quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Ano Novo que mora na gente


Dizem por aí que o Ano Novo chega quando o ponteiro do relógio cruza a meia-noite e o céu vira palco de fogos de artifício [hoje eles têm que ser sem estampido, que fique bem lembrado]. Mas, cá entre nós, nem sempre é verdade. Às vezes, a gente atravessa o calendário como quem atravessa a rua: no automático, sem olhar pros dois lados, sem prestar atenção se o passo é do tamanho da vida que a gente sonha ter.

Drummond, com essa mania bonita de tocar na alma alheia, sussurrou que o Ano Novo cochila dentro da gente. E eu fico pensando: talvez seja isso mesmo. Talvez o novo não esteja nessa virada cheia de promessas empilhadas como pratos depois de uma ceia farta; talvez esteja guardado na fresta de cada escolha, na dobra das palavras que preferimos engolir, na coragem que a gente ensaia e nunca estreia.

Porque não adianta esperar que janeiro coloque ordem no nosso caos, varra mágoas antigas, ou acenda luz onde só tem sombra. Janeiro não é faxineiro de destino. Dezembro não é o fim de nada se a gente não se despede de verdade do que não serve mais. Ano nenhum será novo se o sujeito continuar velho por dentro.

E não é questão de idade — é jeito de existir. É sobre aprender a desapegar do que pesa, não por frieza, mas por amor ao que vem. É sobre admitir que às vezes o recomeço só exige uma atitude simples: parar de repetir o que machuca os outros e a nós mesmos.

A verdade é que o novo ano não tem obrigação nenhuma com a gente. A gente é que tem compromisso com ele. Se não houver projeto de mudança, o dia 1º vai ser só o dia 32 de dezembro. E o 2026 pode virar apenas um 2025 remendado, com outra capa, mas o mesmo enredo.

Sem movimento, o destino é reexibição de capítulos. Então, talvez o acordo seja outro: em vez de pedir que o ano seja leve, sejamos mais fortes. Em vez de pedir que o ano seja feliz, sejamos mais inteiros. Em vez de pedir que o ano seja novo, sejamos nós mesmos renovados.

Porque a vida não melhora por decreto do calendário. Ela muda quando a gente muda. O Ano Novo nasce quando a gente desperta. Então que seja hoje — mesmo que ainda faltem horas ou segundos. O novo pode começar agora, se você deixar. Amanhã é só uma data; o verdadeiro Ano Novo é um estado de espírito.

Que em 2026 você se reencontre com a sua melhor versão. Aquela que você deve a si mesmo. Aquela que cochila aí dentro, desde sempre, esperando a sua coragem chamar pelo nome. Feliz Ano Novo — dentro de você e também na vida que precisamos fazer melhor não apenas pela graça de Deus, mas também pela nossa própria determinação.