sábado, 24 de agosto de 2013

Basta dizer que sou do Brasil

*CLÁUDIO MOTTA

No mundo encantado da poesia e do bem querer, conhecemo-lo por Rimbaud, o poeta tosco nascido no verdejante vale do Akiri. Versos escandalosos ou ensimesmados, então, personalizaram-se e houveram por bem nascer nos domínios de Girão, em um tempo em que o rio comandava a vida e a seringueira sangrava, porque a feriam de morte morrida todos os dias de fartas décadas.

A última viagem feita pelo poeta à Irlanda, ou Eire, como era chamado antigamente, rendeu um conto de estação aclamado pela crítica quase nacional. Têm dito por aí coisas fantásticas relativas aos voos rasantes que são dados por sobre pântanos em alagação, campos em flores e corações aos pedaços.

Ele conheceu gentes e monumentos de estilos e épocas bem diferenciados. Teria ficado restrito a Oslo, a Noruega, mas a achou com um gosto de bacalhau fresco ou ardido, que lhe fez ruídos nas narinas e pigarros nos tímpanos, ou vice-versa. (Só para enrolar o bom intérprete com o qual seria melhor nunca se arriscar, se é que é possível... Eles têm a alma ruidosa e dizem ver naquele, ou em outros escritos quaisquer, coisas jamais tratadas por Carlos Drummond de Andrade, ou pelo meu amigo poeta bêbado, o Charles Baudelaire, com quem o bardo tem o prazer de se engalfinhar em tertúlias alcoólicas na pérgula da Vivenda do Petrópolis, à beira da piscina, ou no Pato Tropical, o boteco escolhido por dez entre dez acreanos de boa origem, como aquele que, felizmente, nasceu em Xapuri, daí o condão poético melífluo e quase afrodisíaco, escrevamos assim.)

O Charles Baudelaire, meticuloso até as tripas, houve por bem perguntar os porquês de o vate haver ambientado o seu conto logo na tão longínqua Irlanda, como se ele tivesse alguma coisa a ver com o tempo, o espaço e os personagens ali descritos.

Para quem já esteve em Dublin, como o poeta, torna-se fácil responder. Trata-se de uma velha e muito bem cuidada cidade da Europa medieval, como tantas, tão bela e tão romântica quanto os braços curtos e magros e nus da donzela da segunda fila  - aquela florzinha  - do meu teatro de gozos; mais, muito mais aconchegantes que as pernas grandes e voluptuosas da morena sentada ao fundo do pavilhão das lindas tetas ou das belas artes.

Com a primeira anja, a poesia poderia fazer amor. Com a outra, os versos fariam sexo frugal, acasalamento, algo mais selvagem e bruto e trivial e suculento e rude, como a alma do seringueiro que repudiou a mocinha só porque a via enquanto lânguida demais. Lamentável para um rincão onde, naqueles tempos áureos da borracha, mulher era igual agulha na folhagem caída da castanheira hoje morta.

Como um Quixote, em sua viagem miraculosa, ele varreu quase toda a Europa. Esteve sob os encantos dos alabastros e das prostitutas  -   as almas gêmeas da primeira dama da safadagem romana, Messalina, de dezessete anos, casada com Claudius, o Imperador, de sessenta e duas voltas do velho ponteiro mundano cansado e jamais exaurido.

Como Barba Azul, ele ouviu as trombetas do inferno tocarem meio-dia em ponto, quando uma mosca amarela zumbiu-lhe ao ouvido dizendo ser aquela a hora exata de cair fora, porque corações despedaçados podiam colar-se e, numa revolta macabra, reclamarem o sangue das cem virgens devoradas pela lascívia do sedutor tarado.

E os séculos voaram vertiginosamente no rumo de cá. Chegaram, enfim, ao terceiro milênio.

O poeta envelhecido em tonéis de carvalho, qual vinho tinto, saiu por aí, mais uma vez, a manchar os vestidos alvos das musas de um tempo de recreio em média idade.

Um dia, então, novamente ensandecido sob o efeito do suco da cevada podre, aportou em Lisboa para uma revisitação depois de anos que já se iam distantes. Foi ainda à Cidade do Porto e à Vitória de Setúbal. Dali, seguiu o caminho mais uma vez para Málaga, Barcelona e Sevilha, na Espanha. Em trem acrobático reluzente, foi a Paris e, depois, a Nice e Bordeaux, onde, em um lupanar caro da zona portuária, conheceu dama de vida idílica com quem engendrou romance pinga fogo. Chamava-se Antoinette, uma lourinha em unhas, lábios e vestidos vermelhos e ancas descomunais, em cuja companhia impermeável viajou por cinco longos anos a conhecer a Europa pelo lado do avesso, o da sacanagem. O dinheiro era proveniente da jogatina, esporte no qual ainda é uma águia dos Alpes ou um gavião de Xapuri.

Em camisa onde o amarelo predominava sobre o verde, estava escrito Sou do BRASIL. À sua passagem, cavalheiros e damas, da plebe ou da aristocracia, faziam reverências e espalhavam sorrisos e votos de boas vindas.

O doidivanas troteava à cata de cassinos, inclusive, em Monte Carlo, Mônaco e Lichtenstein. Não havia tempo ruim. Tratava-se de um brasileiro festivo e feliz admirado, inclusive, por aqueles que para ele perdiam grandes quantias em euros.  

A dama de companhia explicava a todos em um sotaque arredio, uma vez que viajara do Brasil para fazer a Europa, como prostituta, ainda infanto ou juvenil,  na década passada:

- Piranha é mulher que transa para morder fundo, tirar o sangue e ganhar muito dinheiro. Já galinha é aquela que se apaixona pelos amantes e morre na pobreza... No Brasil é assim. Cada qual no seu cada qual. As pessoas são muito felizes. Não dizem que rico ri à toa? Pois é. Os brasileiros são mesmo muito abonados, inclusive, espiritualmente. – No que era apoiada pelo poeta tosco:

- Além do Carnaval, do futebol e do samba, as mulheres do Brasil são as mais belas do mundo. Afora o fato de serem muito prendadas e atléticas nas alcovas tropicais, são esposas muito dedicadas, como é o caso de Antoinette, a minha amada que hoje se diz francesa.

Perguntaram-no, então, acerca do que fazia ou no que trabalhava para manter um padrão de vida tão luxuoso, uma vez que morava em uma garçoniere ampla com vistas para o mar de Bordeaux. Sem nenhum pejo, ele arremeteu:

- Sou brasileiro e, como tal, aprendi truques e fórmulas que me fazem viver bem sem ter que fazer tanto esforço. Afinal, os estrangeiros que vêm para a França para fazer a parte suja e pesada do trabalho que não é feito pelos franceses são os turcos do norte da África, para quem qualquer gorjeta já vale toda uma vida de privações e preconceitos.

O meu herói sabia onde dormiam as andorinhas e onde se divertiam os magnatas, os banqueiros e os armadores ricos do sul europeu. Lá estavam eles e para lá é que o poeta tosco rumava. Sem muitas cartas na manga do fraque, só algumas, ganhava do primeiro para dividir o lucro com o segundo, com quem combinara tramóia irremediável que não levantava suspeita. Vivera no Rio de Janeiro e aprendera as artes marciais, as da capoeira e as do amor, além da arte do trambique, esporte no qual os brasileiros são campeões antes de iniciada a primeira partida do campeonato carioca.

Um dia, então, o poeta Rimbaud foi perguntado por que folgava tanto enquanto se divertia pela Europa afora. Foi extremamente incisivo ao responder:

- Não esquenta não, mermão... Basta dizer que sou do Brasil!

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*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br  -  Acesse e opine!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cena inusitada

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Numa dessas tórridas tardes de agosto, no cemitério de Xapuri, uma  persistente dupla monta guarda em um túmulo em cuja capelinha se abriga uma cadela no cio.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Cães nas ruas de Xapuri

Sou Médico veterinário e prometi cuidar dos animais, mas também me sinto responsável pela saúde humana e não é de hoje que vejo e me indigno em que situação chegou a população de cães de rua em Xapuri, em ver inúmeros animais doentes, ver quantidade de vezes pelas ruas e mais, muitas vezes em uma lanchonete ficamos rodeados de cães.

Não sei porque a população aceita isso, porque a prefeitura não tenta fazer algo para conter a proliferação destes animais. Muitos cães possuem donos, mas parece que aculturou-se criar animais nas ruas e não em casa, até onde eu sei o cão é um animais doméstico e deve ser criado em casa.

Os cães de rua além de representarem um risco físico, causar acidentes, também podem ser veiculador de inúmeras doenças para outros cães como a parvovirose e cinomose, inclusive ser um poderoso vetor de zoonoses – doenças transmitidas de animais para o homem. Entre as zoonose mais temida, esta a raiva, entre outras como sarna e a leishmaniose que apesar dos cães não transmitirem a leishmaniose  diretamente ao homem ele acaba sendo o hospedeiro desta doença.

Deixo aqui minha indignação.

Fábio Fernandes
Méd. Veterinário

sábado, 17 de agosto de 2013

Brasil inicia testes da vacina contra a dengue

Anvisa autorizou o Instituto Butantan a iniciar a etapa clínica do imunobiológico. O Ministério da Saúde está investindo R$ 200 milhões na pesquisa da dengue e outros produtos biológicos.

O Brasil começa avançar no processo de desenvolvimento da vacina contra a dengue com a permissão do teste em seres humanos. A Agência Nacional de Vigilância

Sanitária (Anvisa) emitiu nesta sexta-feira (16) comunicado especial que autoriza o Instituto Butantan a iniciar a etapa de pesquisa clínica do imunobiológico. O Ministério

da Saúde está investindo R$ 200 milhões no Instituto Butantan, o que inclui a pesquisa para a vacina da dengue e projetos de outros produtos biológicos.

A pesquisa do laboratório público deverá ser realizada com 300 voluntários e terá cinco anos de duração. A autorização é para a fase dois do estudo e tem como

finalidade analisar a efetividade, a eficácia e segurança da vacina tetravalente, que pretende prevenir a população contra quatro sorotipos da doença (1, 2, 3 e 4). Os

testes em humanos serão realizados em três centros de pesquisas clínicas em São Paulo: no Instituto Central (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-

USP); no Instituto da Criança (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) e no Hospital das Clínicas (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP).

O Instituto Butantan iniciou a pesquisa da nova vacina em 2006 e, para tal, contou com a construção de um laboratório piloto, bancos de células e de vírus dos quatro

sorotipos da dengue. Se a vacina for aprovada em todas as etapas de pesquisa clínica, poderá ser comercializada e distribuída à população. A perspectiva do governo

brasileiro, em caso de sucesso em todas as etapas, atender a demanda global e exportar a vacina contra a dengue.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, considera que a autorização para o início dos testes em humanos é um grande passo para o enfrentamento da doença. Ele ressaltou

que a medida está alinhada aos esforços do governo para proteger a população contra a dengue. “O avanço da pesquisa de um laboratório público, no caso o Butantan,

reforça o comprometimento do país com o combate à dengue, uma das priorioridades para o Ministério da Saúde”, afirmou. Além disso, o ministro ressaltou o caráter de

vanguarda do imunobiológico, que ainda não é produzido no mundo.

A PESQUISA - A segunda etapa da pesquisa, também chamada de estudo terapêutico piloto, visa demonstrar a segurança, em curto prazo, do princípio ativo e a

bioequivalência de diferentes formulações do produto. Os testes são realizados em um número limitado – e relativamente baixo – de pessoas e registram como os voluntários

respondem às doses administradas. A partir desses resultados, a pesquisa poderá ser ampliada para um público maior, em larga escala, a chamada fase três do estudo. O

imunobiológico também é pesquisado em outros países e por laboratórios privados.

Além do Butantan, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também está pesquisando uma nova vacina contra a

dengue com apoio do Ministério da Saúde. Os estudos são realizados desde 2009, em parceria com o laboratório privado GSK.

INVESTIMENTOS - O Ministério da Saúde tem investido fortemente em políticas para o controle da dengue. Diversas ações foram implementadas nos últimos anos

em apoio aos estados e municípios, entre elas o aprimoramento da capacidade de alerta e resposta à doença, por meio dos sistemas de vigilância para detecção

precoce de surtos. Também foram destinados recursos, aos estados e municípios para financiamento das ações de vigilância, o que inclui o controle da dengue: R$ 1,05

bilhão em 2010; R$ 1,34 bilhão em 2011; e R$ 1,73 bilhão em 2012. Além disso, todos os municípios receberam adicional de R$ 173,3 milhões, efetuado em dezembro de

2012, para ações de qualificação das atividades de prevenção e controle da dengue, visando prevenir a intensificação da transmissão que sempre ocorre no verão. Em

2011, foram R$ 92,8 milhões para 1.159 municípios.

Em novembro do ano passado, o Ministério da Saúde lançou campanha de mobilização contra a dengue e intensificou a sua divulgação durante todo o período de maior

ocorrência da dengue em 2013. Também foi oferecido aos profissionais de saúde ensino a distância em manejo clínico do paciente com dengue, por intermédio de

curso promovido pela UNASUS, conhecido como Dengue em 15 minutos. Além disso, as secretarias de Atenção à Saúde e de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde,

vem prestando assistência técnica para organização da rede de serviços de saúde ao atendimento dos pacientes com a doença e apoio às atividades de prevenção e

investigação dos óbitos suspeitos de dengue.

Por Daniela Martins, da Agência Saúde-Ascom/MS.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

De amores e de bolachas

CLAUDIO MOTTA

Se não fosse volúvel como sou, seria um santo bem à moda das carolas mais fundamentalistas do século anterior ao meu. Tiro daí, então, advertência cruel segundo a qual uma das grandes perfeições do universo está exatamente na instabilidade do humano. A inconstância marca o passo da humanidade que se arrasta pelos becos e vielas do mundo, e não tem certeza da sua aposta no futuro que pertence tão somente a Deus.

Veio a mim gentil senhorita a dizer que a perfeição não é assunto a ser tratado comigo. Disse-me que muito me assemelho ao anjo exatamente porque tenho buscado ser o homem que anda nos trilhos com a certeza de que o trem não me atropelará. Tem razão a Isadora!

É por isto que vou vivendo e arrastando, com os andrajos mundanos, a volúpia do meu tempo chorão e ensaboado como a pele macia da morena da terceira fila, o quindim de jerimum da minha prosa poética, às vezes tão corrosiva ou sardônica ou irônica ou satírica. Em outras ocasiões, está lá estendida no chão duro da história uma poesia tão esquelética e melíflua e bela e sensual e nua e crua, como o arroz sem sal com o que mamãe me alimentou aos onze meses. Quanto encantamento!

É verdade, senhora lucidez. Varri o barraco do chão. Derrubei a vela e a tapera conjugal pegou fogo. Resolvi, enfim, dar um basta no relacionamento. Vossa Mercê mesmo há de lembrar, certamente, aquela máxima segundo a qual o sujeito perdeu uma chave velha e mandou logo fazer uma novinha em folha. Passados uns dias, então, ele achou a chave antiga e, morrendo de amores tardios, resolveu guardar a chave recente no fundo do coração e passou a fazer uso da anterior... É aquela coisa do até que a morte os separe, se é que a Isabela me compreende.

Ah, pois bem. Certo é que voltei às velhas manias, ao amor mais antigo do mundo, pensando naquelas certas coisas que já não são comuns nos nossos dias, numa alusão à modinha bem conhecida, como o gesto singelo que é mandar flores à professorinha jeitosa e linda.

Há mais de vinte voltas, eu houvera abandonado o velho amor por um amor do finzinho dos anos oitenta, quase noventa, novinho de dar gosto. Pitéu. Uma delícia e uma carícia a cada minuto dessa vida bandida e devassa engendrada por Deus e mantida por Ele mesmo. Esse era o nosso diapasão de muitos filhos insolentes e orgias indizíveis, tendo em vista o horário contra pornográfico e os censores da época.

Era feliz, sim. Mas sou e serei volúvel, sempre e de uma vez por todas. Viver uma aventura a cada duas décadas, ou a cada três semanas, é sempre bom para fígado e para os olhos dos que têm a alma vadia vaca cara lavada com sabão neutro, como eu.

O caso de amor barulhento, que substituiu o primeiro, teve real início quando nós juntamos os panos de bunda, isso, em noventa e um. Eu não a conquistei. Ela me seduziu. Vivemos dias felizes ao redor dos filhos gerados, paridos e criados com muito gosto e austeridade. Ganhamos bastante dinheiro. Quase ficamos ricos juntos, um tirando proveito do outro. Eu usufruía o que ela podia me dar e ela comprava com o que podia gastar, a rodo, na fuzarca e no carnaval das ilusões mais pífias.

Ela me fez largar de beber, digamos assim, por uns cinco dias, como costumeiramente faço desde os tempos de devaneio. (Bebo às sextas e nunca aos domingos, sem nenhuma sobriedade, é lógico.) Com muito gosto, segui-lhe os conselhos e passei a receber, aos sábados e demais dias, visitas de filósofos e historiadores de outros mundos, de Platão a Lênin, de Heródoto a Marc Bloch. Fabriquei o bem querer da academia. Dei à luz teses acadêmicas laureadas e de muito fôlego. Filhos gloriosos que logo cedo ficaram adultos e adúlteros, como eu. Sem nenhum pejo.

Mas o tempo não se rendeu e o destino fez das suas. Foi-se embora a volúpia das primeiras épocas. A libido passou a andar de bar em bar à procura de um amor dos velhos ou de novos tempos. Havia chegado, então, a época em que o verdadeiro grande amor não é tão durável e quase vira incesto... (É sabido por todos que, com a convivência por tanto tempo, o marido passa a ver a esposa como se fosse a sua irmã intocável.) A Gaia Scienptia, meu segundo amor, já dera o que tinha de dar.

Larguei-a solenemente em meio a um desses rendezvous da vida. Já a alma sacana se apaixonara perdidamente por Artêmis Littera, uma deusa de rua ligada a uma família de literatos de cordel vindos do sertão do Ceará.

Gaia foi por mim repudiada. Era já terceiro milênio. O casamento era bom, mas fadado ao fracasso dadas as diferenças de objetivos entre as partes. Ela, já em média idade, quis de mim o rigor, a seriedade, o corte epistemológico sem desvios. Ao passo que Artêmis Littera, prima de Mnéster, é jovem e sensualíssima, principalmente, porque vai falando uma linguagem que renasce a cada dia de cada milênio.

Numa rodada de cerveja, então, no boteco do Pato Tropical, apareceu moça esguia, alta, loura e divinal na sua dança de ancas largas, vinda de uma longa viagem por mundos distantes de mim. O meu amor de infância havia feito plástica. Colocara seios zero bala, botox e bunda arrebitada de carne sintética, além do modelito a la Bündchen.

Por que não correr para aqueles braços de pelo em blondô? Por que não voltar? Voltei e hoje temos já quase mil e duzentos filhos que pensam em se tornar milionários, como nós, tão fúteis, mas tão cheios de amor pra dar e jamais para vender.

Em suma, na adolescência, namorei a bela e sensual literatura. Depois, já na idade adulta, tive um caso de doze anos com a filosofia. Hoje, mais uma vez, já ao cair dos dentes, estou de amores ensandecidos nos braços da sempre jovem poetisa que me quer de novo depois de se ter deitado com milhões de pulhas e poetas farsantes como hoje o sou.

Eu era sonso em um tom acima. Depois evolui e passei a volúvel, inconstante mesmo, habilidoso demais com a poesia feita de palavras voadoras que cortaram corações pulsantes sob seios juvenis.

Assim é a vida. Há amores novos que substituem os anteriores, e amores anteriores que ficam no lugar dos novos. A fila é grande e não nos é permitido perder o tempo que vale ouro enchendo-nos de tantos escrúpulos e atitudes vãs.

Um dia, então, um desses varões ilustres do meu século vinte, houve por bem falar que mulher é que nem bolacha, porque em todo canto se acha. Ao que a fêmea, inteligentíssima, pra lá de sacana, respondeu que homem é como biscoito, pois vai um e vêm dezoito...

Minha queridíssima madrinha Eulália Brasileiro. Que a vaidade não me enfeie e a verdade não me minta. Lembras? Foi bem no meio dessa gente que eu nasci e cresci cafajeste para um mundo cheio de bordões, picardias e mil malandragens próprias do gênio do labirinto e da moça despudorada e nua, que encanta os mil pretendentes fazendo uso de uma flecha voadora mágica e sensual. Ah, os meus amores!

Era aquele um tempo fantástico e de paixões avassaladoras. Cruzes!

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José Cláudio Mota Porfiro é um mero cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

domingo, 4 de agosto de 2013

A irresistível saga da moça que roubou o homem de alguém

*CLÁUDIO MOTTA

Viver a modernidade em alto estilo é algo bastante dispendioso, oneroso e até certo ponto insidioso ou capcioso, digamos assim. Se não bastasse a seda e o linho, ainda há que comprar amor como se compra o vinho, quando, na busca da mais cristalina verdade, há o bem querer na praça, onde o amor pode vir de graça, bem devagar, solertemente... E basta ter paciência e um pouco de pertinência, quando o sentimento puder valer à pena.  É também conveniente o ser sensível dos que farejam a felicidade que está em qualquer canto da cidade ou em lugar algum.

Ainda bem que eu sou um mero inexperiente para quem tudo é urgente, embora sequer tenha estilo e muito menos um afeto. E o mal pior é que não sei mais onde está o apego, o meu chamego, a mulher de um homem só. Tenho-o observado exposto, à venda, em bancas de revistas, no boteco da esquina, em restaurantes caros e lojinhas do mercado popular. Então, o órgão do peito acelera e a poesia flui severa. Ah, quem me dera, viver ainda essa quimera, talvez eu a tenha deixado escapar ontem, anteontem ou em século algum. Foi, sim, por esses dias que o poetinha disse ao meu pé do ouvido:

- Ei, menino! Arrisca-te... É preciso muito siso, muita seriedade e pouco riso, para viver um grande amor.

E foi aí que ela acordou. E foi aí que a briga começou.

Estava a esposa a emprestar pistas sobre o que gostaria que houvesse no seu aniversário próximo. Ela disse que queria algo que fosse de zero a cem em cerca de três segundos. Disse o marido então que lhe compraria uma balança... E foi aí que o pau quebrou. Sobrou presença de espírito. Faltou sensibilidade.

Daí em diante, os temporais se sucederam a cada dia de cada semana de cada mês. A vivenda virou cabana e, depois de um vento brando, uma leve aragem, a casa caiu, o barraco desabou, no dizer do poeta quase acreano. Vinte anos de casados, dois filhos adolescentes que presenciaram o caos.   Coisas da modernidade.

Foi quando a moçoila adentrou o restaurante caríssimo em cadência de ancas largas e ligeiramente fagueiras. Vendia amor a preço irrisório ou por valor alto, dependendo do contato, daquela coisa de pele, que virou moda entre os mais sensíveis ao toque, ao olho no olho, ao lábio com lábio, ao voyeurismo das mãos irrequietas. (Isso já tá ficando sacana demais!)

Ele meditava sozinho à luz do dia do restaurante de primeira linha. A mão balançava as chaves do carro de luxo à porta. As coisas já iam de mal a pior e aquela beldade se derretia em sorrisos, sozinha, em uma mesa próxima, bem em frente à dele, um cinqüentão de roupas finas, anti rugas, visitas ao dermatologista, academia de ginástica por religião, poses e sorrisos estudados, educados, poesia requentada nos lábios, cartões de crédito internacionais e tudo o mais, em síntese, pronto para viver o amor em média idade com aquela florzinha de apenas duas dezenas de primaveras. Um quindim de jerimum!

- Vamos assumir o relacionamento. O que é que tem? Não há porque não. Esquece aquela doida lá de casa, e pronto! – Foi o que disse a ele a alma aventureira própria, que se acostara bem ao seu ouvido.

- Sou executivo de uma empresa internacional do ramo de automóveis. – Ao que ela respondeu:

- Eu, cá de minha parte, estou prontinha da silva para uma aventura secreta ou a céu aberto, do jeito que for.

Houve uma troca de celulares naquele lugar espaçoso, próximo ao banheiro, onde os homens se diferenciam dos meninos. Em nada mais que três minutos, ali bem próximo ao píer, já ele gentilmente abria a porta do bólido preto luxuoso que lhe servia de meio de transporte. Em menos de duas horas, já estavam os dois naquele local divino, ninho da sacanagem e do acasalamento frugal. E haja fôlego para não se fazer de rogado na frente de uma atleta de pouco tempo de serviço, e cheia de habilidades aprendidas em almanaques onde se ensina como bem vender o amor de verdade, o amor a esmo, misturado com torresmo, seja lá como for.

Deu certinho. Nem se deram ao luxo da discrição. Saíram do motel com os vidros abaixados. Já na praça, tomaram o tacacá da maria preta, um na mesma cuia que o outro. O Zé havia nascido para aquela alminha linda, morta de gostosa na sua tez alva como as nuvens da Ilha de Páscoa, do Pacífico Sul, onde passariam as próximas férias do verão asiático. Principalmente, ele acabara de nascer, sim, para assumir todas as continhas dela, na boutique, na perfumaria, no esteticista, na loja de jóias, na concessionária do carrinho dourado, e assim por diante. Seriam e são felizes por dois anos ou para sempre até trocarem tiros no boteco, na cantina ou na garagem da esquina. Talvez até dê certo. Tudo depende de ser ou estar sempre ereto, de prontidão, na boa, sem recuar, sem cair, sem temer... E sem ficar pobre, claro, isso nunca. Cruzes!

Mas tem sempre uma vizinha fofoqueira e enrugada para quem os anos perderam o sentido do ser e do estar. Foi aí que a Fifi entrou em cena sem nenhum pudor. Morta de ciúmes porque a filhinha encantadora, de quinze aninhos, houvera caído nas graças e estava barriguda de um zé ruela qualquer, desses que invertem noite e dia em busca de prazeres entre basilares e cheiradas letais, ela fez comentários atrozes:

- Essazinha aí, heim! Deu-se muito bem. E como é que não ia dar e gostar se ele tem com o que pagar? Descolou o velhote metido a besta. No futuro, dá-lhe um chute na bunda, fica com as coisas dele, e pronto. Com o vidro preto no carrão, ninguém chega sequer a ver a cara do come gente. Cá entre nós e o povo da Estação, ela roubou o marido de alguém. No mínimo, há agora uma família sem arrimo, uma esposa em desatino e filhos que já não contam com a presença do pai salafrário e pegador feito a peste. Arre égua!

É assim a vida moderna. Cada um dá o que tem, ou vende a preço de banana, ou em troca de uma bêemedábliu, de um corolla preto, ou de um palacete em Jurerê Internacional, Floripa... Melhor que em Vegas. Lá, o pessoal do cassino fala inglês.

Fiquei, digamos, meditabundo, depois das ocorrências drásticas. O amor tem sentido, vale a pena, mas também vale ouro trabalhado pelas mãos melhores ourives.

Ó minha caríssima Amanda, razão dos meus ais. Por ti esses sinos malvados e outras cositas mais dobram, a minha cuíca repica e o meu florete desembainha. Tudo é tão normal para os pós-modernos, como esses meus botões viciados e os zíperes escorregadios. Muito embora os fundamentalistas teimem, o casamento continua a ser como o submarino, posto ter nascido para afundar... Enquanto uns lutam, choram e se descabelam para não perder a consorte, a amada amante que lhe reservou Deus, outros, ao contrário, têm uma puta vontade de que um dia ela ou ele lhes afirme estar gostando de alguém, este, já um clichê em meio aos que começaram a trair para jamais deixarão de coçar.

Voltando aos pombinhos da irresistível saga, um dia, então, ainda em idade imatura, ela houve por bem enviar a ele um bilhete ensimesmado, um pouco aguado, mas cheio de amor pra dar. Anotou a ninfa que eram eles feito água de moinho que jorra para o futuro, sem medo do escuro. Vento no varal de um tempo que ainda vem, de barco ou de trem. Afã da juventude afoita tremeluz sorrateira, daquela maneira. O élan da vida viva ativa a borbulhar, e encantar. Farfalhar de folhas na primavera, uma quimera. Acalanto pra quem sofre ou é feliz, ou por um triz. Aragem no quintal do primeiro sol que marca o dia. Da ciranda de crianças no pátio escolar, nada devagar. Orvalho leve da madrugada tardia, não mais fria. Amanhã tem mais poesia e hoje é dia de ser feliz mais uma vez, e sonhar... É assim a vida vadia de quem é feliz mesmo sem saber.

Dois anos depois, o adeus foi inevitável e a bancarrota também.

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*José Cláudio Mota Porfiro é um cronista desatrelado: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ulysses e a Cidadania

João Baptista Herkenhoff

Por iniciativa da Fundação Ulysses Guimarães tive a oportunidade de debater ante-ontem em Vitória. O convite me foi feito pelo presidente da Fundação. O tema proposto para o debate foi este: Para onde a cidadania quer levar o país?

Para discorrer sobre cidadania, numa instituição que tem o nome de Ulysses Guimarães, não seria possível iniciar a fala senão reportando-me a seu patrono, um paradigma das lutas cidadãs. Ulysses combateu a ditadura instaurada no Brasil em 31 de março de 1964 e desempenhou pepel decisivo na redemocratização do Brasil. Ao declarar que a Constituição de 1988 tinha sido promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte, o gigante Ulysses, com a Carta Magna erguida nas mãos, num gesto cívico, adjetivou o documento: Constituição cidadã.

Mas tudo isso é história e para os jovens até parece pré-história nestes tempos em que o ontem é esquecido e somente o hoje tem significado.

Entretanto é preciso que se diga com todas as forças da alma: um povo que não conhece o passado não tem futuro.

São muito expressivas e dignas de aplausos as passeatas que condenam a corrupção, que exigem segurança, saúde e educação, que protestam contra os desvios éticos. As classes dominantes desencorajam as lutas coletivas. Com frequência, os líderes das lutas coletivas são perseguidos, presos e até mesmo assassinados. O povo tem de aprender a vencer seus desafios com as próprias forças. Mesmo que o ambiente envolvente seja adverso, mesmo que a luta coletiva não seja valorizada e enaltecida, é a união que faz a força.

Assusta-me porém que algumas vozes distorçam os justíssimos reclamos e advoguem o retorno da ditadura. Assusta-me também que uns poucos maculem o protesto democrático com atos de vandalismo e destruição do patrimônio histórico.

Lembre-se, sobretudo aos jovens, que os atos institucionais que decretaram o regime ditatorial apresentaram, como justificativa para a supressão das garantias, a defesa dos valores democráticos. Entretanto, com as ressalvas admitidas para que vigorasse, em nossa Pátria, uma liberdade apenas relativa, o que vimos, a partir de primeiro de abril de 1964, foi a prática da tortura nos porões do regime, o assassinato de opositores, o silenciamento dos grandes líderes e os abusos de toda ordem.

Respondi à pergunta formulada pelos organizadores do conclave: a cidadania quer levar o país à Justiça Social, a uma melhor distribuição da renda, a uma educação pública de excelente qualidade, à efetivação da saúde como direito de todos, à infância e adolescência protegidas, cuidadas como tesouro mais precioso que o ouro e a prata, como disse o Papa Francisco.

João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, palestrante pelo Estado e Brasil afora e escritor.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Agosto, mês do desgosto ou superstição?

João Baptista Herkenhoff

Superstição é a crença em relações de causa e efeito à face de determinados fenômenos, crença que, entretanto, não tem respaldo na racionalidade. Assim haveria uma oposição entre o olhar científico e o olhar supersticioso. Colocamos ponto de interrogação no título deste artigo para que a conclusão fique por conta do leitor.

Estamos começando Agosto.

Na alma popular, o oitavo mês do ano está associado a pesar, tristeza, dissabor, sofrimento. Talvez a crendice tenha origem em Portugal, onde as mulheres nunca se casavam no mês de agosto. Justamente no mês de agosto, os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e ainda correr o risco de sofrer uma viuvez precoce.

Nem Vinicius de Moraes fugiu ao presságio negativo do mês de agosto que, no Zodíaco, é comandado por Leão. Nos versos do Poeta,

”a mulher de Leão 
brilha na escuridão.

A mulher de Leão, mesmo sem fome, pega, mata e come.

A mulher de Leão não tem perdão.

As mulheres de Leão,
 leoas são.

Poeta, operário, capitão.

Cuidado com a mulher de Leão!”

Também outra justificativa para essa crença de agosto azarado é o fato de muitos episódios tristes, no mundo e no Brasil, terem acontecido no mês de agosto. Senão vejamos

Em 24 de agosto de 1572, por ordem de Catarina de Médici, ocorreu o massacre dos huguenotes.

Na cidade de Nova York, no dia 6 de agosto de 1890, o primeiro homem foi eletrocutado numa cadeira elétrica. Esta primeira execução traduz uma mensagem de iniquidade. Ou seja, o Estado arvora-se defensor da sociedade e supõe ser legítimo tirar a vida de alguém.

Entre os dias 6 e 9 de agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pela bomba atômica, nisto que foi certamente o maior genocídio da História.

No Brasil, dois presidentes da República, muito amados pelo povo, morreram tragicamente no mês de agosto.

Em 24 de agosto de 1954 Getúlio Vargas praticou suicídio, “saindo da vida para entrar na História”.

Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitscheck faleceu, vítima de um desastre automobilístico.

No calendário cívico do Espírito Santo ocorre, anualmente, sempre no dia vinte e quatro de agosto, a entrega do Prêmio Dom Luís Gonzaga Fernandes.

Este Prêmio foi criado com duas finalidades: relembrar o Bispo que tantos serviços prestou ao nosso Estado, fiel à radical opção pelos pobres; cultuar pessoas que testemunham os valores éticos a que Dom Luís consagrou sua existência.

Desta forma, se for verdade que Agosto é mesmo mês do desgosto, o Espírito Santo foge desta sina de azar.

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docenta da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor. Seu mais recente livro: Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Caminho da Escola

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São 92 ônibus para atender todo o Estado, distribuído para 13 municípios. Xapuri recebeu seis ônibus, Epitaciolândia, sete e Brasileia, oito. Os municípios que não foram contemplados já receberam veículos através de convênios com as prefeituras. A nova frota de ônibus escolares é fruto de um convênio no valor de R$ 21 milhões entre o governo do Estado e o Ministério da Educação, através do Programa Caminho da Escola.

Reportagem de Tatiana Campos, na Agência de Notícias do Acre.

Semana de combate às hepatites

Comorbidades e doenças associadas à Hepatite C merecem atenção

A infecção pelo vírus da Hepatite C (HCV) pode levar a uma série de manifestações que, além de afetarem o fígado diretamente - evoluindo para a forma crônica da doença, posteriormente fibrose, cirrose e até câncer -, podem acometer outros órgãos e sistemas, ocasionando lesões diversas. Algumas manifestações, denominadas extra-hepáticas, acontecem devido à constante estimulação da doença sobre o sistema imunológico do paciente. Articulações, rins, pele e tireoide são os órgãos e sistemas principalmente afetados, podendo apresentar diversos tipos de erupções cutâneas, insuficiência renal, distúrbios da tireoide entre outras consequências.

Alguns estudos têm demonstrado ainda uma associação da Diabetes Mellitus tipo II (não insulinodependentes) com o HCV. O mecanismo exato da ação do vírus no surgimento da Diabetes II é desconhecido, mas os portadores dessa comorbidade apresentam menor resposta ao tratamento da Hepatite C.

Nos pacientes portadores do HIV, a coinfecção pelo vírus da Hepatite C torna-se um sério problema de saúde pública, principalmente devido à rápida evolução da doença hepática e à pior resposta ao tratamento com Interferon Peguilado e Ribavirina. Nessa população HIV positivo, a prevalência de coinfecção com o vírus da Hepatite C é alta, chegando até 30% no Brasil e muitas vezes o exame anti-HCV pode aparecer não reagente, já que em função da imunodepressão causada pelo vírus HIV, o anticorpo da Hepatite C não pode ser detectado. Por isso, para esses pacientes é necessário ter maior atenção, e realizar outros testes caso haja suspeita de infecção pelo HCV.

É importante ressaltar, que pacientes com manifestações extra-hepáticas ou coinfecção pelo HIV devem ser tratados independentemente do grau de lesão no fígado.

Os cuidados com a interação medicamentosa para o tratamento da Hepatite C e das doenças associadas também devem ser observados, uma vez que é comum os efeitos colaterais do tratamento da comorbidade acelerarem as complicações da Hepatite C e vice-versa.

Saiba mais sobre a doença

Hepatite C - O que é e Diagnóstico

SOBRE HEPATITES VIRAIS

Grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo, a hepatite é a inflamação do fígado. Pode ser causada por vírus, uso de alguns remédios, álcool e outras drogas, além de doenças autoimunes, metabólicas e genéticas.

No Brasil, as hepatites virais mais comuns são as causadas pelos vírus A, B e C. Existem ainda os vírus D e E, este último mais frequente na África e na Ásia.

Essas doenças podem ser classificadas, de acordo com as formas de transmissão, em dois grupos:

1)    Hepatites A e E - transmitidas de modo fecal-oral (ingestão de alimentos contaminados ou contato com fezes contaminadas); o mecanismo de infecção está relacionado às condições socioeconômicas, de saneamento básico e de higiene pessoal;

2)    Hepatites B, C e D - transmitidas pelo sangue, por meio de transfusão de sangue e hemoderivados, hemodiálise, procedimentos cirúrgicos e odontológicos em que não se aplicam as normas de biossegurança adequadas, da mãe para o filho durante gravidez e parto (transmissão vertical) ou pelo contato sexual. Esses tipos de hepatites ainda podem ocorrer em consequência do compartilhamento de material contaminado para uso de drogas ou de objetos de higiene pessoal, ou colocação de tatuagens e piercings.

SOBRE A HEPATITE C

De acordo com dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais, os casos confirmados de hepatite C, entre 1999 e 2009, registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), totalizam 60.908. Em relação à faixa etária, o diagnóstico foi mais frequente em indivíduos de 30 a 59 anos de idade. No sexo masculino, 35%, encontram-se na faixa etária de 40 a 49 anos de idade. No sexo feminino, a faixa etária de 40 a 59 anos de idade representa 50% dos casos.

Transmitida principalmente por sangue contaminado pelo vírus HCV, a hepatite C pode causar tanto infecções agudas como crônicas, ou seja, pode evoluir naturalmente para a eliminação do vírus ou, na falha desse mecanismo, tornar-se uma infecção crônica, principal determinante da ocorrência de cirrose e câncer de fígado nos indivíduos afetados.

Seus sintomas são pouco frequentes, tanto nas infecções agudas quanto nas crônicas. Porém, na fase aguda da doença, o paciente pode apresentar desde sintomas inespecíficos - como febre, mal-estar, cefaleia, dores musculares, náuseas e vômitos - até sintomas como icterícia (pele e olhos amarelados), colúria (urina muito escura) e hipo ou acolia fecal (fezes esbranquiçadas).

No exame físico, pode-se encontrar o fígado ligeiramente aumentado e doloroso. Entretanto esses sintomas só estão presentes em 30% a 40% dos casos, fazendo com que muitas vezes o diagnóstico só seja estabelecido na fase crônica da doença.

Cerca de 75% a 80% dos pacientes permanecem com a inflamação no fígado por tempo prolongado, superior a seis meses, caracterizando a doença crônica. Desses pacientes, 20% evoluem para a cirrose, passando a ter um risco de 1% a 5% ao ano de desenvolver câncer de fígado (hepatocarcinoma).

Milhões de pessoas no Brasil são portadoras do vírus da hepatite C e não sabem. Silenciosa, é uma doença com longo período de evolução. O paciente, em geral, demora cerca de 30 anos para desenvolver cirrose ou câncer de fígado. Entretanto, o curso da doença é afetado por vários fatores, especialmente pela ingestão de bebida alcoólica e pela coinfecção por outros vírus.

DIAGNÓSTICO

O anti-HCV (anticorpo produzido naturalmente pelo organismo) é o primeiro teste que deve ser feito nos pacientes para triagem de hepatite e marca o contato da pessoa com o vírus da hepatite C. Esse anticorpo demora de 4 a 6 semanas para se tornar detectável no sangue dos pacientes após o contato com o vírus, podendo persistir indefinidamente.

Outro exame que pode ser utilizado é o PCR, que mostra a presença do vírus no organismo do paciente. O PCR pode ser qualitativo (indica a presença ou não do vírus) ou quantitativo (avalia a quantidade de vírus presentes).

Desde 2011, o Ministério da Saúde ampliou a oferta de testes rápidos gratuitos para detecção da hepatite C, nos chamados CTAS (Centros de Testagem e Aconselhamento). O atendimento no CTA é inteiramente sigiloso e, se o resultado do teste for positivo, a pessoa é encaminhada para tratamento nos serviços de referência.

Para localizar o CTA mais próximo da sua residência basta acessar o link (Centro de testagem e aconselhamento) e clicar na caixa Localizar endereço na coluna à direita da página inicial.

QUEM DEVE FAZER O TESTE PARA DETECÇÃO DA HEPATITE C (grupos de risco):

pessoas que receberam transplante de órgãos ou tecidos, como córneas e pele, além de doadores de esperma, óvulos e medula      óssea;

  • pessoas que receberam transfusão de sangue ou de qualquer derivado de sangue antes de 1993;
  • doentes renais em hemodiálise;
  • pessoas que usam, ou usaram alguma vez, drogas injetáveis ou cocaína inalada;
  • indivíduos que usaram medicamentos intravenosos por meio de seringa de vidro nas décadas de 1970 e 1980;
  • portadores do vírus HIV;
  • filhos de mães contaminadas com a hepatite C, seguindo recomendação do pediatra;
  • pessoas que tenham feito tatuagens ou piercings em locais não vistoriados pela vigilância sanitária;
  • pessoas com parceiros sexuais de longo tempo infectados com hepatite C;
  • pessoas com múltiplos parceiros sexuais ou com histórico de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs);
  • pessoas com necessidade de diagnóstico diferencial de agressão ao fígado;
  • profissionais da área da saúde, após acidente biológico ou exposição percutânea ou das mucosas a sangue contaminado.
  • profissionais da área da saúde, após acidente biológico com exposição percutânea ou das mucosas a sangue contaminado.

Referências: 

HEPATOLOGIA, S. B. (2012). Imprensa / Releases / SERVIÇO: grupos de risco. Fonte: www.sbhepatologia.org.br: http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/release1.pdf

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Boletim Epidemiológico Hepatites Virais 2011. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/boletim_epidemiologico_hepatites_virais_2011

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Hepatites Virais: Desafios para o período de 2011 a 2012. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/hepatites-virais-desafios-para-o-periodo-de-2011-2012

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções. Acesso em julho de 2012. Disponível em www.aids.gov.br: http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/protocolo_clinico_e_diretrizes_terapeuticas_para_hepatite_viral_c_e_coinfeccoes

HCV, O VÍRUS DA HEPATITE C

É um vírus RNA da família Flaviviridae, que só foi identificado em 1989. Em 1992, foi desenvolvido o primeiro teste para identificação do anticorpo contra o HCV (anti-HCV), proporcionando maior segurança em transfusões sanguíneas e permitindo o diagnóstico da doença. O HCV é classificado em seis principais genótipos (designados de 1 a 6). No Brasil, o genótipo 1 é predominante.

Estima-se que aproximadamente 3% da população mundial estejam infectadas pelo vírus da hepatite C (HCV), o que representa cerca de 170 milhões de indivíduos com infecção crônica e sob o risco de desenvolver as complicações da doença. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é considerado um país de endemicidade intermediária para hepatite C, sendo que de 1% a 1,5% da população é de portadores crônicos da doença.

De acordo com o Ministério Saúde, cerca de 1,5 milhão de brasileiros estão infectados com o vírus da hepatite C, porém, 50% deles desconhecem o problema. Por isso, apenas 100 mil brasileiros receberam efetivamente tratamento até hoje.

OBJETIVOS DO TRATAMENTO

Não existe vacina para hepatite C e a decisão de iniciar o tratamento deve considerar o risco de progressão da doença, a probabilidade de resposta terapêutica, os efeitos adversos do tratamento e a presença de comorbidades. Os pacientes em estágios mais avançados, com fibrose avançada e cirrose, são os que necessitam mais rapidamente de tratamento.

  • Hepatite C Aguda - O tratamento visa reduzir o risco de progressão da doença para a forma crônica. Por isso, independentemente de sintomas, é importante que se faça a detecção precoce da doença, pois quanto antes for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, maiores são as chances de cura (resposta virológica sustentada);
  • Hepatite C Crônica - O tratamento visa controlar a progressão da doença hepática, por meio da inibição da replicação viral, impedindo a evolução para cirrose e câncer de fígado, portanto, aumentando a expectativa de vida do paciente.

EVOLUÇÃO DO TRATAMENTO

Interferon (IFN) - Foi o primeiro medicamento introduzido no tratamento da hepatite C, ainda na década de 90. O interferon é uma proteína imunorreguladora que aumenta a capacidade do organismo de destruir células tumorais, vírus e bactérias. Ele pode ser classificado em alfa, beta e gama (ou imuno-interferon). O interferon alfa, utilizado no tratamento de Hepatite C, apresenta 14 subtipos com especificidades ligeiramente diferentes.

Ribavirina (RBV) - Ainda na década de 90, estudos clínicos demonstraram que a administração do antiviral ribavirina, associado ao interferon, por 48 semanas, levava à cura da hepatite C (resposta virologia sustentada) em 40% a 50% dos casos, números duas a três vezes maiores do que os obtidos apenas com interferon. Nascia assim a Terapia Dupla.

Inteferon Peguilado (PEG INF) - Introduzido à terapia padrão nos anos 2000, este tipo de interferon apresenta melhor tolerabilidade e maior persistência de níveis séricos adequados, permitindo melhor condição de tratamento para os pacientes portadores do genótipo 1 da Hepatite C.

Inibidores de Protease (IPs) - Desde o final de 2011, está disponível no Brasil um novo modelo de tratamento que consiste na combinação do interferon peguilado e da ribavirina com os inibidores de protease, uma nova classe de medicamentos que aumenta as chances de cura dos pacientes, podendo chegar a 80%, até mesmo aqueles que não obtiveram sucesso com a Terapia Padrão. A chegada desses antivirais de ação direta (DAAs) é a primeira inovação no tratamento da hepatite C em mais de 10 anos.

Atualmente o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o injetável Inteferon Peguilado alfa-2b e alfa-2ª, as cápsulas de Ribavirina e os Inibidores de protease Boceprevir e Telaprevir para o tratamento da hepatite C.

Referências:

BIO-MANGUINHOS / FIOCRUZ (s.d.). INTERFERON - alfa 2b humano recombinante - Monografia do Produto. Rio de Janeiro, Disponível em http://www.fiocruz.br/bio_eng/media/monografia_interferon.pdf; Ultimo acesso em Julho/2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções. Brasília, 2012. disponível em http://www.aids.gov.br/publicacao/2011/protocolo_clinico_e_diretrizes_terapeuticas_para_hepatite_viral_c_e_coinfeccoes; Ultimo acesso em Julho/2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, (s.d.). Suplemento 1 - Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral C e Coinfecções - manejo do paciente infectado cronicamente pelo genótipo 1 do HCV e fibrose avançada. Brasília, 2013. Disponível em (http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2011/49960/suplemento_1_85095.pdf); Ultimo acesso em Junho/2013.

domingo, 28 de julho de 2013

Monólogo para loucos que mordem

*CLÁUDIO MOTTA

Não vejo nenhuma utilidade em um errante extremado, reincidente há milênios, como tu, ó poeta bestial, ficar se atormentando com aquilo de ruim que já fez. O que de melhor pode acontecer é a emenda ficar bem pior que o soneto. Tudo poderá entortar de vez.

Por isto, mesmo consciente do erro, tu não tens te arrependido, nunca. Não tens pedido desculpas, jamais. Segues sempre em frente, na marra, e bates com a cara na parede ou com os cornos na lama pútrida dos mal avaliados por si próprios. Estás ferrado, meu velho tripudiador, tal e qual a mariposa que bruxuleia noite afora até cair morta pela luz do dia que a ofusca e pelo orvalho que a faz murcharem as asas.

Já ouviste aquele que diz não se arrepender do que fez?

Minha caríssima jornalista linda  -  Isabela  -  que não pode casar ainda só depois que se formar... Cá de minha parte, tenho passado por dias bem moderados, incrivelmente sóbrios, quase castos, inocentes mesmo, puros com certeza, ingênuos até. Torna-se então difícil dar crédito a mim mesmo, mas noto que a meia idade me permite dias como esses, logo seguidos por tempos em que a barbárie da época e a estupidificação da mente leva-me aos templos do prazer que me furtam a vida abatida entre a lascívia do corpo e o embebedamento da alma.

- Não. Eu não me arrependo!  -  Assim tu o dizes, como se fosses o senhor dos anéis e das verdades plausíveis e também das injustificáveis.

Como não esqueço as barbaridades que proferes sem nenhum remorso, afirmo-te que já ouvi da tua e de outras muitas bocas tal assertiva ser dita até com muita ênfase. Tu não és o senhor do destino, o dono da providência e não estás acima do bem e do mal. Ora, tá! Quem és tu, ó meu nobre cavaleiro do apocalipse às avessas?

É pouco provável que me compreendas, mas te respondo com as palavras de Zaratustra, que desde há muito são exatamente o meu porte de armas e a minha moda de viver, viola, cavaco e bandolim:

Moro em minha própria casa

Nada imitei de ninguém

E ri de todo traste

Que não riu de si também.

De cá da serenidade rotineira que é este céu em que agora faço morada, tenho tentado passar a ti receitas preciosas que tu não copias porque não mereces decifrar. Ou não decifras porque sequer sabe copiar.

Em um momento do dia, tu te arrependes por não ter feito aquilo que não fez. Logo em seguida, vem o arrependimento que paira sobre o que por você foi feito em detrimento ou prejuízo de uma ou de muitas delas. Em realidade, caem gotas de sangue e vêm as dores do espírito quando lembras ter agido em agravo de alguém, conscientemente. 

Não roubaste, é provável. Não mataste, é certo. Não desonraste pai e mãe, de forma alguma. Todavia, olhaste para a mulher do próximo inclusive quando o próximo estava bem próximo e tu estavas com a cara rica de malte. Depois, na festa de dezoito anos, ela passou rebolando dentro de um vestido saco tendo ao lado um cara fraco e você foi tirá-la pra dançar... Ela não dançou porque tu também não te atreveste a tanto. Só onda... Simplesmente, a ninfeta irmã da aniversariante foi passando e a alma imbecil foi virando o pescoço para acompanhá-la na sua divinal cadência de ancas largas, de forma a que só saíste do transe quando a noiva tão querida te meteu uma bolsada na cara de pau que antes tu tinhas e hoje já não tens. Eu vi tudo. Dito e feito, ela te pegou pelo braço, sacudiu com alguma violência e saiu puxando, como fazem as mães com as crianças arteiras quando são flagradas em delito mínimo. Foste para a casa dela, onde fazias pousada aos finais de semana, de táxi, tendo o teu automóvel ficado na praça em frente ao clube da avenida principal. Lá chegando, foste direto para o ninho do amor. Ela sacou as roupas e pulou em cima de ti. Pegou-te pelos pulsos e disse então:

- Dá próxima vez, jogo em você um copo de cerveja na cara, dou-lhe uma bofetada e termino o noivado. – Disso eu também lembro.

Em êxtase apalermada, conseguiste dormir talvez em vista do fato de a latitude e a longitude estarem estrábicas. Tendo acordado às onze, foste em busca do corcel 2 de nome Anastácio. A noiva ficara a tomar sol. Chegaste ao meio dia. O almoço foi à tripa forra, uma vez que a quase sogra era excepcional nas artes culinárias. Mais tarde, enquanto ela dormia a sesta a sono solto, apanhaste uns paninhos de bunda, digamos assim, e voltaste para debaixo da saia de mamãe, na cadeia velha, com medo do deslize que poderia ocorrer em outros aniversários, como tornou a se repetir um ano depois, agora, já em outra companhia... Ah, moleque!

Pense bem. Até eu ficaria com medo da peia, ó anjo rotundo! Afinal, apanhar em sociedade deve ser feio inclusive aos olhos dos circundantes.

Certo é que te arrependeste muito por fazer-te acreditar por uma moça que só queria o bem a você, ó pústula!

Um dia, então, houveram por bem te arranjar um bom casamento, no dizer da tua mamãe, que fazia promessas ao padroeiro de Xapuri para que tu saísses de casa, logo, e bem casado aos trinta e lá vai pancada.

O que não deveria ser feito foi feito à luz da lua debaixo de chuva fininha sob umas árvores cintilantes. Apanhados já ao término do acasalamento, o plano de fuga falhou. Como eras barnabé federal, foste prontamente denunciado a uma matrona que mandava em meio Acre. A esta respeitável sinhádisseste que casarias em quinze dias, isto, porque ela prometera arruinar a carreira profissional que nunca foi essas coisas todas, apesar dos bons salários. O casório ocorreu na data aprazada. Houve felicidade por dois meses, ao fim dos quais veio a escapada para Belém, em férias por outros dois meses. Maridinho em fuga das responsabilidades, de lá um telefonema dizendo ser impossível alguma coisa mais séria, posto que ela tinha apenas dezesseis anos. Ah, calhorda!

Tudo se acabou e o arrependimento ainda hoje te corrói as tripas. Agiste em prejuízo de uma família muito decente.

Ô poeta do absurdo! Pior é, agora por último, você pensar em vir para o céu, apesar dos crimes tardios e das noites ao anteparo de camas soturnas em motéis de última categoria.

Em verdade, logo na chegada ao céu, já no átrio, bem próximo às cortinas de nuvem amarela, hás de te deparar com Vieira, o padre, portando um estandarte, em tua recepção, onde lerás algo parecido com o que um dia eu te disse. Lembras? Se um homem está verdadeiramente arrependido, se reconhece verdadeira e profundamente as suas culpas, nunca ninguém falará dele tão mal que ele não se julgue por muito pior.

É mesmo assim. Contraditoriamente, do lado do mundo dos prazeres mais divinais, muitos são os que se arrependem por não terem cometido os deslizes mais humanos possíveis, tão doces e tão abomináveis ao mesmo tempo.

Vive tu, então, os encantos do teu mundo eternamente inesperado, vadio, pecaminoso, enquanto eu por cá vou vivendo este marasmo e essa pasmaceira que é estar sempre em atitude relax...

Venceste. Parabéns, ó anjo vagabundo! Also sprach Zarathustra.

__________

*José Cláudio Mota Porfiro é um cronista desatrelado: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco: o santo e o papa

João Baptista Herkenhoff

No momento em que o Papa Francisco visita o Brasil, meu espírito se volta para a lembrança de São Francisco de Assis.

Ao nos postarmos à face de Francisco de Assis, a primeira ideia que nos vem é a do santo que amou a natureza e viu os animais como irmãos. Mas além deste amor universal a todos os seres vivos, Francisco amou os seus semelhantes com a paixão do devotamento irrestrito.

Na sua tradição biográfica, registra-se que ele recebeu de Deus esta missão: “Vai, Francisco, reconstroi a minha casa.”

A casa humana tinha sido transformada numa casa de indiferença e egoísmo. Francisco recebia a missão de reconstruir a casa incendiando-a de Amor. Mais do que beijar a perna do leproso, Francisco beijou-lhe a alma. Nesse ósculo de dimensão infinita, o irmão Francisco reconstruía a casa de Deus.

A casa que tinha de ser reconstruída não era a casa de ateus ou de descrentes. Era a casa dos que se ajoelhavam, rezavam, cantavam hinos de louvor mas esqueciam que o legado de Jesus Cristo não foi feito de ritos, mas de atos.

Assumindo o nome de Francisco, o Papa que foi Bergoglio assina o compromisso de, novamente, reconstruir a casa de Deus, hoje certamente bem mais em frangalhos do que no tempo do visionário de Assis.

Não me parece relevante que Francisco seja tão somente um Papa do Terceiro Mundo, de nossa vizinha Argentina. Mas que ele seja uma voz profética do Terceiro Mundo, tão corajoso e despojado quanto seu compatriota o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Péres Esquivel. Este testemunhou em favor de Francisco quando, após a eleição papal, pretenderam atribuir ao então Cardeal Bergoglio cumplicidade com a ditadura comandada pelo General Videla. Esquivel repudiou a infâmia levantada e afirmou, peremptoriamente, que a acusação não tem o mínimo fundamento.

Compartilho a esperança do sempre inspirado Frei Leonardo Boff no sentido de que um revolucionário silencioso e humilde assentou-se na cátedra romana. Creio que não será um Papa disposto a impor pena de silêncio à voz discordante mas, pelo contrário, propenso a ouvir e dialogar, consciente de que Roma não detém o monópolio da verdade.

E ao refletir, no meu universo interior, sobre Francisco de Assis, leio que os Alcoólicos Anônimos ganharam o Prêmio Franciscano. A láurea foi concedida em reconhecimento ao trabalho dos AA para a recuperação de vidas.

Quanto serviço essa benemérita instituição tem prestado à dignidade da pessoa humana! Quão profundo é o vínculo de Francisco com todas as manifestações de amor que possam irromper no mundo!

João Baptista Herkenhoff, escritor, é Juiz de Direito aposentado e membro emérito da Comissão Justiça e Paz da Arquidioces de Vitória.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Caravana de Cultura e Humanização

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Joseni Oliveira

Após estrear em Assis Brasil e passar por Epitaciolândia, a Feira de Economia Criativa da Caravana de Cultura e Humanização chegou a Xapuri na última segunda-feira, 22, e encerrou as atividades na noite desta terça-feira, 23.

Uma vitrine de produtos culturais. Assim é  a Feira de Economia Criativa, ação do projeto Caravana de Cultura e Humanização, que é uma realização do governo do Acre, através da Fundação de Cultura Elias Mansour – FEM - e da Diretoria de Humanização da Gestão Pública, em parceria com a prefeitura de Xapuri.

Antes da Feira Econômica Criativa que foi realizada a partir das 19:00h de terça-feira na praça São Gabriel, a Caravana realizou várias atividades com oficinas e palestras que foram ministradas na Escola Anthero Soares Bezerra. A ideia do projeto é estimular e valorizar práticas culturais, artísticas e de humanização nas comunidades. Estudantes, professores e artistas participaram das oficinas. Humanização, artes e educação patrimonial são os conteúdos abordados.

Christian Moraes, da Diretoria de Humanização, afirmou que o foco principal da caravana e da feira é a excelência no atendimento a sociedade civil.

“A caravana vem trazendo Oficinas de Teatro, de Humanização da Gestão Pública, Cine mais Cultura e Educação Patrimonial. Essa semente da humanização está sempre vinculada à cultura, e é sempre um prazer visitar as cidades do interior e conhecer a cultura de cada um, que é sempre muito rica, disse.”

O projeto existe em todas as cidades acreanas. Uma ideia que pretende estimular e valorizar práticas culturais e artísticas, abrangendo conteúdos que tratam do processo organizacional, passando pelas artes, até o patrimônio cultural.

Joseni Oliveira é repórter do Sistema Público de Comunicação do Acre.

Jornada Mundial da Juventude

Papa tem discurso afinado com o da população brasileira

Por Jouberto Heringer

Estamos no inicio da 28ª Jornada Mundial da Juventude que está ocorrendo pela segunda vez na América Latina. Em 1987, quando aconteceu na Argentina, o contexto mundial refletido era bem diferente do que nos deparamos em 2013. Pode parecer uma distância pequena de 26 anos para uma Igreja que conta sua historia por séculos, mas em um período de rápidas e profundas transformações, este tempo faz eclodir diferentes questões.

A visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro pode ser considerada um evento marcante pela importância do momento político, econômico e social em que o país está vivendo. Além disso, vai conseguir reunir um grande número de jovens do mundo inteiro que irão participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em um país em que continua sendo a maior nação católica do mundo, mesmo com a redução no número de fiéis ao longo das últimas décadas, de acordo com o IBGE. O Papa Francisco tem um diferencial ao apresentar um discurso afinado com o da população brasileira e uma mensagem atual para a juventude com uma pregação ética de humildade.

Olhando para a Madri em 2011 alguns pontos políticos semelhantes se repetem com diferentes geradores. A crise institucional vivida pela Espanha gerada por uma oligarquia política envelhecida encontra semelhança com a crise brasileira deflagrada nas ruas pedindo uma nova postura dos políticos e política brasileira que encontram-se, provavelmente, na maior crise de representatividade entre os poderes da nova República. Se a JMJ de Madri aconteceu em um clima de insatisfação política do povo que teria na eleição de novembro o seu escoadouro, no Brasil, a eleição está ainda a um ano de seu desenrolar.

Voltando ao Brasil, ver o centro da cidade do Rio de Janeiro cheio de grupo de jovens de diversas partes do mundo, caminhando e por que não, passeando, juntos, abraçados, e alguns enamorados. O sorriso, expressão da alegria interior, vem com certeza de algo maior, que supera a distância, a língua, a cultura, e ouso dizer até a teologia cristã romana, tão dogmática quanto multifacetadamente divergente. Estes jovens estão em busca do Cristo apolítico, justo e ético.

Queria destacar algumas notas sobre o Papa que percebendo cativaram-me: a simplicidade, a negação da opulência, a postura pastoral, o discurso franco, as decisões éticas, o combate à corrupção na Igreja, sua identificação pessoal com sua missão... Sei que ele não é vicário nem o vigário, que muitos acentos teológicos fazem a Palavra adquirir tom menor, e que desejaria fosse ele mais Francisco como o São e menos Papa como o Bento.

* Jouberto Heringer é reverendo e professor, atua como capelão da Faculdade Mackenzie Rio e clérigo Presbiteriano. Pesquisador em Cultos e Filosofia da Linguagem na Pós-Modernidade, é mestrando Ciências da Religião (Mackenzie/2013) e pós-graduado em Leadership (Singapore/2004) e Urban Mission (Princeton/1985). Possui graduação em Filosofia (UERJ/1991), Letras (UFRJ/1990), e Teologia (SPS/1985).

terça-feira, 23 de julho de 2013

Lama poética descalça e nua

*JOSÉ CLÁUDIO MOTA PORFIRO

Pela rua de pedrinhas de diamante para o meu amor passar, triste traste que vês em andança, coberto de andrajos rotos e amarfanhados, não demonstra de que mal sofre, nem que o torturem com avalanches de verdades sobre a cabeça torta de pedra...

Eu te observo ao longe, sim. Hás de ainda furar e fazer sangrar, é certo, os pés sujos da caminhada sofrida. Resignado, então, seguirás sem muita cor, sem nenhuma alegria, sem nenhuma luz, mas com muitas lembranças, e ainda o retinir da crueza do sol vermelho, que te bate causticante sobre a cabeça feito o tempo que urge para aqueles segundo quem nada é exatamente urgente. Apressa-te, andarilho à toa!

Morra, ó louco desalmado! Nunca hás de te encontrar! Eu te vi fugir de alcovas ou esconder-se debaixo delas, rasgar mortalhas e chorar defuntos em risos pecaminosos, imitar o canto da sereia sonegando a verdade, viver o limbo e o céu depois do inferno. Moleque querubim morto, negro do galho torto, raiz venenosa infeliz, sexo, drogas e rock’n roll...

Melhor de tudo é que também já não podes cuspir para cima ou olhar para o alto, posto que as luzes da alegria te ofuscam e te dobram os joelhos em chagas e te comem por dentro e te turvam as vistas e te fazem delirar de tanto medo de, ao caminhar sem destino, ter que dar de cara, repentinamente  -  alma penada arrastando corrente!  -  com o apito final de um trem que parte rumo ao desconhecido de quem se perdeu por não saber se encontrar.

É assim a vida. O cheiro da última ninfeta e quimera já não está espalhado pela casa. Já nem existe perfumes, como nos anos das vidas loucas varridas entre coquetéis e baladas avassaladoras do corpo e da alma. Brindemos, então! À saúde de quem tem saúde! À falência múltipla dos órgãos de quem já os têm em pandarecos.

É exatamente assim esse existir, ao mesmo tempo tão eufórico e tão triste, de quem vai pela estrada sem roteiro, sem hora de partida ou de chegada, sem o bilhete da viagem aérea que nunca fez porque sempre foi obrigado a partir, a duras penas, a pé, pelos desvãos das estradas da vida poeirenta e pedregosa. Em verdade, tu nunca chegarás sequer a ser, meu nobre vagabundo e ermitão empoeirado.

Quanto já não se disse e se escreveu sobre tudo isso, como se todos compreendêssemos os recôncavos da vida louca e estrábica. Veja você, então, o céu vermelho do último dia, a última súbita e decadente alegria, o solado roto dos pés nus. Veja bem. Já não se crê no amor em idade alta, posto que já se vive o tempo em que a transitoriedade da vida obriga o poeta a pensar muito mais na felicidade dos outros que na sua própria carne. Enfim uma luz... Pronto... Acabou de se apagar!

Então, disse-nos o outro poeta aprendiz que a tua poesia estava cadente, cáustica, melíflua, triste, caótica, dobre e redobre de mortos, cansada, mas estava linda. Sim, está. Talvez... Nunca se sabe ao certo se se está agradando a uma mulher esquecida e ansiosa e aflita pelo seu amor, ou se se está jogando a toalha do jogo aos pés de um anjo desalmado e cruel. Afinal, como anotou o Mario de Andrade, a boa poesia só surge nos momentos de devastação íntima.

Realmente, a vida é tão transitória! Vai-se o tempo, sequenciam-se as estações do ano, as eras fluem por entre os dedos, perdem-se tantos amores pela inconsistência do destino inconsequente ou pela indignidade do humano desprezível e sádico.

Lembras as mulheres que só te fizeram bem ao cruzar os teus caminhos? E tu, ó anjo vadio! Nem percebeste que dois terços delas não queriam mais que carinho e um ombro para soluçar de amor ou em vista da dor de ser amada, peito pulsante, meio extremada, como a fada que nasceu em cima da flor.

E sequer esqueceste, alma pérfida, daquelas poucas que não te quiseram tão bem, porque delas pouco viste da alma que dizia em tom agudo e sustenido: ame-me antes que já não o possas, antes que o espírito ressequido já não consiga enxergar que o amor está em qualquer parte, ou em lugar nenhum, depois, bem depois do ocaso das horas.

Tu lembras a poesia rica e bela de Mário de Andrade, como a de Vinícius, cheia de amor pra dar?

Então, olha! Quanta beleza há nos olhos sorridentes da moça da primeira fila! Passou. Já é passado que não volta nem à luz das velas de um hotel soturno feito só para o amor. Lua luz tênue e branca novamente acendeu e outra vez se apagou. Foi-se. Já era. Tu não aproveitaste a oportunidade que te deu o amor.

Vês agora a alma de Pablo Picasso acompanhado das suas sete esposas pintadas em telas negras. Fernande, Eva, Olga, Marie-Thérèse, Dora, Françoise e Jacqueline viveram a intensidade das paixões do pintor que transpôs para o seu trabalho o fascínio pelas mulheres, exaltando sensualidade e erotismo. Protagonizou inúmeras conquistas, foi o namorado amoroso, o amante fiel e o marido impiedoso. Suas consortes passavam de deusas, quando apaixonado, a tristes duendes, no fim da relação.

E tu não querias esse magnetismo do espanhol pintor? Um dia disseste a mim. Ele exercia um encanto pessoal tão grande sobre as suas amantes que a vida deixava de ter sentido sem esse glamour. Costumava se retratar como um minotauro, um ser monstruoso, fruto de amores que vão além do entendimento, protagonista de relações violentas, eróticas e cruéis. Foi essa sexualidade selvagem que transpirou pelo desenho das suas mulheres. Na Paris do século passado, Picasso devorou pessoas e eventos com grande paixão, e transformou-as em arte... És, certamente, a reencarnação do artista de Málaga.

Estás louco tal qual o teu carinho pontiagudo, massacrante, maltratante e dilacerante, feito as asas de um pássaro bruxuleante que com as asas de setas e flechas toca e fere o céu...

Haverão depois de te atordoar as malditas lembranças dos corações dilacerados das mulheres que te perderam porque, segundo a tua débil sabedoria, nenhuma te merecia. Achas, enfim, que, se as perdeste, foi porque ainda és poeta menino e não suficientemente divino e rico de elogios e competências sensíveis de um sedutor desavisado, que não soube exercitar a arte nobre que seria mantê-las ao teu lado ou bem à tua frente, para não envergonhá-las, uma vez mais.

E a vida trágica vai passando e as últimas alegorias e adereços do teu carnaval de ilusões já te estão sufocando. Já não mais as vê. A transitoriedade da vida leva a todos no bojo da sua fúria vagarosa e avassaladora, inclusive vai transportando você, meu nobre poeta cruel e vagabundo.

Ó, anjo torto! Tu não mereces as lágrimas de ninguém e muito menos as minhas.

Sofre, poeta infeliz!

O cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Isso não é só covardia. É barbárie.

Do Blog do Mário Magalhães.

O Rio se comoveu com o quebra-quebra ocorrido no Leblon na virada de 17 para 18 de julho de 2013. Balanço da baderna: depredação de orelhões, placas e 25 lojas.

O Rio não se comoveu com a morte de pelo menos dez pessoas na Maré na noite de 24 e na madrugada de 25 de junho, menos de um mês atrás.

O Rio em questão é o retratado pelo jornalismo mais influente. Danos ao patrimônio no bairro bacana, paraíso onde vivi por tantos anos, receberam muito mais atenção do Estado, dos meios de comunicação e de parcela expressiva da classe média do que a perda de vidas na favela Nova Holanda, no complexo da Maré.

É muita covardia. Contra quem? Contra os de sempre, os mais pobres.

Os crimes contra o patrimônio na zona sul foram obra de bandidos, de fascistoides, de ultra-esquerdistas, incluindo pseudo-anarquistas, de pequenos burgueses vagabundos e de alguns miseráveis desejosos de trajar roupas de grife (alguém viu um operário vandalizando?). Como queimam o filme dos protestos e beneficiam o governo estadual com o verniz de vítima, talvez haja infiltrados de origem nebulosa. Cometeram crimes, têm de ser punidos escrupulosamente, nos termos da lei.

Na Maré, o Bope invadiu a favela contra a vontade dos policiais que lá estavam. O efetivo era minúsculo, pois o grosso do batalhão estava cuidando de reprimir manifestações políticas. Resultado: uma bala provavelmente disparada por traficante de drogas matou um sargento da tropa de elite.

Em seguida, sobreveio a vendeta, com a invasão massiva. Nove moradores locais mortos e nenhum PM ferido gravemente. Confronto? Isso tem outro nome: chacina. No mínimo, dois jovens não tinham antecedentes criminais, um deles de 16 anos. A legislação penal brasileira não prevê pena de morte, para qualquer crime, ainda que seja o de assassinato.

Na Maré, o grosso do jornalismo não informou nem a identidade dos mortos, com exceção da do PM. No Leblon, os personagens tinham nome, sobrenome e lágrimas de quem perdeu alguns bens. Na favela, o pranto das mães que perderam seus rebentos quase não saiu no jornal.

A cúpula da segurança do Estado convocou uma reunião de emergência horas depois de os vândalos detonarem no Leblon. Alguém sabe de um encontro dessa natureza para tratar do morticínio na Maré?

Há mais diferenças além da essencial, entre crime contra a vida e crime contra o patrimônio. No bairro das adoráveis novelas do Manoel Carlos, aprontaram criminosos que devem responder judicialmente por si mesmos. Na Maré, atuaram agentes públicos. Se não se sabe ao certo qual foi o comportamento deles, a responsabilidade é do Estado, que deveria investigar para valer, e não encenar apurações.

As agências bancárias com vidros estilhaçados e as butiques dilapidadas costumam estar protegidas por seguros. Que seguro haveria de confortar os irmãos do pessoal morto na Maré?

Acadêmicos, jornalistas, autoridades e politiqueiros que não pronunciaram uma única sílaba sobre a Maré agora posam de valentões bradando contra a desordem no Leblon. Eles só saem em defesa dos mais ricos, os pobres que se danem. São covardes, não valentes.

Merece respeito o sofrimento de tantos antigos vizinhos meus que se assustaram com o pega pra capar. Mas a vida seguiu. Na Maré, para tantos pais, a vida seguiu sem seus filhos. Já cantou Chico Buarque, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu _teria um quarto ou dormiria no colchão da sala o adolescente que mataram?

O farisaísmo não reconhece limites. Às vésperas do desembarque do papa, celebra-se a existência. Mas muitos corações, que nojo, abalam-se apenas com a perda de patrimônio, e não de vidas. O que diria Francisco?

O recado das últimas semanas é que, para muita gente, crime contra a vida não é nada diante de crime contra o patrimônio.

Isso não é só covardia. É barbárie.

domingo, 21 de julho de 2013

Líderes de verdade inspiram as pessoas

Por Marcos Gross

Além de gerenciar equipes, uma importante função de um líder é inspirar as pessoas. A inspiração é uma forma de estímulo que pode ser utilizada com inteligência por gerentes de qualquer organização. Jesus, Moisés e Gandhi foram mestres na comunicação junto aos seus seguidores, pois alteraram os seus estados emocionais, motivaram grupos e deram-lhes direção em momentos turbulentos por meio de palavras, imagens e tons de voz inspiradores.

O desafio dos líderes sempre foi neutralizar a apatia, a indiferença e a desmotivação de grupos e comunidades através da comunicação motivadora. Nas corporações atuais há carência de “gestores inspirados”; boa parte deles trabalha a gestão de pessoas no “piloto automático”.

A Segunda Guerra Mundial tornou conhecida a fotografia na qual o líder Winston Churchill exibe, com seus dedos, o famoso “V” de vitória. A imagem representa até hoje a coragem britânica em meio a intensos ataques aéreos alemães. A ideia era incentivar os ingleses a resistir e se manterem motivados às investidas do inimigo germânico. A fotografia, publicada nos jornais da época, tinha a missão de inspirar os liderados e virou símbolo de uma mensagem de força e resistência.

Que estímulos, em forma de mensagens, poderão ser utilizados pelos líderes da atualidade para inspirar colaboradores em momentos de crise e mudanças?

Abraão mobilizou seu povo situado na Mesopotâmia (atual Iraque) a percorrer mais de 1.000 quilômetros até Canaã (atual Israel), enfrentando desafios no deserto e uma longa caminhada em um terreno hostil. Ele conseguiu cativar seus seguidores para o longo percurso através de uma frase inspiradora: “Canaã, para onde iremos, é onde corre o leite e o mel”.

O patriarca ofereceu, em forma de metáfora (leite e mel), a mensagem de que a vida em Canaã valeria o sacrifício, apesar dos desafios a serem enfrentados no deserto. A lição transmitida por Abraão, adaptada aos dias atuais, diz que um líder deve oferecer um “norte” aos seus colaboradores. Um líder inspirado convence seu “time” de que valerá a pena os esforços para atingir a “nossa Canaã”, uma terra onde poderemos conquistar a felicidade e nossos desejos mais profundos.

Hoje, muitas pessoas que ocupam cargos de chefia se contentam em serem somente “capatazes de funcionários”. Agem mecanicamente e cobram obsessivamente as metas de produção com seus “chicotes verbais”. A comunicação desses “chefes” é fria, distante e agressiva, desanimando os funcionários. O resultado é queda na qualidade de produtos e serviços.

Em situações desafiadoras, grandes líderes sabem o que se passa “dentro” dos colaboradores e conseguem, por meio de palavras e gestos, “acender a chama” da inspiração de seus colaboradores. São mensagens cheias de “leite e mel”. Fim da mensagem.

Marcos Gross é mestre em Gestão de Comunicação e autor do livro “Dicas práticas de comunicação: boas ideias para os relacionamentos e os negócios”, da Trevisan Editora.

sábado, 20 de julho de 2013

Férias: relaxar sem perder o foco

Por Letícia Bechara

As férias escolares de julho são um respiro para os estudantes. E eles curtem o momento mesmo. Combinam com os amigos mil atividades, querem viajar, enfim, aproveitar a valer. É o momento de relaxar e se divertir, mas também de se planejar e não perder o foco, especialmente para os alunos que estão em preparação para o vestibular.

As férias podem ser uma ótima oportunidade de revisar os conteúdos, visitar as faculdades que se pretende fazer o vestibular, assistir filmes e peças que ajudem a entender contextos históricos e atualidades.

Um ponto importante nessa jornada e em que pouco se reflete é a forma mais adequada para cada um aprender e estudar. Você sabe qual é a sua? Você é uma pessoa mais auditiva, visual ou cinestésica? Como isso impactar seus estudos? Pense nas suas experiências educacionais... quais foram os momentos mais marcantes? Vídeos? Apresentações? Experiências? O que fica na sua cabeça depois da semana de provas?

De acordo com a neurociência, que tem contribuído significativamente  nesse aspecto, quanto mais entendemos sobre o funcionamento do cérebro, mais podemos potencializar seu uso. As nossas memórias são registradas através dos nossos sentidos, e quanto mais sentidos usamos, mais intenso o registro, daí a importância de utilizar o máximo de recursos disponíveis.

Confira algumas dicas para potencializar o aprendizado:

1. Abuse de gráficos, imagens e desenhos - crie mapas mentais com as ideias mais importantes sobre o assunto lido.

2. Assista vídeos sobre o assunto - no Youtube sempre tem coisas diferentes e interessantes que podem contribuir com o aprendizado.

3. Monte um grupo de amigos para debater a matéria a discussão entre colegas colabora para aprender diferentes pontos de vista.

4. Grave o assunto e produza áudios _ aproveite as ferramentas do celular para aprender e compartilhar conhecimento.

5. Utilize as redes sociais para trocar experiências.

Aproveite as férias para conhecer coisas novas, reaprender, explorar lugares diferentes.  Ao final faça uma autoavaliação, valeu a pena?

As férias podem ser um ótimo momento para criar novos hábitos.

Comece com um novo hábito e logo poderá ter uma vida diferente: leitura, atividades físicas e alimentação.

Leonardo Da Vinci dizia: “ Aprender é a única coisa que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”.

Letícia Bechara é pedagoga e coordenadora de vestibular da Trevisan Escola de Negócios.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Governo entrega Polo Moveleiro em Xapuri

Os marceneiros de Xapuri receberam nesta sexta-feira, 19, o Polo Moveleiro e a reforma do Parque Industral (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

O governador Tião Viana e o secretário de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis (Sedens), Edvaldo Magalhães, inauguraram nesta sexta-feira, 19, em Xapuri, o Polo Moveleiro e a reforma do Parque Industrial. O investimento do governo do Estado, além de valorizar a profissão, estimula a economia florestal e a legalidade do setor, que já teve mais de 80% de seus profissionais trabalhando de forma ilegal.

Com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no valor de R$ 1,7 milhão, foram construídos sete galpões para os marceneiros de Xapuri, medindo 15x20 metros, e reformada toda a área do Parque Industrial. A construção dos galpões faz parte do Programa de Fortalecimento do Setor Moveleiro/Marceneiro do Acre.

Em 201, durante o primeiro encontro da categoria, realizado em Rio Branco, o governador Tião Viana se comprometeu em fortalecer o setor, trazendo mais dignidade para a classe que enfrentava dificuldades, principalmente junto aos órgãos ambientais. Naquele momento o governador anunciou diversos pactos com os marceneiros, entre eles estava à construção e reforma de 10 parques industriais em todo o estado, e dentro de cada parque a construção de um Polo Moveleiro.

Com informações da Agência de Notícias do Acre.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Diretas na Justiça

João Baptista Herkenhoff

A opção por eleições diretas para a escolha dos presidentes dos tribunais (estaduais e federais) está sendo discutida em todo o país. A publicação deste artigo está emparelhada com o debate que se trava neste momento. Se aprovada a ideia, todos os juízes votariam na próxima escolha do presidente, vice-presidente e corregedor geral que comandariam a nau da Justiça do Espírito Santo, que é o Estado onde resido. Nas demais unidades federativas, o mesmo ritual democrático seria celebrado. O tema foi inspirado pela Associação dos Magistrados Brasileiros, que está desenvolvendo campanha nacional neste sentido.

É empolgante a dinâmica do tempo. Às vezes os avanços pretendidos levam decênios para que se tornem realidade.

Em primeiro de outubro de 1967 – há quase meio século, portanto – defendemos esta tese na Segunda Conferência dos Juízes de Direito do meu Estado. Os colegas da magistratura acolheram a inovação. Os anais registram este fato, que foi também noticiado pelo Diário da Justiça.

A eleição dos presidentes e demais dirigentes dos tribunais foi até agora entendida como questão “interna corporis”, ou seja, questão que deve ser discutida e decidida no interior da corporação judicial.

Contradizendo essa postura de descabido resguardo do espaço forense, agiganta-se, na opinião pública, a consciência de que a Justiça é um direito, e não um favor. A leitura da seção de cartas dos leitores, o mais democrático espaço dos jornais, revela ao observador atento esse clamor.

Nesse contexto histórico, é inaceitável, tanto manter panelinhas eleitorais para escolher os dirigentes da Justiça, quanto erguer muros que vedam o acesso do povo ao território judicante. Não se concebe, por exemplo, que continuem sendo realizadas sessões secretas nas cortes de Justiça, salvo para salvaguardar a intimidade pessoal e familiar.

A ditadura das cúpulas, ao que parece, está prestes a ruir.

No Congresso Nacional duas emendas estão pretendendo instituir eleição direta nos tribunais: PEC 15/2012, no Senado, subscrita por Vital do Rêgo; PEC 187/2012, na Câmara dos Deputados, proposta por Wellington Fagundes.

Essa mudança de padrões é altamente positiva. Os ventos que estão soprando na direção de uma faxina geral na vida pública brasileira, estão soprando também no sentido de democratizar a Justiça, desnudar a deusa Têmis que, de deusa, só tem o nome. Aliás por qual motivo a Justiça deve ser ser remetida para a secreta jurisdição da Mitologia? Não prefere o povo uma Justiça humana, acessível, dialogante, de olhos abertos para vivenciar as dores das partes, juízes e juízas com as vestes dos mortais e não escondidos atrás de solenes togas?

João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, palestrante Brasil afora e escritor.