sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

E foi a primeira vez...*

CLÁUDIO MOTTA

Na distância, as luzes tremeluziam e traduziam a poesia do velho esteta, indiscreta, como a alma do suarento poeta, nas mais variadas cores, revolvendo velhos amores, que passaram tão rapidamente e, consequentemente, deles já sequer ficou a semente da idade que roubou um tanto de emoção que sucumbiu no choque com a razão e quase morreu, mas não feneceu. Ontem mesmo floresceu. Uma beleza!

Pois bem. É como nas histórias de uma outra época. Ele viveu a realidade da infância da única forma honesta, que é tomando-a como uma fantasia. Não mentiu, não burlou, não enganou, mas se encantou plenamente, docemente, como não seria impossível.

Observei-o, em outro dia, na rua das mangueiras, ainda na pouco distante terra querida. Escassa idade. Dezesseis voltas, talvez. Exalava verdor, fervor quase infantil, débil, pálido. Falava pelos calcanhares e pelos cotovelos. Dizia-se ter estrela própria e depender de poucos para conseguir da vida o que queria. Deixei-o lá, entre os que o ouviam, talvez um ou dois transeuntes. Ele não me viu e eu sequer o cumprimentei. Mais tarde, concluí as minhas impressões sobre a arrogância para o estalajadeiro boquiaberto. Disse-o, à moda do Eugênio Andrade, pensador português, que, quando se é muito jovem, é quase impossível não ser pretensioso. Nem eu acreditei no que acabara de falar ao sábio homem. Ele muito bem compreendeu e até me aplaudiu. Que coisa!

Na adolescência é mesmo assim, ou foi quase dessa maneira, como se os pássaros todos fossem azuis, ou verdes claros. Como se as lampadazinhas da idade todas ofuscassem de tanto brilho e tanto piscar, e as águas do seu riacho interno borbulhassem ininterruptas de tanto frescor, de tanta harmonia em seu vir sempre contra a ravina do tempo inconstante, inconsistente, inocente da vida em fase inicial de mil esperanças. Ah, menino!

Foi quando um novo personagem do tempo cruel das folhas secas  -  um certo herói da mais tenra infância  -  fez pergunta escorregadia, ou quase:

- Meu bom garoto! Você é tão sabido... E já namora? – Ao que o menino bebê de nove ou dez voltas respondeu:

- Oh, tio! Sim, eu tenho namorada.

- E quem é a sua namorada?

- O nome dela é Lucy e também mora na mesma minha rua das caramboleiras, mas já de ladeira acima no rumo do campo de gado.

- Oh! Que menino!... E vocês namoram na escola? Não é proibido?

- As freiras podem nos castigar e, por isso, namoramos na praça, depois da aula, ou à noitinha.

Ironia do destino social aí se firmou. A antropologia do machão latino americano, que foi o pai, lhe falou mais alto: o homo sapiens por aqui nascido nesses confins amazônicos é exatamente assim. Mesmo inocentemente, vai treinando para mentir cada vez melhor com a finalidade de enganar a si próprio e, depois, às circundantes fêmeas que rondam ao redor. Uma lástima. Elas já não acreditam num teu único ponto e vírgula, porque apenas os homens mais sensíveis para com as causas femininas usam este apetrecho da escrita com alguma competência.

E foi a primeira vez.

E depois, então, um pouco mais tarde, já se havia ido a última quimera, e o resto de inocência também. Enfileirou corações ávidos pelo amor de um insensível e insaciável. Fizeram dele, ao mesmo tempo, herói e anti-herói de alcovas cheirando a alfazema ou patchouli. E o janota fez e desfez e garantiu sedução a todas quantas o viram na galeria, ou em banho de cuia no igarapé. Ainda acorrentado a costumes de outrora, prometeu amores e felicidades de que não dispunha ou jamais dispôs em momento algum. Pulou janelas, silenciou portas, mordeu zíperes, abriu botões, rasgou lençóis, quebrou cristais e se enfiou onde não devia.

Um dia, então, quando vivia a flor da boemia e da vida noturna serena e voraz ao mesmo tempo, houve por bem acompanhar-se de uma linda flor primaveril de apenas dezesseis voltas. Mais uma loucura dentre toda uma vida cheia delas.

Romântico foi demais. Havia um jambeiro. Chuva fininha. Corpos sem roupa desmesuradamente mais ávidos que felizes. A luz da lua misturava-se aos reflexos da artificialidade vinda de uma luminária próxima, o que, aos olhos humanos entorpecidos, tornava de prata as gotas que caíam sobre ancas juvenis, mas possantes. Ah! Eis a libido em chamas e a alma que pulava doida em vista da aventura rocambolesca em que o corpo vil houvera por bem meter-se. Enfim, o vermelho carmim borrou os lençóis inexistentes. Talvez fosse já a hora do adeus ou do até nunca mais. Ledo engano.

Romance barulhento de poucas luas. Uma vela ou lamparina acesa na chuva fininha houvera por mal testemunhar o pecado que deixara um hímen arrastar-se na lama débil. Um escândalo, um alvoroço na freguesia ainda em estado de província, onde um troteador não podia fazer das suas e já a opinião popular o queria casado em tinta preta passada em papel branco. Ô povo triste!

Por do sol nos corredores da avenida e o mundo inteiro já sabia que um playboy bon vivant havia feito desabrochar menina meiga e bela da rua dos jambeiros. Também, logo a autoridade se fez ciente. Bem mais grave: era dela tia avó, e juíza da comarca da cidade de Eleutério. Uma bomba!

Veio a formatura. Ele se fizera doutor não-sei-lá-das-quantas. Lá estava presente a mocinha bela na sua adolescência roubada. Casaram-se, em seguida, por um contrato celebrado em cartório, que durou três longos meses, para ambos.

O casório forçado não daria certo nem entre um monge e uma monja. Alguém enjoou a convivência mínima atroz. Foi aí que ele empreendeu fuga planejada, premeditada. Voou para Belém de Judá. De lá, fez telefonema alegando que nunca mais voltaria. Para a mocinha, tudo se fez noite sem festa. A vida murchou. O colorido acabou. Desfez-se, enfim, o seu mundo encantado de quem seria feliz para o resto da vida.

Passados meses, reataram o romance por uma noite, e foi apenas isso. Não. Nunca mais! O fogo fátuo arrefecera...

Para ele, arrependimento vão, inócuo, descabido. Um saltimbanco interiorano  -  disseram à época  -  havia se aproveitado da inocência de uma menina antes feliz. Oh, sim! Os provincianos tinham toda a razão do mundo. Houve excesso de confiança por parte dela e exagero de ilusionismo da parte do bardo pilantra.

Enfim, já acima da meia idade, aperfeiçoando-se na arte de bem seduzir, ele passou a fazer versos porque começou a acreditar no Fernando Pessoa, segundo quem o poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

Depois do quinto decênio, sobre a arte do ilusionista, então, infelizmente, foi o anjo torto obrigado a registrar que, cá entre eles mundanos desprezíveis, as ilusões são como a luz do dia; quando se apaga, com ela tudo desaparece.

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*Crônicas poéticas dadas à luz por um vate nascido sob o sol morno de um abril qualquer do século anterior, no Principado de Xapuri.

Eden Barros na Ameripol

O xapuriense Eden Barros Mota, Agente de Polícia Federal, será o próximo Oficial de Ligação na Comunidade de Polícias das Américas – AMERIPOL - em Bogotá/Colômbia. Ele representará o Brasil na entidade até o ano de 2015.

Nesta quinta-feira, 6, Eden me enviou a seguinte mensagem:

“Caro Raimari, quero te agradecer por tudo e dizer que sempre que somos atacados ou menosprezados Deus tem algo muito melhor para nós. Poucas são as pessoas com quem ainda tenho algum tipo de contato em Xapuri, e uma delas é você, garoto que nasceu pobre, assim como eu, mas que com conhecimento chegou até onde se encontra. O que nós levamos de melhor na vida é a amizade e o respeito que temos pelas pessoas. Obrigado por tudo”.

O policial federal se refere a quatro ações cíveis movidas contra ele por alguns vereadores, na legislatura passada, em razão de críticas feitas em um blog contra a atuação da Câmara de Xapuri. Eden obteve resultado favorável em todos os processos, mas prometeu nunca mais comentar ou discutir os assuntos de sua terra natal.

Abaixo, a íntegra da portaria através da qual o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, designa o xapuriense para a função de Oficial de Ligação na Ameripol.

PORTARIA Nº 295, DE 31 DE JANEIRO DE 2014

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA, no uso de suas atribuições e tendo em vista o disposto no art. , inciso IV, da Lei nº 5.809, de 10 de outubro de 1972, e no art. 8º, inciso III, do Decreto nº 71.733, de 18 de janeiro de 1973, resolve:

Art. 1º Designar EDEN BARROS MOTA, Agente de Polícia Federal, Classe Especial, matrícula 7245, para exercer a função de Oficial de Ligação na AMERIPOL em Bogotá/Colômbia, em sucessão ao Agente de Polícia Federal Ionaldo Carlos Gonçalves Silva.

Art. 2º A missão será realizada com mudança de sede, transporte de mobiliários e bagagens e com acompanhamento de dependentes, com retribuição calculada com base no índice "76" da Tabela de Escalonamento Vertical da LRE e no índice "60" da Tabela 1 -Escalonamento Vertical de Indenização de representação no exterior, nos termos da Lei nº 5.809, de 10 de outubro de 1972 e dos Decretos nº 71.733, de 18 de janeiro de 1973 e nº 72.021, de 28 de março do mesmo ano.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Adote um bandido!

LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

Essa é a campanha lançada pela infeliz jornalista Raquel Sheherazade (SBT), depois que um grupo de bandidos de classe média, no Rio de Janeiro, chamados “Bairro do Flamengo”, prenderam, espancaram e amarraram em um poste um jovem “criminoso” ou “possível criminoso” (O Globo 5/2/14, p. 8). Justificativa: o Estado é omisso, a Justiça é falha e a polícia não funciona. Tudo isso é verdade, mas o Estado democrático de direito não permite a “solução” encontrada: justiça com as próprias mãos! Quem faz isso é um bandido violador do contrato social. Quem se entrega lascivamente à apologia do crime e da violência (da tortura e do linchamento) também é um bandido criminoso (apologia é crime). Se isso é feito pela mídia, trata-se de um pernicioso bandido midiático apologético. Para toda essa bandidagem desavergonhada e mentecapta a criminologia crítica humanista prega a ressocialização, pela ética e pela educação. Leia mais em Instituto Avante Brasil.

domingo, 19 de janeiro de 2014

“Renovo da fé”

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Há 8 anos em Xapuri, o padre Francisco das Chagas conduzirá nesta segunda-feira, 20, mais uma procissão de São Sebastião, o santo padroeiro da cidade. Para o sacerdote, a festa anual é sempre um momento de renovação. “É o renovo da fé”, diz ele.

sábado, 18 de janeiro de 2014

À moda dos clássicos

José Cláudio Mota Porfiro*

Para os justos e mansos de coração, como eu, na visão dos que apreciam as viagens colossais deste eu poético insano e mundano, está agora a se fechar apenas uma porta grande e pesada, bem fadada, com aldravas e dobradiças de ferro fundido, esculpido. A partir de então, abrir-se-ão outros acessos, ingressos e janelas do meu tempo de vidro temperado, blindado, travestidas em fumê azul claro como o céu da minha vidinha atrevida, mas precavida e com bastante sentido.

Deixem-me voar e não tenham pena do meu bater de asas ritmado e constante. A questão física não será o problema. Estou rijo, apesar dos janeiros corridos. Não sou louco. Não sou Ícaro. Não sou Dédalo. Não há cera a colar as minhas penas. O sol em mim nada derreterá, muito menos este juízo pachola que entra em campo, agora, mais uma vez, para ganhar a partida aos dez do primeiro tempo, de goleada, ou ainda no primeiro combate, por nocaute, sem recuar, sem cair, sem temer, como bem quis o Chico Mangabeira, meu nobre poeta do belíssimo hino dos acreanos.

Voltemos, então, no tempo. Giremos o ponteiro do relógio no sentido anti-horário. Voltas e mais voltas. Alguns bilhões delas. Inspiremo-nos nos clássicos ainda no nascedouro da filosofia.

Lembremos, sem pestanejar, uma passagem da história da civilização, quando, na antiguidade clássica, os gregos iluminaram a Terra com o seu conhecimento fantástico a propósito do mundo e sobre a vida do homem errante sobre a terra, os seus sonhos, os seus mitos, os seus medos e as suas projeções rumo ao futuro da Humanidade.

Os gregos, realmente, se tornaram o povo mais sábio da Terra no período dito clássico. Eles não tinham o que fazer, porque dispunham de escravos para a execução das tarefas mais pesadas, mais sujas, como a limpeza dos excrementos dos mais inteligentes e mais bonitos e mais pensativos e mais gays que o mundo não viu, como nunca antes ou depois. 

Não, Helena, irmã minha! Eu não atirei a minha arte no lixo e muito menos de lá ela foi tirada.

Vejo a arte, no conceito mais amplo, ser desperdiçada por dois motivos. Na primeira situação, vi o garoto Des’Acre passar dias para compor um quadro, coisa de um metro quadrado, como um Matisse. Veio a exposição e uma senhorinha futilzinha perguntou-lhe o preço da peça. Ele, em suas longas bermudas tal e qual o gato de botas, muito humilde sussurar:

- Quinhentos reais! - Ao que ela fez comentário atroz:

- Muito caro, caríssimo. Deixa por cem!

O artista ficou enfastiado e saiu sem dar respostas à gazela. O crime hediondo foi cometido quando a senhorinha regateou o custo de uma obra de arte. Gente de alguma sensibilidade não pergunta o preço da produção de um artista e muito menos faz comentários tão desairosos. Fica ou se vai, e pronto.

A minha arte se encaixa numa segunda situação. Ela simplesmente foi sufocada no berço, com um travesseiro de capim. Eu não tinha arrimo, como não tive pais ricos. Concursado, dependurei-me às comodidades do servidor público e larguei tudo em um baú velho que, felizmente, não foi levado pelas alagações do Rio Acre, ou da alma que se manteve em sã consciência e absorta nos seus afazeres de empregada federal. No meu caso, a arte foi postergada, uma vez que tempo não havia para a escrita do que quer que fosse, além de redigir ofícios calamitosos e justificar projetos cujo destino foi quase sempre não sair do papel.

Fiquei manietado pelo sistema que não ampara o artista, mas tão somente tira de perto dele qualquer vestígio que queira significar incentivo. Embora alguma melhoria hoje se desenhe no ar, este ainda não é um país construído por homens e livros, como bem queria o senhor dono do Sítio do Picapau Amarelo.

Dia desses cometi uma sandice. Por ser muito chegado à música clássica, disse à sócia ser um clássico. Ao que ela fez comentário interessante:

- Você tem algum talento, sim, com as letras, mas para a culinária, não. Jamais tente aproximar-se de um fogão. Ele pode dar choque ou até porrada mesmo.

Em verdade vos digo, minhas senhoras. Ela gostaria que eu fosse como o Vinícius, que fazia comidinhas pra depois do amor. Se eu caio nessa, aos sábados, lá estaria eu de barriguinha encostada produzindo quitutes em cozinhas repletas de utensílios sujos e condimentos exóticos demais, como o manjericão e a alfavaca. Jamais! Do episódio, então, compus poesia meiga e gentil em homenagem aos que fazem da culinária uma fonte de prazer. Fico grato.

Eis, enfim, que me é chegada a hora da aposentadoria. Os demais agentes, ainda no exercício do desiderato, vinculados às instituições públicas de ensino superior, passarão a fazer o trabalho que eu tão mediocremente fazia, ou ainda faço. Não que eles sejam cativos gregos. Eles são escravos, sim, de um regime que lhes paga uma ninharia mensal e deles, na maioria dos casos, exige muito suor, bem mais que sangue... Só de pensar em tolerar um chefe mandrião que não sabe da missa um terço, a veia literária latejante salta dos músculos ainda bastante rijos. Benza Deus!

Como querem as estatísticas mórbidas divulgadas por estudos bem fundamentados, não capitularei cinco anos depois da aposentadoria. Tenho amplo domínio das mais modernas tecnologias. Lido com o facebook e o whatsApp com grande desenvoltura, apesar da mediocridade de alguns personagens que mourejam por ambientes às vezes um tanto opacos.

Conheço os meandros do Word. Faço algumas viagens pelo Excel. Redijo alguns textos bem próximos do aceitável. Leio agora os Cinquenta tons de cinza, escrito pela senhora E. L. James.  Usando gíria antiquada, estou na crista da onda, e assim por diante.

Em outras palavras, os neurônios estão sendo bem treinados e os hormônios ainda estão aos gritos e às cambalhotas. Numa síntese frouxa e pouco apressada, não terei Alzheimer. Nem Parkinson, e pronto!

Ah, sim, bela senhora do setor de pessoal! Não me chame de inativo, não apenas pelos hormônios que ainda me são um fogaréu, mas pelo respeito que me deves pelo tanto que fiz em favor ou em desfavor da nossa Academia, mesmo em tempos bicudos, como os vividos até poucos meses.

Esqueçam que um dia vendi aulas de uma qualidade abaixo do ra-zoável, principalmente, nos últimos dez anos, quando os líderes fecham os olhos e não se permitem ver que a indisciplina domina o âmbito das escolas e deixa a grande maioria dos professores medrosos diante de comportamentos terríveis de alunos que os agridem, até fisicamente, nas salas de aula do sistema público. Vão lá. Falem mais alto com um aluno musculoso ou com uma aluna irritadiça. Sintam de perto a realidade. Busquem soluções. O barco das relações escolares afundou e a autoridade não viu. Uma pena.

Eu, agora, de uma vez por todas, tornar-me-ei um clássico, sim, à moda dos gregos, por assim dizer. Terei, enfim, tempo para meditar, para filosofar, para versejar, até que me venha a chance da volta ao redor do sol de número oitenta. Melhorarei a minha produção em formato de poesia. Publicarei o meu romance O inverno dos anjos do sol poente, agorinha mesmo a caminho da editora. Escrito também já está outro livro, o Lama poética descalça e nua. Seguirei em frente contando das minhas reminiscências em meio ao alvoroço da vida que fica, a cada dia, mais moderna e mais a jato, em uma obra pré-intitulada Lembranças ao principado. Memorial da Terra. Este, um projeto bem fluído cujo objetivo é resgatar a memória de alguns homens e mulheres do Acre que foram tão úteis à terra, mas as suas histórias, com eles, têm ido para os túmulos silenciosos. Há um outro plano, já bem esboçado, cujo título é Conexões em titânio. Neste, será travado um diálogo bem sacana a respeito de respostas a serem dadas, por homens e mulheres sem papas na língua, a perguntas escorregadias, ou cheias de sentidos dúbios. E tem muito mais destes sonhos que a Divina Providência há de me dar fôlego para tanto.

Como o Luiz Vaz de Camões, um renascentista, n’Os Lusíadas, peço, nesta hora calma, que Deus me dê força e arrojo para cumprir empreitada tão séria, em nome de alguns muitos dos meus conterrâneos que de mim esperam muito mais do que eu posso dar.

Que assim seja. Amém!

*Cronista nascido sob o sol morno de um abril qualquer do século anterior, no Principado de Xapuri.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Novenário movimenta Xapuri

São 112 anos de tradição religiosa sem que se arrefeça a fé de milhares de romeiros que chegam de vários lugares da Amazônia e do restante do Brasil para ratificar a confiança no santo padroeiro de Xapuri

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O Novenário de São Sebastião teve início no último dia 11, com abertura realizada na praça que leva o nome do santo, às margens do Rio Acre. As demais novenas, que se realizam até o dia 19, ocorrem na igreja matriz, todas as noites, a partir das 19 horas. Além das novenas, a programação da festa conta com a realização de diversos eventos culturais e os tradicionais bingos e leilões.

Para o padre Francisco das Chagas, pároco de Xapuri, a expectativa para o ponto alto da festa é sempre grande e diferente dos anos anteriores. Segundo ele, a procissão do santo padroeiro de Xapuri se fortalece a cada ano, independentemente dos fatores econômicos e sociais, como um momento de renovação da fé e da confiança de cristãos de vários lugares do Brasil em São Sebastião.

Festas dançantes e marreteiros

De maneira paralela ao desenrolar da programação religiosa, vários eventos festivos, principalmente festas dançantes, são realizados durante os dias que antecedem a grande procissão, que este ano cairá em uma segunda-feira. Outro grande destaque é a presença dos tradicionais “marreteiros”, vendedores ambulantes que transformam as principais ruas da cidade em um grande centro comercial provisório.

Até esta quarta-feira, 15, de acordo com a prefeitura, cerca de 240 lotes dos 300 que foram disponibilizados para os marreteiros já haviam sido vendidos. Apesar da opinião de muitos deles de que as vendas realizadas nos últimos anos já não foram tão boas como antigamente, a presença dessa figura típica da festa de São Sebastião em Xapuri é infalível. Eles permanecem na cidade até o dia 24 de janeiro.

Transmissão ao vivo pelo Sistema Público de Comunicação

A Procissão de São Sebastião em Xapuri, no dia 20 de janeiro, será antecedida pela Santa Missa, que será celebrada pelo Padre Francisco das Chagas, a partir das 16 horas. O Sistema Público de Comunicação do Acre, através da TV Aldeia e da Rádio Aldeia FM estará dando plena cobertura e transmitindo ao vivo pela primeira vez na história a grande festa religiosa de Xapuri.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ausência

Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim

o desejo de amor os teus olhos que são doces.

Porque nada te poderia dar senão a mágoa

de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença

é qualquer coisa como a luz e a vida.

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto

e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser

tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.

Para que eu possa levar uma gota de orvalho

nesta terra amaldiçoada. Que ficou sobre a minha carne

como uma nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos

e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,

porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite

e ouvia tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa

suspensas no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu,

das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Desejos de Ano Novo

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 



Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.


Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada. 



Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. 



Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!” 
 


Carlos Drummond Andrade, imenso poeta brasileiro.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz Ano Novo aos corações velhos

Frei Betto

Feliz Ano Novo aos que praguejam sobre o solo árido de suas vida sem garimpar alegrias, e aos que amarram o espírito em teias de aranha sem se dar conta de que os dias tecem destinos. Também aos que desaprenderam o sorriso e abandonaram ao olvido a criança que neles residia.

Feliz Ano Novo aos que perambulam às margens da memória e semeiam ódio no quintal da amargura; guardam dinheiro na barriga da alma e penhoram a felicidade em troca de ambições; são náufragos de lágrimas, cegos aos arquipélagos da esperança, e fantasiam de asas as suas garras, voejando em torno do próprio ego.

Feliz Ano Novo aos que sonegam carinho e ainda cobram atenção, alpinistas da prepotência que os conduz ao abismo; àqueles que, alheios ao que se passa em volta, ilham-se na indiferença enquanto o mar arde em fogo; e a quem gasta saliva tentando se justificar por se disfarçar em pomba e agir como raposa.

Feliz Ano Novo aos que escondem o Sol no armário, sopram a luz das estrelas e põem espessas cortinas no limiar do horizonte. Aos que nunca tiveram tempo para a dança, ignoram por que os pássaros cantam e jamais escutaram um rumor de anjos.

Feliz Ano Novo aos que bordam iras com agulhas afiadas e desperdiçam palavras no furor de suas emoções desabridas; seqüestram dignidades e, como os colecionadores de borboletas, sentem prazer em espetá-las no interior de cavernas obscuras.

Feliz Ano Novo aos faquires da angústia e aos que, equilibrados num fio de sal, trafegam por cima de montanhas de açúcar. Também aos que jamais dobraram os joelhos em reverência aos céus e acreditam que a história do Universo tem início e fim neles.

Feliz Ano Novo às mulheres que destilam antigos amores em cápsulas de veneno e aos homens que, ao partir, mostram, às costas, a face diabólica que traziam mascarada sob juras de amor.

Feliz Ano Novo aos jovens enfermos de velhice precoce e aos velhos que, travestidos de adolescentes, bailam aos desafinados acordes do ridículo. E aos que atravessam o tempo sem se livrar de bagagens inúteis e ainda sonham em ingressar numa nova era sem tornar carne o coração de pedra.

Feliz Ano Novo aos que já não sabem conjugar os verbos no plural; agendam sentimentos e estão sempre atrasados na vida; mendigam admiração e se prostituem frente à sedução do poder.

Feliz Ano Novo àqueles que dão "mau-dia" ao acordar, afogam em trevas interiores a alegria que lhes resta, encaram a vida como madastra de história infantil. E aos que julgam que laços de família se cortam com a ponta afiada da língua e ignoram que o sangue escreve letras indeléveis.

Feliz Ano Novo aos que se apegam ao poder como a fuligem ao lixo, infantilizados pelas mesuras, prenhes de mentiras ao agrado do ouvido alheio, solícitos às providências que assassinam a ética. Sejam também felizes os que tentam corromper os filhos com agrados materiais e nunca dispõem de tempo para olhá-los nos olhos do coração.

Feliz Ano Novo aos navegadores cibernéticos, mariposas de noções fragmentadas, amantes virtuais que se entregam, afoitos, ao onanismo eletrônico, digitando a própria solidão.

Feliz Ano Novo aos poetas que não sabem tragar emoções e engolem com ira palavras que trariam vida ao mundo. E aos que abominam a arte por desconhecerem que o ser humano é modelado em barro e sopro.

Feliz Ano Novo a todos que temem a felicidade ou consideram, equivocadamente, que ela resulta da soma dos prazeres. E aos que enchem a boca de princípios e se retraem, horrorizados, diante do semelhante que lhe é diferente.

Feliz Ano Novo às mulheres que se embelezam por fora e colecionam vampiros e escorpiões nos lúgubres porões do espírito. E aos homens que malham o corpo enquanto definha a inteligência, transgênicos prometeus acorrentados ao feixe dos próprios músculos.

Feliz Ano Novo a todos os infelizes, aos que o são e aos que se julgam, cegos às infinitas possibilidades da luz e das rotas. Sejam todos agraciados pela embriaguez da alegria divina, abertos ao Deus que os habita e ao amor que, como um rio cristalino, jamais nega água a quem se ajoelha, reverencia o milagre da vida e aprende a beber do próprio poço.

Frei Betto é escritor, autor do romance "Entre todos os homens", entre outros livros.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Cabra de Xapuri

Claudio Porfiro

Ai do vento se ali não fizer a curva.
Vire brasa o céu se ali não cair a chuva.
Toquem as trombetas porque um povo se agiganta.
Desembainhem as espadas porque a luta será tanta,
Que o inimigo há de clamar por misericórdia.
Eu sou Zé e Zé não é um só nem é tanto,
É breu, cajá e paxiúba,
Canjica doce, feijão gurgutuba,
Paçoca e mugunzá.
Sou um, sou dois, sou cem,
Sou metade do mundo e ninguém,
Nem queira me perguntar.
Sou cabra de Xapuri,
Machado, maxixe, maduro e doce,
No pipoco da bala o
Ou no arranco da foice,
Dependurado nos sonhos meus...
E tudo poderá novamente acontecer,
Como aconteceu outrora,
Quando ainda era aurora
E nós os tivemos que chacinar.
E conquistamos todos os louros, sim,
Buscados pela via do destemor,
Da alma cega e do muito amor...
É preciso ter coragem, certamente,
E hoje ou amanhã, se for o caso, e por assim dizer,
Com a mesma energia, sem recuar, sem cair, sem temer,
Ainda poderemos voltar a lutar bravamente,
Mas amando a terra tão docemente
Como nos versos do Chico Mangabeira.

E POR ASSIM DIZER, UM BRINDE ÀS NOSSAS BOAS QUALIDADES... FELIZ ANO NOVO, MEU POVO! O ACRE É MESMO ASSIM... FELIZ!

domingo, 29 de dezembro de 2013

70 janeiros

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Aniversaria neste domingo, 29, o radialista Odahil Cardoso Monte, um dos nomes mais tradicionais da comunicação radiofônica em Xapuri. São 70 anos de vida e mais de trinta dedicados, entre indas e vindas, à Rádio Educadora 6 de Agosto.

Criador de um estilo inconfundível, o dono do bordão “cheguei, baixei, saravei”, tomado emprestado à composição do cantor João Só, possui uma profunda identificação com o público da zona rural, o mais assíduo e fiel que a emissora possui.

Mas também faz grande sucesso na cidade, onde bem cedo, a partir das 5 da matina, centenas de rádios ecoam seus “alôs” e tiradas bem humoradas que são sempre seguidas de uma risada sui generis que já se tornou folclore.

O blog presta esta singela, mas sincera homenagem ao grande comunicador, desejando-lhe saúde e sucesso no seguimento da vida. Importante registrar também que além do amor ao rádio, Cardoso Monte ainda se dedica a comandar o grupo de escoteiros de Xapuri.

Vida longa ao Odahil!

sábado, 28 de dezembro de 2013

O principado de Xapuri

Rubens Menezes de Santana, o Rubinho, via página dos Filhos e Amigos de Xapuri no Facebook.

Começou na segunda-feira, 28, a Semana Literária de Xapuri. A Associação dos Filhos e Amigos de Xapuri esteve representada por Elisângela Horácio, Simone Daniel, Emir Mendonça, Sérgio Souza, Simone Daniel e eu.

Tive o privilégio de assistir a uma apresentação do Coral do IFAC, a alegria de saber que o projeto de formação de novos músicos tem boa aceitação entre os jovens, bem como notícias alvissareiras sobre o Grupo de Escoteiros, comandado por Odail Monte, e também o andamento do PROERD, formação de novos grupos de artes cênicas e danças. Há uma ebulição cultural em Xapuri.

Em pronunciamento de jovem professor de Química do IFAC, foi comunicada a facilidade com que os jovens xapurienses assimilam e respondem bem aos estímulos artísticos. Segundo o mesmo, “há um tendência nata para as artes”.

Por sua história, Xapuri, desde antes da Revolução Acreana, a Princesinha já possuía estrutura urbana, enquanto o restante do Acre era constituído apenas de seringais, à exceção de Porto Acre.

Xapuri possuía os melhores seringais do Vale do Acre, as maiores casas comerciais, teatro, cassino e a maioria dos portugueses e sírios libaneses que até hoje se constituem na elite econômica acreana atual. Estes trazem consigo a noção de estrutura urbana e a capacidade de buscar solução por seus próprios meios. Época de Sadalla Koury, que em face do declínio da economia seringueira, montou a primeira usina de beneficiamento de castanhas do Acre e que era movida a lenha.

Muitos dos filhos da elite foram mandados a estudar nos grandes centros brasileiros, mas muitos deles menos afeitos aos estudos ou mais umbilicalmente ligados ao lugar, resolvem permanecer em Xapuri; outros tentam e não conseguem prosseguir.

De nosso acervo de fotos antigas, vemos times de futebol (este esporte é introduzido inicialmente em Xapuri) datadas de 1944, onde se misturam a elite e trabalhadores braçais, como Guilherme Zaire e Sebasto. É de pressupor, que a interação não se dava apenas no campo esportivo, mas que outros valores e conhecimentos também fossem compartilhados.

Em outra foto, também constante de nosso acervo, estão alguns dos que migraram em busca de qualificação técnica: Careca, Marcos, Henrique, Carlos Ferreira, Gilberto Ferreira, Belmar do Antonino que vinham passar as férias de final de ano na terrinha. Traziam e compartilhavam conhecimentos novos.

Não é à toa que Alberto Zaire é considerado um dos maiores oradores do Acre em todos os tempos. As importantes figuras de Jorge Kalume, Adib Jatene, Jarbas Passarinho, Eliana Pereira, Guilherme Zaire, Armando Nogueira, Félix Pereira, Glória Peres e Chico Mendes dentre outros, são reconhecidos como modelos a ser seguidos. Até hoje, as proezas de Afonso Zaire são contadas nas praças, pelos mais velhos. Todos receberam a têmpera do caldo cultural que é Xapuri que torna o xapuriense pacato, gozador, hospitaleiro e... espertíssimo.

Em meio a toda esta ebulição cultural, é interessante ressaltar que, em Xapuri foi fundada a primeira Loja Maçônica do Acre e até hoje em funcionamento e prestando serviços à comunidade.

Sob o comando da Ordem dos Servos de Maria, o colégio Divina Providência rivalizava-se, em qualidade e eficiência, com o de Santa Juliana em Sena Madureira. Como recebia, no regime de internato, as filhas das prolíferas famílias de trabalhadores, a socialização dos ensinamentos não obedecia à estratificação social. O ensino público seguia-o, à reboque.

É a única cidade do Acre a ter uma Banda de Música que, formou e forma, novos talentos, em seguimento a uma linhagem de músicos como Lourival Capivara, Aurélio Salim, Roldão, Adalcimar, Luiz Beleza, Carlos Koury, Camaleão Colorido, Magão Rocha, Lennon Amanda, Elaís Meira (já com 90 anos, ainda ministrava aulas de música) e Maísa Farias - um novo talento.

As gerações contemporâneas já não necessitam migrar em busca de qualificação; a última a necessitar foi a nossa. Há cursos superiores e técnicos. Xapuri está com excelente estrutura de ensino e o bom desempenho de seus jovens nos diversos certames nacionais, atestam o acerto das medidas.

Um dos motivos da montagem do Grupo e da Associação dos Filhos e Amigos de Xapuri, foi nosso contumaz hábito de apenas reclamar contra o estado de abandono da Princesinha, após tê-lo feito, todos esqueciam o que haviam discutido e voltavam-se à suas rotinas.

Na verdade, além das reclamações, terminava-se a conversa com uma velada cobrança de que se haveria de fazer algo; mais na esperança de que seu interlocutor tomasse a iniciativa. Era a necessidade de interagir, compartilhar informações e inserir-se na busca de soluções para a lastimável situação a que foi relegada a Princesinha.

Após um período em que as desconfianças e receios mútuos foram minimizados (algo de ressentimento, por uma suposta quebra de compromisso tácito), novamente os Filhos e Amigos de Xapuri estão unidos em busca do resgate cultural de Xapuri e mais uma vez, volta-se a sonhar com realizações a partir do esforço conjunto.

Há, talvez, o melhor time que Xapuri já produziu: Profª Euri, Cláudio Porfiro, José Porfiro, Sérgio Souza, Carlos Estêvão Castelo, Nabiha Bestene, Eurilinda Figueiredo, Marcela Figueiredo, Marcela Monteiro, Ofélia Valle, José Andrias Sarquis, Ronei Sant’Ana, Nilton Cosson, Simone Daniel, Elisângela Horácio, Alan Ferreira, Ana Lucia Cunha, Daniel Zen, Rui Sant’Ana, Almir Ribeiro, Dalmo Rufino, Luis Celso, Clênio Monteiro, Milena Barros, João Garrinha, Roberto Matias, Antonio Ferraz, Carlos Afonso, Emir Mendonça, Clenes Guerreiro, Alarice Botelho, Antonio Rocha, Diego Ferraz, Victor Pontes, Jessé Advíncula, Hermes Brasileiro, Cleilson Alves, Mariete Costa, Maisa Farias, Chiquinho Barbosa, Joscíres Ângelo, Nader Sarkis, Carlos Ciro e muitos mais. Respeitável! Falta-nos apenas maior inserção no esforço.

Por tudo isto, é necessário que Xapuri seja reconhecida não mais como a Princesinha do Acre, mas sim, como o Principado de Xapuri, por sua contribuição nos diversos ramos do conhecimento humano, por sua cultura, pelo papel de vanguarda desempenhado nos últimos tempos, através do pensamento de Chico Mendes que modificou as relações Homem x Natureza no mundo inteiro.

Quando Armando Nogueira outorgou-se a si mesmo, o título de Marquês de Xapuri, ele sabia exatamente a que se referia e também que estava em débito para com seu lugar e os seus.

Resta-nos saber se iremos cumprir nosso destino manifesto ou se queremos ser mais uma geração a reclamar e murmurar à socapa.

Em busca de um novo tempo: o do Principado de Xapuri.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Projeto “Xapuri é nossa”

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Janílson Queiróz, via Facebook.

Você sabia que 22 de Março de 2014 Xapuri fará 110 anos de existência, pelo menos oficialmente, afinal as andanças começaram em 1903?? O avanço deveria ser maior.

Pois bem, uma das motivações pela qual entra ano e sai ano, entra prefeitos... após prefeito, vereadores após vereadores e nada muda é basicamente o que está inserido logo abaixo:

A não valorização firme da construção e produção educacional.

Olha só algo interessante sobre os repasses federais a Xapuri... Tem mais valores ao recebimento de bolsa família do que valores a investimentos educacional e saúde... A priori deduz que a situação do desemprego é enorme, além da vulnerabilidade social inerente...

Gente boa parte da população recebe bolsa família!!! Gente esse benefício é para pessoas sem renda, ou com quase nenhuma.

O governo criou esse benefício e criou um outro chamado pronatec, que tem como finalidade profissionalizar os beneficiários para que tenham emprego e renda e não dependam mais da bolsa.

Uma cidade que tem mais recursos para questões de assistência social do que educacional continuará com ruas esburacadas, sem luz, sem saúde, sem desenvolvimento, sem segurança e sabe por que???

Por que o povo continuará sem reivindicar, pois não conhece seus direitos e muito menos o que entra e sai do município...

Veja mais na página do Projeto Xapuri é Nossa: Podemos e Devemos Mudar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Ano Novo

Autor desconhecido

À luz da ciência, a virada de ano não passa de um limite cronológico, o período de 365 dias e 6 horas da translação, quando a Terra completa uma volta ao redor do Sol.

E a tradição nos permite dar a essa passagem o clima feérico que nos leva a pular ondas, fazer brindes, vestir o branco, comer lentilha, romã e distribuir louros.

Debaixo das superstições, contagiados pela oportunidade que o novo começo nos dá de recomeçar, talvez seja a hora de mudar. E a mudança brota da consciência para se concretizar na química que nasce da união de coração e mente.

Quem sabe seja a hora de parar de fumar, de recuperar a boa forma, de buscar o novo trabalho, de comprar um carro, encontrar a cara-metade, morar na casa própria...

Mas, melhor seria que, ao mesmo tempo, tivéssemos olhos para as conquistas abstratas, para a renovação dos valores e das prioridades.

Já passou do tempo do ser humano entender que a felicidade não é um bem material, mas um estilo de vida que se adota e se preserva em cada atitude, em cada pensamento, em cada palavra. Demoramos a notar que as mansões de nada valem quando seus ocupantes são incapazes de transformá-las em lares. Desperdiçamos tempo sem perceber que anéis não reluzem sem dedos que os ostentem, carrões não se justificam quando rodam com passageiros e rumo a destinos incertos.

O mundo ainda gira em torno do homem e o homem se perde na vertigem de rodar numa busca desesperada do que só se encontra dentro de si próprio.

Que o ano novo exerça a magia e o poder de nos induzir à reflexão para que, nas entranhas do pensamento e do sentimento, cada um de nós se conscientize de que o erro que nos beneficia hoje pode ser a cobrança do amanhã em forma de tragédia. Que as pessoas sejam capazes de fazer o bem sem olhar a quem, para receber o bem sem saber de quem. Que o respeito seja a moeda essencial nas relações humanas. Que a ética e a moral sejam práticas rotineiras em nome do bem coletivo. Que o mundo resgate o dom de se reinventar em suas verdadeiras evoluções, sem maquiar as mazelas que nos fazem reféns de sonhos vazios.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Feliz Natal

Frei Betto

Feliz Natal aos infelizes cativos do desapreço ao próximo, da irremediável preguiça de amar, do zelo excessivo ao próprio ego. E aos semeadores de alvíssaras, aos glutões de premissas estéticas, aos fervorosos discípulos da ética.

Feliz Natal ao Brasil dos deserdados, às mulheres naufragadas em lágrimas, aos escravos do infortúnio condenados à morte precoce. E aos premiados pela loteria biológica, aos desmaquiadores de ilusões, aos inconsoláveis peregrinos da vicissitude.

Feliz Natal aos órfãos do mercado financeiro, pilotos de vôos sem asas e sem chão, fiéis devotos da onipotência do mercado, agora encerrados no impiedoso desabrigo de suas fortunas arruinadas. E também aos lavradores da insensatez espelhada na linguagem transmutada em arte.

Feliz Natal às lagartas temerosas de abandonar casulos, ao desborboletear de insignificâncias cultivadoras de ódios, aos exilados na irracionalidade do despautério consensual. E aos dessedentados na saciedade do infinito, no silêncio inefável, nas paixões condensadas em prestativa amorosidade.

Feliz Natal a quem escapa dos indomáveis pressupostos da lógica consumista, dessufoca-se em celebrações imantadas de deidade, livre do desconforto da troca compulsória de presentes prenhes de ausências. E aos hospedeiros de prenúncios do leque infinito de possibilidades da vida.

Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta, e coleciona no espírito aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração.

Feliz Natal aos devotos do silêncio recostados em leitos de hortênsias a bordar, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura. E a quem arranca das cordas da dor melódicas esperanças.

Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e carregam no peito a saudade do futuro. Também a quem mergulha todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identifica a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança.

Feliz Natal aos dançarinos embalados pelos próprios sonhos, ourives sapienciais das artimanhas do desejo. E a quem ignora o alfabeto da vingança e jamais pisa na armadilha do desamor.

Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas a quebrar convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas para atirá-los no lixo do olvido, e se guarda no recanto da sobriedade. E a quem se resguarda em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar.

Feliz Natal aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores, aos escritores sem palavras. E a quem jamais encontrou a pessoa a quem declarar todo o amor que o fecunda em gravidez inefável.

Feliz Natal aos ébrios de transcendência e aos filhos da misericórdia acobertados de compaixão. E a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos.

Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove despudorada liturgia eucarística, transubstancia o corpo em copo, inunda-se do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão, bordam toalhas de cumplicidades, secam lágrimas no consolo da fé, criam hipocampos em aquários de mistério.

Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia se pronunciar onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a quem voa inebriado pelo eco de profundas nostalgias e decifra enigmas sem revelar inconfidências; nu, abraça epifanias sob cachoeiras de magnólias.

Feliz Natal a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e, nos salões da Via Láctea, bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas. Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Mistério em Xapuri

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Na ecológica Xapuri, a população se indigna com a suposta ação de um “serial killer” de árvores. Há algum tempo, benjamins e outras espécies que adornam as ruas da cidade têm sido alvo do que se acredita ser envenenamento. Foi assim com a frondosa árvore que se localizava ao lado da Casa de Chico Mendes, tombada pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – e com um pequeno benjamin que fazia sombra para a tradicional barraca do Café da dona Maria, quase em frente à agência do Basa no município.

Desta vez, a vítima da série de estranhas ocorrências foi a mangueira da imagem acima, localizada em frente ao Posto Português, na rua Cel. Brandão. Provavelmente afetada por alguma substância, a árvore começou a definhar e já apresenta os primeiros sinais de que sucumbirá. Quase centenárias, as muitas mangueiras que orlam a principal rua de Xapuri foram plantadas nas primeiras décadas do século passado e são um dos símbolos da cidade.

Vários internautas se manifestaram nesta semana através das redes sociais protestando contra os supostos crimes. Como é comum nesses casos, todo mundo reclama, mas impera a lei do “ninguém sabe, ninguém viu”, apesar da última vítima, a mangueira, estar localizada em um dos pontos mais movimentados da cidade e onde geralmente sabe-se tudo o que ocorre no pequeno povoado.

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Resta indagar das autoridades ligadas à proteção do meio ambiente e do patrimônio municipal o que está sendo feito para desvendar o mistério. Na imagem acima, o benjamin ao qual me refiro acima.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sem fronteiras

Olá Raimari, tudo bem?

Sou de Fazenda Rio Grande, PR (Região metropolitana de Curitiba), gostaria de parabenizá-lo pelo seu blog. Meu avô e sua família por parte de mãe moram aí em Xapuri, eu não os conheço, acho que ano que vem vamos nos conhecer, pois eu e minha mãe iremos para aí,  e pesquisando coisas sobre a cidade, achamos seu blog, e através dele vi a noticia sobre a horta do meu tiohttp://raimari9.blogspot.com.br/2012/07/exemplo-que-vem-do-sul.html”. Fiquei muito feliz ao ver essa reportagem.

Muito obrigado por ter nos (eu e minha mãe) proporcionado de ter lido essa reportagem sobre minha família!

Obrigada, e continue escrevendo pois eu o leio direto!

Att. Renata Gabriela.

Resposta do blog: Renata, é sempre um prazer servir. O blog esteve parado por um tempo, mas começa a se reanimar. Manifestações como a sua representam um dos principais motivos para essa retomada. Ao chegar a Xapuri, que seja muito bem-vinda. Estarei por aqui sempre às ordens. Tenha um feliz Natal e excelente Ano Novo.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Mera questão de justiça

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A história, a luta e o martírio de Chico Mendes, cujo assassinato completa 25 anos neste domingo, pela sua inquestionável importância para Xapuri, para o Acre e para o mundo, não merece ter nenhuma mentira, por ínfima que seja, relacionada aos fatos que ocorreram naquele 22 de dezembro de 1988, como a que consta na legenda da imagem acima, veiculada na página Uol Educação

A falsa informação que diz: "A rádio de Xapuri ficou fora do ar durante todo o dia de sexta-feira (23 de dezembro). O prefeito Vanderlei Viana, do PMDB, tirou a rádio do ar sob o pretexto de luto oficial na cidade. O objetivo era evitar que a notícia circulasse dentro da floresta de onde estão vindo os seringueiros que atuavam com Chico Mendes", seria retirada de uma reportagem da Folha de S. Paulo de 25 de dezembro de 1988.

O funcionário que estava de plantão na Rádio Educadora 6 de Agosto naquele fatídico começo de noite era este blogueiro, que aos 15 anos de idade acabara de iniciar sua história como radialista na pequena emissora. Ao contrário do que diz a legenda da fotografia em que Sandino carrega uma imagem do pai, a rádio sofreu uma pequena pane elétrica tendo retornado ao ar ainda na mesma noite.

No tenso e movimentado dia seguinte, também trabalhei no período da manhã e a emissora funcionou normalmente. O então prefeito Wanderley Viana jamais ordenou que a emissora fosse retirada do ar. Até penso que ele fosse bem capaz disso, mas não o fez. E para quem não sabe, garanto que Viana seria a última pessoa no mundo a quem eu defenderia de qualquer acusação. O faço por mera questão de justiça.

O blog vive!

Depois de mais ou menos três meses sem atualizar esta página, percebo que cerca de 80 teimosos leitores continuam a visitá-la diariamente. A insistência destes, somada às inúmeras cobranças que tenho recebido sempre que paro para conversar com alguém nas ruas de Xapuri, me fez resolver dar um sinal de vida, afinal o blog não morreu, mas apenas entrou em estado de catalepsia.

Escrever aqui me faz muita falta, e saber que o que aqui eu escrevo faz falta a alguém me envaidece e me anima a retomar as postagens e a movimentar os assuntos que tanto interessam àqueles que – assim como eu – nutrem um amor profundo por essa terra sofrida. Dias desses, ouvi de um declarado fã do blog que estava com bolhas nos dedos de tanto clicar – sempre em vão - no link que remete a este espaço. 

Aproveito a oportunidade para agradecer a todos e desejar um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Que a festa máxima da Cristandade seja celebrada em sua verdadeira essência, e não apenas como o mero evento comercial que a insanidade do capital tem produzido. Que 2014 chegue trazendo muitas energias positivas e, mais do que nunca, respeito pelas liberdades e diferenças.

É o que o Xapuri Agora! deseja.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Os velhos ladrões

CLÁUDIO MOTTA

A sua mãe um dia lhe disse que mentir para os outros é muito ruim, mas você não ouviu direito. Nem ligou. Rodopiou sobre o salto quinze. Sorriu como uma hiena. Olhou de lado feito um javali mostrando os dentes sem nenhum medo. Chutou o pau da barraca. Deu de ombros como uma mariquinha descalça com os nervos à flor da pele de bumbum de bebê. Nem aí. Dane-se o mundo que eu não me chamo Edmundo.

Então! Parece ilusão. Mas não é. É burrice mesmo, da grossa. E assim, para que estes escritos sigam para muito além do purgatório, em verdade vos digo que, segundo Maomé, 364, nos Textos islâmicos, os homens apreciarão as mentiras até o fim do mundo e relatarão anedotas como nunca ouvistes vós e vossos pais.

Na Bíblia Sagrada, para ser politicamente correto, está escrito que cada qual mente ao seu próximo falando com lábios fluentes e duplo coração. (Salmos 12,3)

Ora! Se eu quero roubar a tua alma ou o teu coração, ou se pretendo tomar posse do bem material que é teu, o meu ardil virá enfeitado por uma ou mais mentiras muito bem urdidas exatamente pelo ladrão que te pretende enganar. Ora, para te fazer o bem, dificilmente eu usaria a mentira. Nunca!

Pois bem. Ao contrário da afirmação do parágrafo lá de cima, quando se disse que mentir para os outros é feio, mentir para si próprio é adultério contra a própria alma que, no vai e vem da eternidade, está sempre a esconder-se das labaredas da casa do demônio, tal qual o Dante de Alighieri pregava no seu inferno, em A Divina Comédia.

Como sobreviveram e prosperaram os enganadores e ladrões maiores que a Humanidade conheceu desde tempos imemoriais, como espanhóis, franceses e italianos? Alguém os financiou, mas já não os financia. Os saques, a pirataria e as invasões às terras estrangeiras eram feitos por obra e graça de financiamentos milionários vindos dos monarcas patrões desses delinquentes históricos, juntos com os judeus neo-ortodoxos, ambos, mancomunados com a Santa Madre Igreja que àquela época  -  na Idade Média, e até depois  -  via-se envenenada por uma malta de padres assassinos, como os templários e os antigos jesuítas.

Sim, os jesuítas que vieram para o Brasil não eram tão somente pregadores da boa nova do reino de Deus... Não, senhoras! Eles vieram para cá com o objetivo de iludir os índios para que estes trabalhassem como escravos para o enriquecimento de Portugal e da antiga Igreja Católica. Segundo eles, depois de mortos de fome e inanição os nossos silvícolas habitariam o reino dos céus. Uma ova!

Eu próprio, em mil seiscentos e oitenta e poucos, na época em que ainda era um querubim de bunda gorda, conheci um sujeito de batina apelidado Frei Antonil... Este, sim, um grande pilantra, mandatário da Companhia de Jesus, uma espécie de administrador dos interesses da ordem e da Coroa portuguesa nos tempos do Brasil Colônia. E como esse camarada roubou! Pense num ladrão danado de metido a santo! Ele carregava no peito uma cruz de um palmo, em madeira escura, com o Cristo crucificado. Ah, ordinário!

Esse Antonil, ao chegar à Bahia, tornou-se logo o inimigo número um de Antônio Vieira, o célebre pregador de boa alma e autor do fantástico Sermão da Sexagenária.

Vieira discordava completamente dos métodos escravagistas do Antonil com relação aos índios brasileiros. Àquela época, o padre ladrão dizia aos quatro ventos que a consciência moral (católica) já estava inteiramente dobrada às razões do mercantilismo colonial. Por que a igreja não podia escravizar os índios se todos os fazendeiros já o faziam?

Colocações como esta, inscrita no livro Cultura e opulência no Bra-sil, mais tarde, fizeram as delícias de Karl Marx. Eu, de minha parte, associei tudo isto diretamente às relações entre seringueiros e seringalistas amazônicos do século passado.
Vamos dar um salto de quatro séculos. Já sou um humano comedor de tripa, bucho e mocotó. Virei macho, maxixe, maduro e doce. Se me lembro hoje nunca fui nenhum anjo ontem, até porque esta é uma época em que os espadachins devem exercer o seu papel de reprodutores com extrema competência, sob pena de serem acusados de atentado violento ao pudor e ao poder  -  gaypower  -  da rapaziada do chiclete e da alegria.

Quando o Vargas Llosa escreveu A guerra do fim do mundo, a pata do boi já machucara, e muito, as últimas raízes de seringueira. Os homens da floresta, inclusive os índios, já se alojavam em barracos fétidos na periferia das cidades maiores do Acre. Chico Mendes, o ecologista, já se fora a passear em outros mundos em busca de mais e mais emoções.

O roubo praticado pelos ingleses, segundo o Joe, veio para matar a sede de riqueza dos seringalistas acreanos  -  muito em especial  -  que escravizavam os seringueiros no meio da floresta à cata de látex.

A grande senhora dos mares era a Inglaterra. Era esta nação que dava as cartas e manobrava como queria o comércio internacional. Todavia, os magnatas ingleses não tinham nenhum controle sobre a borracha, que era exclusividade da floresta amazônica.

Conforme o escritor americano Joe Jackson, acima descrito, para o Brasil do início do século vinte, a borracha era o que hoje é o petróleo para a Arábia Saudita. Uma riqueza estupenda.

A Inglaterra colocou em prática, então, o primeiro e mais marcante plano de biopirataria registrado nos anais da roubalheira mundial, quando contratou a peso de ouro um bioladrão chamado Henry Wickham que, de posse de um navio de grande calado, entrou de madrugada pelo Rio Amazonas adentro, enganou índios e seringueiros e os fez embarcar setenta mil sementes de seringueira que foram plantadas no Jardim Botânico de Londres. Daí as mudas foram para se tornar, depois, árvores adultas no Ceilão, Malásia, Cingapura e países vizinhos que, dominados pelos ingleses, passaram a ser os grandes produtores atuais da borracha com que são fabricados os pneus para os bilhões de carros que circulam pelo mundo inteiro.

E mais uma vez me vem a mente o Chico Buarque. Enquanto isto, dormia a velha pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações...

Então, voltando para o imponderável século dezesseis, é preciso observar que os ladrões dos tempos gatunos  -  esses que dizimaram incas, maias, astecas e toltecas  -  foram importados diretamente de Espanha, pagos a bom dinheiro por dois monarcas altamente sacanas, o Fernando e a Isabel. O dinheiro ganho nos saques e nas invasões era dividido entre o rei, a rainha e a bandidagem extremamente habilitada para tal em treinos e matanças nas ruelas e becos escusos de Madrid, Barcelona, Pamplona, Alicante, Bilbao, dentre outras.

Em aqui chegando, os assassinos espanhóis passaram a exercitar o seu esporte predileto: matar índios americanos do sul e do centro e roubar-lhes riquezas geradas a partir da prata e do ouro produzidos em quantidades suficientes para arregalar a butuca dos ladrões mais audazes de que a Humanidade tem notícia, o rei Fernando de Aragão, o ganancioso, e a rainha Isabel de Castela, a aloprada.

Os piratas e congêneres eram os ratos do mar. Ficavam por até seis meses à deriva, comendo peixe e bebendo água de chuva. Morriam de beribéri. Corpos pútridos eram atirados diariamente às águas. Até que um dia, avistavam uma ponta de pedra. Ali haveria o que roubar. Eles lá iam, matavam as pessoas e delas tomavam tudo o que havia de valor.

E hoje? O que é feito dos espanhóis? Onde estão os herdeiros dos velhos corsários, piratas e bucaneiros de Itália, de Espanha, de França, de Inglaterra? Em quais dos infernos se escondem esses salteadores? Eles não mais roubam tanto porque já quase não têm a quem roubar. Os judeus são muito espertos. Os americanos do norte ensinam padre nosso a vigário. Os americanos do sul são muito pobres, e assim por diante. Em verdade, os europeus gatunaram meio mundo e agora são vítimas dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade que eles próprios criaram. É deveras engraçada a história. Talvez eles estejam mais pobres que nós cá do terceiro mundo.         

Veja bem, dona principesca. Trago comigo interpretações da história bem ao meu modo, em que sejam consideradas as possibilidades de um engano ali e dois acolá. Todavia, uma falha dessas seria desculpável, pois, como escrevi dia desses, não mais sou um cientista. Habito já os campos etéreos da literatura. Exerço a tal licenciosidade poética. Por aí tem dito de mim ser apenas um cronista de meia tigela. Nem pronto, nem acabado, mas ao ponto.

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*José Cláudio Mota Porfiro foi dado à luz de um abril qualquer no Principado de Xapuri.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A opulência dos espíritos

*CLÁUDIO MOTTA

As almas ali habitantes eram de uma riqueza nunca dantes vista. A pobreza de coração lá não tinha guarida. Ali não havia espíritos mesquinhos, porque todos estavam prontos a se ajudarem, a se complementarem. Na hora necessária, no momento do infausto, nos golpes aplicados pela vida, todos estavam reunidos para resolver o problema ou para chorar a dor do irmão que sofria.

Falo-vos da Xapuri do meu tempo de criança e adolescente, uma época em que os meus pais foram alvos de favores que iam da assistência ao pé do leito de minha mãe que se contorcia com as dores do parto, às aulas particulares, de cortesia, com que fui brindado por aqueles corações infinitamente benignos. Por Deus!

Com relação à vida de menino pobre por mim vivida, em verdade vos digo que foi, às vezes, um tanto azeda, mas, na maioria das ocasiões, foi mesmo bem divertida, apesar das limitações e da falta de oportunidade para ir à matinê do vetusto Cine Rialto.

As minhas primeiras lembranças vêm dos anos sessenta, época em que aprendi a ler, aos cinco anos, contando com o talento da Regina, irmã de criação, hoje viajante de outros mundos, que me ensinou as primeiras letras e que ainda é o meu ponto inicial de referência na arte da busca da letra e da rima doce da poesia perfeita. Benza-nos o Onipotente!

Em casa, havia uma mesa grande, onde Regina, a irmã, dava aulas particulares para os filhos da elite média baixa lá dos meus cafundós. Foi lá que tomei contato pela primeira vez com José Edmilson Gomes Figueiredo, o Bacana, José Raimundo Barroso Bestene, o Marrau, e Cláudio da Costa Ferreira, o Cadite, expoentes da escolinha. Havia ainda o João Amorim Caminha, o Pançudo, e mais dois garotos um tanto arredios, atônitos, filhos do Seu Dino, o do Café, dentre outros menos cotados. Vi alguns pais  -  que não são necessariamente destes garotos  -  levarem varas de bambu para que os filhos fossem alcançados à distância pelo açoite da professora que nunca ficava enfezada e nem batia em ninguém. Mas ameaçava. Enfim, era aquela a raiz mestra do método brabo do carrancismo baseado na pancada, a fórmula básica a partir da qual grandes homens foram criados lá em Xapuri.

Observador que nem coruja, bem ao lado da professora Regina, eu me postava atento aos mínimos detalhes do que devia e do que não devia aprender. Em suma, aquela primeira escola foi a grande escola da minha vida, uma vez que os alunos todos tinham idade maior que a minha, uns mais, outros muito mais.

Eis, então, a base a partir de onde alcei os primeiros voos. Mas tudo ocorreu da melhor forma possível porque a pequena cidade era formada basicamente por parentes, amigos, compadres, camaradas. Lá, até havia um homem cujo nome era Parente Amigo. Verdade!

E o vai e vem ainda é grande na memória mais anterior. Há personagens dos mais variados matizes possíveis. Uns marcantes. Outros bem pior que isso.

Todo menino observador tem um ou dois ídolos moleques maiores que fazem as proezas mais incríveis que poucos conseguem. Tinha um molecão meio doido e um outro, primo dele, mais maluco ainda. A barra era uma brincadeira que consistia em um grupo correr atrás do outro até tocá-lo. Perdia o grupo que menos conseguisse alcançar os integrantes do outro. Esses dois carregavam codinomes bastante sugestivos. Um era o Índio-ruço. O outro era o Dapuí. Quanta vadiagem! Que apelidos fantásticos! As mães deles não foram tão criativas quando lhes pespegaram os nomes verdadeiros de Jorge e Antônio, como o santo da Capadócia, na Turquia, e o outro de Pádua, na Itália. Aliás, no Xapuri da minha época, todos ou quase todos tinham os apelidos mais alusivos que já vi na vida. Já pensou o tanto de poesia que cabe no nome de um moço chamado Caboclo da Morena? Espetacular! Magistral!

Certa noite, então, aí pelas oito, da janela da casa da minha tia Lourdes, na Rua Batista de Moraes, só assistia o movimento dos meninos, posto que a minha avó cearense furibunda jamais permitiria que eu participasse de uma contenda tão doida.

O ápice da doidice era quando os dois primos atravessavam o Rio Acre, à noite, a nado, claro, um atrás do outro, com a finalidade exclusiva de não perder o jogo... E iam e voltavam, como se nada tivesse acontecido, apesar de molhados até as almas pouco santas e nada virtuosas. Jamais.

Nunca fui dado a apanhar sol, de forma alguma, a não ser quando, aos quinze e dezesseis anos, fui obrigado pela vida a trabalhar calçando as ruas da nossa pequena e famosa Xapuri. Apesar do subterfúgio que era me esconder das moças, minhas amigas do colégio, que transitavam pela cidade e poderiam me reconhecer com a camisa amarrada à cabeça, foi também um tempo de bastante aprendizado ao lado de figuras como o Aurélio da Maria de Belém, o Antônio Maria, o Fernando Rasteireiro, o Célio Tigurão, o João Uchôa, o Edgar Mão de Pilão e o Estêvão da Dona Amélia. Joias raras da coroa da cidade princesa.

Pois, então. Em menino, via o sol brandir meio dia em ponto e uns moleques de famílias abastadas misturados a uns outros um tanto desfavorecidos, mais ou menos da minha idade, ficavam a empinar  papagaio no meio da rua ou nos espaços urbanos entre o grupo escolar e a igreja. Era mesmo assim, minha senhora. Lá havia as famosas guerras de pipas no céu, tal e qual é descrito na poesia do Chico Buarque. E, como em qualquer área da experiência humana na terra, aí também se destacavam talentos natos na arte de ficar de cara para o sol tentando cortar a linha das pipas um do outro. De novo, eu cá da janela do meu observatório, agora instalado na Rua Vinte e Quatro de Janeiro, ficava a analisar os truques e manhas e trejeitos dos craques cujas almas voavam nos céus através dos seus sonhos de moleques de futuro. Lembro um melhor que o outro, como o já citado Cadite, o Mirim, o Luís Carlos Simão, o Bainha, o Tufizinho, dentre muitos.

Boas lembranças estas, meus amigos! Que Deus lhes abençoe onde quer que estejam.

Eu aprendia tudo, na teoria, uma vez que, na prática, nunca consegui levantar um papagaio, jamais joguei peteca bolinha de gude, não derrubei sequer uma manga porque não acertava pedradas, apesar das dezenas de mangueiras e apesar de estes frutos amadurecerem em profusão na época no início do inverno. Estrategista de dar gosto à minha mãe, não fui craque de futebol porque a escola deveria ser levada a sério porque a escola forma para a vida e a vida deve também ser levada muito a sério. Era esta uma das máximas e a filosofia dela, da Dona Nenen do Seu Gibiri.

- É preciso caprichar em tudo, meu rapaz! - Eram as palavras de mamãe desde muito cedo da minha vida, até por último, quando o dia dela se fez noite escura, depois de oitenta e quatro voltas ao redor do sol de Deus.

Já aos doze, quase um adulto, pela manhã, ia ganhar alguns trocados, mas também estava em busca de uma profissão. Trabalhei ou fui aprendiz do moveleiro mais exímio de Xapuri, o Elias Monteiro Luz, codinome Breque. Aprendi, principalmente, a manusear ferramentas de marceneiro que hoje não mais existem, como o graminho, a galopa, o sargento, a torquês, a serra de volta e o arco de pua. Ajudei o bom homem a fazer os caixões nos quais enterramos homens e mulheres de muita eminência da minha cidade. Muitos foram diretos para o céu. Outros, nem tanto.

Aos domingos, na missa das crianças, às nove da manhã, lá estávamos nós, eu e os meus irmãos mais velhos e também os mais novos que sempre acreditaram nas obras da  Divina Providência. De início, pouco entendia do riscado, uma vez que a Santa Missa era rezada em latim.

Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus frutus ventri tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.      

O Padre Carlos Maria Zuchinni  mandava muito bem, mas eu tinha uns cinco anos e não manjava patavina. Só depois é que estudei latim, na Ufac, e consegui entender as idas e vindas do genitivo, do possessivo e do ablativo da língua dos romanos da era clássica da Humanidade.

Com as bênçãos da avó cearense iracunda, pertencente à Congregação de Nossa Senhora das Dores, aquelas mulheres que portavam uma fita roxa ao pescoço, tornei-me, enfim, um sacristão de brilho um tanto opaco cujo currículo não foi dos mais brilhantes posto que, apesar de uns quatro anos no ofício, poucas vezes cheguei ao posto máximo da ordem cuja função mais importante entre os nossos era balançar o badalo ou a campainha do Padre José na hora do Santíssimo.

Também, pudera! Havia um garoto, quase um rapaz, que quase levava para casa o instrumento de fazer o barulho divinal da Consagração. Era o Tião da Dona Oneide, um quase irmão nosso que se preocupava muito mais em vigiar o badalo ou dar cascudos nos menores que mesmo com alguma outra coisa que tivesse a ver com os preceitos dogmáticos da Santa Madre Igreja.

E por aí a vida foi sendo tocada de barriga cheia, porque o estivador lá de casa, além do grande pai que foi, era ainda um competente caçador.

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*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br   -  Dê sugestões!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O juiz, a imprensa, o mensalão

João Baptista Herkenhoff

Este artigo não se refere a pessoas, mas sim a princípios jurídicos. Suponho que a reflexão sobre esses princípios será proveitosa, especialmente na semana em que algumas pessoas pretendem, de maneira equivocada, julgar moralmente o Ministro Celso de Mello, a partir de seu voto de desempate no chamado processo do Mensalão.

Os princípios são aplicáveis hoje, como foram aplicáveis ontem e serão aplicáveis amanhã.

Tentarei elencar alguns princípios que constituem a essência do Direito numa sociedade democrática.

1. Jamais o alarido da imprensa deve afastar o magistrado da obrigação de julgar segundo sua consciência. Ainda que a multidão grite Barrabás, o magistrado incorruptível caminhará sereno através da corrente ruidosa e, se não estiver plenamente convencido da culpa do acusado, proferirá sentença de absolvição. Da mesma forma, se as ruas gritarem “inocente”, o magistrado reto e probo condenará, se a consciência lhe apontar o veredicto condenatório como o justo à face do caso.

2. O princípio de que, no processo criminal, a dúvida beneficia o réu permanece de pé. Resume-se nesta frase latina: “In dubio pro reo”. É melhor absolver mil culpados do que condenar um inocente.

3. A condenação criminal exige provas. Não se pode basear em ilações, inferências, encadeamento de hipóteses, presunções, suposições. Mesmo que o juiz esteja subjetivamente convencido da culpa, não lhe é lícito condenar se não houver nos autos prova evidente da culpabilidade.

4. No estado democrático de direito todos têm direito a um julgamento justo pelos tribunais. Observe-se a abrangência do pronome “todos”: ninguém fica de fora. Este princípio persevera em qualquer situação, não cabendo excepcioná-lo à face de determinadas contingências de um momento histórico.

5. Todo magistrado carrega, na sua mente, uma ideologia. Não há magistrados ideologicamente neutros. A suposta neutralidade ideológica das cortes é uma hipocrisia. Espera-se, porém, como exigência ética, que a ideologia não afaste o magistrado do dever de julgar segundo critérios de Justiça.

João Baptista Herkenhoff, 77 anos, é Juiz de Direito aposentado, palestrante e escritor. Seu mais recente livro tem este título: Encontro do Direito com a Poesia – crônicas e escritos leves. (GZ Editora, Rio de Janeiro).

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Mônica, Cebolinha, Cascão e o hábito de leitura das crianças

Antonio Luiz Rios*

Numerosos estudos demonstram que as crianças que leem têm mais facilidade de aprendizagem e melhor rendimento escolar. Ante tal constatação e a certeza de que os livros são caminhos obrigatórios na busca do conhecimento e formação dos indivíduos, é fundamental toda iniciativa que estimule o hábito de leitura na população infantojuvenil.

Nesse sentido, as feiras de livros cumprem missão importante, ao desenvolverem atrações lúdicas para as crianças que as visitam, seja em companhia das famílias ou nos programas coletivos organizados pelas escolas. Há toda uma magia nesse contato tão próximo entre os leitores mirins, as obras e os autores, cuja presença, autógrafos e interação com o público são fatores estimulantes ao ingresso dos pequenos no universo fascinante da leitura.

Corroborou minha crença sobre a importância para as crianças dessa integração de autores e leitores, a XVI Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, de 29 de agosto a 8 de setembro de 2013. No evento, foi possível testemunhar, em numerosas oportunidades, o encantamento que o livro pode causar no público infantil, quando apresentado como algo que instrui, educa, diverte e ensina de modo atrativo e instigante.

De modo mais especial, observei esse fenômeno ao lançarmos a coleção “Biblioteca da Turma”, série com seis livros multidisciplinares, voltada ao apoio didático, que trata de civilizações antigas, animais pré-históricos, esportes olímpicos, Floresta Amazônica, crianças no mundo e arte nos museus brasileiros. A alegria e a energia do contato entre o público mirim e o autor, Maurício de Souza, eram sintomas inequívocos de queMônica, Cascão e Cebolinha estavam conquistando novos e perenes leitores. Esse caráter lúdico também reforça a importância do e-book, em suas distintas formas, como fator indutor da leitura no público infantil. Também foi possível verificar isso na Bienal do Rio de Janeiro, ao lançarmos plataformas e aplicativos. Esses livros “conversam” com a criança do Século XXI numa linguagem que ela entende e gosta desde os primeiros impulsos da consciência.

Enfatizada a importância das feiras, não podemos, contudo, subestimar o insubstituível e crucial papel das escolas e das famílias no estímulo das crianças. A última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, elaborada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), com apoio da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), mostra algo interessante: os professores são, hoje, os principais incentivadores da leitura, ultrapassando as mães, que figuram em segundo lugar.

O mesmo estudo mostra que esse processo de estímulo tem funcionado, pois no universo dos estudantes (64% da população ou 114 milhões de pessoas), o nível de leitura atingiu 3,41 exemplares per capita nos três meses anteriores à realização da pesquisa. Desse total, 2,21 livros são indicados pelas escolas, divididos em didáticos (1,72) e literatura (0,49). Com certeza, podemos e devemos avançar ainda mais, conduzindo nossas crianças e jovens ao universo do livro. Este é o caminho mais seguro para a definitiva conquista de nosso desenvolvimento; é o nosso melhor legado às presentes e futuras gerações.

*Antonio Luiz Rios, economista, é o diretor-superintendente da Editora FTD.

domingo, 15 de setembro de 2013

Premeditando a solidão, como no samba

*CLÁUDIO MOTTA

Ele estava afixado à parede do velho solar há pelo menos sessenta anos. Amarelecera. Cansara de ficar dependurado ali naquele canto por tanto tempo. Os bigodes caíam-lhe para dentro da boca. Algum bolor chegava a parecer catarro escorrido do grande nariz aquilino. Os olhos já não eram vistos devido o fluir da poeira do tempo. Já não agüentava mais.

À meia noite, dele para ele mesmo e para quem estivesse por perto, havia um revirar de olhos, um ranger de dentes, um arrastar de alpercatas de couro cru feitas ainda no Ceará. As tábuas do assoalho gemiam taciturnas sem que ninguém as pisasse. Um pigarro curto e grosso também era ouvido depois de anos em vida fumante. A gravata tornara-se uma mancha. O paletó era preto, a camisa branca, a foto era em preto e branco, obtida em um tempo distante, quando ainda não havia fotografia, mas tiravam-se retratos.

Os filhos se foram em busca de estudos e nunca mais voltaram nem em visita à casa paterna. Abandonaram os pais, à época, já com bastante ouro negro nos alforjes. Casaram-se, um no Rio de Janeiro e a menina em Belém. Nunca mais deram as caras, mas continuavam recebendo o dinheiro que o velho mandava para as suas contas no Banco da Lavoura.

A esposa libanesa desaparecera em meio a uma friagem seca de dez dias causadora de um surto de gripe forte que assolou o rincão e matou pra mais de dez velhinhos, só na pequena cidade. Depois do enterro, o velho encarquilhara ainda mais e já voltara pra casa com os bigodes brancos, tamanho foi o dilema.

Pela cidade, andava com as mãos para trás e os olhos postos no chão da sua história de rico dono de seringais a perder de vista. Dizia ele que gostava de manter a vista baixa, para não topar no pedregulho que lhe impunha uma vida antes tão calorosa e animada pela presença dos filhos pequenos, em alegria borbulhante à custa de muito dinheiro.

Arrendara a terra para um outro nordestino na base do meio a meio. O mais novo trabalhava e transformava tudo em dinheiro. Ele, bem mais velho, levava a sua metade e a guardava em um cofre forte de ferro fundido vindo de Belém do Pará. Como gastava pouco  -  a não ser o que mandava para os filhos e com alguns víveres para a sobrexistência miserável  -  o dinheiro exorbitava, vazava pelas beiradas dos alforjes de couro cru por ele próprio fabricados quando ainda moço... Uns duzentos.

O tempo passou com a rapidez de um maçarico de beira de rio de verão. Uma tumba antiga hoje é a sua morada na parte mais velha do cemitério da cidadezinha anciã. Jamais uma vela ali foi acesa por ninguém e muito menos pelos filhos que talvez já não tragam nem o seu sobrenome, Serzedelo. Não há uma rua ou uma viela no lugarejo que leve o nome do velho cearense de chapéu grande. Viveu mais de quarenta anos e vegetou outros trinta e poucos. Andava pelas ruas da cidadezinha com as mãos nos bolsos fartos e as vistas assentadas no chão da sua história de cachorro velho solitário. Tendo sofrido muito por esta vida de Deus, morreu sem conseguir aprender o mínimo sobre a arte de ser só, o que não é tão fácil, nem tão difícil, basta ensaiar.

É por isto que tenho visto por aí muitos a fazerem treinamentos diários cujos objetivos são aprender a ser só, a viver sem nenhuma lástima do futuro que não foi construído com o cuidado e com a argamassa do amor. Se ele queria carinho, teria feito germinar e cultivaria bem querer, apego, afago, afeto. Mas assim não aconteceu. Dizia não ter encontrado tempo para certas mesuras com gente muito delicada, para ele, que era apenas um bronco muito fanático por ganhar um dinheiro que foi para as contas bancárias dos filhos que do pai sequer um dia chegaram a gostar.

Cá de minha parte, a velhice que há de vir não me parece, de modo algum, o melancólico vestíbulo da morte. A mim, ela se afigura, antes, com as verdadeiras férias grandes, depois do esgotamento dos sentidos, do coração e do espírito que foi a vida. Pare o mundo que eu quero descer. Será chegada a minha hora e a minha vez. (Deixa está! Quem não quer ficar velho deve morrer enquanto moço. Receita facílima.)

Sabemos que tudo neste mundo depende do esforço que empreendemos para o alcance dos nossos objetivos. Está claro que o meu poder de concentração há de me levar longe demais. Não devo perder o foco. Por isto, quando não mais me quiserem enquanto diretor de coisa alguma, para os tempos de inverno da minha existência, guardei uma nova profissão que se fará bem rentável, em termos financeiros mesmo.

Volto-me a ti, mais uma vez, ó pecador contumaz!

Há um treino diário através do qual tu te tens tornado um escritor de meia pataca, mas que defenderá o teu milhão de dólares vorazmente, uma vez que sonhar vem de Deus e é sempre na base do zero oitocentos. Ademais, a cada dia ficas mais fera no campo da cibernética. Noto até que aprendeste o excel e cloud computing. Nunca tiveste medo dessa máquina dos infernos chamada computador. Na verdade, praticas um puta exercício para que os neurônios não morram colados um ao outro ou emparedados em cérebro pouco produtivo. Fazendo uso de gíria antiga, aos setenta, daqui a vinte e poucas voltas, ainda estarás na crista da onda e irás para a balada curtir um rock n’roll... Afinal, as academias de ginástica e os suplementos existem para nos deixar prazenteiros até o fim dos dias.

Quer aprender a ser só? Viajar por aí sozinho já é um bom exercício. Nas últimas férias, por exemplo, tu ficaste por vinte dias no Rio de Janeiro a meditar sobre as coisas da vida, acerca da razão e da emoção que já voa para longe de ti, esta última. Refletiste a respeito das paixões e das aventuras por esta vida mundana, sobre os últimos acontecimentos que envolveram o coração vagabundo, isto, é claro, entre um chopinho e outro porque também vós não sois de ferro.

É bom olhar com carinho as palavras do Millôr. Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver. Um homem começa a ficar velho quando já prefere andar só do que mal acompanhado.

Tu tens vivido, por último, a lembrar que, no romance Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez deixa registrado que o segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.

Sem querer radicalizar, não é necessário ficares preso a fórmulas como a que prega que há apenas uma diferença entre o lobo e o homem, na velhice. Enquanto o lobo entra nos bosques para esperar o seu fim sozinho, o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela o aborrece.

Não há essa necessidade pequeno burguesa para os espíritos preparados para a solidão. De bem com a vida e ainda com o espelho, se é que tu conseguirás, ó camafeu, hás de pagar, do teu bolso, e não às expensas da previdência social, a bom dinheiro  -  cinco mil pratas, talvez!  -  uma bela e jovem atendente de enfermagem, sem nenhuma formação intelectual, que te fará o acompanhamento ao médico, além de uns carinhos quando os estimulantes sintéticos o permitirem. Deus te fez assim. Mariposo dos infernos! Segue o teu tempo e o teu caminho em paz, ó fauno mulherengo!

Afinal, haverá de prevalecer a máxima fora de moda segundo a qual o ancião merece respeito não pelos cabelos brancos ou pela idade, mas pelas tarefas e empenhos, trabalhos e suores do caminho já percorrido na vida.

É claro que tu muito o fizeste. Ide em paz e muitos te acompanharão até a tumba, se tiveres ainda algum dinheiro que se faça suficiente para pagar o velório e o féretro na maior orgia, na base do champanhe e ova de esturjão.

Ora! Viveste porque viveste... E bem, obrigado.

*Cronista: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br.

domingo, 1 de setembro de 2013

Meritíssimo

João Baptista Herkenhoff

Quando eu era Juiz de Direito em atividade, causava-me certo incômodo o tratamento “meritíssimo”. Meritoso, adjetivo que significa digno de apreço ou de elogios, ainda seria aceitável. Mas meritíssimo, superlativo de meritoso, parecia-me um exagero totalmente sem propósito. Mas se eu advertisse a parte, fosse advogado ou cidadão comum, a respeito da impropriedade do tratamento, certamente não seria entendido. A ressalva, que eu fizesse, seria recebida como censura ou descortesia. Por esta razão, se o advogado, com a melhor das intenções, colocava a frase “meritíssimo, peço a palavra”, eu simplesmente respondia: “tem a palavra, doutor”.

O homem do povo, o trabalhador, o agricultor fica perturbado com o palavrório da Justiça. A palavra deve ser fonte de entendimento. Através do verbo as pessoas se comunicam, agradecem, fazem pedidos, manifestam sentimentos. No caso da Justiça, as expressões difíceis, as sessões secretas, as cancelas e muros, as togas, o aparato, tudo isto dificulta a relação dos cidadãos com as cortes forenses. Daí que os excessos devem ser evitados. Entretanto, numa outra vertente, há um certo encantamento com o mistério das palavras e a solenidade judicial. Relato um episódio a respeito deste ângulo da questão.

Numa comarca do interior onde judiquei, havia um homem que amava o vocabulário refinado. Ele era muito estimado na cidade. Fazia parte do júri. Vibrava de contentamento quando era sorteado para o conselho de sentença. Alguém lhe deu um dicionário de presente e ele se deliciava mergulhando naquele mundo encantado.

Certo dia ele foi ao forum e disse ao porteiro dos auditórios que desejava uma audiência com o juiz. Conduzido até a sala onde eu me encontrava e pretendendo me dirigir um grande elogio, disse-me com reverência:

“Meritíssimo, eu admiro sua petulância senil.”

Certamente o Santiago (que era o nome desta pessoa) ficou maravilhado com a sonoridade do proparoxítono petulância e com a força do oxítono senil. A junção das duas palavras pareceu-lhe maravilhosa. Deve ter consumido muito tempo em esforços, pesquisas e canseiras para construir aquela frase através da qual pretendia homenagear o meritíssimo.

Eu não podia responder apenas com um “muito obrigado”. Iria decepcioná-lo se me valesse de uma forma tão modesta de agradecimento. Era preciso manifestar minha alegria no mesmo diapasão. Foi o que tentei fazer, dizendo:

“Muito obrigado, preclaro amigo Santiago, muito obrigado por sua nobilíssima intenção”.

Falando desta forma eu não estava mentindo ou sendo hipócrita. Na verdade, estava agradecendo ao grande Santiago seu desejo de prestar sincero tributo ao juiz que ele tanto estimava.

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.