diretos para o céu. Outros, nem tanto.

Aos domingos, na missa das crianças, às nove da manhã, lá estávamos nós, eu e os meus irmãos mais velhos e também os mais novos que sempre acreditaram nas obras da  Divina Providência. De início, pouco entendia do riscado, uma vez que a Santa Missa era rezada em latim.

Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventri tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.      

O Padre Carlos Maria Zuchinni  mandava muito bem, mas eu tinha uns cinco anos e não manjava patavina. Só depois é que estudei latim, na Ufac, e consegui entender as idas e vindas do genitivo, do possessivo e do ablativo da língua dos romanos da era clássica da Humanidade.

Com as bênçãos da avó cearense iracunda, pertencente à Congregação de Nossa Senhora das Dores, aquelas mulheres que portavam uma fita roxa ao pescoço, tornei-me, enfim, um sacristão de brilho um tanto opaco cujo currículo não foi dos mais brilhantes posto que, apesar de uns quatro anos no ofício, poucas vezes cheguei ao posto máximo da ordem cuja função mais importante entre os nossos era balançar o badalo ou a campainha do Padre José na hora do Santíssimo.

Também, pudera! Havia um garoto, quase um rapaz, que quase levava para casa o instrumento de fazer o barulho divinal da Consagração. Era o Tião da Dona Oneide, um quase irmão nosso que se preocupava muito mais em vigiar o badalo ou dar cascudos nos menores que mesmo com alguma outra coisa que tivesse a ver com os preceitos dogmáticos da Santa Madre Igreja.

E por aí a vida foi sendo tocada de barriga cheia, porque o estivador lá de casa, além do grande pai que foi, era ainda um competente caçador.

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*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br   -  Dê sugestões!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O juiz, a imprensa, o mensalão

João Baptista Herkenhoff

Este artigo não se refere a pessoas, mas sim a princípios jurídicos. Suponho que a reflexão sobre esses princípios será proveitosa, especialmente na semana em que algumas pessoas pretendem, de maneira equivocada, julgar moralmente o Ministro Celso de Mello, a partir de seu voto de desempate no chamado processo do Mensalão.

Os princípios são aplicáveis hoje, como foram aplicáveis ontem e serão aplicáveis amanhã.

Tentarei elencar alguns princípios que constituem a essência do Direito numa sociedade democrática.

1. Jamais o alarido da imprensa deve afastar o magistrado da obrigação de julgar segundo sua consciência. Ainda que a multidão grite Barrabás, o magistrado incorruptível caminhará sereno através da corrente ruidosa e, se não estiver plenamente convencido da culpa do acusado, proferirá sentença de absolvição. Da mesma forma, se as ruas gritarem “inocente”, o magistrado reto e probo condenará, se a consciência lhe apontar o veredicto condenatório como o justo à face do caso.

2. O princípio de que, no processo criminal, a dúvida beneficia o réu permanece de pé. Resume-se nesta frase latina: “In dubio pro reo”. É melhor absolver mil culpados do que condenar um inocente.

3. A condenação criminal exige provas. Não se pode basear em ilações, inferências, encadeamento de hipóteses, presunções, suposições. Mesmo que o juiz esteja subjetivamente convencido da culpa, não lhe é lícito condenar se não houver nos autos prova evidente da culpabilidade.

4. No estado democrático de direito todos têm direito a um julgamento justo pelos tribunais. Observe-se a abrangência do pronome “todos”: ninguém fica de fora. Este princípio persevera em qualquer situação, não cabendo excepcioná-lo à face de determinadas contingências de um momento histórico.

5. Todo magistrado carrega, na sua mente, uma ideologia. Não há magistrados ideologicamente neutros. A suposta neutralidade ideológica das cortes é uma hipocrisia. Espera-se, porém, como exigência ética, que a ideologia não afaste o magistrado do dever de julgar segundo critérios de Justiça.

João Baptista Herkenhoff, 77 anos, é Juiz de Direito aposentado, palestrante e escritor. Seu mais recente livro tem este título: Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio de Janeiro).

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Mônica, Cebolinha, Cascão e o hábito de leitura das crianças

Antonio Luiz Rios*

Numerosos estudos demonstram que as crianças que leem têm mais facilidade de aprendizagem e melhor rendimento escolar. Ante tal constatação e a certeza de que os livros são caminhos obrigatórios na busca do conhecimento e formação dos indivíduos, é fundamental toda iniciativa que estimule o hábito de leitura na população infantojuvenil.

Nesse sentido, as feiras de livros cumprem missão importante, ao desenvolverem atrações lúdicas para as crianças que as visitam, seja em companhia das famílias ou nos programas coletivos organizados pelas escolas. Há toda uma magia nesse contato tão próximo entre os leitores mirins, as obras e os autores, cuja presença, autógrafos e interação com o público são fatores estimulantes ao ingresso dos pequenos no universo fascinante da leitura.

Corroborou minha crença sobre a importância para as crianças dessa integração de autores e leitores, a XVI Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, de 29 de agosto a 8 de setembro de 2013. No evento, foi possível testemunhar, em numerosas oportunidades, o encantamento que o livro pode causar no público infantil, quando apresentado como algo que instrui, educa, diverte e ensina de modo atrativo e instigante.

De modo mais especial, observei esse fenômeno ao lançarmos a coleção “Biblioteca da Turma”, série com seis livros multidisciplinares, voltada ao apoio didático, que trata de civilizações antigas, animais pré-históricos, esportes olímpicos, Floresta Amazônica, crianças no mundo e arte nos museus brasileiros. A alegria e a energia do contato entre o público mirim e o autor, Maurício de Souza, eram sintomas inequívocos de queMônica, Cascão e Cebolinha estavam conquistando novos e perenes leitores. Esse caráter lúdico também reforça a importância do e-book, em suas distintas formas, como fator indutor da leitura no público infantil. Também foi possível verificar isso na Bienal do Rio de Janeiro, ao lançarmos plataformas e aplicativos. Esses livros “conversam” com a criança do Século XXI numa linguagem que ela entende e gosta desde os primeiros impulsos da consciência.

Enfatizada a importância das feiras, não podemos, contudo, subestimar o insubstituível e crucial papel das escolas e das famílias no estímulo das crianças. A última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, elaborada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), com apoio da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), mostra algo interessante: os professores são, hoje, os principais incentivadores da leitura, ultrapassando as mães, que figuram em segundo lugar.

O mesmo estudo mostra que esse processo de estímulo tem funcionado, pois no universo dos estudantes (64% da população ou 114 milhões de pessoas), o nível de leitura atingiu 3,41 exemplares per capita nos três meses anteriores à realização da pesquisa. Desse total, 2,21 livros são indicados pelas escolas, divididos em didáticos (1,72) e literatura (0,49). Com certeza, podemos e devemos avançar ainda mais, conduzindo nossas crianças e jovens ao universo do livro. Este é o caminho mais seguro para a definitiva conquista de nosso desenvolvimento; é o nosso melhor legado às presentes e futuras gerações.

*Antonio Luiz Rios, economista, é o diretor-superintendente da Editora FTD.

domingo, 15 de setembro de 2013

Premeditando a solidão, como no samba

*CLÁUDIO MOTTA

Ele estava afixado à parede do velho solar há pelo menos sessenta anos. Amarelecera. Cansara de ficar dependurado ali naquele canto por tanto tempo. Os bigodes caíam-lhe para dentro da boca. Algum bolor chegava a parecer catarro escorrido do grande nariz aquilino. Os olhos já não eram vistos devido o fluir da poeira do tempo. Já não agüentava mais.

À meia noite, dele para ele mesmo e para quem estivesse por perto, havia um revirar de olhos, um ranger de dentes, um arrastar de alpercatas de couro cru feitas ainda no Ceará. As tábuas do assoalho gemiam taciturnas sem que ninguém as pisasse. Um pigarro curto e grosso também era ouvido depois de anos em vida fumante. A gravata tornara-se uma mancha. O paletó era preto, a camisa branca, a foto era em preto e branco, obtida em um tempo distante, quando ainda não havia fotografia, mas tiravam-se retratos.

Os filhos se foram em busca de estudos e nunca mais voltaram nem em visita à casa paterna. Abandonaram os pais, à época, já com bastante ouro negro nos alforjes. Casaram-se, um no Rio de Janeiro e a menina em Belém. Nunca mais deram as caras, mas continuavam recebendo o dinheiro que o velho mandava para as suas contas no Banco da Lavoura.

A esposa libanesa desaparecera em meio a uma friagem seca de dez dias causadora de um surto de gripe forte que assolou o rincão e matou pra mais de dez velhinhos, só na pequena cidade. Depois do enterro, o velho encarquilhara ainda mais e já voltara pra casa com os bigodes brancos, tamanho foi o dilema.

Pela cidade, andava com as mãos para trás e os olhos postos no chão da sua história de rico dono de seringais a perder de vista. Dizia ele que gostava de manter a vista baixa, para não topar no pedregulho que lhe impunha uma vida antes tão calorosa e animada pela presença dos filhos pequenos, em alegria borbulhante à custa de muito dinheiro.

Arrendara a terra para um outro nordestino na base do meio a meio. O mais novo trabalhava e transformava tudo em dinheiro. Ele, bem mais velho, levava a sua metade e a guardava em um cofre forte de ferro fundido vindo de Belém do Pará. Como gastava pouco  -  a não ser o que mandava para os filhos e com alguns víveres para a sobrexistência miserável  -  o dinheiro exorbitava, vazava pelas beiradas dos alforjes de couro cru por ele próprio fabricados quando ainda moço... Uns duzentos.

O tempo passou com a rapidez de um maçarico de beira de rio de verão. Uma tumba antiga hoje é a sua morada na parte mais velha do cemitério da cidadezinha anciã. Jamais uma vela ali foi acesa por ninguém e muito menos pelos filhos que talvez já não tragam nem o seu sobrenome, Serzedelo. Não há uma rua ou uma viela no lugarejo que leve o nome do velho cearense de chapéu grande. Viveu mais de quarenta anos e vegetou outros trinta e poucos. Andava pelas ruas da cidadezinha com as mãos nos bolsos fartos e as vistas assentadas no chão da sua história de cachorro velho solitário. Tendo sofrido muito por esta vida de Deus, morreu sem conseguir aprender o mínimo sobre a arte de ser só, o que não é tão fácil, nem tão difícil, basta ensaiar.

É por isto que tenho visto por aí muitos a fazerem treinamentos diários cujos objetivos são aprender a ser só, a viver sem nenhuma lástima do futuro que não foi construído com o cuidado e com a argamassa do amor. Se ele queria carinho, teria feito germinar e cultivaria bem querer, apego, afago, afeto. Mas assim não aconteceu. Dizia não ter encontrado tempo para certas mesuras com gente muito delicada, para ele, que era apenas um bronco muito fanático por ganhar um dinheiro que foi para as contas bancárias dos filhos que do pai sequer um dia chegaram a gostar.

Cá de minha parte, a velhice que há de vir não me parece, de modo algum, o melancólico vestíbulo da morte. A mim, ela se afigura, antes, com as verdadeiras férias grandes, depois do esgotamento dos sentidos, do coração e do espírito que foi a vida. Pare o mundo que eu quero descer. Será chegada a minha hora e a minha vez. (Deixa está! Quem não quer ficar velho deve morrer enquanto moço. Receita facílima.)

Sabemos que tudo neste mundo depende do esforço que empreendemos para o alcance dos nossos objetivos. Está claro que o meu poder de concentração há de me levar longe demais. Não devo perder o foco. Por isto, quando não mais me quiserem enquanto diretor de coisa alguma, para os tempos de inverno da minha existência, guardei uma nova profissão que se fará bem rentável, em termos financeiros mesmo.

Volto-me a ti, mais uma vez, ó pecador contumaz!

Há um treino diário através do qual tu te tens tornado um escritor de meia pataca, mas que defenderá o teu milhão de dólares vorazmente, uma vez que sonhar vem de Deus e é sempre na base do zero oitocentos. Ademais, a cada dia ficas mais fera no campo da cibernética. Noto até que aprendeste o excel e cloud computing. Nunca tiveste medo dessa máquina dos infernos chamada computador. Na verdade, praticas um puta exercício para que os neurônios não morram colados um ao outro ou emparedados em cérebro pouco produtivo. Fazendo uso de gíria antiga, aos setenta, daqui a vinte e poucas voltas, ainda estarás na crista da onda e irás para a balada curtir um rock n’roll... Afinal, as academias de ginástica e os suplementos existem para nos deixar prazenteiros até o fim dos dias.

Quer aprender a ser só? Viajar por aí sozinho já é um bom exercício. Nas últimas férias, por exemplo, tu ficaste por vinte dias no Rio de Janeiro a meditar sobre as coisas da vida, acerca da razão e da emoção que já voa para longe de ti, esta última. Refletiste a respeito das paixões e das aventuras por esta vida mundana, sobre os últimos acontecimentos que envolveram o coração vagabundo, isto, é claro, entre um chopinho e outro porque também vós não sois de ferro.

É bom olhar com carinho as palavras do Millôr. Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver. Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado.

Tu tens vivido, por último, a lembrar que, no romance Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez deixa registrado que o segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.

Sem querer radicalizar, não é necessário ficares preso a fórmulas como a que prega que há apenas uma diferença entre o lobo e o homem, na velhice. Enquanto o lobo entra nos bosques para esperar o seu fim sozinho, o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela o aborrece.

Não há essa necessidade pequeno burguesa para os espíritos preparados para a solidão. De bem com a vida e ainda com o espelho, se é que tu conseguirás, ó camafeu, hás de pagar, do teu bolso, e não às expensas da previdência social, a bom dinheiro  -  cinco mil pratas, talvez!  -  uma bela e jovem atendente de enfermagem, sem nenhuma formação intelectual, que te fará o acompanhamento ao médico, além de uns carinhos quando os estimulantes sintéticos o permitirem. Deus te fez assim. Mariposo dos infernos! Segue o teu tempo e o teu caminho em paz, ó fauno mulherengo!

Afinal, haverá de prevalecer a máxima fora de moda segundo a qual o ancião merece respeito não pelos cabelos brancos ou pela idade, mas pelas tarefas e empenhos, trabalhos e suores do caminho já percorrido na vida.

É claro que tu muito o fizeste. Ide em paz e muitos te acompanharão até a tumba, se tiveres ainda algum dinheiro que se faça suficiente para pagar o velório e o féretro na maior orgia, na base do champanhe e ova de esturjão.

Ora! Viveste porque viveste... E bem, obrigado.

*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

domingo, 1 de setembro de 2013

Meritíssimo

João Baptista Herkenhoff

Quando eu era Juiz de Direito em atividade, causava-me certo incômodo o tratamento “meritíssimo”. Meritoso, adjetivo que significa digno de apreço ou de elogios, ainda seria aceitável. Mas meritíssimo, superlativo de meritoso, parecia-me um exagero totalmente sem propósito. Mas se eu advertisse a parte, fosse advogado ou cidadão comum, a respeito da impropriedade do tratamento, certamente não seria entendido. A ressalva, que eu fizesse, seria recebida como censura ou descortesia. Por esta razão, se o advogado, com a melhor das intenções, colocava a frase “meritíssimo, peço a palavra”, eu simplesmente respondia: “tem a palavra, doutor”.

O homem do povo, o trabalhador, o agricultor fica perturbado com o palavrório da Justiça. A palavra deve ser fonte de entendimento. Através do verbo as pessoas se comunicam, agradecem, fazem pedidos, manifestam sentimentos. No caso da Justiça, as expressões difíceis, as sessões secretas, as cancelas e muros, as togas, o aparato, tudo isto dificulta a relação dos cidadãos com as cortes forenses. Daí que os excessos devem ser evitados. Entretanto, numa outra vertente, há um certo encantamento com o mistério das palavras e a solenidade judicial. Relato um episódio a respeito deste ângulo da questão.

Numa comarca do interior onde judiquei, havia um homem que amava o vocabulário refinado. Ele era muito estimado na cidade. Fazia parte do júri. Vibrava de contentamento quando era sorteado para o conselho de sentença. Alguém lhe deu um dicionário de presente e ele se deliciava mergulhando naquele mundo encantado.

Certo dia ele foi ao forum e disse ao porteiro dos auditórios que desejava uma audiência com o juiz. Conduzido até a sala onde eu me encontrava e pretendendo me dirigir um grande elogio, disse-me com reverência:

“Meritíssimo, eu admiro sua petulância senil.”

Certamente o Santiago (que era o nome desta pessoa) ficou maravilhado com a sonoridade do proparoxítono petulância e com a força do oxítono senil. A junção das duas palavras pareceu-lhe maravilhosa. Deve ter consumido muito tempo em esforços, pesquisas e canseiras para construir aquela frase através da qual pretendia homenagear o meritíssimo.

Eu não podia responder apenas com um “muito obrigado”. Iria decepcioná-lo se me valesse de uma forma tão modesta de agradecimento. Era preciso manifestar minha alegria no mesmo diapasão. Foi o que tentei fazer, dizendo:

“Muito obrigado, preclaro amigo Santiago, muito obrigado por sua nobilíssima intenção”.

Falando desta forma eu não estava mentindo ou sendo hipócrita. Na verdade, estava agradecendo ao grande Santiago seu desejo de prestar sincero tributo ao juiz que ele tanto estimava.

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.

sábado, 24 de agosto de 2013

Basta dizer que sou do Brasil

*CLÁUDIO MOTTA

No mundo encantado da poesia e do bem querer, conhecemo-lo por Rimbaud, o poeta tosco nascido no verdejante vale do Akiri. Versos escandalosos ou ensimesmados, então, personalizaram-se e houveram por bem nascer nos domínios de Girão, em um tempo em que o rio comandava a vida e a seringueira sangrava, porque a feriam de morte morrida todos os dias de fartas décadas.

A última viagem feita pelo poeta à Irlanda, ou Eire, como era chamado antigamente, rendeu um conto de estação aclamado pela crítica quase nacional. Têm dito por aí coisas fantásticas relativas aos voos rasantes que são dados por sobre pântanos em alagação, campos em flores e corações aos pedaços.

Ele conheceu gentes e monumentos de estilos e épocas bem diferenciados. Teria ficado restrito a Oslo, a Noruega, mas a achou com um gosto de bacalhau fresco ou ardido, que lhe fez ruídos nas narinas e pigarros nos tímpanos, ou vice-versa. (Só para enrolar o bom intérprete com o qual seria melhor nunca se arriscar, se é que é possível... Eles têm a alma ruidosa e dizem ver naquele, ou em outros escritos quaisquer, coisas jamais tratadas por Carlos Drummond de Andrade, ou pelo meu amigo poeta bêbado, o Charles Baudelaire, com quem o bardo tem o prazer de se engalfinhar em tertúlias alcoólicas na pérgula da Vivenda do Petrópolis, à beira da piscina, ou no Pato Tropical, o boteco escolhido por dez entre dez acreanos de boa origem, como aquele que, felizmente, nasceu em Xapuri, daí o condão poético melífluo e quase afrodisíaco, escrevamos assim.)

O Charles Baudelaire, meticuloso até as tripas, houve por bem perguntar os porquês de o vate haver ambientado o seu conto logo na tão longínqua Irlanda, como se ele tivesse alguma coisa a ver com o tempo, o espaço e os personagens ali descritos.

Para quem já esteve em Dublin, como o poeta, torna-se fácil responder. Trata-se de uma velha e muito bem cuidada cidade da Europa medieval, como tantas, tão bela e tão romântica quanto os braços curtos e magros e nus da donzela da segunda fila  - aquela florzinha  - do meu teatro de gozos; mais, muito mais aconchegantes que as pernas grandes e voluptuosas da morena sentada ao fundo do pavilhão das lindas tetas ou das belas artes.

Com a primeira anja, a poesia poderia fazer amor. Com a outra, os versos fariam sexo frugal, acasalamento, algo mais selvagem e bruto e trivial e suculento e rude, como a alma do seringueiro que repudiou a mocinha só porque a via enquanto lânguida demais. Lamentável para um rincão onde, naqueles tempos áureos da borracha, mulher era igual agulha na folhagem caída da castanheira hoje morta.

Como um Quixote, em sua viagem miraculosa, ele varreu quase toda a Europa. Esteve sob os encantos dos alabastros e das prostitutas  -   as almas gêmeas da primeira dama da safadagem romana, Messalina, de dezessete anos, casada com Claudius, o Imperador, de sessenta e duas voltas do velho ponteiro mundano cansado e jamais exaurido.

Como Barba Azul, ele ouviu as trombetas do inferno tocarem meio-dia em ponto, quando uma mosca amarela zumbiu-lhe ao ouvido dizendo ser aquela a hora exata de cair fora, porque corações despedaçados podiam colar-se e, numa revolta macabra, reclamarem o sangue das cem virgens devoradas pela lascívia do sedutor tarado.

E os séculos voaram vertiginosamente no rumo de cá. Chegaram, enfim, ao terceiro milênio.

O poeta envelhecido em tonéis de carvalho, qual vinho tinto, saiu por aí, mais uma vez, a manchar os vestidos alvos das musas de um tempo de recreio em média idade.

Um dia, então, novamente ensandecido sob o efeito do suco da cevada podre, aportou em Lisboa para uma revisitação depois de anos que já se iam distantes. Foi ainda à Cidade do Porto e à Vitória de Setúbal. Dali, seguiu o caminho mais uma vez para Málaga, Barcelona e Sevilha, na Espanha. Em trem acrobático reluzente, foi a Paris e, depois, a Nice e Bordeaux, onde, em um lupanar caro da zona portuária, conheceu dama de vida idílica com quem engendrou romance pinga fogo. Chamava-se Antoinette, uma lourinha em unhas, lábios e vestidos vermelhos e ancas descomunais, em cuja companhia impermeável viajou por cinco longos anos a conhecer a Europa pelo lado do avesso, o da sacanagem. O dinheiro era proveniente da jogatina, esporte no qual ainda é uma águia dos Alpes ou um gavião de Xapuri.

Em camisa onde o amarelo predominava sobre o verde, estava escrito Sou do BRASIL. À sua passagem, cavalheiros e damas, da plebe ou da aristocracia, faziam reverências e espalhavam sorrisos e votos de boas vindas.

O doidivanas troteava à cata de cassinos, inclusive, em Monte Carlo, Mônaco e Lichtenstein. Não havia tempo ruim. Tratava-se de um brasileiro festivo e feliz admirado, inclusive, por aqueles que para ele perdiam grandes quantias em euros.  

A dama de companhia explicava a todos em um sotaque arredio, uma vez que viajara do Brasil para fazer a Europa, como prostituta, ainda infanto ou juvenil,  na década passada:

- Piranha é mulher que transa para morder fundo, tirar o sangue e ganhar muito dinheiro. Já galinha é aquela que se apaixona pelos amantes e morre na pobreza... No Brasil é assim. Cada qual no seu cada qual. As pessoas são muito felizes. Não dizem que rico ri à toa? Pois é. Os brasileiros são mesmo muito abonados, inclusive, espiritualmente. – No que era apoiada pelo poeta tosco:

- Além do Carnaval, do futebol e do samba, as mulheres do Brasil são as mais belas do mundo. Afora o fato de serem muito prendadas e atléticas nas alcovas tropicais, são esposas muito dedicadas, como é o caso de Antoinette, a minha amada que hoje se diz francesa.

Perguntaram-no, então, acerca do que fazia ou no que trabalhava para manter um padrão de vida tão luxuoso, uma vez que morava em uma garçoniere ampla com vistas para o mar de Bordeaux. Sem nenhum pejo, ele arremeteu:

- Sou brasileiro e, como tal, aprendi truques e fórmulas que me fazem viver bem sem ter que fazer tanto esforço. Afinal, os estrangeiros que vêm para a França para fazer a parte suja e pesada do trabalho que não é feito pelos franceses são os turcos do norte da África, para quem qualquer gorjeta já vale toda uma vida de privações e preconceitos.

O meu herói sabia onde dormiam as andorinhas e onde se divertiam os magnatas, os banqueiros e os armadores ricos do sul europeu. Lá estavam eles e para lá é que o poeta tosco rumava. Sem muitas cartas na manga do fraque, só algumas, ganhava do primeiro para dividir o lucro com o segundo, com quem combinara tramóia irremediável que não levantava suspeita. Vivera no Rio de Janeiro e aprendera as artes marciais, as da capoeira e as do amor, além da arte do trambique, esporte no qual os brasileiros são campeões antes de iniciada a primeira partida do campeonato carioca.

Um dia, então, o poeta Rimbaud foi perguntado por que folgava tanto enquanto se divertia pela Europa afora. Foi extremamente incisivo ao responder:

- Não esquenta não, mermão... Basta dizer que sou do Brasil!

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*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br  -  Acesse e opine!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cena inusitada

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Numa dessas tórridas tardes de agosto, no cemitério de Xapuri, uma  persistente dupla monta guarda em um túmulo em cuja capelinha se abriga uma cadela no cio.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Cães nas ruas de Xapuri

Sou Médico veterinário e prometi cuidar dos animais, mas também me sinto responsável pela saúde humana e não é de hoje que vejo e me indigno em que situação chegou a população de cães de rua em Xapuri, em ver inúmeros animais doentes, ver quantidade de vezes pelas ruas e mais, muitas vezes em uma lanchonete ficamos rodeados de cães.

Não sei porque a população aceita isso, porque a prefeitura não tenta fazer algo para conter a proliferação destes animais. Muitos cães possuem donos, mas parece que aculturou-se criar animais nas ruas e não em casa, até onde eu sei o cão é um animais doméstico e deve ser criado em casa.

Os cães de rua além de representarem um risco físico, causar acidentes, também podem ser veiculador de inúmeras doenças para outros cães como a parvovirose e cinomose, inclusive ser um poderoso vetor de zoonoses – doenças transmitidas de animais para o homem. Entre as zoonose mais temida, esta a raiva, entre outras como sarna e a leishmaniose que apesar dos cães não transmitirem a leishmaniose  diretamente ao homem ele acaba sendo o hospedeiro desta doença.

Deixo aqui minha indignação.

Fábio Fernandes
Méd. Veterinário

sábado, 17 de agosto de 2013

Brasil inicia testes da vacina contra a dengue

Anvisa autorizou o Instituto Butantan a iniciar a etapa clínica do imunobiológico. O Ministério da Saúde está investindo R$ 200 milhões na pesquisa da dengue e outros produtos biológicos.

O Brasil começa avançar no processo de desenvolvimento da vacina contra a dengue com a permissão do teste em seres humanos. A Agência Nacional de Vigilância

Sanitária (Anvisa) emitiu nesta sexta-feira (16) comunicado especial que autoriza o Instituto Butantan a iniciar a etapa de pesquisa clínica do imunobiológico. O Ministério

da Saúde está investindo R$ 200 milhões no Instituto Butantan, o que inclui a pesquisa para a vacina da dengue e projetos de outros produtos biológicos.

A pesquisa do laboratório público deverá ser realizada com 300 voluntários e terá cinco anos de duração. A autorização é para a fase dois do estudo e tem como

finalidade analisar a efetividade, a eficácia e segurança da vacina tetravalente, que pretende prevenir a população contra quatro sorotipos da doença (1, 2, 3 e 4). Os

testes em humanos serão realizados em três centros de pesquisas clínicas em São Paulo: no Instituto Central (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-

USP); no Instituto da Criança (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) e no Hospital das Clínicas (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP).

O Instituto Butantan iniciou a pesquisa da nova vacina em 2006 e, para tal, contou com a construção de um laboratório piloto, bancos de células e de vírus dos quatro

sorotipos da dengue. Se a vacina for aprovada em todas as etapas de pesquisa clínica, poderá ser comercializada e distribuída à população. A perspectiva do governo

brasileiro, em caso de sucesso em todas as etapas, atender a demanda global e exportar a vacina contra a dengue.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, considera que a autorização para o início dos testes em humanos é um grande passo para o enfrentamento da doença. Ele ressaltou

que a medida está alinhada aos esforços do governo para proteger a população contra a dengue. “O avanço da pesquisa de um laboratório público, no caso o Butantan,

reforça o comprometimento do país com o combate à dengue, uma das priorioridades para o Ministério da Saúde”, afirmou. Além disso, o ministro ressaltou o caráter de

vanguarda do imunobiológico, que ainda não é produzido no mundo.

A PESQUISA - A segunda etapa da pesquisa, também chamada de estudo terapêutico piloto, visa demonstrar a segurança, em curto prazo, do princípio ativo e a

bioequivalência de diferentes formulações do produto. Os testes são realizados em um número limitado – e relativamente baixo – de pessoas e registram como os voluntários

respondem às doses administradas. A partir desses resultados, a pesquisa poderá ser ampliada para um público maior, em larga escala, a chamada fase três do estudo. O

imunobiológico também é pesquisado em outros países e por laboratórios privados.

Além do Butantan, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também está pesquisando uma nova vacina contra a

dengue com apoio do Ministério da Saúde. Os estudos são realizados desde 2009, em parceria com o laboratório privado GSK.

INVESTIMENTOS - O Ministério da Saúde tem investido fortemente em políticas para o controle da dengue. Diversas ações foram implementadas nos últimos anos

em apoio aos estados e municípios, entre elas o aprimoramento da capacidade de alerta e resposta à doença, por meio dos sistemas de vigilância para detecção

precoce de surtos. Também foram destinados recursos, aos estados e municípios para financiamento das ações de vigilância, o que inclui o controle da dengue: R$ 1,05

bilhão em 2010; R$ 1,34 bilhão em 2011; e R$ 1,73 bilhão em 2012. Além disso, todos os municípios receberam adicional de R$ 173,3 milhões, efetuado em dezembro de

2012, para ações de qualificação das atividades de prevenção e controle da dengue, visando prevenir a intensificação da transmissão que sempre ocorre no verão. Em

2011, foram R$ 92,8 milhões para 1.159 municípios.

Em novembro do ano passado, o Ministério da Saúde lançou campanha de mobilização contra a dengue e intensificou a sua divulgação durante todo o período de maior

ocorrência da dengue em 2013. Também foi oferecido aos profissionais de saúde ensino a distância em manejo clínico do paciente com dengue, por intermédio de

curso promovido pela UNASUS, conhecido como Dengue em 15 minutos. Além disso, as secretarias de Atenção à Saúde e de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde,

vem prestando assistência técnica para organização da rede de serviços de saúde ao atendimento dos pacientes com a doença e apoio às atividades de prevenção e

investigação dos óbitos suspeitos de dengue.

Por Daniela Martins, da Agência Saúde-Ascom/MS.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

De amores e de bolachas

CLAUDIO MOTTA

Se não fosse volúvel como sou, seria um santo bem à moda das carolas mais fundamentalistas do século anterior ao meu. Tiro daí, então, advertência cruel segundo a qual uma das grandes perfeições do universo está exatamente na instabilidade do humano. A inconstância marca o passo da humanidade que se arrasta pelos becos e vielas do mundo, e não tem certeza da sua aposta no futuro que pertence tão somente a Deus.

Veio a mim gentil senhorita a dizer que a perfeição não é assunto a ser tratado comigo. Disse-me que muito me assemelho ao anjo exatamente porque tenho buscado ser o homem que anda nos trilhos com a certeza de que o trem não me atropelará. Tem razão a Isadora!

É por isto que vou vivendo e arrastando, com os andrajos mundanos, a volúpia do meu tempo chorão e ensaboado como a pele macia da morena da terceira fila, o quindim de jerimum da minha prosa poética, às vezes tão corrosiva ou sardônica ou irônica ou satírica. Em outras ocasiões, está lá estendida no chão duro da história uma poesia tão esquelética e melíflua e bela e sensual e nua e crua, como o arroz sem sal com o que mamãe me alimentou aos onze meses. Quanto encantamento!

É verdade, senhora lucidez. Varri o barraco do chão. Derrubei a vela e a tapera conjugal pegou fogo. Resolvi, enfim, dar um basta no relacionamento. Vossa Mercê mesmo há de lembrar, certamente, aquela máxima segundo a qual o sujeito perdeu uma chave velha e mandou logo fazer uma novinha em folha. Passados uns dias, então, ele achou a chave antiga e, morrendo de amores tardios, resolveu guardar a chave recente no fundo do coração e passou a fazer uso da anterior... É aquela coisa do até que a morte os separe, se é que a Isabela me compreende.

Ah, pois bem. Certo é que voltei às velhas manias, ao amor mais antigo do mundo, pensando naquelas certas coisas que já não são comuns nos nossos dias, numa alusão à modinha bem conhecida, como o gesto singelo que é mandar flores à professorinha jeitosa e linda.

Há mais de vinte voltas, eu houvera abandonado o velho amor por um amor do finzinho dos anos oitenta, quase noventa, novinho de dar gosto. Pitéu. Uma delícia e uma carícia a cada minuto dessa vida bandida e devassa engendrada por Deus e mantida por Ele mesmo. Esse era o nosso diapasão de muitos filhos insolentes e orgias indizíveis, tendo em vista o horário contra pornográfico e os censores da época.

Era feliz, sim. Mas sou e serei volúvel, sempre e de uma vez por todas. Viver uma aventura a cada duas décadas, ou a cada três semanas, é sempre bom para fígado e para os olhos dos que têm a alma vadia vaca cara lavada com sabão neutro, como eu.

O caso de amor barulhento, que substituiu o primeiro, teve real início quando nós juntamos os panos de bunda, isso, em noventa e um. Eu não a conquistei. Ela me seduziu. Vivemos dias felizes ao redor dos filhos gerados, paridos e criados com muito gosto e austeridade. Ganhamos bastante dinheiro. Quase ficamos ricos juntos, um tirando proveito do outro. Eu usufruía o que ela podia me dar e ela comprava com o que podia gastar, a rodo, na fuzarca e no carnaval das ilusões mais pífias.

Ela me fez largar de beber, digamos assim, por uns cinco dias, como costumeiramente faço desde os tempos de devaneio. (Bebo às sextas e nunca aos domingos, sem nenhuma sobriedade, é lógico.) Com muito gosto, segui-lhe os conselhos e passei a receber, aos sábados e demais dias, visitas de filósofos e historiadores de outros mundos, de Platão a Lênin, de Heródoto a Marc Bloch. Fabriquei o bem querer da academia. Dei à luz teses acadêmicas laureadas e de muito fôlego. Filhos gloriosos que logo cedo ficaram adultos e adúlteros, como eu. Sem nenhum pejo.

Mas o tempo não se rendeu e o destino fez das suas. Foi-se embora a volúpia das primeiras épocas. A libido passou a andar de bar em bar à procura de um amor dos velhos ou de novos tempos. Havia chegado, então, a época em que o verdadeiro grande amor não é tão durável e quase vira incesto... (É sabido por todos que, com a convivência por tanto tempo, o marido passa a ver a esposa como se fosse a sua irmã intocável.) A Gaia Scienptia, meu segundo amor, já dera o que tinha de dar.

Larguei-a solenemente em meio a um desses rendezvous da vida. Já a alma sacana se apaixonara perdidamente por Artêmis Littera, uma deusa de rua ligada a uma família de literatos de cordel vindos do sertão do Ceará.

Gaia foi por mim repudiada. Era já terceiro milênio. O casamento era bom, mas fadado ao fracasso dadas as diferenças de objetivos entre as partes. Ela, já em média idade, quis de mim o rigor, a seriedade, o corte epistemológico sem desvios. Ao passo que Artêmis Littera, prima de Mnéster, é jovem e sensualíssima, principalmente, porque vai falando uma linguagem que renasce a cada dia de cada milênio.

Numa rodada de cerveja, então, no boteco do Pato Tropical, apareceu moça esguia, alta, loura e divinal na sua dança de ancas largas, vinda de uma longa viagem por mundos distantes de mim. O meu amor de infância havia feito plástica. Colocara seios zero bala, botox e bunda arrebitada de carne sintética, além do modelito a la Bündchen.

Por que não correr para aqueles braços de pelo em blondô? Por que não voltar? Voltei e hoje temos já quase mil e duzentos filhos que pensam em se tornar milionários, como nós, tão fúteis, mas tão cheios de amor pra dar e jamais para vender.

Em suma, na adolescência, namorei a bela e sensual literatura. Depois, já na idade adulta, tive um caso de doze anos com a filosofia. Hoje, mais uma vez, já ao cair dos dentes, estou de amores ensandecidos nos braços da sempre jovem poetisa que me quer de novo depois de se ter deitado com milhões de pulhas e poetas farsantes como hoje o sou.

Eu era sonso em um tom acima. Depois evolui e passei a volúvel, inconstante mesmo, habilidoso demais com a poesia feita de palavras voadoras que cortaram corações pulsantes sob seios juvenis.

Assim é a vida. Há amores novos que substituem os anteriores, e amores anteriores que ficam no lugar dos novos. A fila é grande e não nos é permitido perder o tempo que vale ouro enchendo-nos de tantos escrúpulos e atitudes vãs.

Um dia, então, um desses varões ilustres do meu século vinte, houve por bem falar que mulher é que nem bolacha, porque em todo canto se acha. Ao que a fêmea, inteligentíssima, pra lá de sacana, respondeu que homem é como biscoito, pois vai um e vêm dezoito...

Minha queridíssima madrinha Eulália Brasileiro. Que a vaidade não me enfeie e a verdade não me minta. Lembras? Foi bem no meio dessa gente que eu nasci e cresci cafajeste para um mundo cheio de bordões, picardias e mil malandragens próprias do gênio do labirinto e da moça despudorada e nua, que encanta os mil pretendentes fazendo uso de uma flecha voadora mágica e sensual. Ah, os meus amores!

Era aquele um tempo fantástico e de paixões avassaladoras. Cruzes!

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José Cláudio Mota Porfiro é um mero cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

domingo, 4 de agosto de 2013

A irresistível saga da moça que roubou o homem de alguém

*CLÁUDIO MOTTA

Viver a modernidade em alto estilo é algo bastante dispendioso, oneroso e até certo ponto insidioso ou capcioso, digamos assim. Se não bastasse a seda e o linho, ainda há que comprar amor como se compra o vinho, quando, na busca da mais cristalina verdade, há o bem querer na praça, onde o amor pode vir de graça, bem devagar, solertemente... E basta ter paciência e um pouco de pertinência, quando o sentimento puder valer à pena.  É também conveniente o ser sensível dos que farejam a felicidade que está em qualquer canto da cidade ou em lugar algum.

Ainda bem que eu sou um mero inexperiente para quem tudo é urgente, embora sequer tenha estilo e muito menos um afeto. E o mal pior é que não sei mais onde está o apego, o meu chamego, a mulher de um homem só. Tenho-o observado exposto, à venda, em bancas de revistas, no boteco da esquina, em restaurantes caros e lojinhas do mercado popular. Então, o órgão do peito acelera e a poesia flui severa. Ah, quem me dera, viver ainda essa quimera, talvez eu a tenha deixado escapar ontem, anteontem ou em século algum. Foi, sim, por esses dias que o poetinha disse ao meu pé do ouvido:

- Ei, menino! Arrisca-te... É preciso muito siso, muita seriedade e pouco riso, para viver um grande amor.

E foi aí que ela acordou. E foi aí que a briga começou.

Estava a esposa a emprestar pistas sobre o que gostaria que houvesse no seu aniversário próximo. Ela disse que queria algo que fosse de zero a cem em cerca de três segundos. Disse o marido então que lhe compraria uma balança... E foi aí que o pau quebrou. Sobrou presença de espírito. Faltou sensibilidade.

Daí em diante, os temporais se sucederam a cada dia de cada semana de cada mês. A vivenda virou cabana e, depois de um vento brando, uma leve aragem, a casa caiu, o barraco desabou, no dizer do poeta quase acreano. Vinte anos de casados, dois filhos adolescentes que presenciaram o caos.   Coisas da modernidade.

Foi quando a moçoila adentrou o restaurante caríssimo em cadência de ancas largas e ligeiramente fagueiras. Vendia amor a preço irrisório ou por valor alto, dependendo do contato, daquela coisa de pele, que virou moda entre os mais sensíveis ao toque, ao olho no olho, ao lábio com lábio, ao voyeurismo das mãos irrequietas. (Isso já tá ficando sacana demais!)

Ele meditava sozinho à luz do dia do restaurante de primeira linha. A mão balançava as chaves do carro de luxo à porta. As coisas já iam de mal a pior e aquela beldade se derretia em sorrisos, sozinha, em uma mesa próxima, bem em frente à dele, um cinqüentão de roupas finas, anti rugas, visitas ao dermatologista, academia de ginástica por religião, poses e sorrisos estudados, educados, poesia requentada nos lábios, cartões de crédito internacionais e tudo o mais, em síntese, pronto para viver o amor em média idade com aquela florzinha de apenas duas dezenas de primaveras. Um quindim de jerimum!

- Vamos assumir o relacionamento. O que é que tem? Não há porque não. Esquece aquela doida lá de casa, e pronto! – Foi o que disse a ele a alma aventureira própria, que se acostara bem ao seu ouvido.

- Sou executivo de uma empresa internacional do ramo de automóveis. – Ao que ela respondeu:

- Eu, cá de minha parte, estou prontinha da silva para uma aventura secreta ou a céu aberto, do jeito que for.

Houve uma troca de celulares naquele lugar espaçoso, próximo ao banheiro, onde os homens se diferenciam dos meninos. Em nada mais que três minutos, ali bem próximo ao píer, já ele gentilmente abria a porta do bólido preto luxuoso que lhe servia de meio de transporte. Em menos de duas horas, já estavam os dois naquele local divino, ninho da sacanagem e do acasalamento frugal. E haja fôlego para não se fazer de rogado na frente de uma atleta de pouco tempo de serviço, e cheia de habilidades aprendidas em almanaques onde se ensina como bem vender o amor de verdade, o amor a esmo, misturado com torresmo, seja lá como for.

Deu certinho. Nem se deram ao luxo da discrição. Saíram do motel com os vidros abaixados. Já na praça, tomaram o tacacá da maria preta, um na mesma cuia que o outro. O Zé havia nascido para aquela alminha linda, morta de gostosa na sua tez alva como as nuvens da Ilha de Páscoa, do Pacífico Sul, onde passariam as próximas férias do verão asiático. Principalmente, ele acabara de nascer, sim, para assumir todas as continhas dela, na boutique, na perfumaria, no esteticista, na loja de jóias, na concessionária do carrinho dourado, e assim por diante. Seriam e são felizes por dois anos ou para sempre até trocarem tiros no boteco, na cantina ou na garagem da esquina. Talvez até dê certo. Tudo depende de ser ou estar sempre ereto, de prontidão, na boa, sem recuar, sem cair, sem temer... E sem ficar pobre, claro, isso nunca. Cruzes!

Mas tem sempre uma vizinha fofoqueira e enrugada para quem os anos perderam o sentido do ser e do estar. Foi aí que a Fifi entrou em cena sem nenhum pudor. Morta de ciúmes porque a filhinha encantadora, de quinze aninhos, houvera caído nas graças e estava barriguda de um zé ruela qualquer, desses que invertem noite e dia em busca de prazeres entre basilares e cheiradas letais, ela fez comentários atrozes:

- Essazinha aí, heim! Deu-se muito bem. E como é que não ia dar e gostar se ele tem com o que pagar? Descolou o velhote metido a besta. No futuro, dá-lhe um chute na bunda, fica com as coisas dele, e pronto. Com o vidro preto no carrão, ninguém chega sequer a ver a cara do come gente. Cá entre nós e o povo da Estação, ela roubou o marido de alguém. No mínimo, há agora uma família sem arrimo, uma esposa em desatino e filhos que já não contam com a presença do pai salafrário e pegador feito a peste. Arre égua!

É assim a vida moderna. Cada um dá o que tem, ou vende a preço de banana, ou em troca de uma bêemedábliu, de um corolla preto, ou de um palacete em Jurerê Internacional, Floripa... Melhor que em Vegas. Lá, o pessoal do cassino fala inglês.

Fiquei, digamos, meditabundo, depois das ocorrências drásticas. O amor tem sentido, vale a pena, mas também vale ouro trabalhado pelas mãos melhores ourives.

Ó minha caríssima Amanda, razão dos meus ais. Por ti esses sinos malvados e outras cositas mais dobram, a minha cuíca repica e o meu florete desembainha. Tudo é tão normal para os pós-modernos, como esses meus botões viciados e os zíperes escorregadios. Muito embora os fundamentalistas teimem, o casamento continua a ser como o submarino, posto ter nascido para afundar... Enquanto uns lutam, choram e se descabelam para não perder a consorte, a amada amante que lhe reservou Deus, outros, ao contrário, têm uma puta vontade de que um dia ela ou ele lhes afirme estar gostando de alguém, este, já um clichê em meio aos que começaram a trair para jamais deixarão de coçar.

Voltando aos pombinhos da irresistível saga, um dia, então, ainda em idade imatura, ela houve por bem enviar a ele um bilhete ensimesmado, um pouco aguado, mas cheio de amor pra dar. Anotou a ninfa que eram eles feito água de moinho que jorra para o futuro, sem medo do escuro. Vento no varal de um tempo que ainda vem, de barco ou de trem. Afã da juventude afoita tremeluz sorrateira, daquela maneira. O élan da vida viva ativa a borbulhar, e encantar. Farfalhar de folhas na primavera, uma quimera. Acalanto pra quem sofre ou é feliz, ou por um triz. Aragem no quintal do primeiro sol que marca o dia. Da ciranda de crianças no pátio escolar, nada devagar. Orvalho leve da madrugada tardia, não mais fria. Amanhã tem mais poesia e hoje é dia de ser feliz mais uma vez, e sonhar... É assim a vida vadia de quem é feliz mesmo sem saber.

Dois anos depois, o adeus foi inevitável e a bancarrota também.

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*José Cláudio Mota Porfiro é um cronista desatrelado: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ulysses e a Cidadania

João Baptista Herkenhoff

Por iniciativa da Fundação Ulysses Guimarães tive a oportunidade de debater ante-ontem em Vitória. O convite me foi feito pelo presidente da Fundação. O tema proposto para o debate foi este: Para onde a cidadania quer levar o país?

Para discorrer sobre cidadania, numa instituição que tem o nome de Ulysses Guimarães, não seria possível iniciar a fala senão reportando-me a seu patrono, um paradigma das lutas cidadãs. Ulysses combateu a ditadura instaurada no Brasil em 31 de março de 1964 e desempenhou pepel decisivo na redemocratização do Brasil. Ao declarar que a Constituição de 1988 tinha sido promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte, o gigante Ulysses, com a Carta Magna erguida nas mãos, num gesto cívico, adjetivou o documento: Constituição cidadã.

Mas tudo isso é história e para os jovens até parece pré-história nestes tempos em que o ontem é esquecido e somente o hoje tem significado.

Entretanto é preciso que se diga com todas as forças da alma: um povo que não conhece o passado não tem futuro.

São muito expressivas e dignas de aplausos as passeatas que condenam a corrupção, que exigem segurança, saúde e educação, que protestam contra os desvios éticos. As classes dominantes desencorajam as lutas coletivas. Com frequência, os líderes das lutas coletivas são perseguidos, presos e até mesmo assassinados. O povo tem de aprender a vencer seus desafios com as próprias forças. Mesmo que o ambiente envolvente seja adverso, mesmo que a luta coletiva não seja valorizada e enaltecida, é a união que faz a força.

Assusta-me porém que algumas vozes distorçam os justíssimos reclamos e advoguem o retorno da ditadura. Assusta-me também que uns poucos maculem o protesto democrático com atos de vandalismo e destruição do patrimônio histórico.

Lembre-se, sobretudo aos jovens, que os atos institucionais que decretaram o regime ditatorial apresentaram, como justificativa para a supressão das garantias, a defesa dos valores democráticos. Entretanto, com as ressalvas admitidas para que vigorasse, em nossa Pátria, uma liberdade apenas relativa, o que vimos, a partir de primeiro de abril de 1964, foi a prática da tortura nos porões do regime, o assassinato de opositores, o silenciamento dos grandes líderes e os abusos de toda ordem.

Respondi à pergunta formulada pelos organizadores do conclave: a cidadania quer levar o país à Justiça Social, a uma melhor distribuição da renda, a uma educação pública de excelente qualidade, à efetivação da saúde como direito de todos, à infância e adolescência protegidas, cuidadas como tesouro mais precioso que o ouro e a prata, como disse o Papa Francisco.

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, palestrante pelo Estado e Brasil afora e escritor.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Agosto, mês do desgosto ou superstição?

João Baptista Herkenhoff

Superstição é a crença em relações de causa e efeito à face de determinados fenômenos, crença que, entretanto, não tem respaldo na racionalidade. Assim haveria uma oposição entre o olhar científico e o olhar supersticioso. Colocamos ponto de interrogação no título deste artigo para que a conclusão fique por conta do leitor.

Estamos começando Agosto.

Na alma popular, o oitavo mês do ano está associado a pesar, tristeza, dissabor, sofrimento. Talvez a crendice tenha origem em Portugal, onde as mulheres nunca se casavam no mês de agosto. Justamente no mês de agosto, os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e ainda correr o risco de sofrer uma viuvez precoce.

Nem Vinicius de Moraes fugiu ao presságio negativo do mês de agosto que, no Zodíaco, é comandado por Leão. Nos versos do Poeta,

”a mulher de Leão 
brilha na escuridão.

A mulher de Leão, mesmo sem fome, pega, mata e come.

A mulher de Leão não tem perdão.

As mulheres de Leão,
 leoas são.

Poeta, operário, capitão.

Cuidado com a mulher de Leão!”

Também outra justificativa para essa crença de agosto azarado é o fato de muitos episódios tristes, no mundo e no Brasil, terem acontecido no mês de agosto. Senão vejamos

Em 24 de agosto de 1572, por ordem de Catarina de Médici, ocorreu o massacre dos huguenotes.

Na cidade de Nova York, no dia 6 de agosto de 1890, o primeiro homem foi eletrocutado numa cadeira elétrica. Esta primeira execução traduz uma mensagem de iniquidade. Ou seja, o Estado arvora-se defensor da sociedade e supõe ser legítimo tirar a vida de alguém.

Entre os dias 6 e 9 de agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, nisto que foi certamente o maior genocídio da História.

No Brasil, dois presidentes da República, muito amados pelo povo, morreram tragicamente no mês de agosto.

Em 24 de agosto de 1954 Getúlio Vargas praticou suicídio, “saindo da vida para entrar na História”.

Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitscheck faleceu, vítima de um desastre automobilístico.

No calendário cívico do Espírito Santo ocorre, anualmente, sempre no dia vinte e quatro de agosto, a entrega do Prêmio Dom Luís Gonzaga Fernandes.

Este Prêmio foi criado com duas finalidades: relembrar o Bispo que tantos serviços prestou ao nosso Estado, fiel à radical opção pelos pobres; cultuar pessoas que testemunham os valores éticos a que Dom Luís consagrou sua existência.

Desta forma, se for verdade que Agosto é mesmo mês do desgosto, o Espírito Santo foge desta sina de azar.

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docenta da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor. Seu mais recente livro: Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Caminho da Escola

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São 92 ônibus para atender todo o Estado, distribuído para 13 municípios. Xapuri recebeu seis ônibus, Epitaciolândia, sete e Brasileia, oito. Os municípios que não foram contemplados já receberam veículos através de convênios com as prefeituras. A nova frota de ônibus escolares é fruto de um convênio no valor de R$ 21 milhões entre o governo do Estado e o Ministério da Educação, através do Programa Caminho da Escola.

Reportagem de Tatiana Campos, na Agência de Notícias do Acre.

Semana de combate às hepatites

Comorbidades e doenças associadas à Hepatite C merecem atenção

A infecção pelo vírus da Hepatite C (HCV) pode levar a uma série de manifestações que, além de afetarem o fígado diretamente - evoluindo para a forma crônica da doença, posteriormente fibrose, cirrose e até câncer -, podem acometer outros órgãos e sistemas, ocasionando lesões diversas. Algumas manifestações, denominadas extra-hepáticas, acontecem devido à constante estimulação da doença sobre o sistema imunológico do paciente. Articulações, rins, pele e tireoide são os órgãos e sistemas principalmente afetados, podendo apresentar diversos tipos de erupções cutâneas, insuficiência renal, distúrbios da tireoide entre outras consequências.

Alguns estudos têm demonstrado ainda uma associação da Diabetes Mellitus tipo II (não insulinodependentes) com o HCV. O mecanismo exato da ação do vírus no surgimento da Diabetes II é desconhecido, mas os portadores dessa comorbidade apresentam menor resposta ao tratamento da Hepatite C.

Nos pacientes portadores do HIV, a coinfecção pelo vírus da Hepatite C torna-se um sério problema de saúde pública, principalmente devido à rápida evolução da doença hepática e à pior resposta ao tratamento com Interferon Peguilado e Ribavirina. Nessa população HIV positivo, a prevalência de coinfecção com o vírus da Hepatite C é alta, chegando até 30% no Brasil e muitas vezes o exame anti-HCV pode aparecer não reagente, já que em função da imunodepressão causada pelo vírus HIV, o anticorpo da Hepatite C não pode ser detectado. Por isso, para esses pacientes é necessário ter maior atenção, e realizar outros testes caso haja suspeita de infecção pelo HCV.

É importante ressaltar, que pacientes com manifestações extra-hepáticas ou coinfecção pelo HIV devem ser tratados independentemente do grau de lesão no fígado.

Os cuidados com a interação medicamentosa para o tratamento da Hepatite C e das doenças associadas também devem ser observados, uma vez que é comum os efeitos colaterais do tratamento da comorbidade acelerarem as complicações da Hepatite C e vice-versa.

Saiba mais sobre a doença

Hepatite C - O que é e Diagnóstico

SOBRE HEPATITES VIRAIS

Grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo, a hepatite é a inflamação do fígado. Pode ser causada por vírus, uso de alguns remédios, álcool e outras drogas, além de doenças autoimunes, metabólicas e genéticas.

No Brasil, as hepatites virais mais comuns são as causadas pelos vírus A, B e C. Existem ainda os vírus D e E, este último mais frequente na África e na Ásia.

Essas doenças podem ser classificadas, de acordo com as formas de transmissão, em dois grupos:

1)    Hepatites A e E - transmitidas de modo fecal-oral (ingestão de alimentos contaminados ou contato com fezes contaminadas); o mecanismo de infecção está relacionado às condições socioeconômicas, de saneamento básico e de higiene pessoal;

2)    Hepatites B, C e D - transmitidas pelo sangue, por meio de transfusão de sangue e hemoderivados, hemodiálise, procedimentos cirúrgicos e odontológicos em que não se aplicam as normas de biossegurança adequadas, da mãe para o filho durante gravidez e parto (transmissão vertical) ou pelo contato sexual. Esses tipos de hepatites ainda podem ocorrer em consequência do compartilhamento de material contaminado para uso de drogas ou de objetos de higiene pessoal, ou colocação de tatuagens e piercings.

SOBRE A HEPATITE C

De acordo com dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais, os casos confirmados de hepatite C, entre 1999 e 2009, registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), totalizam 60.908. Em relação à faixa etária, o diagnóstico foi mais frequente em indivíduos de 30 a 59 anos de idade. No sexo masculino, 35%, encontram-se na faixa etária de 40 a 49 anos de idade. No sexo feminino, a faixa etária de 40 a 59 anos de idade representa 50% dos casos.

Transmitida principalmente por sangue contaminado pelo vírus HCV, a hepatite C pode causar tanto infecções agudas como crônicas, ou seja, pode evoluir naturalmente para a eliminação do vírus ou, na falha desse mecanismo, tornar-se uma infecção crônica, principal determinante da ocorrência de cirrose e câncer de fígado nos indivíduos afetados.

Seus sintomas são pouco frequentes, tanto nas infecções agudas quanto nas crônicas. Porém, na fase aguda da doença, o paciente pode apresentar desde sintomas inespecíficos - como febre, mal-estar, cefaleia, dores musculares, náuseas e vômitos - até sintomas como icterícia (pele e olhos amarelados), colúria (urina muito escura) e hipo ou acolia fecal (fezes esbranquiçadas).

No exame físico, pode-se encontrar o fígado ligeiramente aumentado e doloroso. Entretanto esses sintomas só estão presentes em 30% a 40% dos casos, fazendo com que muitas vezes o diagnóstico só seja estabelecido na fase crônica da doença.

Cerca de 75% a 80% dos pacientes permanecem com a inflamação no fígado por tempo prolongado, superior a seis meses, caracterizando a doença crônica. Desses pacientes, 20% evoluem para a cirrose, passando a ter um risco de 1% a 5% ao ano de desenvolver câncer de fígado (hepatocarcinoma).

Milhões de pessoas no Brasil são portadoras do vírus da hepatite C e não sabem. Silenciosa, é uma doença com longo período de evolução. O paciente, em geral, demora cerca de 30 anos para desenvolver cirrose ou câncer de fígado. Entretanto, o curso da doença é afetado por vários fatores, especialmente pela ingestão de bebida alcoólica e pela coinfecção por outros vírus.

DIAGNÓSTICO

O anti-HCV (anticorpo produzido naturalmente pelo organismo) é o primeiro teste que deve ser feito nos pacientes para triagem de hepatite e marca o contato da pessoa com o vírus da hepatite C. Esse anticorpo demora de 4 a 6 semanas para se tornar detectável no sangue dos pacientes após o contato com o vírus, podendo persistir indefinidamente.

Outro exame que pode ser utilizado é o PCR, que mostra a presença do vírus no organismo do paciente. O PCR pode ser qualitativo (indica a presença ou não do vírus) ou quantitativo (avalia a quantidade de vírus presentes).

Desde 2011, o Ministério da Saúde ampliou a oferta de testes rápidos gratuitos para detecção da hepatite C, nos chamados CTAS (Centros de Testagem e Aconselhamento). O atendimento no CTA é inteiramente sigiloso e, se o resultado do teste for positivo, a pessoa é encaminhada para tratamento nos serviços de referência.

Para localizar o CTA mais próximo da sua residência basta acessar o link (Centro de testagem e aconselhamento) e clicar na caixa Localizar endereço na coluna à direita da página inicial.

QUEM DEVE FAZER O TESTE PARA DETECÇÃO DA HEPATITE C (grupos de risco):

pessoas que receberam transplante de órgãos ou tecidos, como córneas e pele, além de doadores de esperma, óvulos e medula      óssea;

  • pessoas que receberam transfusão de sangue ou de qualquer derivado de sangue antes de 1993;
  • doentes renais em hemodiálise;
  • pessoas que usam, ou usaram alguma vez, drogas injetáveis ou cocaína inalada;
  • indivíduos que usaram medicamentos intravenosos por meio de seringa de vidro nas décadas de 1970 e 1980;
  • portadores do vírus HIV;
  • filhos de mães contaminadas com a hepatite C, seguindo recomendação do pediatra;
  • pessoas que tenham feito tatuagens ou piercings em locais não vistoriados pela vigilância sanitária;
  • pessoas com parceiros sexuais de longo tempo infectados com hepatite C;
  • pessoas com múltiplos parceiros sexuais ou com histórico de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs);
  • pessoas com necessidade de diagnóstico diferencial de agressão ao fígado;
  • profissionais da área da saúde, após acidente biológico ou exposição percutânea ou das mucosas a sangue contaminado.
  • profissionais da área da saúde, após acidente biológico com exposição percutânea ou das mucosas a sangue contaminado.

Referências: 

HEPATOLOGIA, S. B. (2012). Imprensa / Releases / SERVIÇO: grupos de risco. Fonte: www.sbhepatologia.org.br: http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/release1.pdf

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Boletim Epidemiológico Hepatites Virais 2011. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/boletim_epidemiologico_hepatites_virais_2011

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Hepatites Virais: Desafios para o período de 2011 a 2012. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/hepatites-virais-desafios-para-o-periodo-de-2011-2012

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/protocolo_clinico_e_diretrizes_terapeuticas_para_hepatite_viral_c_e_coinfeccoes

HCV, O VÍRUS DA HEPATITE C

É um vírus RNA da família Flaviviridae, que só foi identificado em 1989. Em 1992, foi desenvolvido o primeiro teste para identificação do anticorpo contra o HCV (anti-HCV), proporcionando maior segurança em transfusões sanguíneas e permitindo o diagnóstico da doença. O HCV é classificado em seis principais genótipos (designados de 1 a 6). No Brasil, o genótipo 1 é predominante.

Estima-se que aproximadamente 3% da população mundial estejam infectadas pelo vírus da hepatite C (HCV), o que representa cerca de 170 milhões de indivíduos com infecção crônica e sob o risco de desenvolver as complicações da doença. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é considerado um país de endemicidade intermediária para hepatite C, sendo que de 1% a 1,5% da população é de portadores crônicos da doença.

De acordo com o Ministério Saúde, cerca de 1,5 milhão de brasileiros estão infectados com o vírus da hepatite C, porém, 50% deles desconhecem o problema. Por isso, apenas 100 mil brasileiros receberam efetivamente tratamento até hoje.

OBJETIVOS DO TRATAMENTO

Não existe vacina para hepatite C e a decisão de iniciar o tratamento deve considerar o risco de progressão da doença, a probabilidade de resposta terapêutica, os efeitos adversos do tratamento e a presença de comorbidades. Os pacientes em estágios mais avançados, com fibrose avançada e cirrose, são os que necessitam mais rapidamente de tratamento.

  • Hepatite C Aguda - O tratamento visa reduzir o risco de progressão da doença para a forma crônica. Por isso, independentemente de sintomas, é importante que se faça a detecção precoce da doença, pois quanto antes for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, maiores são as chances de cura (resposta virológica sustentada);
  • Hepatite C Crônica - O tratamento visa controlar a progressão da doença hepática, por meio da inibição da replicação viral, impedindo a evolução para cirrose e câncer de fígado, portanto, aumentando a expectativa de vida do paciente.

EVOLUÇÃO DO TRATAMENTO

Interferon (IFN) - Foi o primeiro medicamento introduzido no tratamento da hepatite C, ainda na década de 90. O interferon é uma proteína imunorreguladora que aumenta a capacidade do organismo de destruir células tumorais, vírus e bactérias. Ele pode ser classificado em alfa, beta e gama (ou imuno-interferon). O interferon alfa, utilizado no tratamento de Hepatite C, apresenta 14 subtipos com especificidades ligeiramente diferentes.

Ribavirina (RBV) - Ainda na década de 90, estudos clínicos demonstraram que a administração do antiviral ribavirina, associado ao interferon, por 48 semanas, levava à cura da hepatite C (resposta virologia sustentada) em 40% a 50% dos casos, números duas a três vezes maiores do que os obtidos apenas com interferon. Nascia assim a Terapia Dupla.

Inteferon Peguilado (PEG INF) - Introduzido à terapia padrão nos anos 2000, este tipo de interferon apresenta melhor tolerabilidade e maior persistência de níveis séricos adequados, permitindo melhor condição de tratamento para os pacientes portadores do genótipo 1 da Hepatite C.

Inibidores de Protease (IPs) - Desde o final de 2011, está disponível no Brasil um novo modelo de tratamento que consiste na combinação do interferon peguilado e da ribavirina com os inibidores de protease, uma nova classe de medicamentos que aumenta as chances de cura dos pacientes, podendo chegar a 80%, até mesmo aqueles que não obtiveram sucesso com a Terapia Padrão. A chegada desses antivirais de ação direta (DAAs) é a primeira inovação no tratamento da hepatite C em mais de 10 anos.

Atualmente o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o injetável Inteferon Peguilado alfa-2b e alfa-2ª, as cápsulas de Ribavirina e os Inibidores de protease Boceprevir e Telaprevir para o tratamento da hepatite C.

Referências:

BIO-MANGUINHOS / FIOCRUZ (s.d.). INTERFERON - alfa 2b humano recombinante - Monografia do Produto. Rio de Janeiro, Disponível em http://www.fiocruz.br/bio_eng/media/monografia_interferon.pdf; Ultimo acesso em Julho/2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções. Brasília, 2012. disponível em http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/protocolo_clinico_e_diretrizes_terapeuticas_para_hepatite_viral_c_e_coinfeccoes; Ultimo acesso em Julho/2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Suplemento 1 - Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções - manejo do paciente infectado cronicamente pelo genótipo 1 do HCV e fibrose avançada. Brasília, 2013. Disponível em (http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2011/49960/suplemento_1_85095.pdf); Ultimo acesso em Junho/2013.

domingo, 28 de julho de 2013

Monólogo para loucos que mordem

*CLÁUDIO MOTTA

Não vejo nenhuma utilidade em um errante extremado, reincidente há milênios, como tu, ó poeta bestial, ficar se atormentando com aquilo de ruim que já fez. O que de melhor pode acontecer é a emenda ficar bem pior que o soneto. Tudo poderá entortar de vez.

Por isto, mesmo consciente do erro, tu não tens te arrependido, nunca. Não tens pedido desculpas, jamais. Segues sempre em frente, na marra, e bates com a cara na parede ou com os cornos na lama pútrida dos mal avaliados por si próprios. Estás ferrado, meu velho tripudiador, tal e qual a mariposa que bruxuleia noite afora até cair morta pela luz do dia que a ofusca e pelo orvalho que a faz murcharem as asas.

Já ouviste aquele que diz não se arrepender do que fez?

Minha caríssima jornalista linda  -  Isabela  -  que não pode casar ainda só depois que se formar... Cá de minha parte, tenho passado por dias bem moderados, incrivelmente sóbrios, quase castos, inocentes mesmo, puros com certeza, ingênuos até. Torna-se então difícil dar crédito a mim mesmo, mas noto que a meia idade me permite dias como esses, logo seguidos por tempos em que a barbárie da época e a estupidificação da mente leva-me aos templos do prazer que me furtam a vida abatida entre a lascívia do corpo e o embebedamento da alma.

- Não. Eu não me arrependo!  -  Assim tu o dizes, como se fosses o senhor dos anéis e das verdades plausíveis e também das injustificáveis.

Como não esqueço as barbaridades que proferes sem nenhum remorso, afirmo-te que já ouvi da tua e de outras muitas bocas tal assertiva ser dita até com muita ênfase. Tu não és o senhor do destino, o dono da providência e não estás acima do bem e do mal. Ora, tá! Quem és tu, ó meu nobre cavaleiro do apocalipse às avessas?

É pouco provável que me compreendas, mas te respondo com as palavras de Zaratustra, que desde há muito são exatamente o meu porte de armas e a minha moda de viver, viola, cavaco e bandolim:

Moro em minha própria casa

Nada imitei de ninguém

E ri de todo traste

Que não riu de si também.

De cá da serenidade rotineira que é este céu em que agora faço morada, tenho tentado passar a ti receitas preciosas que tu não copias porque não mereces decifrar. Ou não decifras porque sequer sabe copiar.

Em um momento do dia, tu te arrependes por não ter feito aquilo que não fez. Logo em seguida, vem o arrependimento que paira sobre o que por você foi feito em detrimento ou prejuízo de uma ou de muitas delas. Em realidade, caem gotas de sangue e vêm as dores do espírito quando lembras ter agido em agravo de alguém, conscientemente. 

Não roubaste, é provável. Não mataste, é certo. Não desonraste pai e mãe, de forma alguma. Todavia, olhaste para a mulher do próximo inclusive quando o próximo estava bem próximo e tu estavas com a cara rica de malte. Depois, na festa de dezoito anos, ela passou rebolando dentro de um vestido saco tendo ao lado um cara fraco e você foi tirá-la pra dançar... Ela não dançou porque tu também não te atreveste a tanto. Só onda... Simplesmente, a ninfeta irmã da aniversariante foi passando e a alma imbecil foi virando o pescoço para acompanhá-la na sua divinal cadência de ancas largas, de forma a que só saíste do transe quando a noiva tão querida te meteu uma bolsada na cara de pau que antes tu tinhas e hoje já não tens. Eu vi tudo. Dito e feito, ela te pegou pelo braço, sacudiu com alguma violência e saiu puxando, como fazem as mães com as crianças arteiras quando são flagradas em delito mínimo. Foste para a casa dela, onde fazias pousada aos finais de semana, de táxi, tendo o teu automóvel ficado na praça em frente ao clube da avenida principal. Lá chegando, foste direto para o ninho do amor. Ela sacou as roupas e pulou em cima de ti. Pegou-te pelos pulsos e disse então:

- Dá próxima vez, jogo em você um copo de cerveja na cara, dou-lhe uma bofetada e termino o noivado. – Disso eu também lembro.

Em êxtase apalermada, conseguiste dormir talvez em vista do fato de a latitude e a longitude estarem estrábicas. Tendo acordado às onze, foste em busca do corcel 2 de nome Anastácio. A noiva ficara a tomar sol. Chegaste ao meio dia. O almoço foi à tripa forra, uma vez que a quase sogra era excepcional nas artes culinárias. Mais tarde, enquanto ela dormia a sesta a sono solto, apanhaste uns paninhos de bunda, digamos assim, e voltaste para debaixo da saia de mamãe, na cadeia velha, com medo do deslize que poderia ocorrer em outros aniversários, como tornou a se repetir um ano depois, agora, já em outra companhia... Ah, moleque!

Pense bem. Até eu ficaria com medo da peia, ó anjo rotundo! Afinal, apanhar em sociedade deve ser feio inclusive aos olhos dos circundantes.

Certo é que te arrependeste muito por fazer-te acreditar por uma moça que só queria o bem a você, ó pústula!

Um dia, então, houveram por bem te arranjar um bom casamento, no dizer da tua mamãe, que fazia promessas ao padroeiro de Xapuri para que tu saísses de casa, logo, e bem casado aos trinta e lá vai pancada.

O que não deveria ser feito foi feito à luz da lua debaixo de chuva fininha sob umas árvores cintilantes. Apanhados já ao término do acasalamento, o plano de fuga falhou. Como eras barnabé federal, foste prontamente denunciado a uma matrona que mandava em meio Acre. A esta respeitável sinhádisseste que casarias em quinze dias, isto, porque ela prometera arruinar a carreira profissional que nunca foi essas coisas todas, apesar dos bons salários. O casório ocorreu na data aprazada. Houve felicidade por dois meses, ao fim dos quais veio a escapada para Belém, em férias por outros dois meses. Maridinho em fuga das responsabilidades, de lá um telefonema dizendo ser impossível alguma coisa mais séria, posto que ela tinha apenas dezesseis anos. Ah, calhorda!

Tudo se acabou e o arrependimento ainda hoje te corrói as tripas. Agiste em prejuízo de uma família muito decente.

Ô poeta do absurdo! Pior é, agora por último, você pensar em vir para o céu, apesar dos crimes tardios e das noites ao anteparo de camas soturnas em motéis de última categoria.

Em verdade, logo na chegada ao céu, já no átrio, bem próximo às cortinas de nuvem amarela, hás de te deparar com Vieira, o padre, portando um estandarte, em tua recepção, onde lerás algo parecido com o que um dia eu te disse. Lembras? Se um homem está verdadeiramente arrependido, se reconhece verdadeira e profundamente as suas culpas, nunca ninguém falará dele tão mal que ele não se julgue por muito pior.

É mesmo assim. Contraditoriamente, do lado do mundo dos prazeres mais divinais, muitos são os que se arrependem por não terem cometido os deslizes mais humanos possíveis, tão doces e tão abomináveis ao mesmo tempo.

Vive tu, então, os encantos do teu mundo eternamente inesperado, vadio, pecaminoso, enquanto eu por cá vou vivendo este marasmo e essa pasmaceira que é estar sempre em atitude relax...

Venceste. Parabéns, ó anjo vagabundo! Also sprach Zarathustra.

__________

*José Cláudio Mota Porfiro é um cronista desatrelado: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco: o santo e o papa

João Baptista Herkenhoff

No momento em que o Papa Francisco visita o Brasil, meu espírito se volta para a lembrança de São Francisco de Assis.

Ao nos postarmos à face de Francisco de Assis, a primeira ideia que nos vem é a do santo que amou a natureza e viu os animais como irmãos. Mas além deste amor universal a todos os seres vivos, Francisco amou os seus semelhantes com a paixão do devotamento irrestrito.

Na sua tradição biográfica, registra-se que ele recebeu de Deus esta missão: “Vai, Francisco, reconstroi a minha casa.”

A casa humana tinha sido transformada numa casa de indiferença e egoísmo. Francisco recebia a missão de reconstruir a casa incendiando-a de Amor. Mais do que beijar a perna do leproso, Francisco beijou-lhe a alma. Nesse ósculo de dimensão infinita, o irmão Francisco reconstruía a casa de Deus.

A casa que tinha de ser reconstruída não era a casa de ateus ou de descrentes. Era a casa dos que se ajoelhavam, rezavam, cantavam hinos de louvor mas esqueciam que o legado de Jesus Cristo não foi feito de ritos, mas de atos.

Assumindo o nome de Francisco, o Papa que foi Bergoglio assina o compromisso de, novamente, reconstruir a casa de Deus, hoje certamente bem mais em frangalhos do que no tempo do visionário de Assis.

Não me parece relevante que Francisco seja tão somente um Papa do Terceiro Mundo, de nossa vizinha Argentina. Mas que ele seja uma voz profética do Terceiro Mundo, tão corajoso e despojado quanto seu compatriota o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Péres Esquivel. Este testemunhou em favor de Francisco quando, após a eleição papal, pretenderam atribuir ao então Cardeal Bergoglio cumplicidade com a ditadura comandada pelo General Videla. Esquivel repudiou a infâmia levantada e afirmou, peremptoriamente, que a acusação não tem o mínimo fundamento.

Compartilho a esperança do sempre inspirado Frei Leonardo Boff no sentido de que um revolucionário silencioso e humilde assentou-se na cátedra romana. Creio que não será um Papa disposto a impor pena de silêncio à voz discordante mas, pelo contrário, propenso a ouvir e dialogar, consciente de que Roma não detém o monópolio da verdade.

E ao refletir, no meu universo interior, sobre Francisco de Assis, leio que os Alcoólicos Anônimos ganharam o Prêmio Franciscano. A láurea foi concedida em reconhecimento ao trabalho dos AA para a recuperação de vidas.

Quanto serviço essa benemérita instituição tem prestado à dignidade da pessoa humana! Quão profundo é o vínculo de Francisco com todas as manifestações de amor que possam irromper no mundo!

João Baptista Herkenhoff, escritor, é Juiz de Direito aposentado e membro emérito da Comissão Justiça e Paz da Arquidioces de Vitória.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Caravana de Cultura e Humanização

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Joseni Oliveira

Após estrear em Assis Brasil e passar por Epitaciolândia, a Feira de Economia Criativa da Caravana de Cultura e Humanização chegou a Xapuri na última segunda-feira, 22, e encerrou as atividades na noite desta terça-feira, 23.

Uma vitrine de produtos culturais. Assim é  a Feira de Economia Criativa, ação do projeto Caravana de Cultura e Humanização, que é uma realização do governo do Acre, através da Fundação de Cultura Elias Mansour – FEM - e da Diretoria de Humanização da Gestão Pública, em parceria com a prefeitura de Xapuri.

Antes da Feira Econômica Criativa que foi realizada a partir das 19:00h de terça-feira na praça São Gabriel, a Caravana realizou várias atividades com oficinas e palestras que foram ministradas na Escola Anthero Soares Bezerra. A ideia do projeto é estimular e valorizar práticas culturais, artísticas e de humanização nas comunidades. Estudantes, professores e artistas participaram das oficinas. Humanização, artes e educação patrimonial são os conteúdos abordados.

Christian Moraes, da Diretoria de Humanização, afirmou que o foco principal da caravana e da feira é a excelência no atendimento a sociedade civil.

“A caravana vem trazendo Oficinas de Teatro, de Humanização da Gestão Pública, Cine mais Cultura e Educação Patrimonial. Essa semente da humanização está sempre vinculada à cultura, e é sempre um prazer visitar as cidades do interior e conhecer a cultura de cada um, que é sempre muito rica, disse.”

O projeto existe em todas as cidades acreanas. Uma ideia que pretende estimular e valorizar práticas culturais e artísticas, abrangendo conteúdos que tratam do processo organizacional, passando pelas artes, até o patrimônio cultural.

Joseni Oliveira é repórter do Sistema Público de Comunicação do Acre.